TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016
Gorbatchov: do oportunismo teórico à contra-revolução

Mikhail Gorbachev1

Porém, o problema não reside nem nas qualidades pessoais de Gorbatchov, nem no seu acto de traição.

A este propósito é pertinente recordar as palavras de Friedrich Engels: «Quando se inquire das causas dos sucessos contra-revolucionários, é-se confrontado de todos os lados com a resposta de que foi o senhor Este ou o cidadão Aquele que "traiu" o povo. Resposta esta que pode ser muito verdadeira ou não, consoante as circunstâncias, mas que em circunstância alguma explica o que quer que seja — nem mesmo mostra como é que veio a acontecer que o "povo" consentisse, desse modo, em ser traído. E quão poucas hipóteses tem um partido político cujos inteiros recursos consistam num conhecimento do facto solitário de que o cidadão Tal ou Tal não é digno de confiança!»[1]

Que Gorbatchov traiu o socialismo, isso é claro para todos. É um tal lugar-comum que nem temos vontade de o repetir. Será mais interessante mostrar que os pressupostos teórico-ideológicos, nos quais a direcção de Gorbatchov se apoiou para liquidar o socialismo na URSS, continuam a existir no movimento de esquerda pós-soviético, o qual, na sua grande parte, à semelhança de Bourbon, «não aprendeu nada, nem esqueceu nada».[2]

 

[1] Friedrich Engels, Revolução e Contra-Revolução na Alemanha, Marx e Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Ed. Avante! – Progresso, Lisboa – Moscovo, 1982, t. 1, p. 311. (N. Ed.)

[2] Da expressão francesa «Ils n 'ont rien appris, ni rien oublié», geralmente atribuída Charles-Maurice de Talleyrand (ministro de Napoleão e depois da monarquia da Casa de Bourbon), que teria dito esta frase referindo-se à nobreza emigrante que regressava a França após a queda de Napoleão em 1814. (N. Ed.)

 


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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016
Um dia negro para a Rússia

Bandeira Federação Russa2

Em 12 de Junho de 1990, dia que hoje está inscrito no calendário como uma data histórica, você era um político activo, estava quase a tornar-se ministro da Imprensa da RSFSR [foi nomeado para este cargo passado um mês (Nota da Redacção – N.R.)]. Mas temos dois 12 de Junho na nossa história recente: um é o dia da aprovação da declaração sobre a independência e o outro, no ano seguinte, o dia da eleição de Éltsine como presidente. São dois elos ligados entre si, dois anéis de serpente, que se cerraram em torno da União Soviética agonizante. Celebra hoje esta data? Este é para si um dia luminoso ou uma data negra do calendário?

Para mim, naturalmente, é um dia negro do calendário. O segundo 12 de Junho decorre do primeiro: a eleição de Borís Éltsine decorre da declaração da independência da RSFSR. Posso afirmar-lhe que a declaração da independência não foi de todo uma decisão política espontânea, mas o resultado de um plano longamente amadurecido, uma vez que o projecto desse documento foi esboçado ainda em 1974 no Instituto IIASA.

Entrevista com Mikhail Poltaránine

 


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Terça-feira, 16 de Agosto de 2016
A URSS esquecida - O comércio na época de Stáline

 «Porém, em 1939, não havia verdadeiramente penúria de mercadorias!

Isto porque para além do comércio com preços estatais, existia igualmente o comércio com preços de mercado. Estas lojas também eram do Estado, mas os preços aqui eram muito mais altos. Em períodos diferentes podiam ultrapassar os preços do Estado em dezenas de vezes, e no final da guerra até em centenas de vezes. Quando a guerra começou estas lojas foram encerradas e só voltaram a abrir em 1944.

O Estado procurava garantir preços baixos aos cidadãos apenas nos produtos básicos. Para viver melhor do que os demais, as pessoas tinham de ser trabalhado-ras, e felizmente que, na URSS de Stáline (ao contrário dos tempos de Bréjnev), os salários eram pagos à peça ou à tarefa quase por toda a parte.»

Anatoli Gússev

 


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Terça-feira, 3 de Maio de 2016
Está fria a água no Rubicão?

Lenin-Engels-Marx

A imagem que apresentamos às pessoas do futuro socialista também deve assentar não em desejos e promessas, mas nas tendências reais, «palpáveis» e nas leis da realidade objectiva.

