TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»
Domingo, 1 de Novembro de 2009
O estranho caso Zemskov

     Víktor Nikoláievitch Zemskov é russo e historiador. Tem do mundo uma visão profundamente conservadora e anti-socialista: «E antes de isso [a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia], ainda que a Rússia fosse da periferia europeia, tinha sido um país civilizado. Isto é, quanto mais civilizado é um país, tanto menos desejável é a revolução pelas terríveis consequências que esta tem».

Em 1989, cumprindo uma directiva do Bureau Político de Mikhail Gorbatchov, a Academia de Ciências criou uma equipa, na qual, a par de Zemskov, participaram outros reputados historiadores russos como A.N. Dúgine e O.V. Khlévniuk. O objectivo era esclarecer as reais dimensões da repressão stalinista.

Zemskov e a sua equipa tiveram pela primeira vez acesso a um dos sectores mais secretos dos arquivos do Ministério do Interior (MDV-MGB) e da polícia de Estado (OGPU-NKVD). Os resultados do seu trabalho foram publicados na URSS e na Rússia entre 1990 e 1993, num trabalho com cerca de 9 000 (nove mil) páginas.

Os relatórios de investigação russos dão resposta a uma quantidade muito grande de perguntas. O que era o sistema correccional soviético? Qual era o número de presos, políticos e de delito comum? Quantos mortos houve nos campos de trabalho? Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38? Qual era em geral o tempo de prisão?

Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455.

Longe, muito longe, dos milhões, dezenas de milhões, mais de 100 milhões, referidos por Conquest, Soljenítsine, Medvedev e outros. Seria como se de repente nos viessem demonstrar que nos campos de concentração nazis não morreram cerca de doze milhões de pessoas (mais de 3,5 milhões eram soviéticos), mas sim 1,2 milhões ou mesmo 120 mil.

Como termo de comparação refira-se que de acordo com o relatório intitulado «Prisioneiros em 2005», havia 2 193 789 pessoas presas nos Estados Unidos em Dezembro de 2005. Mais 4,1 milhões estavam presos temporariamente e cerca de 800.000 em liberdade condicional. Estes números totalizam mais de 7 milhões de pessoas — o que representa 1 em cada 32 norte-americanos adultos — que estariam sob algum tipo de supervisão do sistema prisional dos EUA. (AQUI).

Estamos, qualquer que seja o prisma de análise, perante uma verdadeira «bomba atómica» política, ideológica, jornalística merecedora de profundo debate e discussão. Mas a realidade é outra.

Sobre esta importantíssima investigação (já com mais de dezasseis anos!!!) abateu-se um silêncio de chumbo. Os meios de comunicação social votaram-na ao esquecimento. A única excepção parece ser a entrevista ao jornal espanhol, assumidamente de direita, La Vanguardia, edição de 3 de Junho de 2001, de onde são retiradas as citações (publicada no blog em português «Para a História do Socialismo»). Na Internet encontramos, literalmente, uma meia dúzia de referências. Nos meios académicos estas investigações passaram quase totalmente desapercebidas. Os relatórios foram publicados em revistas científicas de pouca venda e praticamente desconhecidas do grande público: em França na revista L'Histoire em Setembro de 1993, nos EUA na revista The American Historical Review. Conhecem-se uns escassos livros (apesar de alguns dos investigadores russos hoje viverem e trabalharem nos EUA).

Como diz o jornal La Vanguardia na edição referida: «(…) a guerra-fria acabou há uma década e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.».

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação 

In jornal "Público" - Edição de 30 de Outubro de 2009

                                                                                      


sinto-me:

publicado por António Vilarigues às 00:06
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9 comentários:
De João Valente Aguiar a 1 de Novembro de 2009 às 12:31
Concordo plenamente com o artigo. O estudo de Zemskov - que é preciso dize-lo é feito por um individuo anti-comunista e na sequência de Gorbatchov querer justificar o fim da URSS na base de que seria um regime tão sanguinário como a Alemanha nazi, daí ter aberto os arquivos na altura à equipa de Zemskov - demonstra perfeitamente que o número de vítimas políticas deliberadas é muito inferior ao que os apologetas do capital hoje publicam sem qualquer seriedade intelectual.

Abraço!


De pedro oliveira a 1 de Novembro de 2009 às 23:04
«Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455.»

