TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017
A NATO em carne viva

20 Novembro 2010_paz9

 

Agentes militares de países da NATO surpreendidos em plena actividade de apoio a organizações terroristas e um auditor da NATO que aparece morto quando investigava ligações terroristas têm, pelo menos, dois assuntos em comum: NATO e terrorismo.

 

No dia 18 de Dezembro as forças libertadoras da zona Leste de Alepo, na Síria, prenderam pelo menos 14 agentes da NATO encafuados num bunker de onde dirigiam os chamados «rebeldes» sírios, isto é, os bandos da Al-Qaida que também tutelam operacionalmente uma miríade de grupinhos terroristas, entre os quais os insignificantes «moderados». As informações mais púdicas evitam citar a NATO a propósito dos infiltrados estrategos da invasão e ocupação terrorista, limitando-se a associá-los à «coligação internacional» chefiada pelos Estados Unidos, o que vai dar no mesmo.

É provável que os leitores não tenham tomado conhecimento desta notícia, digna de primeira página, em qualquer recanto ou murmúrio sequer da comunicação social portuguesa, onde a NATO continua a ser tratada como organização impoluta e benfeitora, incapaz de cometer qualquer malfeitoria e acima de qualquer crítica. Aliás, as normas oficiais na bem comportada comunicação mainstream exigem que quando se citam fontes sírias se use como aposto ou continuado a informação de que estas qualificam os «rebeldes» como «terroristas». Isto é, assume-se que entidades criminosas como a Al-Qaida ou o Estado Islâmico são mesmo os «rebeldes», a «oposição síria».

(...)

e aqui

 

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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
Ameaças

Mapa bases militares NATO_2

O Chefe de Estado Maior do Exército dos EUA, Gen. Milley, ameaçou num discurso oficial: «quero ser muito claro com aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos […] vamos travar-vos e vamos esmagar-vos de forma mais dura do que alguma vez vos tenham esmagado» (no YouTube, e citado em www.military.com, 5.10.16). A ameaça é dirigida à segunda maior potência nuclear do planeta, a Rússia. Outra ameaça veio do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EUA: «grupos extremistas irão expandir as suas operações, incluindo – sem qualquer dúvida – ataques a interesses russos, talvez mesmo contra cidades russas» (NYT, 29.9.16). Um editorial do New York Times (29.9.16) tem o título «O Estado fora-da-lei de Vladimir Putin». Porquê tamanha histeria contra a Rússia capitalista?

O acordo de cessar-fogo na Síria, assinado por Kerry e Lavrov, foi enterrado em poucas horas pelo ataque dos EUA que matou quase 100 soldados sírios que defendiam a cidade de Deir-ez-Zor, cercada pelo ISIL. Ataque que Kerry afirmou ter sido um «erro», mas sobre o qual o Chefe de Estado Maior General dos EUA, Gen. Dunford, tem outra opinião: «pode ser que, após concluída a investigação [...] digamos que voltaríamos a fazer o que fizemos» (Reuters, 19.9.16). A aparente insubordinação militar vinha de trás: o New York Times (13.9.16) deu (timidamente) conta duma conferência de imprensa no Pentágono em que os militares dos EUA se recusavam a prometer cumprir a sua parte do acordo assinado por Kerry. Já aquando da sua nomeação, o Gen. Dunford afirmara que «a Rússia era a principal ameaça aos EUA», referindo «como as mais importantes ameaças seguintes à segurança dos EUA, e por essa ordem, a China, a Coreia do Norte e o Estado Islâmico» (Washington Post, 9.7.15). O ministro da Defesa de Obama concorda: «Ashton Carter listou a hierarquia de ameaças aos Estados Unidos, que incluía a China, a Coreia do Norte, o Irão e, por fim, a luta contra o terrorismo. Mas o seu alvo prioritário foi a Rússia» (editorial do NYT, 3.2.16). Num artigo na USA Today (11.2.16), com o título «Wesley Clark: Na Síria, a Rússia é a verdadeira ameaça», o ex-chefe da NATO na guerra contra a Jugoslávia afirma «temos de reconhecer que [...] a ameaça maior é a Rússia». Afirmando que «Bashar al-Assad e a Rússia estão a ganhar no terreno», Clark acrescenta: «não podemos deixar que [...] os jihadistas "bons" financiados pelos nossos aliados sejam marginalizados». A ficção da «luta contra o terrorismo» deixa cair a máscara.

Mapa bases militares NATO

Há anos que os EUA impõem pela força a sua vontade. Quem se recusa a cumprir ordens é vítima de sanções económicas, «revoluções coloridas», exércitos terroristas a seu soldo, invasões e guerras. Poucos são hoje os governos que se atrevem a votar contra as potências imperialistas na ONU. A Rússia, para lá do seu sistema social ou das questões de classe, é objecto dum cerco cada vez mais evidente. A NATO foi alargada até às suas portas. Os vassalos dos EUA provocam-na para a guerra (Geórgia em 2008, Ucrânia em 2014, Polónia em 2016). Quem se pode surpreender se depois de ver o destino da Jugoslávia, Iraque ou Líbia, os dirigentes russos chegarem à conclusão que enfrentar os EUA é uma questão de vida ou de morte para o seu país? Salvar o (legítimo, reconhecido pelos próprios EUA!) governo sírio e travar o monstro da guerra imperialista na Síria é tentar impedir que ele chegue ao seu próprio país. Para os EUA, uma derrota da sua guerra interposta contra a Síria seria um golpe profundo no seu poderio hegemónico. É por isso que o Gen. Milley invectiva contra «aqueles que se tentam opor aos Estados Unidos» e ameaça «esmagá-los».

Mas a Rússia, ao contrário de anteriores alvos, tem armas nucleares. A parada é enorme, e os perigos são assustadores. Não há guerras inevitáveis. Mas há um partido da guerra, que ganhou força com a crise do capitalismo. Só quem ignora a História e a natureza do imperialismo pode estar descansado. Nunca a luta pela paz e contra a loucura belicista foi tão urgente.

(sublinhados meus)

AQUI

 


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Domingo, 9 de Outubro de 2016
Síria, o epicentro da ameaça global

Guerra na Siria_1

 

A situação actual na Síria contém todas as circunstâncias imagináveis que podem degenerar num conflito de proporções internacionais há muito inatingidas.

Não apenas porque ali está tão à vista como na Ucrânia o frente-a-frente entre as duas principais potências mundiais, como é também nos escombros sírios que se embrenham e confundem os mais ameaçadores conflitos regionais, ora agravados, e se ateiam com irresponsabilidade aventureira os mil e um rastilhos da ameaça terrorista global.

 

Mapa Síria3

«Os recentes desenvolvimentos da situação na Síria vêm demonstrar que o imperialismo norte-americano continua apostado na brutal guerra de agressão contra a soberania e integridade territorial da República Árabe Síria e a tentar impor o afastamento do Governo sírio, dirigido pelo presidente Bashar al-Assad. Uma criminosa guerra que enfrenta, há mais de cinco anos, a notável e heróica resistência das forças patrióticas sírias, do povo sírio.

(...)

Por mais intensa que seja a campanha de manipulação mediática, a verdade é que os Estados Unidos e os seus aliados – França, Reino Unido, Turquia, Arabia Saudita, Qatar, Israel, entre outros – continuam a intervir na Síria e a instrumentalizar os diversos grupos armados que criaram e apoiam com o objectivo de dividir e destruir o Estado sírio – aliás como fizeram no Iraque e na Líbia, com as dramáticas consequências que se conhece.»

siria-forcas-governamentais 2016

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Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016
Os EUA bombardearam o cessar-fogo na Síria

azaz_syria 2016

 

Há dois dias [17 de Setembro], aviões norte-americanos mataram pelo menos 62 soldados sírios. Saíram, depois da reunião à porta fechada do Conselho de Segurança da ONU convocado pela Rússia para esclarecer esta questão, e optaram por lamentar junto aos jornalistas o sucedido e para afirmar que «seja qual for o resultado da investigação sobre este caso (!!), a aviação não o fez intencionalmente.» Esperar-se-iam desculpas à Síria e aos familiares dos soldados mortos. Isso não aconteceu. Terroristas do Estado Islâmico progrediram para o território ocupado pelos soldados sírios mortos.

A opinião pública não perdoará aos EUA novo malogro do plano de cessar-fogo para a Síria, como aconteceu ao de Fevereiro.

Os estrategas do Pentágono decidiram há vinte anos a destruição da democracia e desenvolvimento de muitos países, começando, na fase das “revoluções coloridas” desta década, pela Líbia e pela Síria, esta em 2011. Há razões políticas e energéticas nestes planos maquiavélicos: retirar aliados à Rússia, acabar com o não-alinhamento e obter a exploração do petróleo desses países, impedindo a Rússia de ser fornecedora de petróleo e gás à Europa.

A liquidação das condições de vida dos sírios, a destruição das suas cidades, a falta de condições de habitabilidade, de acesso a alimentação e água durante cinco anos consecutivos, originou o desespero, mais e duas centenas de milhares de mortos, centenas de milhares de refugiados.

 

Syrians_Iraq_refugees_at_Lesvos_2015-10-30

 

Para Ler:

«Os dados divulgados na terça-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) puseram a nu que o drama das centenas de milhares de migrantes e refugiados que, anualmente, procuram a Europa continua.

