TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016
Gorbatchov: do oportunismo teórico à contra-revolução

Mikhail Gorbachev1

Porém, o problema não reside nem nas qualidades pessoais de Gorbatchov, nem no seu acto de traição.

A este propósito é pertinente recordar as palavras de Friedrich Engels: «Quando se inquire das causas dos sucessos contra-revolucionários, é-se confrontado de todos os lados com a resposta de que foi o senhor Este ou o cidadão Aquele que "traiu" o povo. Resposta esta que pode ser muito verdadeira ou não, consoante as circunstâncias, mas que em circunstância alguma explica o que quer que seja — nem mesmo mostra como é que veio a acontecer que o "povo" consentisse, desse modo, em ser traído. E quão poucas hipóteses tem um partido político cujos inteiros recursos consistam num conhecimento do facto solitário de que o cidadão Tal ou Tal não é digno de confiança!»[1]

Que Gorbatchov traiu o socialismo, isso é claro para todos. É um tal lugar-comum que nem temos vontade de o repetir. Será mais interessante mostrar que os pressupostos teórico-ideológicos, nos quais a direcção de Gorbatchov se apoiou para liquidar o socialismo na URSS, continuam a existir no movimento de esquerda pós-soviético, o qual, na sua grande parte, à semelhança de Bourbon, «não aprendeu nada, nem esqueceu nada».[2]

 

[1] Friedrich Engels, Revolução e Contra-Revolução na Alemanha, Marx e Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Ed. Avante! – Progresso, Lisboa – Moscovo, 1982, t. 1, p. 311. (N. Ed.)

[2] Da expressão francesa «Ils n 'ont rien appris, ni rien oublié», geralmente atribuída Charles-Maurice de Talleyrand (ministro de Napoleão e depois da monarquia da Casa de Bourbon), que teria dito esta frase referindo-se à nobreza emigrante que regressava a França após a queda de Napoleão em 1814. (N. Ed.)

 


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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2016
Fascismo americano, as raízes de uma nação sob deus

EUA madison-square-garden-1939-1

Reunião no Madison Square Garden da organização Americana Nazi em 1939

 

Realizadas as Convenções dos Partidos Republicano e Democrata, somente restam na corrida para a Casa Branca dois candidatos importantes: Hillary Clinton e Donald Trump, qual deles o mais reacionário e perigoso para a humanidade.

Neste artigo, publicado em Setembro do ano passado na Revista Vermelho, António Santos comenta a influência que o pensamento fascista do III Reich teve na formação da ideologia predominante nos Estados Unidos.

Não perdeu atualidade.

 

Índice dos subcapítulos

 

Arca de Noé da Direita Americana

O fantasma de João Calvino

O mercado de Wall Street

A inspiração de Hitler

A primeira ameaça vermelha

A cultura do fascismo

Nazis e americanos, uma história de amor

A casa de Hitler nas montanhas

A segunda ameaça vermelha

Anti-comunismo sem comunistas

América Anti-intelectual

Actividades anti-americanas

O sonho americano

O actual reaccionarismo da direita estado-unidense é o produto cultural de dois séculos de desenvolvimento de capitalismo. Ao contrário da maioria dos Estados capitalistas desenvolvidos, os EUA nunca abandonaram uma noção de nação que incorpora elementos fascistas. Na verdade, ao longo destes 200 anos, a definição da ideologia americana, ou americanista, foi crescendo, até se transformar, hoje em dia, numa fina película super-estrutural muito semelhante ao fascismo, que filtra a percepção da realidade vivida por milhões de estado-unidenses.

Mais do que mero ersatz da histeria anti-comunista dos anos cinquenta, o nacionalismo estado-unidense mantém-se como um instrumento de luta de classes ao serviço do grande capital e um elemento unificador nacional que se estende da extrema-direita do Partido Republicano ao centro do Partido Democrata.

Na actualidade, a ideologia americanista é um pretexto para justificar o belicismo, a tortura, a espionagem e a repressão policial. Por outro lado, permite manter a opressão económica e social dos afro-americanos, fechar alternativas políticas ao capitalismo bicéfalo e, ao mesmo tempo, convencer os trabalhadores de que no «sonho americano», ao contrário de todos os outros países, é possível enriquecer trabalhando arduamente. Nesta perspectiva individualista, os trabalhadores que não enriquecem devem-se culpar unicamente a si próprios, aos seus genes, à sua inteligência, à sua falta de fé, ou à sua força de vontade, mas nunca ao seu patrão.

Publicado na Revista Vermelho em Setembro de 2015

 

Charlotte EUA 2016-09

Charlotte USA 2016

 

Sempre que nos EUA uma cidade explode de raiva, os principais órgãos de comunicação social vêm chorar as montras partidas, os caixotes de lixo injustamente incendiados, o papel higiénico roubado das lojas...

Ficasse Charlotte na Venezuela e estava pintado um bonito quadro de legítima revolta popular, contra a escassez de produtos básicos e um regime;

fosse em Cuba e já haveria Organizações Não-Governamentais a organizar concertos e campanhas pela libertação dos presos políticos durante os protestos;

fosse a Carolina do Norte a Coreia do Norte e choveriam notícias sobre a brutal ditadura que usa o exército para reprimir e matar o seu próprio povo.