Só fuzilaram por motivos políticos 799 455?
Só?
Desses números estão excluídos, obviamente, todos os fuzilamentos por outros motivos.
Vivo no concelho comunista com cerca de 3500 eleitores, em concreto 3486.
Os fuzilamentos por motivos políticos que refere dariam para extinguir cerca de 230 vezes, em concreto 229,33 vezes todos os eleitores do meu concelho (comunista, como disse atrás).
Coisa pouca...



De António Vilarigues a 2 de Novembro de 2009 às 00:55
Caro Pedro Oliveira,
Nada no meu artigo lhe permite retirar essa ideia do «só». Não é esse o meu pensamento. Nunca o foi e nunca o será.
O que o artigo questiona é o porquê do silêncio sobre a os documentos da ÚNICA comissão que teve acesso a todos os dados.
E o porquê de governantes e comunicadores continuarem a insistir em números que são pura propaganda da guerra fria 16 anos depois.
Qual a sua opinião?


De pedro oliveira a 2 de Novembro de 2009 às 01:12
Caro António Vilarigues,
A minha opinião é que cerca de 800 000 pessoas fuziladas por motivos políticos (de acordo com os números oficiais) são muitas pessoas, muitos homens e muitas mulheres.
Quanto à divulgação dos números correctos acho muito bem e louvo-o por o ter feito.
Tudo o que possa contribuir para a verdade e para a compreensão, devidamente, contextualizada dum determinado período histórico tem o meu apoio.
Nesse sentido porque não a abertura dos arquivos do Partido Comunista Português a historiadores que pretendam utilizá-los para a realização de trabalhos académicos?


De Jorge a 2 de Novembro de 2009 às 05:18
Caro Pedro Oliveira:
Vou dar-lhe uma opinião pessoal.
A sua pergunta «porque não a abertura dos arquivos do Partido Comunista Português a historiadores que pretendam utilizá-los para a realização de trabalhos académicos?», revela, pelo menos, que talvez nunca tenha ido à Torre do Tombo e talvez desconheça a formidável máquina burocrática que é preciso ter para permitir o acesso PARCIAL a documentos que são de todos nós. Além do mais, os arquivos do PCP são... do PCP, não são «de todos nós». Não estou a ver que se possa permitir ao «historiador» Nuno Rogeiro a entrada nas instalações do PCP para tal efeito. A mim também ninguém me deixa espreitar os arquivos dos outros partidos. e eu bem gostaria...


De Joana Lopes a 2 de Novembro de 2009 às 11:36
Este seu comentário é espantoso: “os arquivos do PCP são... do PCP, não são «de todos nós»” . Está, no mínimo, a menosprezar a importância do PCP. A sua história pertence, sim, a «todos nós» e os historiadores têm o dever, mas raramente a possibilidade, de utilizarem os instrumentos indispensáveis para cumprirem a sua missão, precisamente por não poderem aceder aos arquivos.


De Jorge a 2 de Novembro de 2009 às 15:50
A Joana Lopes não desmente em nada aquilo que eu digo.
Já agora aproveito para acrescentar algo que não tem a ver com o comentário de Joana Lopes. Qualquer cidadão português não tem acesso a toda a sua «ficha» da PIDE.


De Andrigues Rodré Perilva da Seira a 10 de Novembro de 2009 às 11:33
O Jorge tem razão. Pedi acesso à ficha do meu pai, e foi -me facultada. Pedi para a fotocopiar para ficar connosco, disseram-me para aguardar autorização (eu estava devidamente identificado como filho). Até hoje.

Eu compreendo as preocupações da Joana Lopes. Mas espero também que ela compreenda a menor disponibilidade do PCP para abrir os seus arquivos a »historiadores» com a preocupação de fazer história, ou revisionismo histórico, propositadamente anti-PCP. Não é vitimização, é uma interpretação pessoal do que leio quase todos os dias sobre o PCP, e que uma pesquisa, mesmo superficial, mesmo na Internet, revelará.

António, obrigado, este teu artigo é muito importante.


De António Vilarigues a 10 de Novembro de 2009 às 12:20
Bom dia,
Tem razão.
Mas também parece que todos os críticos ignoram que o PCP não tem uma equipa a tempo inteiro (fundamentalmente por razões financeiras) à altura das múltiplas necessidades que um Arquivo deste género exige.
Mesmo assim já foi tratada e disponibilizada on-line toda a colecção do jornal «Avante!» na clandestinidade.
Bem como textos desconhecidos de Álvaro Cunhal incluídos nos dois tomos já publicados das Obras Escolhidas.
Até Pacheco Pereira considerou tais factos como a «prestação de um serviço público».


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