Nos primeiros nove meses do ano, atravessaram o Mediterrâneo 300 mil pessoas, metade das quais provenientes de apenas três países: Síria (28%), Afeganistão (14%) e Iraque (9%). Em 2010, antes do início da agressão à Síria, existiam 28 mil refugiados sírios em todo o mundo, número que chegou a perto de 4 milhões em 2014, a que se somavam outros 7,5 milhões de deslocados internos.»

 

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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016
A pedofilia como arma de guerra

Mahmoud Raslan (na fotografia em primeiro plano)

 

A foto e o vídeo de Omron, garoto de cinco anos da cidade de Alepo (Síria), têm corrido mundo e enchido as primeiras páginas e espaços nobres da comunicação social.

Por que razão o drama de Omron mereceu destaque especial entre a torrente de episódios semelhantes?

«(...)

Qualquer jornalista com uma réstia de brio profissional que sobreviva à voz de comando dos donos poderia investigar as razões pelas quais o drama do pequeno Omron mereceu destaque especial entre a torrente de episódios semelhantes. Bastar-lhe-iam um pouco de curiosidade profissional e algumas horas de trabalho.

O que aprenderia então esse jornalista?

Que, na altura em que foi tirada a fotografia e captado o vídeo, a criança não estava a ser socorrida por profissionais de saúde mas sim nas mãos de uma dita «organização não-governamental», a White Helmets (escudos brancos), uma das muitas entidades por esse mundo fora, neste caso na ocupada cidade de Alepo, que servem de cobertura a actividades da CIA, dos serviços britânicos de espionagem MI6 e dos seus congéneres holandeses IDB.

Que a White Helmets é um braço de uma empresa designada Innovative Comunications & Strategies (InCoStrad), com escritórios em Washington e Istambul, uma agência de comunicação e propaganda do MI6 e da NATO criada para o conflito sírio. Esta empresa é autora, por exemplo, dos logotipos da maior parte dos bandos de mercenários e grupos terroristas em acção na Síria, dos «moderados» ao próprio Estado Islâmico, ou Daesh, ou Isis.

Que o oportuno autor do instantâneo foi Mahmoud Raslan (Rslan, grafia usada na sua página de Facebook), um jihadista simpatizante do Estado Islâmico, membro do grupo terrorista «moderado» Harakat Nour Din al-Zenki, protegido pela Turquia e que foi um dos contemplados pela CIA com armas antitanque BGM-71.

Que o Mahmoud Raslan e o seu grupo são realmente amigos de crianças. Há pouco mais de um mês, em 16 de Julho, o «fotógrafo» e membros do seu grupo terrorista promoveram uma cerimónia de sangue na qual foi decapitado na caixa traseira de uma camioneta vermelha, em pequenos e sincopados golpes de arma branca, o garoto palestiniano Abdullah Tayseer al-Issa, de 12 anos. Fora «julgado» e «condenado» pelos «moderados» de Raslan por pertencer supostamente às «Brigadas Al-Quds». A cabeça ensanguentada da criança foi depois exibida efusivamente, como histórico troféu, cena documentada em vídeos que qualquer pessoa – nem precisa de ser jornalista – descobrirá em rede, se tiver estômago para tal.

(...)»

Guerra na Siria_1

«Como denuncia o Off-Guardian, é a agenda desta gente que a imprensa considerada «de referência» alimenta.

O bombardeamento de uma escola no Iémen, as denúncias da Unicef sobre a proliferação do trabalho infantil no Iraque após a invasão em 2003 ou a morte de um jovem palestiniano pelo Exército israelita não fizeram capas. Foi a imagem de propaganda de um dos mais mortíferos grupos terroristas a operar na Síria que deu várias voltas pelo globo e está a ser usada para justificar a guerra.»

 


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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016
Líbia, caos e história

Mapa Líbia_Civil_War 2016

Areas of control in the Civil War, updated 30 April 2016:
Location dot red.svg Tobruk-led Government Location dot lime.svg Government of National Accord Location dot grey.svg Islamic State of Iraq and the Levant & Ansar al-Sharia (Libya) Location dot blue.svg Petroleum Facilities Guard Location dot yellow.svg Tuareg tribes Location dot orange.svg Local forces

 

Tal como a Síria a Líbia é uma presa que o imperialismo não largará facilmente. As suas riquezas e posição geo-estratégica são demasiado importantes. Além disso a reacção internacional nunca perdoou à Líbia a sua opção pela soberania e o não alinhamento, a utilização dos seus enormes recursos petrolíferos para o desenvolvimento do país e, apesar de sérias contradições, a sua posição solidária com a Palestina ou por uma «unidade africana» fora do controlo imperialista.

A Líbia tornou-se no início do século XX uma colónia italiana e durante a Segunda Guerra Mundial foi palco de importantes batalhas contra as hordas nazis. Após a Vitória, e apesar de lhe ter sido reconhecida em 1951 a independência com a imposição de uma monarquia reaccionária, a Líbia ficou praticamente sob tutela da Grã-Bretanha, que aí instalou, tal como noutros pontos do Mediterrâneo, de Gibraltar a Chipre, bases militares para impor a sua hegemonia numa vasta área de enorme importância estratégica em termos de rotas marítimas e riquezas naturais, e para fazer frente ao ascenso do movimento de libertação nacional dos povos árabes e africanos. Foi neste contexto que em 1 de Setembro de 1969 um grupo de jovens oficiais dirigidos pelo então capitão Muammar Kadhafi derrubou a monarquia e proclamou a República Árabe Líbia, expulsou os militares britânicos e norte-americanos, nacionalizou o petróleo e tomou outras medidas anti-feudais e de carácter progressista.

Desde que se constituiu como país independente a Líbia raramente conheceu um momento de sossego. O imperialismo, utilizando os mais variados pretextos, tudo fez para derrubar o seu regime, indo ao ponto de bombardear Tripoli e Bengazi para assassinar Kadhafi. Finalmente, tirando partido de hesitações e contradições da direcção líbia não hesitou em recorrer à NATO para a guerra de agressão que destruiu o país.

latuff_obama_libya

«É que nunca qualquer ideólogo, por mais retorcido e criativo que fosse ou seja, conseguiu imaginar algo tão democrático.

(...)

Na Líbia, o país maior produtor de terroristas islâmicos per capita, confrontam-se hoje vários governos, numerosas milícias e hordas de mercenários, dezenas de senhores da guerra e respectivos exércitos tribais. Isto é, poucas democracias serão tão ricas, multifacetadas e plurais como a que a NATO criou na Líbia.»

Democracia NATO

«O secretário norte-americano da Defesa, Ashton Carter, submeteu à Casa Branca um plano pormenorizado para levar a cabo operações militares em toda a Líbia, noticiou o New York Times. E já há boots on the ground –­ tropas no terreno, em jargão castrense

 

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016
Algo está podre na guerra contra o terrorismo

hollande-valls

Os terroristas são abatidos liminarmente, mesmo quando não estão na posse de armas de fogo, não ficando cá nenhum para contar as suas histórias às autoridades – que deveriam ter o maior interesse em conhecê-las.

«Os dirigentes europeus podem fazer rufar os tambores de guerra contra o terrorismo, mas haja a noção de que grande parte do ruído não passa de propaganda.

As vítimas são sempre os povos do Médio Oriente e agora também os povos europeus que, caso não se previnam, além do terrorismo estão cada vez mais cercados pelo fascismo a que ele serve de pretexto.»

 


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Domingo, 24 de Julho de 2016
Isto anda tudo ligado, (digo eu...)

Planisferio_politico2

Os acontecimentos na frente internacional sucedem-se a um ritmo quase alucinante no que vai deste verão quente setentrional.

Bastaria referir, por ordem cronológica:

  • o terramoto do Brexit e as suas longas ondas de choque;

  • o atentado terrorista no aeroporto de Istambul após o anúncio da reactivação das relações da Turquia com a Rússia;

  • o mais mortífero ataque terrorista da última década em Bagdade;

  • a Cimeira de Varsóvia da NATO e a obsessão militarista contra a Rússia;

  • a vitória do partido de Abe nas eleições para a Câmara Alta do Japão;

  • a decisão do desacreditado Tribunal de Haia sobre o diferendo territorial no mar do Sul da China e a intensificação do «Pivot para a Ásia» dos EUA visando a contenção da China;

  • a demissão de David Cameron;

  • a terrível matança de Nice no Dia da Bastilha, seguido da prorrogação do estado de emergência que vigora desde Novembro;

  • e, por fim, a tentativa frustrada de golpe de Estado militar na Turquia, país com o segundo maior exército da NATO.

Distintos acontecimentos que respondem a uma situação internacional saturada de contradições e complexidade.

Com um denominador comum em pano de fundo:

o agravamento da crise estrutural do capitalismo e o sério risco de um novo estalido financeiro global, de proporções superiores à recessão de 2008-2009, considerada a crise mais grave do capitalismo desde a Grande Depressão.