Mas não sendo Charlotte na Venezuela, não veremos as fotografias de dezenas de pessoas, carregadas de papel higiénico, a sair de supermercados incendiados;

não sendo em Cuba, nunca saberemos os nomes das dezenas de pessoas presas durante os protestos,

e não sendo a Carolina do Norte a Coreia do Norte, ninguém falará em direitos humanos.

Keith Lamont Scott não foi o terceiro nem o quarto caso: de acordo com o The Guardian, Keith Lamont Scott foi o 193.º(!!!) negro a morrer às mãos da polícia nos EUA desde o início do ano.

No caso de Charlotte, o orçamento camarário para a polícia ultrapassa os 16 milhões de dólares anuais, mais do que a verba da cidade para a saúde e quase tanto como para a educação.

AQUI

 

German_American_Bund_NYWTS

 

Capitalismo, fascismo, racismo, isto anda tudo ligado (quod erat demonstrandum)

 


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Segunda-feira, 18 de Julho de 2016
É um partido comunista, que tem uma ideologia e um projeto transformador

Jeronimo de Sousa-2016

O PCP hoje é um um partido moderado, gradualista e social-democrata, ou ainda é revolucionário?

É um partido comunista, que tem uma ideologia e um projeto transformador e age na realidade em que vivemos, neste país concreto, com este povo concreto. Procuramos agir, trabalhar e lutar tendo em conta um objetivo supremo da construção de uma sociedade nova, mas não lhe chamaria gradualismo. Entendo isto como um processo, sem atos súbitos, por etapas.

Ler, Ouvir e Ver a entrevista na íntegra

 


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Quinta-feira, 30 de Junho de 2016
Brexit, o que fazer?

Mapa UE28_2014

O referendo britânico constitui um acontecimento de grande importância política para os povos do Reino Unido e da Europa. A ideia da irreversibilidade da União Europeia sofre um profundo abalo. O debate sobre o futuro do continente europeu e das relações entre os seus povos e estados está na ordem do dia.

(...)

Novo pico de crise

É por isso que o referendo britânico adquire uma tão grande magnitude. Se ele fosse o resultado de uma mera conjuntura política interna britânica, ou mesmo de uma curva apertada da relação entre potências no continente europeu, não teria o impacto que está a ter. Mas não é só isso. É preciso enquadrar o referendo britânico para o entender na sua plenitude.

  • Ele acontece precisamente quando o mundo e a Europa estão às portas de um novo pico de crise económica e financeira do capitalismo;

  • quando a crise social no continente europeu faz desta região uma das zonas do globo de maior regressão social da última década;

  • quando se sucedem escândalos financeiros uns atrás de outros e se torna visível que a corrupção faz parte do status quo;

  • quando países como a Grécia continuam a ser esquartejados económica e socialmente e humilhados politicamente;
  • quando os discursos delicodoces da «construção europeia» dão lugar à despudorada arrogância da Alemanha imperialista;
  • quando o sistema político burguês no continente mergulha numa profunda crise e o fascismo se alimenta da exploração social e da opressão nacional;
  • quando as rivalidades inter-imperialistas extravasam os corredores de Bruxelas e fazem estalar o verniz da hipocrisia eurocrática;
  • quando o Mediterrâneo se transforma na maior vala comum da história recente da Europa e a União Europeia diz explicitamente aos povos do mundo «não venham para a Europa»;
  • quando a União Europeia militarista faz a guerra em várias partes do mundo, alimenta e financia terroristas, faz acordos de «cooperação» com governos fascistas e empurra o continente europeu para um embate com a Federação Russa de incalculáveis consequências.

(sublinhados meus)

Mapa Integração Europa

 


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Terça-feira, 14 de Junho de 2016
UPP: A música e o nazismo - a perda definitiva da inocência

UPP Musica e Nazismo

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Domingo, 22 de Maio de 2016
Centenário de Vasco de Magalhães-Vilhena (1916 - 1993)

VMV16__Cartaz

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Vasco de Magalhães-Vilhena
Historiador Social das Ideias - Jornada de Homenagem

 


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Terça-feira, 8 de Março de 2016
O marxismo e o bolchevismo na URSS pós-Stáline: torpor e ruptura

marx_engels_lenin

 

Portanto, na segunda metade do século XX, o anticomunismo e o anti-sovietismo intervieram sob a bandeira do anti-stalinismo.

Hoje analisámos três das maiores e mais dramáticas barreiras, do meu ponto de vista, que o anti-stalinismo militante conseguiu erguer ao longo da via de desenvolvimento normal e objectivo do nosso país.

A primeira barreira foi a difamação da lei da correspondência das relações de produção ao carácter e nível de desenvolvimento das forças produtivas.(...)

A segunda barreira foi a renúncia ao modelo de Stáline na economia. (...)

E a terceira barreira foi a renúncia na prática, em geral, à filosofia do materialismo dialéctico e histórico como fundamento ideológico, base ideológica da política do partido e do Estado. (...)