 


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Sexta-feira, 29 de Abril de 2016
A URSS está viva, se está viva, logo luta, se luta, logo vencerá

Escudo URSS.png

A URSS está viva, se está viva, logo luta, se luta, logo vencerá

 


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Terça-feira, 30 de Junho de 2015
Porque criticamos Gorbatchov

Mikhail Gorbachev1

Nas vésperas da Conferência do Partido recentemente decorrida, o jornal Pravda e outros órgãos de imprensa confrontaram os seus leitores com a pergunta: Qual o assunto, quais as propostas que apresentaria na tribuna do próximo encontro nacional do partido?

Pois bem, pensamos que a razão e o pretexto para tal convite não surgem apenas episodicamente, mas existem sempre; e por isso tenho a ousadia de propor ao próximo fórum partidário de nível correspondente o seguinte: encontrar a forma de transferir Mikhail Gorbatchov do cargo de secretário-geral do CC do PCUS para qualquer outra função, que lhe seja, digamos assim, mais apropriada. Considero isto uma necessidade impreterível, e à natural pergunta «porquê?», respondo: porque o país, objectivamente não precisa de uma «reedição» nacional de Alexander Dubcek, nem de todo o «programa» de alegada «reorganização» política e económica do socialismo, o qual está ligado ao nome, entre outros, da referida figura. Ao mesmo tempo, com as considerações que adiante exporei, tentarei participar na polémica que está longe de terminar nos jornais Pravda e Sovietskaia Rossia, onde, ao longo deste ano, várias intervenções que se tornaram conhecidas sob a relevante rubrica «Marcos».

Tatiana Khabarova, Doutorada em Ciências Filosóficas

Este trabalho foi escrito em Novembro de 1988, em Moscovo, e enviado ao CC do PCUS, à Comissão Central Eleitoral para as Eleições dos Deputados do Povo da URSS, às redacções das revistas Izvéstia TsK KPSS, Ogoniok e Moskva.

 

 


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Quarta-feira, 17 de Junho de 2015
Carta ao Comité Central do PCUS (1988)

Escudo URSS.png

Solicito que dê conhecimento dos presentes documentos aos membros do Comité Central do PCUS (e não só aos funcionários do aparelho).

É preciso que o Comité Central compreenda a necessidade de pôr termo ao fomento de mais um culto da personalidade, na realidade o mais vergonhoso de todos os que existiram no nosso país.

É preciso, finalmente, ouvir a voz das pessoas (e serão seguramente muitas) que consideram que em vez de «renunciar» ao socialismo na URSS, às suas conquistas e à sua história (sem a qual o país não tem futuro), é mais sensato dispensar Gorbatchov do cargo de secretário-geral. E quanto mais depressa melhor.

Não será demasiado elevado o preço que nos é exigido para que o senhor Reagan ou a senhora Thatcher, em sinal de aprovação, passem a mão pela melena de alguém que escuta as suas opiniões como se fossem a mais importante orientação política? 

Tatiana Khabarova, Doutorada em Ciências Filosóficas

1 de Dezembro de 1988

 


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Terça-feira, 2 de Junho de 2015
Carta aberta a Mikhail Gorbatchov secretário-geral do PCUS

Mikhail Gorbachev

 

«A este propósito, parece-me (e penso que não só a mim de longe) que seria oportuno e seguramente justificado que acedêsseis ao pedido de explicar publicamente a Vossa opinião pessoal sobre as declarações dos meios de informação burgueses no sentido de que há três coisas na União Soviética que «não convêm» ao Ocidente: o marxismo, o leninismo e o stalinismo; que Gorbatchov «acabou» com o stalinismo; que no Plenário de Junho assestou um golpe apreciável contra a teoria económica marxista e há a esperança de que, mais cedo ou mais tarde, golpeará o leninismo; que a atractividade da Vossa política para os observadores capitalistas (do que Vós tanto vos orgulhais) se baseia, essencialmente, no facto ela permitir antever o «destronamento» das conquistas da Grande Revolução Socialista de Outubro (e apenas nisso vêem a «continuidade», o «paralelo», etc., entre a «perestroika e Outubro»); e que a Vossa permanência «no poder» depende unicamente de conseguirdes impedir a revelação e o desmascaramento do carácter anti-socialista das mudanças por Vós preconizadas.»