Mapa bases aliados e EUA Médio Oriente

«Numa mensagem enviada em 2009 por Hillary Clinton, na altura secretária de Estado dos EUA, lê-se o seguinte:

«Os donativos com origem na Arábia Saudita constituem a fonte mais importante de financiamento dos grupos terroristas sunitas em todo o mundo». «Continua a ser difícil persuadir as autoridades sauditas de que a luta contra o financiamento do terrorismo deve ser vista como uma prioridade estratégica».»

nsa-data-transferring-google1

«A Comissão Europeia anunciou, dia 12, a entrada em vigor do novo quadro jurídico que regula a transferência de dados pessoais de cidadãos de países membros da UE para os Estados Unidos.

O novo acordo, designado «Privacy Shield», visa substituir o quadro legal precedente, conhecido como «Safe Harbour», que foi invalidado em Outubro do ano passado pelo Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE).»

 


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Sábado, 23 de Julho de 2016
Turquia: Comunicado Comité Central do Partido Comunista

 

O Comité Central do Partido Comunista reuniu-se a 17 de Julho e analisou em profundidade os últimos desenvolvimentos do país e discutiu também o estado do partido e as suas tarefas.

 


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Quinta-feira, 21 de Julho de 2016
Hollande, Erdogan e as extremas-direitas

França e Turquia concentram as tensões e as atenções nestes dias por serem os epicentros do tumulto mediático obrigatoriamente constante e vertiginoso que engorda os impérios globais da comunicação social. Tal acontece pelas piores e mais trágicas razões, se bem que não suceda por acaso nos citados países, nem por razões assim tão díspares quanto poderia supor-se.

Os povos francês e turco são as principais vítimas dos trágicos acontecimentos. Duplas vítimas, deve dizer-se, porque sofrem as contingências dos efeitos conjugados da guerra e do terrorismo e, simultaneamente, as consequências nefastas do comportamento dos seus dirigentes em exercício. Porque a democracia é a outra grande vítima do que está acontecer.

Mesmo assim, associar Hollande e Erdogan no mesmo patamar de actuação lesiva contra os seus concidadãos não será um exagero? Poderá parecer, mas o que conta são os resultados – não é assim que a tecnocracia vigente recomenda?

Ler texto integral

 

Mapa Turquia 1

 


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Sábado, 18 de Junho de 2016
O monstro do ódio entra na campanha

Pulse nightclub in 2006

Antes do massacre, o atirador de Orlando terá dito que agia em nome do Estado Islâmico, mas é provável que tivesse ligações tão fortes a Trump como a al-Baghdadi.

Mateen adquiriu a sua metralhadora AR15 como um bom republicano; tinha fama de machista como prescrevem os fundamentalistas cristãos; fazia gala, como os paleo-conservadores, do seu amor pela brutalidade policial e, como toda a extrema-direita, odiava homossexuais.

Seria, afinal, o descendente de afegãos um «radical islâmico» ou outra coisa?

A verdade é que, na barbárie como nas ideias, a normalidade político-ideológica dos EUA anda há muito de braço dado com as fátuas do Estado Islâmico na mesma sopa de ódio primordial onde se geram os fascismos: o capitalismo em crise.

O monstro de Orlando jurou ódio à humanidade – e lealdade a Trump.

AQUI

 


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Sábado, 9 de Abril de 2016
A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo

Recep Tayyip Erdoğan_caricatura

Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)

 

É provável que ao estabelecerem o recente e vergonhoso acordo com o regime turco sobre os refugiados os dirigentes europeus não se tenham apercebido do longo e trágico alcance da sua medida oportunista. Ao colocarem-se ao dispor do poder de chantagem de Recep Tayyp Erdogan, o presidente da Turquia, deixaram não apenas a União Europeia, mas todo o continente, à mercê de um dos principais patronos do terrorismo islâmico, um ditador que vem seguindo metodicamente uma via de poder absoluto e cujas ondas de choque não serão contidas no interior das fronteiras do seu país.

Erdogan não é um político, é um homem que crê ter uma missão superior. “A democracia é um eléctrico que apanhamos para nos levar até onde queremos, e depois descemos”, disse há 20 anos este homem que chefia um regime de índole totalitária, em relação ao qual a NATO não manifesta qualquer reserva, antes pelo contrário. Agora que chegou à presidência turca, em eleições adulteradas e nas quais dispôs do incentivo de dois milhões de euros doados pela ditadura da Arábia Saudita, Erdogan já suprimiu da comunicação social as vozes incómodas e, do palácio branco das mil e uma noites que fez erguer, prepara-se para consolidar a ditadura islâmica interna e institucionalizar, sem quaisquer limites, a marginalização da minoria curda.

(...)

Pelo que somos forçados a concluir que a famosa “guerra contra o terrorismo” nos principais Estados europeus serve, em primeiro lugar, para impor, paulatinamente, uma sociedade policial.

 


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Terça-feira, 29 de Março de 2016
Terrorismo - Um pilar da estratégia de dominação mundial

aeroporto_bruxelas_atentado_2016-03-22

 

Nunca se falou tanto em terrorismo, nunca se proferiram tantas declarações definitivas sobre os esforços necessários para a extinção do fenómeno, nunca se teorizou e debateu tanto sobre a matéria e, no entanto, o papel do terrorismo na sociedade jamais foi tão influente – e fatal – como nos 15 anos que o século XXI leva de existência.

Uma das mais nefastas atitudes perante o terrorismo é a deturpação ostensiva do conceito, a sua redução a determinadas e particulares formas de violência, prática que dissimula e pretende absolver expressões organizadas e poderosas de terror quase sempre apresentadas como actos legítimos de anti terrorismo ou de «guerra contra o terrorismo».

Isto é, resumir as notícias e o debate sobre o terrorismo, como actualmente se faz, ao terrorismo dito de inspiração «islâmica» ou assimilável, é uma manobra manipuladora que pretende fazer esquecer, ostensivamente, o terrorismo de Estado ou expressões de violência que florescem à sombra deste, as quais tanto podem ser os clássicos esquadrões da morte como o patrocínio clandestino de grupos e organizações com vocação para derrubar governos e organizar golpes de Estado. Ou, como já deixou de ser segredo, organizar, treinar, armar e financiar grupos terroristas ditos «islâmicos», os quais, em boa verdade, não passam de exércitos privados de mercenários.

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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015
Síria e Médio Oriente

Mapa Médio Oriente

A hipocrisia já não consegue esconder o que de facto pretendem os EUA e a NATO tal como não consegue esconder o seu papel na desestabilização da Síria. Tal facto é bem demonstrado pelas «acusações» veiculadas nos media ocidentais de que a Federação Russa estará a «bombardear facções que actuam sob o "chapéu" do Exército Livre da Síria, apoiado pelo Ocidente, incluindo combatentes treinados pela CIA». Uma «acusação» que é a mais brilhante confissão daquilo que há muito dizemos, ou seja, de que o conflito sírio foi decidido, criado e alimentado pelo imperialismo norte-americano e seus aliados e que as organizações de mercenários e terroristas que espalham a destruição e o caos naquele país são financiadas, armadas e treinadas pelas potências da NATO, a Arábia Saudita, o Qatar e a Turquia.

 

«Voltando a Assad, importa referir que a sua família pertence ao Islão tolerante da orientação Alawid.

As mulheres sírias têm os mesmos direitos que os homens ao estudo, à saúde e à educação.

Na Síria as mulheres não são obrigadas a usar burca. A Chária (lei Islâmica) é inconstitucional.

A Síria é o único país árabe com uma constituição laica e não tolera os movimentos extremistas islâmicos.

Cerca de 10% da população síria pertence a alguma das muitas confissões cristãs presentes desde sempre na vida política e social.

Noutros países árabes a população cristã não chega a 1% devido à hostilidade sofrida.

A Síria é o único país do Mediterrâneo que continua proprietário da sua empresa petrolífera, que não quis privatizar.

A Síria tem uma abertura à sociedade e cultura ocidentais como nenhum outro país árabe.

Ao longo da história houve cinco Papas de origem síria. A tolerância religiosa é única na zona.

Antes da guerra civil era o único país pacífico da zona, sem guerras nem conflitos internos.

A Síria é o único país árabe sem dívidas ao Fundo Monetário Internacional.

A Síria foi o único país do mundo que admitiu refugiados iraquianos sem nenhuma discriminação social, política ou religiosa.

Bashar Al Assad tem um suporte popular extremamente elevado.

Sabia que a Síria possui uma reserva de petróleo de 2500 milhões de barris, cuja exploração está reservada a empresas estatais?

 

Talvez agora consiga compreender melhor a razão de tanto intere$$e da "guerra civil" na Síria e de quem a patrocina ...»

 

Bandeira Siria

 

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Domingo, 20 de Setembro de 2015
Síria

Mapa Siria

O drama dos refugiados na Europa tem sido amplamente mediatizado para desviar a atenção da crise do processo de integração capitalista europeu, retocar a imagem de uma Alemanha profundamente desacreditada pelas brutais imposições à Grécia, justificar apelos a «uma autoridade forte» que reforce ainda mais o carácter supranacional da UE e, sobretudo, esconder as verdadeiras causas e responsáveis pela onda de fugitivos da guerra e da morte. E nos últimos dias, com a entrada em cena dos EUA (que se propõem receber dez mil refugiados sírios) tornou-se evidente que o imperialismo procura instrumentalizar a «crise dos refugiados» para dar um rosto «humanitário» à sua intervenção na Síria e, a coberto do «combate» ao «Estado Islâmico», intensificar as operações militares contra o regime presidido por Bashar al-Assad. A França de Hollande, certamente saudosa dos tempos em que a partilha imperialista dos despojos do Império Otomano lhe atribuiu um mandato colonial sobre a Síria e o Líbano, tomou a dianteira e anunciou bombardeamentos em território sírio. Agora é Obama que, obcecado pelo derrube do governo sírio, vem ameaçar a Federação Russa, que mantém com a Síria uma aliança de muitas décadas, pela sua assistência militar a Damasco.