Estas e outras barreiras eram intransponíveis? Não, não eram. Desde meados dos anos 70 que existem materiais, e em grande quantidade, dos quais ressalta de forma absolutamente inegável que a catástrofe da contra-revolução que amadureceu no país, inspirada e alimentada a partir do exterior, era previsível com precisão científica e foi prevista múltiplas vezes. Ao mesmo tempo foram permanentemente apresentadas propostas e variantes profusamente argumentadas de solução dos diferentes problemas que, em grande parte, foram criados artificialmente; esses problemas não tinham nada de imperscrutável para a análise marxista competente. (...)

A questão não é pois saber se existem ou não esses materiais, mas a quem aproveitou mantê-los na gaveta durante décadas e impedir desesperadamente que penetrassem na imprensa de esquerda de grande tiragem; a quem aproveitou apresentar o povo soviético como um bando de cobardes e idiotas, que alegadamente ou não tinham inteligência suficiente para perceber as intrigas da guerra informativa, ou não tinham coragem para assumir firme e abertamente as suas conclusões. A quem aproveitou esconder do povo, da opinião pública soviética, o facto de que a ciência marxista, que se bateu intelectualmente na Terceira Guerra Mundial, saiu efectivamente vencedora e não derrotada.

 

É que os problemas de que falamos não pertencem ao passado, são os nossos problemas do futuro.

(sublinhados meus)

Ler texto integral

 


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Sexta-feira, 10 de Julho de 2015
Nova Sondagem: PSD e CDS com menos 17,6 pontos percentuais que em 2011!

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Nova sondagem corrobora o que AQUI afirmámos: a confirmarem-se nas urnas os resultados de sucessivas sondagens PSD e CDS-PP sofreriam uma tremenda derrota.

A coligação PSD/CDS-PP em 4 anos perderia 17,6 pontos percentuais. Ou seja, perderia a maioria absoluta de deputados e não estaria em condições de formar governo.

Importa lembrar que as sondagens só permitem uma previsão aproximada da realidade eleitoral, ou outra.

Em todos os casos no intervalo de valores determinado pela margem de erro. E isto se for utilizado o método aleatório, amostras estratificadas, criteriosamente seleccionadas e de dimensão adequada. E métodos de inquirição fiáveis. E se os procedimentos de estimação complementares – relativos à abstenção e à distribuição dos não respondentes e indecisos – estiverem conforme à realidade em análise.

 



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Sábado, 4 de Julho de 2015
Sondagem da Católica confirma tese comunista: tremenda derrota de PSD e CDS-PP...

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Nos dias 19 e 20 de Junho foi publicada uma sondagem realizada pelo CESOP (Centro de Estudos e Sondagens de Opinião - Universidade Católica) para a Antena 1, a RTP, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias.

No seu tratamento jornalístico TODA (jornais, rádios, revistas, televisões) a comunicação social dominante pós o acento em duas teses fundamentais quanto às previsíveis intenções de voto dos portugueses:

  • empate técnico entre o PS (37%) e a coligação PSD/CDS-PP (38%)
  • o facto de em relação à anterior sondagem (Outubro de 2014) o PS ter descido 8 pontos percentuais e a coligação de direita ter subido 6.

No entanto...

Autores, comentadores e analistas parecem não ter percebido o óbvio:

PSD e CDS-PP juntos obtiveram nas eleições legislativas de 2011 50,35% dos votos. De acordo com esta sondagem agora andam pelos 38%.

Logo, a coligação PSD/CDS-PP em 4 anos perderia 12 pontos percentuais. Ou seja, perderia a maioria absoluta de deputados e não estaria em condições de formar governo.

Nenhum destes senhores e destas senhoras, profissionais da informação e da comunicação, deu por este facto? A sério?!...

Eu cá não sou de «teorias da conspiração» (a maioria das quais, sublinhe-se, mais cedo ou mais tarde se vêm a revelar verdadeiras). Mas a verdade é que também não se aperceberam destes factos nas eleições para o Parlamento Europeu em Maio de 2014:

  • PPD/PSD + CDS/PP = O PIOR RESULTADO de todas as 38 eleições já realizadas em Portugal desde o 25 de Abril.
  • PS = O mais baixo resultado de sempre em eleições para o Parlamento Europeu.
  • PS + PPD/PSD + CDS/PP = Cerca de 60% dos votos (o mais baixo resultado de sempre do chamado «arco da governação»)

Acresce que a referida sondagem não cumpre cabalmente com os critérios científicos referidos no meu artigo que segue.

 

   SONDAGENS: PREVISÕES E RESULTADOS

As eleições já se realizaram. Os votos foram contados. Os resultados são conhecidos. É tempo de análise objectiva de algumas questões. A das sondagens é uma delas.

Uma breve observação aos diversos «estudos de opinião» revela uma «realidade» bem diferente da que acabou por acontecer no dia 22 de Janeiro. Mudança repentina das escolhas dos eleitores? Falta de rigor? Incompetência? Manipulação? Ou…?

 


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Quarta-feira, 24 de Junho de 2015
Intelectuais no combate do povo

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Nenhum outro ideal, mais do que o ideal dos comunistas, corresponde à aspiração mais profunda dos intelectuais no domínio das suas actividades específicas: a aspiração à completa realização das suas capacidades e potencialidades – científicas, artísticas, pedagógicas, técnicas – e à fruição social dos bens em que o seu trabalho se concretiza.