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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2014
Socialismo e capitalismo de Estado

capitalismo-piramidal.jpg

Num primeiro olhar superficial, socialismo e capitalismo de Estado parecem praticamente a mesma coisa, o que explica a «tensão» teórico-ideológica que surgiu nos últimos tempos em torno desta questão. Tanto num como noutro, os principais meios de produção estão nas mãos do Estado.

Em que reside então a diferença?  

 


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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014
Entrevista a Tatiana Khabarova

Mapa URSS.jpg

 

«Repito que no nosso país esse mercado de bens de investimento simplesmente não existia. Por isso, foi uma estupidez completa ter-se passado a calcular o lucro em proporção aos gastos materiais da produção. Começou aqui o descalabro da eficiência da economia nacional

 


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Terça-feira, 5 de Agosto de 2014
Stáline, a época de Stáline e o stalinismo

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Stáline, a época de Stáline e o stalinismo

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«Hoje, só se aceita como verdade a denúncia das chagas do stalinismo e dos defeitos de Stáline. As tentativas de abordar objectivamente este período e a personalidade de Stáline são consideradas como apologismo do stalinismo. Mesmo assim arrisco desviar-me da linha denunciatória e manifestar-me em defesa, não de Stáline e do stalinismo, mas da sua compreensão objectiva.
Penso que tenho esse direito moral, porquanto na minha verde juventude fui um anti-stalinista convicto. Em 1939 era membro de um grupo terrorista que tencionava realizar um atentado contra Stáline. Fui preso por intervir publicamente contra o culto de Stáline e até à sua morte fiz propaganda anti-stalinista clandestinamente.
Depois da morte de Stáline suspendi essa actividade, guiando-me pelo princípio de que num leão morto até um burro pode dar coices. O falecido Stáline não podia ser o meu inimigo. Os ataques contra Stáline deixaram de ser punidos, tornaram-se habituais e eram mesmo estimulados. Além disso, nessa altura já tinha enveredado pela abordagem científica da sociedade soviética, incluindo a época de Stáline. De seguida exponho as principais conclusões a que cheguei, na sequência de muitos anos de investigações científicas.»

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Quarta-feira, 25 de Junho de 2014
O colapso da URSS revisitado

O colapso da URSS revisitado

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Quarta-feira, 18 de Junho de 2014
O dinheiro na economia da URSS
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Na URSS (União Soviética) em três quinquénios incompletos (1929 a 1941) foram construídas 364 novas cidades, erguidas e colocadas em funcionamento nove mil grandes empresas, o que é um número colossal: cerca de duas grandes empresas por dia!

Com que dinheiro foi realizada a industrialização?

Foi decidido não «sujeitar» a industrialização à capacidade de aforro da população e aos lucros das empresas produtoras de bens de consumo. Em vez disso decidiu-se efectuar a industrialização com base em fundos nominais, desligados da esfera dos bens de consumo e serviços à população.

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Segunda-feira, 14 de Abril de 2014
O milagre económico soviético

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O milagre económico soviético

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O autor não é marxista, nem tão pouco materialista no domínio filosófico.

No entanto, a objectividade da sua abordagem, apesar de insuficiente em vários aspectos e das objecções pontuais que levanta, é um contributo válido para o estabelecimento da verdade histórica.-


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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014
A economia paralela na URSS: Como tudo começou
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A economia paralela na URSS: Como tudo começou

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Opiniões que merecem leitura, análise e reflexão mesmo que o autor não parta de concepções marxistas para a análise de aspectos relevantes da história da URSS como é este o caso...
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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2013
O último Congresso do PCUS… Antes que a história seja reescrita

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O último Congresso do PCUS
Antes que a história seja reescrita

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Onde em 22 páginas, escritas na 1ª pessoa, se demonstra que o PCUS (Partido Comunista da União Soviética) em 1990 já era uma «coisa» (expressão com que em Itália passou a ser designado o Partido Comunista Italiano quando mudou de ideologia).

E os Congressos uma autêntica choldra...

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Quarta-feira, 17 de Julho de 2013
No 80.º aniversário do nascimento de V. M . Gluchkov (1923-1982)

A alternativa rejeitada à reforma de mercado de 1965

Por ocasião do 80.º aniversário do nascimento de V. M . Gluchkov

(1923-1982)


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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013
Sobre algumas causas da restauração do capitalismo na URSS

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Sobre algumas causas da restauração do capitalismo na URSS
As relações de produção na URSS (1960-1980)

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«(...)