Ao mesmo tempo que é necessário exigir solução humanitária e política urgente para a dramática situação dos refugiados, não pode permitir-se qualquer distracção quanto à estratégia agressiva do imperialismo. É hoje evidente que o misterioso «Estado Islâmico» foi uma criação do imperialismo norte-americano e da reacção árabe para justificar a política de ingerência, desestabilização e guerra em toda a Região e, em particular, para liquidar a resistência da Síria ao dictat dos EUA e ao seu projecto do «Grande Médio Oriente». Depois de quatro anos de aberta ingerência e brutal agressão das grandes potências da NATO; de sucessivos fracassos e derrotas de «alianças» mercenárias forjadas, armadas e comandadas no exterior; de milhares e milhares de mortes e imensas destruições; de mais de seis milhões de deslocados internos e quatro milhões de refugiados (a esmagadora maioria nos países limítrofes: Turquia, Líbano e Jordânia), a Síria continua a resistir, e isso é inaceitável para o imperialismo. O relançamento da campanha contra este país, procurando responsabilizar o seu governo pela crise dos refugiados e levantando de novo a acusação de utilização de armas químicas e de outros crimes de guerra, não é prenúncio de nada de bom. É necessário desmascarar a tentativa de transformar em bode expiatório a própria vítima.

É oportuno lembrar que a Síria foi durante muito tempo o mais estável país do Médio Oriente; que esteve sempre na primeira linha de combate ao expansionismo sionista que desde 1976 ocupa ilegalmente os seus Montes Golã; que desde a sua revolução anti-colonial praticou uma política externa anti-imperialista e de cooperação com o campo socialista; com governos dirigidos pelo partido Baas assentes em alianças em que participam comunistas e outros partidos nacionalistas e progressistas; que tem sido refúgio e rectaguarda de palestinianos e outras forças ilegalizadas nos seus países. Num quadro de completa independência e respeito pelas diferenças, o PCP tem mantido relações como o partido Baas no poder e o próprio camarada Álvaro Cunhal visitou este país. Com os seus problemas e contradições a Síria tem desempenhado um papel globalmente progressista no plano árabe e no mundo. É esta realidade que o imperialismo quer a todo o custo abater enquanto na Turquia, com a cumplicidade do «mundo ocidental e cristão» está em marcha uma feroz escalada de repressão do povo curdo e a ditadura saudita bombardeia a capital do Iémen.

(sublinhados meus)

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Bandeira Siria

 

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2015
Conspirações

Mapa Médio Oriente

Não se trata de 'teoria da conspiração', mas de conspiração confirmada e documentada. O grupo norte-americano Judicial Watch publicou em Maio documentos oficiais dos ministérios dos Estrangeiros e Defesa dos EUA, obtidos após processo judicial. O jornalista Seumas Milne (Guardian, 3.6.15) refere «um relatório secreto dos serviços de informações dos EUA, escrito em Agosto de 2012, que estranhamente prevê – e na prática saúda – a possibilidade dum 'principado Salafita' no Leste da Síria e dum Estado Islâmico controlado pela al-Qaeda na Síria e Iraque. Em flagrante contraste com as alegações ocidentais de então, o documento da Defense Intelligence Agency identifica a al-Qaeda no Iraque (que se viria a tornar no ISIS) e os seus correligionários Salafitas como 'as principais forças que dinamizam a insurreição na Síria' e declara que 'os países ocidentais, os estados do Golfo e a Turquia' apoiam os esforços da oposição para controlar o Leste da Síria». Diz o relatório: «a possibilidade de estabelecimento dum principado Salafita declarado ou não» é «precisamente aquilo que as potências que apoiam a oposição desejam, de forma a isolar o regime sírio».

Ler texto integral

 


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Sábado, 20 de Julho de 2013
Henri Alleg (20 Julho 1921 / 17 Julho 2013) Um Comunista e Revolucionário exemplar

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Esperava a notícia da morte de Henri Alleg.

Faleceu ontem, quarta-feira, mas saíra praticamente da vida no ano passado quando, em férias numa ilha grega, sofreu um avc. O seu cérebro foi tao atingido que a recuperação era impossível.

Ficou semi hemiplégico e passou os últimos meses numa clinica, caminhando para o fim numa existência quase vegetativa. Reconhecia os filhos, dizia algumas palavras, mas o seu discurso tornara-se caótico.

Ligou-me a esse homem uma amizade tão profunda que sinto dificuldade em a definir.

Aos 90 anos passou uma semana em V.N de Gaia, comigo e a minha companheira, e pronunciou então na Universidade Popular do Porto uma conferência sobre a Argélia e os acontecimentos que abalavam o Islão africano. Pelo saber histórico e lucidez impressionou quantos então o ouviram.

Admirava-o há muito quando o conheci na Bulgaria,em l986, durante um Congresso Internacional. A empatia foi imediata, abrindo a porta a uma amizade que se reforçou a cada ano.

Henri, apos o 25 de Abril, foi correspondente de L’ Humanité em Lisboa. Não tive então oportunidade de o encontrar. Mas no último quarto de século visitou Portugal muitas vezes. A Editora Caminho publicou três livros seus (SOS América, O Grande Salto Atrás e O Século do Dragão) e a Editora Mareantes lançou a tradução portuguesa de La Question (A Tortura), o livro que o tornou famoso e contribuiu para apressar o fim da guerra da Argélia.

Amava Portugal, especialmente o Alentejo da Margem Esquerda do Guadiana, e admirava muito o Partido Comunista Português.

Participou em Portugal de diferentes Encontros Internacionais e, numa das suas visitas a Lisboa, foi recebido pela Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da Republica, debateu ali com deputados de todos os partidos grandes problemas do nosso tempo, e foi depois aplaudido pelo plenário.

Recordo também o interesse excecional suscitado pela sua passagem pelo Brasil e Cuba, onde o acompanhei nas suas visitas àqueles países.

A complexidade do sentimento de admiração que Henri Alleg me inspirava levou-me a escrever sobre ele e os seus livros mais páginas do que ao longo da vida dediquei a qualquer outro escritor. Elas aparecem em livros meus e em artigos publicados em jornais e revistas de muitos países. Evito portanto repetições.

Recordo que ao ler La Grande Aventure d’Alger Republicain o choque - é a palavra- foi tao forte que sugeri numa conferência que o estudo desse livro deveria figurar no programa de todas as Faculdades de Jornalismo do mundo.

O que encontrei de diferente em Henri Alleg?

Refletindo sobre o fascínio que aquele homem exercia sobre mim, conclui que a admiração nascia da firmeza das suas opções ideológicas, de uma coragem espartana e de um eticismo raríssimo.

Mais de uma vez lhe disse que via nele o modelo dos bolcheviques do ano 17.

Henri apareceu-me como o comunista integral, puro, quase perfeito. Não conheci outro com quem me identificasse tao harmoniosamente no debate de ideias.

É de lamentar que Mémoire Algérienne não tenha sido traduzido para o português. Nesse livro de memórias, que é muito mais do que isso, Henri, nos capítulos finais, permite ao leitor imaginar o sofrimento do comunista que acompanha o rápido afastamento, apos a independência, dos dirigentes da FLN dos princípios e valores que tinham conduzido os revolucionários argelinos à vitória sobre o colonialismo francês. Pagou um alto preço pela autenticidade com que se distanciou do poder em Alger Republicain, o seu diário, fechado por Houari Boumedienne, herói da luta pela independência.

Pesado foi também o preço que pagou em França, onde, apos o regresso à Europa, foi secretário de Redação de L’ Humanité, então órgão do CC do Partido Comunista Francês.

Henri Alleg denunciou desde o início a vaga do euro comunismo que atingiu os partidos francês, italiano e espanhol, entre outros.

Criticou com frontalidade a estratégia que levou o PCF a participar em governos do Partido Socialista que praticaram políticas neoliberais.

No belo livro que escreveu sobre a destruição da URSS e a reimplantação do capitalismo na Rússia fustigou os intelectuais que, renunciando ao marxismo, passaram em rápida metamorfose a defensores do capitalismo e a posições antissoviéticas. Não hesitou mesmo em criticar o próprio secretário-geral do PCF, Robert Hué, considerando a orientação imprimida ao PCF como incompatível com as suas tradições revolucionárias de organização marxista-leninista.

Mas, contrariamente a outros camaradas, travou o seu combate de comunista dentro do Partido como militante.

Tive a oportunidade em França, de registar,em assembleias comunistas a que assisti, o enorme respeito que Henri Alleg inspirava quando tomava a palavra. Verifiquei que mesmo dirigentes por ele criticados admiravam a clareza, o fundamento e a dignidade do seu discurso critico.