Portugal Democrático, para defender a sua soberania e progredir, precisa do empenhamento, do trabalho, da obra dos intelectuais.

 


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Segunda-feira, 6 de Abril de 2015
Duas cartas a Andrópov (II)

Yuri Andropov_August_1983      Em 1978 havia na URSS quem escrevesse isto:

«Por esta via desenvolve-se uma diversão ideológica e política com tal dimensão e força destruidora que, enquanto não se lhe puser fim, tarefa que incumbe à vossa organização, podemos calmamente dizer adeus a tudo o resto, uma vez que este trabalho «teórico» de sapa (como demonstrou a lição checoslovaca) é mais do que suficiente para destruir o regime socialista na URSS


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Terça-feira, 24 de Março de 2015
Duas cartas a Andrópov (I)

Yuri Andropov_August_1983

 Duas cartas a Andrópov (I)

 

Um bom exemplo de «O camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático, amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.» AQUI

 


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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014
A democracia socialista

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«(...) o principal problema de qualquer democracia é o estabelecimento de uma ligação de retorno eficaz, profuso, entre os centros de poder e os membros da classe dominante. Ou, por outras palavras, é a criação de um mecanismo funcional de oposicionismo político na sociedade. É evidente que este mecanismo tem a sua forma específica em cada formação socioeconómica. O mecanismo de oposicionismo político no sistema da democracia burguesa é completamente diferente do que existia no regime feudal.

Por sua vez, o oposicionismo político no socialismo é um problema novo, com uma dimensão colossal, que até hoje, na sua essência, não está inteiramente resolvido, e nunca foi resolvido no nosso país [URSS], a não ser, porventura, em traços gerais. E que significa a não resolução deste problema? Significa o afastamento do poder da classe que é formalmente dominante, isto é, a razão em si pela qual, em última instância, o nosso Estado se afundou como um navio. Nenhuma América e Europa juntas, nenhuma CIA, nenhuns vlassovistas internos teriam conseguido fazer alguma coisa se a classe operária e o campesinato kolkhoziano se tivessem levantado em defesa do seu poder. Todavia, não se levantaram. E não se levantaram precisamente porque há muito não sentiam, não viam esse poder como seu porque estavam apartados dele.»

 


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Terça-feira, 15 de Abril de 2014
Actualidade do Manifesto Comunista

   Talvez com uma única excepção, burguesias arrogantes controlam os governos europeus. Os políticos que as representam são neoliberais, social-democratas domesticados, ou saudosistas do fascismo. Neste contexto histórico tão sombrio, ao reler o Manifesto Comunista, concluí que não perdeu actualidade.

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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013
Álvaro Cunhal e o Partido com Paredes de Vidro

      Em 1985, quando foi lançada em Lisboa a 1ª edição dessa obra, era inimaginável a tragédia que destruiu a URSS e transformou a Rússia num país capitalista. No horizonte próximo o que se esboçava era a vitória do socialismo sobre o capitalismo.

Mas a História tomou outro rumo.

No prefácio a esta 6ª edição, Álvaro Cunhal apresenta por isso com espirito autocritico a perspectiva histórica da 1ª, mas reafirma que o capitalismo está condenado a desaparecer porque não pode superar «insanáveis contradições internas e continua a mostrar-se incapaz de responder às legítimas aspirações económicas, sociais, políticas e culturais da humanidade

Este livro traz respostas a questões relativas aos comunistas. Ajuda a compreender porque resistiu o PCP ao desaparecimento da União Soviética e é um dos poucos partidos comunistas que na Europa sobreviveu intacto ao vendaval que desnaturou ou destruiu a maioria deles.

Enquanto outros, como o italiano, o francês e o espanhol, aderiram ao anti sovietismo, e adotaram linhas reformistas que os tornaram cúmplices do neoliberalismo, o PCP manteve-se fiel aos princípios e valores do marxismo-leninismo.

O Partido com Paredes de Vidro não é apenas como ensaio uma demonstração brilhante do domínio pelo autor do materialismo dialectico. O livro não seria o que é sem o talento e a imaginação que fazem dele uma obra marcada por poderosa criatividade.

«Como somos, como pensamos, como atuamos, como lutamos, como vivemos,nós,os comunistas portugueses.»

Na sua resposta, Álvaro Cunhal procura e consegue com frequência imprimir força de revelação à própria evidência. A personagem central é sempre o Partido.

É nele que se inserem o abstracto - as ideias, a concepção do mundo - e o concreto, os homens que fazem do Partido um grande coletivo revolucionário.

O tratamento de questões teóricas surge entrosado em exemplos de uma praxis viva. Está ali praticamente tudo, exposto, comentado e explicado sem véus, nem omissões: a organização, o trabalho colectivo, o estilo e o tipo de direcção do centralismo democrático, as eleições internas, o voto secreto, a prestação de contas, a experiencia, a renovação permanente, o consenso, a unanimidade, os quadros, a democracia, os deveres e direitos, a crítica e a autocrítica, a moral comunista.Com transparência cristalina.