Afirmações bastante difundidas na literatura política e na imprensa sobre a uniformidade das relações de produção existentes entre 1930 e 1980 induzem-nos a analisar os fundamentos económicos e sociais da sociedade soviética e a sua evolução e, nesta base, tirar conclusões sobre a sua essência. Antes de mais, é preciso definir o carácter das relações de produção na sociedade soviética nos diferentes períodos da sua história, distinguindo os principais: o período da NEP, o período dos anos 30 aos anos 50 e período dos anos 60 aos anos 80, que precederam a desagregação da URSS.

(...)»

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Quarta-feira, 15 de Maio de 2013
A economia soviética vista pelos analistas da CIA

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Este trabalho, interessante a vários títulos, da autoria de um ex-funcionário da CIA, seguramente insuspeito de simpatias pelo sistema socialista, dá-nos uma perspectiva geral da evolução economia soviética ao longo das últimas quatro décadas da existência da URSS.

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012
Porque se desmoronou a RDA?

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Porque se desmoronou a RDA (República Democrática Alemã)?

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«Resumindo: independentemente da quantidade de erros e da sua dimensão que a RDA e a direcção do Estado e o Partido cometeram – e certamente não houve poucos e entre eles grandes asneiras – não foram os próprios erros que lhe ditaram a sentença de morte. Todos os países socialistas europeus estavam unidos com a União Soviética para o que desse e viesse; com a sua derrocada, a queda de todos eles era inevitável.»

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Segunda-feira, 18 de Junho de 2012
Ludo Martens: Balanço do colapso da União Soviética

Balanço do colapso da União Soviética

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Quarta-feira, 2 de Março de 2011
As várias cascas da cebola Gorbatchov

 

As várias cascas da cebola Gorbatchov

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Domingo, 12 de Dezembro de 2010
O caso Kátine: E no entanto, ela move-se…

Como se a verdade histórica dependesse de uma decisão parlamentar, a Duma russa, cuja maioria é constituída por partidos burgueses, decidiu [26.11] que foram os soviéticos quem executou os oficiais polacos, enterrados numa vala comum em Kátine. Uma curiosa demonstração da grande semelhança que existe entre a visão da verdade das supostas democracias capitalistas e a da Igreja Católica do Renascimento.

Tal como já Galileu Galilei tinha comprovado, quando para salvar a vida teve de renunciar à defesa da sua descoberta científica de que a Terra se movia em torno do Sol e não o contrário, a ciência continua a estar subordinada à ideologia oficial e, no caso de Kátine, por muito que Goebbels reconheça no seu diário que os alemães estavam a conseguir lançar a culpa do massacre sobre os soviéticos, seus inimigos, o dogma impõe hoje que o Sol tenha que girar em torno da Terra, ou seja, que os maus são com toda a certeza os comunistas.

Todavia, como também se diz que afirmou o cientista italiano, depois do que poderia ter sido a votação da Duma da altura: «No entanto, ela move-se».

O caso Kátine foi uma das armas a que o aparelho de propaganda nazi dedicou maior capacidade de manipulação durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse período, tanto os ingleses como os norte-americanos, e o resto dos aliados, estavam convencidos de que os verdadeiros assassinos foram os soldados alemães, após o ataque à URSS e o abandono pelo Exército Vermelho dos campos de prisioneiros polacos, que foram tomados pelos alemães.

No entanto, depois da vitória do Exército Vermelho na II Guerra Mundial, com a tomada de Berlim, os outros vencedores rapidamente aproveitaram tudo o que puderam dos seus inimigos militares, mas irmãos ideológicos. E para além de salvarem milhares de nazis da prisão para os colocar ao serviço do novo império, ao qual podemos chamar IV Reich, adoptaram as técnicas da propaganda de Goebbels e continuaram a defender as suas mentiras com o objectivo de desprestigiar a poderosa União Soviética.

 

Uma mentira recuperada

 

A partir de então, as valas comuns de Kátine, objectivo principal da manipulação dos nazis, converteram-se no centro da manipulação dos media de propaganda capitalistas, e, subitamente, os aliados assumiram a opinião defendida por Hitler e pelos nazis a respeito do fuzilamento dos oficiais polacos – num ápice os assassinos passaram a ser os soviéticos. E tudo isto, claro, apesar dos milhares de testemunhos de camponeses da zona, apesar de se encontrarem entre os restos dos esqueletos postais com data posterior à invasão nazi, e, porventura mais evidente, mesmo tendo lido no diário de Goebells, o seu grande mestre, que as acusações contra os soviéticos eram criação da propaganda nazi.