Nos últimos anos, apesar de uma saúde frágil, compareceu em programas de televisão, voltou a Portugal e revisitou a Argélia onde foi recebido com entusiasmo e emoção. Nos EUA as suas conferências suscitaram debates ideológicos de uma profundidade incomum, com a participação de comunistas e académicos progressistas. E quase até ao AVC que o abateu, percorreu a França, respondendo a convites de Federações Comunistas e outras organizações. A juventude, sobretudo, aclamava- o com ternura e admiração.

A morte da companheira, Gilberte Serfaty, em 2010, foi para ele um golpe demolidor.

«Não mais posso sentir a alegria de viver…» - respondeu-me quando o interroguei sobre o peso da solidão. Ela, argelina, era também uma comunista excecional. Contribuiu muito para organizar com o Partido a sua fuga rocambolesca da prisão francesa de Rennes, para onde fora transferido da Argélia.

Muitas vezes, quando ia a França, instalava-me na sua casa de Palaiseau,nos subúrbios de Paris. Henri, que era um gourmet e um grande cozinheiro, recebia-me com autênticos banquetes e preparava um maravilhoso couscous, acompanhado de vinhos argelinos.

Na última visita a Palaiseau antes da sua doença, minha companheira e eu participamos de um jantar inesquecível. Eramos cinco: nós, Henri, Gilberte e o filho, Jean Salem, já então um filósofo marxista de prestígio internacional.

Recordo que nessa noite passamos o mundo em revista. Henri irradiava energia; amargurado com o presente cinzento da humanidade, falou do futuro com a esperança de um jovem bolchevique.

Repito: Henri Alleg foi um revolucionário e um comunista exemplar.

Miguel Urbano Rodrigues - Vila Nova de Gaia,18 de julho de 2013

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Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2011
O mundo árabe tem história

Tudo fizeram para que o esquecêssemos, mas, projectada pelo autêntico levantamento popular que percorre o mundo árabe e regada por muito sangue, a realidade impôs-se, e com ela uma extraordinária vitória no plano ideológico.

O mundo árabe tem história. No Médio Oriente nasceram grandes civilizações e o progresso científico e técnico, assim como as grandes realizações da Cultura e da Arte, devem muito ao mundo árabe e islâmico, como nós próprios, portugueses, também devemos. Na luta pela sua libertação do jugo colonial e pela edificação de estados independentes, os povos árabes escreveram páginas de grande heroísmo, consentindo grandes sacrifícios frente à brutal repressão das potências ocupantes, que teve na guerra da Argélia (1954/62) com a acção terrorista da OAS a sua mais cruel expressão. O movimento de libertação nacional dos povos árabes conheceu um primeiro grande avanço sob o impulso da Revolução de Outubro. Derrotou o conluio da França e Inglaterra para partilhar os despojos do Império otomano no Machrek (Iraque, Síria, Líbano...) e após a Segunda Guerra Mundial estendeu-se ao Maghreb e a todo o mundo árabe. Sucessivamente, Líbia, Marrocos, Tunísia, Argélia conquistam a independência. No Egipto os «oficiais livres» de Nasser derrubam a monarquia pró «ocidental» de Faruk (1952), nacionalizam o canal do Suez e enfrentam a agressão israelo-franco-britânica, aliam-se com a URSS contra a sabotagem económica e as ingerências do imperialismo. Com a importante contribuição de fortes partidos comunistas e com o exemplo e ajuda do campo socialista, têm lugar em vários países importantes transformações anti capitalistas – como no Iraque com a revolução de 1969 em cujo décimo aniversário participou uma delegação do PCP – e desenvolvem-se mesmo processos orientados para o socialismo, como no Iémen do Sul, país que o camarada Álvaro Cunhal visitou em 1980.

(sublinhados meus)

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Terça-feira, 12 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (VII)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

Conclusão

Toda a argumentação exposta no discurso imperialista do choque de civilizações e dos blogues analisados conduz para uma série de itens que vale a pena resenhar brevemente.

  • A civilização ocidental seria a única formadora e a única agência portadora dos valores da democracia e da liberdade. Fora deste espaço geocultural não haveria capacidade autónoma dos restantes países para desenvolver qualquer tipo de valores e práticas emancipadoras. Por outro lado, só são tomados como aceites os valores do mercado, do chamado “comércio livre” e da democracia representativa não-participativa e bipolarizada entre uma esquerda e uma direita que apenas diferem na forma e nunca na substância das suas orientações programáticas.
  • Não tendo condições para colonizar e ocupar territorialmente e para evangelizar (religiosa e culturalmente) todo o espaço islâmico, a saída para o Ocidente seria, neste momento, fortalecer a sua unidade ideológica em torno dos princípios enunciados no item anterior e, por outro lado, enveredar por acções militares que possam esmagar militarmente ou neutralizar o seu inimigo.
  • Sendo os valores do Ocidente tomados como os mais aptos ao desenvolvimento de uma humanidade tolerante e harmoniosa, torna-se muito fácil deduzir daqui que a chamada civilização ocidental se personifica no Bem. Ao inverso, o Islão – ainda por cima tomado no seu conjunto, englobando populações civis, Estados e organizações terroristas – seria um inimigo visceral dos valores do Ocidente, logo, do Bem. Com a mesma facilidade, o Islão encarna o Mal.
  • Todo e qualquer esforço intelectual de indagação do fenómeno e que, minimamente, confronte toda esta construção teórico-ideológica do choque de civilizações é imediatamente taxado de irrealista e insensato. Um verniz anti-intelectualista e abertamente defensor do uso da violência e da força militar reveste todos os blogues do mainstream português.
  • Nenhum dos blogues rejeitou o ocidentalcentrismo impresso nas teses do choque de civilizações. Pelo contrário, aprofundam e expandem o seu espectro ideológico a mais camadas da população. Ao mesmo tempo, não se encontra qualquer tipo de desenvolvimento teórico que equacione o funcionamento do sistema internacional capitalista nas suas bases materiais, portanto, económicas e políticas. No fundo, toda a problematização realizada nos blogues aludidos (amostra que nos parece real e definidora de boa parte da blogosfera mainstream) centra-se, a mais das vezes, na construção de estereótipos. Toda a problematização teórica relativiza o debate em termos de coordenadas matriciais das Ciências Sociais, privilegiando a explanação de enunciados morais e moralizantes. Dessa forma, simples questões relacionadas com a organização internacional do sistema capitalista como as que expusemos na secção anterior, são completamente passadas ao lado. Em jeito de remate, não deixa de revelar uma forte ambiguidade o facto de

a) os maiores apologistas das virtudes da economia global e competitiva e que justificam todo o tipo de regressões de direitos sociais como inevitabilidades da vivência no seio dessa mesma economia global,

b) serem precisamente os mesmos que cindem o sistema capitalista internacional em duas partes estanques, mutuamente exclusivas e sem quaisquer tipo de veios de interacções económicas, sociais e políticas que não sejam choques inter-religiosos ou inter-civilizacionais.

                            

Sociólogo

               


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Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (VI)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

II – Contradições e ambiguidades do discurso do choque de civilizações: algumas coordenadas teóricas sobre a teoria do capitalismo neoliberal

As teses do choque de civilizações, tanto na sua versão original de Huntington como na versão adaptada dos blogues portugueses do mainstream, não comportam uma série de elementos que nos parecem essenciais para a compreensão do actual cenário internacional. De facto, mais do que uma tentativa de compreensão e/ou explicação do mundo, o paradigma do choque de civilizações constitui-se como um empreendimento ideológico de justificação e legitimação da política externa dos EUA e seus aliados mais próximos e poderosos.

Podemos então relacionar o eurocentrismo, nomeadamente na sua formulação mais ocidentalocêntrica, com as teses do choque de civilizações, na medida em que este último não se distingue da defesa de um projecto político mundial de dominação. De facto, pode-se afirmar que tanto no modelo do choque de civilizações, como no eurocentrismo clássico, inventou-se um Ocidente de sempre, único e singular desde a sua origem. Ora, a construção de um Ocidente imutável e com características próprias e únicas aí existentes desde tempos quase imemoriais, implica igualmente a construção de um antagonista com características próprias e intemporais, apesar de opostas e consideradas como irreconciliáveis com os valores e vivências ocidentais. Por outras palavras, esta construção, arbitrária e mítica do Ocidente impunha em simultâneo a construção também artificial de outras (os Orientes ou o Oriente) em bases igualmente míticas, mas necessárias para a afirmação da preeminência dos factores de continuidade sobre a mudança.

O eurocentrismo/ocidentalcentrismo presente no modelo do choque de civilizações reproduz uma lógica que em alguns aspectos se pode considerar como nova. Na verdade, a sua vertente mais recente concentra-se mais na atribuição de dimensões e propriedades inatas a um universo geográfico-cultural, consagrando a passagem de um racismo genético e biologizante (Alemanha nazi) para um racismo geográfico e cultural. Desmontadas e desconstruídas por boa parte da evolução da Genética e da Biologia as noções da hierarquização biológica de raças e povos, o eurocentrismo reconverteu-se em novos moldes, sem nunca perder a sua trave-mestra – a pretensa superioridade civilizacional do Ocidente sobre as restantes civilizações. Esta assunção da superioridade do Ocidente mantém-se.