A estrutura orgânica do Partido e a sua praxis revelam a natureza de classe, inseparável da raiz ideológica e da firmeza política e revolucionária. Alias, a manutenção da regra de ouro de uma maioria de operários nos organismos de direção tem sido justificada pelas respostas da História. Sem ela o PCP seria um partido muito diferente.

O tema do individuo, do militante inserido no coletivo, merece uma atenção especial.

«Ser comunista – sublinha - não impede que se ria mais ou se ria menos, que se goste de estar em casa ou de passear ao ar livre, que se aprecie ou não se aprecie um bom petisco, que se fume ou não se fume, que se beba ou não se beba um copo, que se viva mais ou menos intensamente o amor (…) Amar o sol, o ar livre, a natureza, a terra e o mar, o ar e a água, as plantas e as flores, os animais, as pedras, a luz, a cor, o som,o movimento, a alegria, o riso, o prazer, é da própria natureza do ser humano (…) Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Alem do mais porque a felicidade do ser humano é um dos objetivos da luta dos comunistas

Trechos como estes, pela mundividência que expressam, derrubam pirâmides de mentiras erguidas pela propaganda anticomunista.

Álvaro Cunhal sabe que não há comunistas perfeitos. Não apresenta portanto o PCP como um partido de santos. Mas acha que a exigência moral dos comunistas favorece o seu aperfeiçoamento individual.

«Em cada ser humano – recorda - há imensas potencialidades de evolução para o bem e de evolução para o mal. O Partido, em relação aos seus membros tem de confiar que com a sua ajuda a evolução será para o bem».

Aos que, caluniando o Partido, insistem em apresentá-lo como uma máquina que tritura os seus membros, Álvaro Cunhal responde com uma crítica profunda ao dogmatismo e ao sectarismo. Apontando erros cometidos, condena como inadmissível a tendência de alguns dirigentes e quadros a ingerir-se na vida privada dos militantes.

Não surpreendeu que o livro de Álvaro Cunhal tenha suscitado reparos no Leste europeu. Em alguns países foi publicado com cortes. A transparência do PCP incomodou dirigentes que se sentiram retratados em críticas ao autoritarismo e ao dogmatismo.

Uma certeza: a publicação pela Editora Expressão Popular do Partido com Paredes de Vidros é uma contribuição valiosa para um melhor conhecimento no Brasil do Partido Comunista Português, do seu coletivo revolucionário, da sua luta por um Portugal democrático, soberano, progressista.

O livro de Álvaro Cunhal, sendo pessoal, é de todo o Partido, um ser único, com vida e vontade próprias cujo caminhar é traçado por todos e cada um.

Miguel Urbano Rodrigues

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Terça-feira, 13 de Agosto de 2013
Que Fazer?

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Não é uma relíquia marxista mas um guia para a acção
Por ocasião do centenário [em 2002] da publicação do livro de V.I. Lénine Que Fazer? Problemas candentes do nosso movimento

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Sexta-feira, 5 de Julho de 2013
NÃO HÁ DINHEIRO?! PARA QUEM?!

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EM 2012 69% DO DÉFICE DO ESTADO FORAM JUROS...

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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013
Manifesto do Partido Comunista
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Manifesto do Partido Comunista

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Comemorar 150 anos do Manifesto Comunista de Marx e Engels é falar de um documento que - pelas suas análises, o seu conteúdo ideológico, o objectivo e a possibilidade que aponta de construir uma sociedade nova - lançou e promoveu uma luta revolucionária de alcance universal: a luta dos comunistas, que marcou e determinou as principais realizações e conquistas de transformação social desde então até aos dias de hoje.

(...)

O Manifesto Comunista é um extraordinário libelo acusatório contra o capitalismo.
Não apenas indicando a situação da classe operária e das massas trabalhadoras: os salários injustos, o desemprego, o tempo e intensidade de trabalho, as discriminações e falta de direitos da mulher, o trabalho infantil, os problemas da habitação e da saúde, o alastramento da pobreza e da miséria. Não apenas apontando medidas necessárias de carácter imediato. Mas também desvendando a natureza e as leis do capitalismo e apontando a necessidade e possibilidade histórica de superá-lo.

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Álvaro Cunhal  

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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012
Olhó comboio

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É nesse quadro que um facto objectivo, comprovável por todos pois trata-se de informação pública e publicada na Internet, tem sido sugerido como estruturante de uma resposta a muitas destas calúnias: no primeiro semestre de 2012 o Metropolitano de Lisboa gastou 34 milhões em salários e 297 milhões em juros e perdas swaps para a banca. Para transmitir a escala da coisa, sublinho que em 2012 o Metro vai entregar à banca mais dinheiro do que o que pagou aos seus trabalhadores em 10 anos de actividade!

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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012
O «milagre» do «reajustamento externo» do governo e da «troika»

«Numa clara operação de manipulação da opinião pública, o governo e a “troika” têm procurado apresentar como um “êxito” da terapia de choque de austeridade que têm imposto ao país aquilo que designam por “reajustamento externo”, ou seja, a redução significativa do défice da Balança Comercial.