Tanto fazia, pois neste caso, como para a Igreja da época de Galileu, não importava se os factos e as provas mostravam quem eram os verdadeiros assassinos, já que o essencial era manter a ordem das coisas, de que a Terra era o centro do Universo ou que os capitalistas são boa gente e os comunistas a pior espécie.

Com a queda da União Soviética, a coisa tornou-se muito mais fácil. Subitamente, com Gorbatchov, Iéltsine e toda a ralé de traidores que venderam o povo soviético e entregaram os seus direitos e riquezas nas mãos de mafiosos, os arquivos do KGB abriram-se e começaram a aparecer provas «definitivas» e «inquestionáveis» sobre todos os crimes dos comunistas. Assim, até o próprio Stáline teria enviado uma nota manuscrita a Béria, apoiando a sua ideia de se livrar de todos os oficiais polacos sem julgamento.

Incrivelmente, os comunistas eram tão inocentes que punham por escrito os seus crimes para que fossem conhecidos no futuro pela humanidade inteira (apesar de, no entanto, curiosamente, não se conhecer nenhum documento assinado por Hitler que o relacione com a campanha sistemática de eliminação das minorias étnicas, políticas e religiosas – será porque até os nazis e os EUA, os maiores genocidas da história, sabem que ordens como a que supostamente teria dado Stáline, isto é, condenar milhares de pessoas sem julgamento prévio, não se põem por escrito?).


 

O dogma e a dominação

 

Vinte anos depois, em pleno processo de desintegração do capitalismo, quando a oligarquia entusiasmada de há 20 anos vê que afinal o fim da história não chegou, a cuidadosa construção do dogma, indicando claramente quem é Deus e quem é o Diabo, parece mais necessária do que nunca. É a maneira de evitar que os ateus e os hereges continuem a multiplicar-se e que o status quo, que custou tantos anos a recuperar, volte a inverter-se, que o poder e a riqueza passem para as mãos dos que a produzem e se acabe de novo com as negociatas da oligarquia e de outros parasitas, que hoje voltaram a governar a União Soviética e continuam governando a maior parte do mundo.

O sabbat normativo teve lugar na Duma russa, naquela que antes foi a Assembleia dos Sovietes, que representavam todos os trabalhadores e camponeses da URSS, ou seja, os que produzem toda a riqueza, e hoje é, sobretudo, o lugar onde se reúnem delegados das mafias, empresas e lobbys, cujo fim principal, pelo contrário, é manter os trabalhadores e camponeses bem domesticados. Assim, apesar das demonstrações que o Partido Comunista da Federação Russa tem vindo a fazer sobre as falsificações dos arquivos soviéticos na época do alcoólico, assassino e fascista Boris Iéltsine, o parlamento russo decidiu que os trabalhadores soviéticos, isto é, que o seu Estado foi o culpado pelo massacre de Kátine, como dizia Goebbels (ao fim e ao cabo este está muito mais próximo dos interesses da oligarquia russa do que os soviéticos), e que os nazis estavam inocentes.

Como se em questões científicas a democracia (este simulacro de democracia) tivesse autoridade para transformar as provas e resultados em verdades absolutas, à semelhança da época de Galileu, em que o voto de seis, suponhamos, sobre o de quatro converteu em algo de inquestionável que a Terra era e seria para todo o sempre o centro do Universo, também a Duma russa deu a sua achega para consolidar o dogma ideológico, que assegura que os trabalhadores continuem ajoelhados e resignados, fechando para isso os olhos às provas que demonstram o contrário (se bem que os factos e os argumentos nunca convencerão os que justificam o seu poder com base em mentiras convertidas em dogmas).

 

Um instrumento de fé

 

Definitivamente, a Duma russa do capitalismo votou que a Terra é o centro do Universo e que o Sol gira em seu torno, demonstrando, como sabiam os antifascistas que lutaram contra os nazis, franquistas e fascistas italianos durante a Segunda Guerra Mundial, que o capitalismo e o fascismo são apenas duas faces da mesma moeda. Deu razão a Goebbels, apesar dele próprio (o lhe teria seguramente provocado um êxtase assassino não tivesse já sido comido pelos vermes, a menos que lhes tenha provocado asco). Para isso não se hesitou em usar a democracia como instrumento a favor da fé na verdade oficial (o dogma), em vez de um instrumento de luta a favor do bem-estar do povo ou da justiça. Na realidade há pouca diferença entre a democracia burguesa e a Igreja da Inquisição (ao fim e ao cabo ambas defendem as mesmas coisas).