Explicitando, o que a nosso ver é factor de novidade prende-se com o menor enfoque dado à dimensão biológica, mas com o maior peso da proveniência cultural e da identidade cultural subjacente a uma determinada região do globo. Onde antes o cultivo de ódios em relação ao mundo exterior ao Ocidente assentava numa discursividade preponderantemente biológica, hoje o seu mais forte instrumento de transmissão é a fetichização da cultura. Se no colonialismo do século XIX as loas poéticas de Ruyard Kipling relativamente ao “fardo do homem branco” em dominar a periferia do sistema-mundo assentavam na inferioridade biológica dos povos não-ocidentais (considerando os negros e os índios como seres mais próximos dos animais do que dos seres humanos), a versão mais recente do ocidentalcentrismo aborda tudo o que diz respeito à subjectividade de uma determinada comunidade humana – religião, costumes, hábitos, visões do mundo, arte, linguagem, modos de sociabilidade, tradições, etc. – como algo congelado num circuito fechado, inscrevendo um carácter de perenidade e imutabilidade a essa mesma comunidade humana. Por outro lado, e de modo simultâneo, comunidades culturais com traços culturais e sociais distintos, são facilmente amalgamados num conjunto religioso-cultural mais vasto, como por exemplo, o Islão ou o Ocidente. Desta forma, dá-se apenas importância a um ou dois conjuntos de variáveis culturais – nomeadamente a religião – para obscurecer as diferenças enormes ao nível cultural, económico, político e social que comporta o chamado mundo muçulmano. No fundo, a uma variável generalizante – no caso do Islão, a religião muçulmana – reduzem-se e omitem-se todas as outras diferenças culturais, políticas e sociais dentro da chamada civilização islâmica. Estamos perante um método superficial que consiste em retirar conclusões totalizantes a partir de um detalhe unilateralmente captado. Mesmo o reconhecimento de diferenças e divergências internas no seio do Islão é invariavelmente subsumido e tomado como irrelevante no quadro do choque de civilizações.

O racismo geográfico e cultural do imperialismo em relação ao chamado Islão ancora-se, portanto, na assunção de que nenhuma sociedade pertencente a este bloco civilizacional foi, é e será alguma vez capaz, por si só, de implementar valores democráticos e de liberdade. Neste ponto podemos afirmar que duas arestas ideológicas se tocam inequivocamente: o liberalismo e o eurocentrismo/ocidentalcentrismo. Por um lado, este racismo geográfico e cultural resgata teses assentes na equivalência imediata e inquestionável entre democracia, liberdade e liberalismo. Fora do mercado, do trabalho assalariado e do Estado dominado e controlado por elites [2] que se revezam entre si para controlarem o poder político, nada é democrático e portador de mecanismos de construção democrática da sociedade. Logo, qualquer modelo alternativo que fuja aos mecanismos liberais e capitalistas de ordenamento das sociedades é inevitável e imediatamente classificado de não-democrático.

Por outro lado, se se reconhecer que ao Islão está vedado qualquer papel autónomo na construção das suas sociedades em termos de democracia e liberdade, então só o Ocidente o poderá levar a cabo. No fundo, a construção ideológica de um Oriente mítico, que tanto pode ser o Islão, o Japão, a Índia ou a China e cujas características são tratadas como definitivas e definidas simplesmente por oposição às características atribuídas ao Ocidente capitalista, pavimenta uma visão e um discurso que abona pela intervenção “missionária” do Ocidente naqueles territórios e populações.

O pai ideológica das teses do choque de civilizações, Samuel Huntington, é inteligente o suficiente para não abraçar de forma irracional e imediata as teses eurocêntricas do século passado que propugnavam pela homogeneização de todo o planeta à imagem e semelhança do Ocidente. O autor do choque de civilizações compreende que esse é um objectivo que, no curto e médio prazo, não está ao alcance dos EUA e dos seus aliados europeus. Contudo, isso não significa que haja um afrouxamento da assunção da superioridade do Ocidente sobre as outras civilizações. Na realidade, a defesa dos EUA e do Ocidente como potência e civilização hegemónicas, respectivamente, mantém-se intacta. O que Huntington e todos os autores pró-imperialistas chamam a atenção é para os limites actuais (e assumidos como meramente conjunturais) da dominação capitalista – incapaz de criar um mercado mundial homogéneo – e da dominação imperialista – incapaz de submeter pelas armas todas as populações e Estados não-ocidentais a um controlo absoluto e inquestionável por parte do Ocidente capitalista.

De um ponto de vista sócio-económico, onde o colonialismo era a modalidade de expropriação directa e abertamente violenta dos recursos sociais de produção, a partir das duas últimas décadas, neoliberalismo e ocidentalcentrismo combinam-se como uma nova forma de reconfiguração da dominação económica e política das periferias do sistema capitalista internacional. Basicamente, o controlo económico da periferia passa pelo amarrar das dinâmicas internas do mercado em cada território (os mercados nacionais da periferia) ao funcionamento do mercado mundial. Nesse sentido, o controlo da periferia sustenta-se no reforço das relações económicas que subterrânea e invisivelmente reconvertem e reconfiguram os mercados nacionais periféricos, transformando-os em zonas especializadas de produção de excedente económico, de acordo com os interesses dos grandes conglomerados económicos e dos Estados do Ocidente.

No que toca ao Islão, registe-se o impacto das dinâmicas neoliberais nos países do Médio Oriente. De facto, naquelas formações sociais existe uma evidente degradação do seu padrão de desenvolvimento. Na sua generalidade, são países com uma estrutura económica fundamentalmente assente na exploração e exportação de petróleo e gás natural e quase sem outro tipo de indústria, como vastas áreas do Norte de África e do Médio Oriente. Mesmo que em partes deste segmento da economia internacional as relações capitalistas de produção não sejam preponderantes, o seu grau de ligação aos mercados internacionais é inquestionável. Tão ou mais importante que o fornecimento de matérias-primas para o centro – que é, sem dúvida, um importante ramo de actividade destes países –, o que está aqui em causa é o bloqueamento do desenvolvimento destes países. De facto, este componente da periferia é atravessado por modos de produção não-capitalistas que têm um papel essencial a dois níveis:

a) na equalização da taxa de lucro médio internacional a partir da competição entre capitais com diferentes composições orgânicas;

b) no fornecimento de uma força de trabalho que se produziu de forma praticamente gratuita para o centro do sistema capitalista internacional, particularmente provenientes dos países do Magrebe.

Num outro ângulo, importa referir que os EUA e as principais nações da Europa ocidental lutaram activamente contra projectos de libertação e desenvolvimento nacional (Egipto de Nasser, Argélia de Ben Bella, Iraque antes de Saddam, Líbia de Kadhafi, Síria do Baas, Afeganistão e o Partido Democrático e Popular, Indonésia e a aliança do Partido Comunista Indonésio com sectores democratas daquele país, etc.). Todos esses projectos desenvolvimentistas ou populares, com evidentes diferenças entre todos eles, foram levados a cabo com o intuito de criar economias que permitissem estreitar o fosso na produção e distribuição de recursos económicos à escala mundial. Por intermédio da aposta em vias próprias de industrialização com sectores económicos diversificados e autosustentados, e com a tentativa de construção de aparelhos de Estado autónomos das directrizes das embaixadas dos anteriores países colonizadores, os projectos nacionalistas (e por vezes pró-socialistas) árabes e muçulmanos eram alavancas essenciais para quebrar a lógica de expropriação e de subdesenvolvimento que a organização capitalista da economia internacional lhes impunha. O apoio incondicional do chamado Ocidente a grupos integristas islâmicos nos anos 70 (Afeganistão) ou a futuros inimigos (como Saddam Hussein no Iraque) provam que a ofensiva contra a criação de um modelo nacional de desenvolvimento nos países muçulmanos, é uma peça-chave para se compreender o afundamento das burguesias nacionais e laicas daqueles Estados bem como da possibilidade de se ter implementado modelos alternativos e democráticos de desenvolvimento económico, político e social. O mesmo se passou com as forças e camadas sociais populares que participaram activamente nesses projectos. Ao invés, o imperialismo apostou sempre em fomentar o crescimento de classes dominantes locais compradoras, isto é, desligadas de um projecto de desenvolvimento industrial e provenientes do sector económico mais atrasado (a agricultura) e com uma cultura religiosa fanática. No fundo, classes dominantes sem objectivos económicos de criar um padrão de desenvolvimento económico e social autónomo, mas que se cingem à partilha da exploração de recursos energéticos com as classes dominantes ocidentais e a sectores de monocultura agrícola ou industrial. São estas classes dominantes locais que em países como a Arábia Saudita apoiam a linha política definida por Washington. São estas mesmas elites árabes locais que, em contextos de uma mais desigual partilha da pilhagem dos recursos e das riquezas, se transformam em talibans ou em grupos fomentadores do extremismo islâmico contra os antigos comparsas de pilhagem e opressão.

(continua)

                                                      

Notas:
[2] Elites políticas subordinadas às classes dominantes numa formação social e económica.