Vítor Gaspar, na conferência de imprensa que deu para justificar o aumento da TSU para os trabalhadores e a descida para os patrões que se traduzirá, se for aprovada, por uma transferência de 2.200 milhões € dos bolsos dos trabalhadores para os bolsos dos patrões, até apresentou esse “êxito” como a causa do aumento do desemprego, não compreendendo que isso é, da forma como está a ser feita, mais uma prova do fracasso do reajustamento do que de um êxito. Uma das características deste governo e desta “troika” é a utilização sistemática da mentira para enganar a opinião pública e a incapacidade para analisarem e compreenderem a realidade portuguesa, substituindo o estudo sério por “modelos” em folhas de cálculo “excel” pensando que desta forma resolvem os problemas. Cegos pela ideologia neoliberal, governo e “troika” pensam que a realidade depois se ajusta aos “modelos” mas isso nunca acontece. E então ficam surpreendidos, e exteriorizam-no tornando-se patéticos. Mas o mais grave em tudo isto é que estão a destruir o país e a vida dos portugueses.»

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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Actualidade de Marx num mundo caótico à beira da barbárie (Miguel Urbano Rodrigues)
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No cerne do grande debate ideológico travado no âmbito do movimento comunista internacional uma questão continua a suscitar um interesse absorvente: a transição do capitalismo para o socialismo. Já Lenine dizia que ela seria infinitamente mais difícil do que a tomada do poder em Outubro de 17. E até hoje não encontrámos respostas satisfatórias.

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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Revisitando a Venezuela
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011
A luta ideológica em torno da crise

(...)

«Crise de sobreprodução, crise de excesso de capital, cuja síntese passa pela destruição desse excesso em relação à taxa de lucro esperada. Uma crise de sobreprodução com extensão praticamente planetária «tendencialmente mundial», «sistémica», em relação ao subconsumo das massas (procura solvente).»

(...)

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Sábado, 24 de Setembro de 2011
O anticomunismo, arma estratégica da ideologia burguesa

A ideologia burguesa é a ideologia da burguesia. Dizer isto parece ser uma banalidade sem consequências ou uma mera tautologia Mas talvez não o seja. É que uma das características básicas da ideologia burguesa consiste em recusar que seja uma ideologia e que seja referida a um sujeito social preciso, a burguesia.

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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011
Reflexões sobre democracia, crise e demagogia

A complexa e preocupante situação política nacional e internacional que se vive nos dias de hoje requer que dela se faça uma lúcida e desapaixonada análise por forma a encontrar as respostas mais adequadas à situação. Uma correcta caracterização e avaliação de cada momento é, e deverá sempre ser, o ponto de partida das nossas decisões porque as respostas de hoje não serão iguais às de ontem e tão pouco servirão para amanhã. É a dialéctica que tal nos ensina e nela se fundamenta esta afirmação.

Estamos actualmente perante uma ofensiva generalizada do capitalismo selvagem, ou seja, da cada vez maior selvajaria do sistema capitalista. O elenco das formas dessa ofensiva é longo e diversificado mas todas elas têm de comum e as atravessa uma política que dá a volta ao planeta. Apoiando e defendendo esta política, ou opondo-se a ela e contra ela lutando, o facto é que a todos ela de uma forma ou de outra atinge, isto é, vai gradualmente batendo a todas as portas em todo o mundo.

Uns, porque através dessa política se apoderam da imensa e prodigiosa riqueza que os homens são hoje capazes de produzir, outros porque são as vítimas directas e imediatas do sistema. Há ainda aqueles que, ilusória e ingenuamente, acreditam irem ser poupados, sem conseguirem compreender que é tudo uma questão de tempo, e que já se encontram em lista de espera para, forçosa e forçadamente, se juntarem ao exército dos já sacrificados.

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Sexta-feira, 11 de Março de 2011
Facebook, ingenuidades e reaccionarices

 (...)

Uma ingenuidade que encontra a sua explicação na falta de reflexão sobre o fenómeno concreto que é a internet e o facebook, no descurar da diferença entre o universo teórico de receptores de uma determinada mensagem e o universo real dos que a recebem, da importância dos factores de credebilização da informação recebida, e do esquecimento das diversas redes reais existentes nas sociedades.

(...)

O facebook, meio real de comunicação e circulação de informação, é neste processo fetichizado, para esconder a mecânica real do processo – seja esta mecânica real a acção organizada de serviços secretos, como aconteceu nas revoluções coloridas organizadas pela CIA, seja esta mecânica real a intencional promoção de um programa político inconsequente por forças que sabem o protesto inevitável mas temem a acção organizada e transformadora das massas.

Mas não menos reaccionário é negar a existência do facebook. Existe, é uma realidade material e contraditória, onde a luta também se trava. (...)

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Terça-feira, 7 de Setembro de 2010
Artigo 38.º: Preconceito e desinformação

«O Estado assegura a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social

perante o poder político e o poder económico.»

in Constituição da República Portuguesa.

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A semana passada ficou marcada pela apresentação do dirigente do PCP Francisco Lopes como candidato à Presidência da República. No próprio dia da apresentação como nos seguintes, muito se falou da candidatura comunista, em várias notícias, reportagens, entrevistas e comentários.