Não obstante, como bem sabia Galileu, o Sol continuará sendo o centro do sistema solar, apesar das decisões das igrejas ou daqueles que usam a democracia para justificar as supostas verdades que favorecem a sua dominação. Apesar de hoje vivermos tristes momentos da história, e talvez haver agora mais fascistas pululando pelo mundo do que nunca antes, como já nos demonstrou o génio italiano – «…ela move-se».

Tradução e subtítulos da responsabilidade da Redacção do Avante!. Texto publicado no blog do autor em 27.11

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Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Truques de um historiador

     Rui Bebiano não leu o meu artigo (nem os esclarecimentos). Tresleu.

O historiador, ao invés do que seria de esperar, parte do preconceito para o conceito: António Vilarigues é comunista, logo só pode querer «(...) limpar da memória ou por desculpabilizar os horrores praticados no sistema concentracionário do "socialismo real"». Nada do que escrevi o autoriza a tirar tais conclusões. Mas num exercício de advinhação sobre as minhas reais intenções, lá consegue tirar da manga esta e outras cartas.

O historiador não foi às fontes: jornal La Vanguardia, edição de 3 de Junho de 2001. Como o preconceito domina toda a sua escrita até confunde as intenções das minhas aspas...

Para mim aprofundar o conhecimento da história e estar disponível intelectualmente para a revelação e a análise de factos novos, mesmo - e sobretudo - que contrariem as minhas convicções mais profundas, não é distorcer a realidade e muito menos moldar artificialmente a História. Ignorá-los é que seria.

Já agora aproveito para esclarecer que quando escrevi este outro artigo nem pela cabeça me passou a situação do Irão. À Comissão Nacional de Eleições, que se pronunciou sobre os factos nele relatados, também não. Rui Bebiano concluiu o inverso. Sem comentários.                                         

                        


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Domingo, 1 de Novembro de 2009
Confundir o toucinho com a velocidade

   A propósito destes comentários (AQUI, AQUI, AQUI e AQUI) a um meu artigo apetece-me dizer o seguinte:

  1. Sinto-me desvelado, palavra que sinto, com a estranha unanimidade destes bloguistas sobre o meu estado de espírito ao escrever o referido artigo.

  2. Tenho a informar, para quem me lê regularmente (como é o caso) não é novidade, que NUNCA me sinto «consolado» ou «satisfeito» a falar da existência de repressão, guerra, mortes, desemprego, pobreza.

  3. Como me ensinou a minha avó materna, se há quem ponha na nossa cabeça estados de alma em que nunca pensámos, é porque os próprios assim pensam. Será este o caso?

  4. Curiosamente, ou talvez não o essencial fica de fora: durante mais de meio século toda a população do globo, comunistas incluídos (o autor destas linhas também) foram educados nos milhões de mortos nos anos da direcção de Ióssif Vissariónovich Djugashvíli - Stáline.

  5. Há 20 anos (1989) foi criada na então URSS (por Gorbatchov) uma comissão multidisciplinar, composta na sua maioria esmagadora por pessoas anti regime. A sua finalidade era elaborar o primeiro estudo documentalmente baseado das repressões do regime soviético entre 1921 e 1953.

  6. Os resultados dos seus trabalhos foram publicados em 1993 na Rússia de Iéltsine. Os relatórios finais - com cerca de 9.000 (nove mil) páginas estão há disposição de quem os quiser ler e estudar.

  7. Os números revelados não foram contestados. Mas convém contextualizá-los. De 1921 a 1953 a URSS conheceu uma guerra civil. Uma invasão por 18 países. Um quase total cerco político, militar e económico. Uma guerra (1941-45) que provocou mais de 25 milhões de mortos (quase metade do total de mortos em todo o planeta durante a II Guerra Mundial) e a destruição de 1/3 da riqueza nacional. A guerra-fria.