                                 


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Domingo, 10 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (V)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

No blogue Atlântico, propriedade da revista com o mesmo título, o mesmo teor temático encontra-se espelhado nos seus textos. O mesmo tipo de juízos acerca da indeterminação das causas do terrorismo e do carácter de exclusão e niilista dos terroristas é novamente abordado:

«Quase todas as conspirações do terrorismo islâmico – desde a revolução xiita no Irão até aos atentados de 11 de Setembro – foram preparadas no Ocidente por muhajiroun (sic) que vivem, muitas vezes ao abrigo das leis de asilo, aparentemente satisfeitos e integrados no seio de comunidade instaladas. Mas como nenhum elo de pertença os poderá jamais vincular a estas comunidades, nunca chegam a adquirir a lealdade nacional de quem os acolheu. (…) Impotentes para organizar uma oposição no país de origem e incapazes de aderir à sociedade em que vivem, acabam por ser atraídos pela violência como prova derradeira da sua identidade (Atlântico, 10 de Setembro de 2007).

Assim, a única explicação relativamente à causalidade do fenómeno terrorista fica-se pela atribuição a um único factor (a não inserção de membros das comunidades muçulmanas no Ocidente no restante tecido social externo) nunca desenvolvido e sem nunca colocar em causa o dualismo Bem/Mal.

Um último ponto que gostaríamos de focar tem que ver com a avaliação que os intelectuais defensores dos fundamentos do choque de civilizações fazem dos seus contendores e dos que questionam a actual escalada internacional de guerras levadas avante pelos EUA e pelo Ocidente. Num longo texto, Paulo Tunhas (PT) vai criticar o que considera ser o estado de impunidade com que os terroristas islâmicos gozam de «uma boa quantidade de políticos e intelectuais ocidentais» (Atlântico, 10 de Dezembro de 2007). Para o autor só há uma explicação possível e ela só poderá ser de ordem psicológica e mental. Recortando o pensamento de Freud sobre as neuroses em citações descontextualizadas, Paulo Tunhas compara o crítico ou céptico à ortodoxia eurocentrista do choque de civilizações a um indivíduo vivendo num estado neurótico:

«Como escreve Freud: “Em cada uma das neuroses, não é a realidade da experiência, mas antes a realidade do pensamento, que forma a base da formação do sintoma”. A intensidade e o afecto são fundamentais no mundo neurótico: apenas as “coisas intensamente pensadas ou afectivamente concebidas” contam para o neurótico, independentemente de estarem ou não de acordo com a realidade exterior. Tal como no caso do primitivo, crê-se que o mundo exterior pode ser mudado por um simples acto de pensamento» (idem).

A isto o autor chama de «omnipotência do pensamento» (idem). Mais uma vez o processo de intelecção e de busca pela compreensão do fenómeno em causa é considerado pejorativamente. Na prática, tal comportamento auto-centrado na reflexão especulativa resultaria numa confusão entre vítimas e culpados, como se a discussão do fenómeno do terrorismo e dos conflitos no Médio Oriente se engendrasse em termos estritamente morais, ou seja, entre bons e maus, entre justos e injustos, entre culpados e inocentes.

«Uma consequência verdadeiramente interessante desta atitude é, de facto, a posição singular que ela engendra face à culpa e à inocência. Aqueles a quem é atribuída uma passividade ontológica radical não são, por definição, susceptíveis de culpa. São naturalmente inocentes. São, pelo contrário, estritos depositários da culpabilidade aqueles a quem é exclusivamente atribuída a actividade. Logo a seguir ao 11 de Setembro de 2001, os EUA foram imediatamente considerados por muita gente como os verdadeiros fautores do ataque às Torres Gémeas e ao Pentágono (sem esquecer o alvo falhado do avião que caiu na Pensilvânia)» (idem).

A responsabilidade dos EUA no apoio à Al-Qaeda e aos taliban durante a guerra no Afeganistão (1979-1989) e no fomento do integrismo islâmico durante as décadas de 60 a 80 parecem estar esquecidos ou pura e simplesmente omitidos do discurso mais amplamente favorável às administrações norte-americanas.

Assim, a discursividade típica destes intelectuais também procura responder às críticas que lhes são endereçadas, o que é perfeitamente legítimo, justo e expectável. Porém, a sua contra-resposta raramente aborda o conteúdo das proposições dos seus contendores, preferindo reduzir as suas réplicas a enunciados de tipo psicologistas. Se no blogue Kontratempos os críticos não passam de uma «brigada de alienados» (Kontratempos, 12 de Setembro de 2007), PT envereda pela mesma formulação teórica, se bem que esculpida e justificada em pormenores pretensamente científicos como a teoria de Freud. Portanto, para Paulo Tunhas o delineamento de críticas como, entre muitas outras, a ligação da Al-Qaeda aos EUA ou o facto de o terrorismo islâmico surgir como contra-efeito da dinâmica da actual globalização capitalista em formações sociais de população maioritariamente muçulmanas, mais não seriam do que fetiches para «satisfazer inconscientemente essa crença infantil, regressiva e narcísica na omnipotência da actividade ocidental» (Atlântico, 10 de Dezembro de 2007). Desenvolvendo a sua análise alavancada na psicologia freudiana aplicada à política internacional, PT aproxima as críticas à grelha ideológica do choque de civilizações e à sua efectivação prática ao que veicula ser o «racismo altruísta» (idem). Ou seja, o crítico está equivocado quanto mais não seja porque considera o islâmico como «estruturalmente passivo e radicalmente inocente, movendo-se apenas por reacção e pecando por angélica ausência de responsabilidade» (idem). Em rigor, para o autor, o crítico das teses do choque de civilizações encerraria o islâmico numa singularidade cultural. O islâmico mais do que uma particularidade cultural, seria, no caso do terrorista, um fanático, um diabólico portador do Mal. Segundo Tunhas, o racismo altruísta derivaria de uma plataforma histórico-psicológica muito precisa: a hiper-reflexividade.

«Aquilo que chamei “racismo altruísta” não representa uma tara sem origens determinadas. Ele exibe antes um dos aspectos actuais do desenvolvimento de certas condições sociais e históricas que remontam, pelo menos, à Aufklärung. Pensemos na importância da reflexividade no pensamento de Kant – mas poder-se-ia voltar a Montaigne, e, nos inícios, a Platão, não apenas autores mas símbolos de momentos reflexivos das sociedades. Essa reflexividade evoluiu parcialmente para uma hiper-reflexividade e conduziu à galáxia imprecisa do que se convencionou chamar pós-modernismo. A crença na omnipotência do pensamento coincide com a negação de tudo o que nos provoque desprazer: à realidade é substituído o pensamento, ou, melhor, a projecção do pensamento na realidade, projecção tanto mais eficaz quanto nos provoca um alívio psíquico. No mesmo gesto, nega-se tudo aquilo que pode pôr em causa o nosso narcisismo» (idem).

À primeira vista Tunhas parece estar a criticar tão simplesmente o idealismo filosófico, domínio da Filosofia e do pensamento perpassado pela reflexão especulativa e metafísica. Na verdade, Paulo Tunhas critica o racionalismo de um modo geral e a importância histórica da construção de pensamentos explicativos e reflexivos sobre as sociedades dos seus respectivos tempos históricos. Quer dizer, Tunhas desacredita o idealismo filosófico e especulativo no sentido de considerar toda e qualquer postura de interrogação do fenómeno do terrorismo islâmico como uma negação da realidade tal e qual ela é. No fundo, ao uso da racionalidade (seja ela especulativa ou não) Paulo Tunhas contrapõe o irracionalismo da força física, o irracionalismo no uso e recurso da violência bélica e militar sobre o chamado mundo muçulmano.

Por conseguinte, toda esta explicação desagua na assunção de que os que procuram compreender o Islão não passam pela prova da realidade. Isto é, todo e qualquer empreendimento teórico e intelectual seria uma «recusa do perigo real» e uma «invenção de perigos substitutos» (idem). Perante este cenário, a dita sociedade civil mais não teria de fazer do que enfrentar o princípio da realidade: combater com tenacidade e, acima de tudo, com violência o terrorismo islâmico. O mesmo é dizer que as guerras, invasões e bombardeamentos dos EUA e seus aliados sobre populações maioritariamente muçulmanas seriam actos perfeitamente legítimos, aceitáveis e sem os quais a dita civilização ocidental correria o risco de ser destruída. Na realidade, trata-se de justificar ideologicamente a intervenção militar em busca de recursos naturais, expansão geoestratégica e de defesa do dólar como moeda mundial, travestida de uma guerra do Bem contra o Mal, do Ocidente contra o Islão.

(continua)
 


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Sábado, 9 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (IV)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

Neste domínio como em muitos outros, é muito difícil destrinçar qualquer tipo de distinção conceptual e/ou ideológica de fundo entre todos os quatro blogues o que nos levaria a perguntar onde está a direita e onde está a esquerda, de acordo com a terminologia mais em voga no campo político. Quase que apetece perguntar até que ponto é que uma esquerda que não se distingue em praticamente nada da direita política se pode continuar a chamar de esquerda. De facto, o sistema de poder imperialista parece viver da necessidade de se legitimar criando “esquerdas” e “direitas” fictícias e que se resumem a aplicar os ditames de organização e regulação do sistema contra os direitos dos trabalhadores e dos povos.

Nos blogues que se afirmam de direita, começando pelo O Insurgente, manifesta-se a última aresta de pensamento veiculada na análise empreendida ao pretérito blogue. Na mesma bitola, o discurso (da apologia) da força continua a receber forte aplauso por parte da blogosfera mainstream. Senão vejamos.