Mas, à semelhança do que aconteceu noutros momentos da história do Partido, a generalidade dos comentadores, analistas e politólogos que por aí andam logo trataram de desvalorizar a candidatura comunista, recorrendo aos preconceitos e caricaturas de sempre: da origem social do candidato à sua pretensa ortodoxia, passando pela sensibilizadora preocupação com um (desejável, para eles) mau resultado obtido por Francisco Lopes nas próximas eleições presidenciais. Da declaração de candidatura, dos seus objectivos e propostas, muito pouco se disse.

Nada de novo, portanto. E nada que surpreenda: estes propagandistas da política de direita não conseguem ver para além do esquema imposto pela ideologia dominante e esta determina que se silencie, deturpe e caricature os comunistas e as suas propostas de ruptura e de mudança. Os interesses dos seus patrões assim o exigem.

Este seu labor anticomunista, se bem que intenso e esforçado, não teve o resultado que desejavam, pois a candidatura do PCP, apesar de ser ainda uma novidade, está já a conquistar o seu espaço entre aqueles que são prejudicados pela política que o Governo – em conluio com o PSD e com o Presidente da República – tem vindo a prosseguir.

O mesmo sucedeu com a apresentação, na segunda-feira, da campanha do PCP Portugal a produzir. Salvo algumas excepções, a generalidade dos órgãos de comunicação social ignorou por completo esta iniciativa do Partido (alguns dos quais, diga-se, estiveram presentes na conferência de imprensa e não trataram o assunto). Não sendo raro este silenciamento, é ainda mais sentido quando em causa estão questões que abalam frontalmente os fundamentos da política de direita: é assim com a defesa da produção nacional; foi assim quando o assunto foi a banca, os seus privilégios e a defesa da sua nacionalização…

A poucos dias da abertura da Festa do Avante! e quando tanto se fala de reentrées lá começam a surgir notícias sobre aquela que é a maior iniciativa político-cultural que se realiza em Portugal. Mas uma análise mais fina dessas notícias revela algo que seria inacreditável se não fosse normal: não se fica a saber quase nada do seu conteúdo, dos espectáculos de música, dança ou teatro; das exposições de artes plásticas; dos debates políticos; das modalidades desportivas; da gastronomia.

Só se refere – o que tendo um significado profundo não é suficiente – que a Festa é construída de forma voluntária e abnegada por milhares de militantes e simpatizantes do Partido. Fica é a parecer que a constroem como um fim em si.

E não é por falta de matéria ou de insistência do PCP, que produziu nas últimas semanas várias notas e conferências de imprensa sobre aspectos concretos da programação da Festa do Avante!. Mas uma vez mais, quando as portas da Atalaia abriram, serão muitos e muitos milhares os que, apesar de todo este denso manto de silêncio, ali estarão para usufruir dos três dias da Festa.

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In Jornal «Avante!» - Edição de 2 de Setembro de 2010

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Domingo, 20 de Junho de 2010
O Partido com Paredes de Vidro: o Partido, o Ideal e o Projecto Comunistas

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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009
Como se fabrica uma notícia

    A comunicação social nos nossos dias reproduz como nunca a ideologia dominante. Seja na TV, na rádio ou nos jornais. A forma como a generalidade da comunicação social cobriu as recentes eleições na África do Sul são um bom espelho do que afirmamos.

Apetece perguntar: quais seriam as notícias publicadas pelos media ditos de referência se num qualquer país da Europa ou da América do Norte (em relação à América Central e à América do Sul o caso já muda de figura…), um partido político ganhasse as eleições com 65,9 por cento dos votos? E se houvesse uma participação eleitoral da ordem dos 77,3 por cento?

Imaginemos França, Inglaterra, Alemanha ou Canadá. Cantar-se-iam loas à democracia e aos candidatos eleitos. Falar-se-ia de legitimidade democrática e do bom funcionamento do sistema. Escrever-se-ia sobre uma liderança política legitimada de forma indiscutível. E não venham dizer que isto é especulação. Os exemplos nas últimas dezenas de anos abundam e aí estão para o provar.

Mas sobre a África do Sul não. O essencial, a vitória do ANC com dois terços dos votos expressos (11650748 em cerca de 23 milhões de votantes inscritos), 264 deputados em 400, triunfo em 8 das 9 províncias, 126 representantes em 184 no Conselho Nacional das Províncias (Câmara Baixa do Parlamento) é sistematicamente desvalorizado. O acessório, o não ter alcançado os dois terços dos deputados eleitos (faltaram escassos 3 lugares), é promovido à categoria de quase derrota do ANC.

Significativamente é em vão que procuramos uma notícia que nos informe que em quase todos os países Europeus e da América do Norte com 65,9 por cento dos votos qualquer partido teria muito mais que dois terços dos deputados. Portugal incluído. E isto graças a sistemas eleitorais muito «democráticos» onde, por exemplo, o partido trabalhista de Tony Blair com menos do que 50 por cento dos votos obteve sucessivas maiorias absolutas bastante folgadas.