  8. Desde então o que sucedeu está relatado no meu artigo: em 16 anos apenas uma entrevista a um órgão de comunicação social fora da Rússia. Por sinal o direitista espanhol La Vanguardia. De resto uma ignorância absoluta, um silêncio sepulcral.

  9. Nos últimos 16 anos chefes de estado, ministros, embaixadores, políticos, comentadores, analistas, jornalistas, todos a uma só voz, repetiram até à exaustão os milhões de mortos (que desde 1993 se sabem ser falsos) de Conquest, Soljenítsine, Medvedev e outros. Na mesma falsa base foram aprovadas resoluções em areópagos internacionais e em parlamentos nacionais.

  10. O essencial da «mensagem» (chamemos-lhe assim) do meu artigo está expressa na citação de um homem de direita - Rafael Poch: «(…) a guerra-fria acabou há uma década [há 16 anos] e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.»

                  


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O estranho caso Zemskov

     Víktor Nikoláievitch Zemskov é russo e historiador. Tem do mundo uma visão profundamente conservadora e anti-socialista: «E antes de isso [a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia], ainda que a Rússia fosse da periferia europeia, tinha sido um país civilizado. Isto é, quanto mais civilizado é um país, tanto menos desejável é a revolução pelas terríveis consequências que esta tem».

Em 1989, cumprindo uma directiva do Bureau Político de Mikhail Gorbatchov, a Academia de Ciências criou uma equipa, na qual, a par de Zemskov, participaram outros reputados historiadores russos como A.N. Dúgine e O.V. Khlévniuk. O objectivo era esclarecer as reais dimensões da repressão stalinista.

Zemskov e a sua equipa tiveram pela primeira vez acesso a um dos sectores mais secretos dos arquivos do Ministério do Interior (MDV-MGB) e da polícia de Estado (OGPU-NKVD). Os resultados do seu trabalho foram publicados na URSS e na Rússia entre 1990 e 1993, num trabalho com cerca de 9 000 (nove mil) páginas.

Os relatórios de investigação russos dão resposta a uma quantidade muito grande de perguntas. O que era o sistema correccional soviético? Qual era o número de presos, políticos e de delito comum? Quantos mortos houve nos campos de trabalho? Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38? Qual era em geral o tempo de prisão?

Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455.

Longe, muito longe, dos milhões, dezenas de milhões, mais de 100 milhões, referidos por Conquest, Soljenítsine, Medvedev e outros. Seria como se de repente nos viessem demonstrar que nos campos de concentração nazis não morreram cerca de doze milhões de pessoas (mais de 3,5 milhões eram soviéticos), mas sim 1,2 milhões ou mesmo 120 mil.

Como termo de comparação refira-se que de acordo com o relatório intitulado «Prisioneiros em 2005», havia 2 193 789 pessoas presas nos Estados Unidos em Dezembro de 2005. Mais 4,1 milhões estavam presos temporariamente e cerca de 800.000 em liberdade condicional. Estes números totalizam mais de 7 milhões de pessoas — o que representa 1 em cada 32 norte-americanos adultos — que estariam sob algum tipo de supervisão do sistema prisional dos EUA. (AQUI).

Estamos, qualquer que seja o prisma de análise, perante uma verdadeira «bomba atómica» política, ideológica, jornalística merecedora de profundo debate e discussão. Mas a realidade é outra.

Sobre esta importantíssima investigação (já com mais de dezasseis anos!!!) abateu-se um silêncio de chumbo. Os meios de comunicação social votaram-na ao esquecimento. A única excepção parece ser a entrevista ao jornal espanhol, assumidamente de direita, La Vanguardia, edição de 3 de Junho de 2001, de onde são retiradas as citações (publicada no blog em português «Para a História do Socialismo»). Na Internet encontramos, literalmente, uma meia dúzia de referências. Nos meios académicos estas investigações passaram quase totalmente desapercebidas. Os relatórios foram publicados em revistas científicas de pouca venda e praticamente desconhecidas do grande público: em França na revista L'Histoire em Setembro de 1993, nos EUA na revista The American Historical Review. Conhecem-se uns escassos livros (apesar de alguns dos investigadores russos hoje viverem e trabalharem nos EUA).

Como diz o jornal La Vanguardia na edição referida: «(…) a guerra-fria acabou há uma década e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.».

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação 

In jornal "Público" - Edição de 30 de Outubro de 2009

                                                                                      


sinto-me:

publicado por António Vilarigues às 00:06
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