É também em vão que procuramos uma análise objectiva do novo Presidente da África do Sul Jacob Zuma. E era fácil. Bastava transcrever o que sobre ele disse e escreveu Nelson Mandela ao manifestar-lhe o seu apoio. Tal como são quase nulas as notícias que referem que ficou claramente provado que os processos por corrupção (que abrangeram também dirigentes do Partido Comunista) foram desencadeados com fins políticos por ministros do governo de Thabo Mbeki (que saíram do ANC e fundaram um novo partido). Que elementos dos órgãos de segurança do Estado e do aparelho judicial tudo fizeram para manipular factos e provas. Que a comunicação social dominante na África do Sul tentou de múltiplas formas desacreditar Jacob Zuma e a nova liderança do ANC.

Mas encontramos coisas ridículas como o «facto» de Zuma ter sido condenado a dez anos de prisão, não pela sua actividade no ANC, mas «por tentar deixar o país clandestinamente, aos 21 anos». Curiosamente, ou talvez não, a mais objectiva análise vem de onde menos se poderia esperar. De um inimigo de ontem: Roelof “Pik” Botha.

O mesmo para as propostas políticas do ANC geralmente arrumadas na categoria de «populistas». E porquê? Porque põem uma muito grande ênfase na prioridade à resolução dos problemas das camadas trabalhadoras e da população mais desfavorecida do país. Prioridade no combate à pobreza e ao desemprego. Promessas que tudo indica serem para cumprir, esse é o problema para certos poderes, e não para ficar no papel.

Mas nada disto nos surpreende. Basta ler o que Eduardo Galeano (o tal do livro oferecido por Chavez a Obama) sobre o processo na Venezuela. Onde recorda que nunca em parte alguma do mundo um presidente eleito se submeteu a meio do mandato a uma consulta eleitoral revocatória. E Hugo Chavez fê-lo. Mas toda (quase) a comunicação social dominante escondeu este «simples» facto.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

                                                                                   

In jornal "Público" - Edição de 1 de Maio de 2009

                                                                                          


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Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (VII)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

Conclusão

Toda a argumentação exposta no discurso imperialista do choque de civilizações e dos blogues analisados conduz para uma série de itens que vale a pena resenhar brevemente.

  • A civilização ocidental seria a única formadora e a única agência portadora dos valores da democracia e da liberdade. Fora deste espaço geocultural não haveria capacidade autónoma dos restantes países para desenvolver qualquer tipo de valores e práticas emancipadoras. Por outro lado, só são tomados como aceites os valores do mercado, do chamado “comércio livre” e da democracia representativa não-participativa e bipolarizada entre uma esquerda e uma direita que apenas diferem na forma e nunca na substância das suas orientações programáticas.
  • Não tendo condições para colonizar e ocupar territorialmente e para evangelizar (religiosa e culturalmente) todo o espaço islâmico, a saída para o Ocidente seria, neste momento, fortalecer a sua unidade ideológica em torno dos princípios enunciados no item anterior e, por outro lado, enveredar por acções militares que possam esmagar militarmente ou neutralizar o seu inimigo.
  • Sendo os valores do Ocidente tomados como os mais aptos ao desenvolvimento de uma humanidade tolerante e harmoniosa, torna-se muito fácil deduzir daqui que a chamada civilização ocidental se personifica no Bem. Ao inverso, o Islão – ainda por cima tomado no seu conjunto, englobando populações civis, Estados e organizações terroristas – seria um inimigo visceral dos valores do Ocidente, logo, do Bem. Com a mesma facilidade, o Islão encarna o Mal.
  • Todo e qualquer esforço intelectual de indagação do fenómeno e que, minimamente, confronte toda esta construção teórico-ideológica do choque de civilizações é imediatamente taxado de irrealista e insensato. Um verniz anti-intelectualista e abertamente defensor do uso da violência e da força militar reveste todos os blogues do mainstream português.
  • Nenhum dos blogues rejeitou o ocidentalcentrismo impresso nas teses do choque de civilizações. Pelo contrário, aprofundam e expandem o seu espectro ideológico a mais camadas da população. Ao mesmo tempo, não se encontra qualquer tipo de desenvolvimento teórico que equacione o funcionamento do sistema internacional capitalista nas suas bases materiais, portanto, económicas e políticas. No fundo, toda a problematização realizada nos blogues aludidos (amostra que nos parece real e definidora de boa parte da blogosfera mainstream) centra-se, a mais das vezes, na construção de estereótipos. Toda a problematização teórica relativiza o debate em termos de coordenadas matriciais das Ciências Sociais, privilegiando a explanação de enunciados morais e moralizantes. Dessa forma, simples questões relacionadas com a organização internacional do sistema capitalista como as que expusemos na secção anterior, são completamente passadas ao lado. Em jeito de remate, não deixa de revelar uma forte ambiguidade o facto de

a) os maiores apologistas das virtudes da economia global e competitiva e que justificam todo o tipo de regressões de direitos sociais como inevitabilidades da vivência no seio dessa mesma economia global,

b) serem precisamente os mesmos que cindem o sistema capitalista internacional em duas partes estanques, mutuamente exclusivas e sem quaisquer tipo de veios de interacções económicas, sociais e políticas que não sejam choques inter-religiosos ou inter-civilizacionais.

                            

Sociólogo

               


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