«O Irão afirma-se cada vez mais em sua posição de “rogue state” e requer respostas mais duras da parte do Ocidente. Diante da necessidade imperativa de neutralizar uma ameaça concreta à sobrevivência de algum de seus aliados, os Estados Unidos, que são a maior potência militar do mundo, dispõem de condições de agir, porém a um custo possivelmente muito elevado perante a opinião pública internacional» (O Insurgente, 15 de Abril de 2007) [itálicos nossos].

As afirmações em itálicos demonstram mais do mesmo sumo argumentativo que temos vindo a dar conta pelo que não nos debruçaremos detidamente sobre isso. Ressalte-se apenas a última parte do trecho, onde cinicamente se declara que o maior obstáculo para uma possível intervenção militar dos EUA no Irão é o custo mediático e de popularidade para aqueles. Das vidas humanas dos soldados de ambas as partes e de prováveis milhares de civis mortos nada é referenciado no texto – e em nenhum dos que lemos de todos os blogues. A eficácia bélica e o pragmatismo funcional ditam as regras.

No mesmo texto, a Europa é criticada por não seguir o exemplo norte-americano e por não se fortalecer militarmente. Assim, a «Europa dedicou-se a construir um paraíso onírico kantiano onde a utilização da força é praticamente impensável e toda e qualquer ameaça deve ser enfrentada através do diálogo e do multilateralismo institucionalizado» (idem). Não é de todo verdade que os países europeus tenham adoptado na sua história métodos exclusivamente diplomáticos para resolver conflitos. Porém, o que há de mais relevante nesta afirmação tem que ver com a desvalorização do factor negocial em detrimento (do elogio aberto e tácito) do recurso da força como o procedimento mais legítimo e racionalmente razoável. No seguimento, reafirma-se, quase de forma obsessiva, a mesma motivação: 

«Se queres a paz, prepara-te para a guerra (“si vis pacem, para bellum”), já dizia o escritor militar romano Vegetius, por volta de 390 a.C. Assim, deve-se primeiro garantir a sobrevivência através do fortalecimento das capacidades de poder perante os outros Estados da região. Depois, pode-se começar a pensar nos benefícios da paz para o desenvolvimento de relações económicas que promovam o bem-estar e a prosperidade» (idem).

Estes dois aspectos – o elogio da força bélica e a criação de um estereótipo do terrorista como agente do Mal – conjugam-se perfeitamente.

Um artigo de Rui Ramos, previamente publicado no jornal Público, é muito esclarecedor de como estes dois eixos temáticos se interligam e conciliam na perfeição. Acompanhado por um cartaz de terroristas islâmicos com chamas infernais como pano de fundo, o artigo começa por criticar os contestatários das teses do choque de civilizações – «há quem não tenha desistido de “iraquizar” o Ocidente» (O Insurgente, 12 de Julho de 2007), o que significaria que qualquer opositor à política intervencionista dos EUA seria um colaborador dos extremistas islâmicos.

 

Logo de seguida o autor procede por via da ridicularização desses oponentes:

«Não lhes basta conter os terroristas. Querem compreendê-los. É possível contê-los. Mas compreendê-los? Compreender, para os Ocidentais, não é apenas entender: é detectar as causas e razões, e ficar assim habilitado para as eliminar de uma vez e para sempre. O grande princípio ocidental é o de que se há um problema, tem de haver uma solução – de preferência, imediata e sem dor. (…) É a maneira ocidental de compreender os outros: ou são atrasados, ou somos nós próprios. Mas os terroristas não são uma coisa nem outra. São, como sugere o estudo de Shiv Malik sobre a carnicifina de Londres em Julho de 2005, jovens afastados da tradição e alienados das suas famílias e comunidades de origem, mas que não querem integrar-se na versão ocidental da modernidade. Procuram uma ordem nova garantida pela revelação divina. E visto que não parecemos capazes de levar a sério esta dimensão religiosa, como compreendê-los?» (idem).

Mais uma vez, tudo o que se assemelhe a um qualquer exercício de indagação teórica é imediatamente cunhado como algo infrutífero e, indo mais além, desnecessário. Para este autor, para conter o terrorismo só «poderemos contar com duas coisas»:

1) «com o debate ideológico dentro das comunidades islâmicas. Não está ao alcance dos que estão de fora fazer muita coisa aí»;

2) «nenhum truque dispensará a força – a força prudentemente usada, mas a força necessária para tornar evidente que a opção terrorista leva à prisão e não à glória, e que dirigir e albergar terroristas é o caminho para grutas em montanhas remotas, e não para os palácios de qualquer capital» (idem).

Não só há, novamente, uma desvalorização de todo e qualquer método não-violento, como, por outro lado, o artigo encerra vincando uma tirada de tom jocoso sobre os que contestam a política intervencionista dos EUA e seus aliados, e o correlativo enquadramento ideológico do choque de civilizações: «é reconfortante constatar que as polícias, com a sorte do seu lado, se têm mostrado mais eficazes que os nossos sábios para lidar com os terroristas» (idem).

Um outro texto publicado no mesmo blogue e da autoria de Claudio Vellez cola metonimicamente o terrorismo ao colectivismo.

«Mais do que um embate civilizacional, o terrorismo, no século XXI, volta-se contra todo um modo de vida e representa o que poderíamos chamar de “braço armado” de uma complexa estratégia de construção de um mundo alternativo através da recuperação de um ideal de cunho colectivista que exige a aniquilação gradativa das liberdades individuais» (O Insurgente, 11 de Junho de 2007).

O autor diverge de Huntington apenas na contextualização do terrorismo na evolução histórica da humanidade. Onde para Huntington o choque de civilizações surge como um fenómeno trans-histórico, para Vellez é o colectivismo que está na base matricial do terrorismo, islâmico na sua modalidade mais actual. Com efeito,

«o pano de fundo ideológico que alimenta os grupos terroristas e as actividades extremistas, contudo, tem a sua origem no holismo que dilui a expressão das individualidades na concepção colectivista que se manifesta, inclusive, na aberração política do totalitarismo» (idem).

Apreende-se nestas palavras a interpenetração de três conceitos: colectivismo, terrorismo e totalitarismo como se ambos caminhassem passo a passo desde sempre. Por exemplo, se é verdade que a Alemanha nazi era um Estado totalitário não se pode afirmar pela existência de colectivismo na vigência desse regime. No extremo político da Alemanha hitleriana, a União Soviética se teve uma forte componente colectivista (no sentido de procurar construir uma sociedade alicerçada no primado do colectivo sobre o indivíduo singularizado), muito dificilmente se pode afirmar que houve totalitarismo.

O objectivo do autor do blogue O Insurgente parece, assim, claro. Criar uma amalgama confusa de conceitos, colocando no mesmo tabuleiro elementos políticos claramente distintos entre si como os fascismos, o movimento socialista e comunista e o terrorismo islâmico.

(continua)
                      


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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (III)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

Na mesma senda ideológica, um outro blogue auto-proclamado de “esquerda” apresenta, em larga medida, as mesmas teses mas com um grau de sofisticação ideológica mais refinado, ao mesmo tempo que exacerba a componente da luta civilizacional do Ocidente contra o Islão na repetida dicotomia entre o Bem e o Mal. Aliás, a linguagem utilizada quase que chega a apelar a sentimentos de profecia e de apocalipse: «os integristas posicionam-se para restaurar o grande califado. Caindo a Argélia, caem todos em redor. Esse poderá ser um dos piores pesadelos da Europa e o actual Estado militarizado argelino acaba por ser um mal menor na geopolítica deste tempo» (Kontratempos, 13 de Dezembro de 2007). No mesmo tom, «depois de Bhutto e da delapidação do apoio popular ao ditador Musharraf, falta pouco para os islamistas tomarem o poder no Paquistão. E, com ele, a bomba nuclear. É só uma questão de tempo, cada vez menos tempo» (Kontratempos, 27 de Dezembro de 2007). Basicamente, o realce na tecla profética atinge nesta última frase foros apocalípticos onde o avanço dos islamitas surge como que uma revivescência das atrocidades de Átila, da Mongólia até Roma! Para este discípulo acéfalo da nova ordem do pensamento único neoliberal e imperialista, o avanço do Mal islâmico seria quase irreversível. Quase dizemos nós, na medida em que o autor do blogue considera, mais uma vez, que só a força e a violência militar poderia fazer recuar o avanço islâmico sobre o Ocidente!

«Na resposta ao terror cego, o Ocidente tem falhado. Guntánamo, o Iraque, os voos da CIA, a suspensão da Convenção de Genebra: tudo isso são derrotas cavadas. Depois, há os viveiros de integristas. No Afeganistão, George W. Bush desviou preciosos recursos financeiros e militares para o pântano de Bagdade e abriu terreno ao alastramento da mancha taliban» (Kontratempos, 12 de Setembro de 2007) [negritos e itálicos do autor].

O problema não estaria, segundo este autor, na invasão norte-americana do Iraque e que, segundo a revista Lancet, causou centenas de milhares de mortos (Hicks, 2007). O que se aponta de errado na política seguida pela Administração Bush não é, portanto, a sua linha intervencionista e militarista, mas por ter errado no alvo geopolítico de actuação principal.

Assim, para o autor do blogue Kontratempos, só uma acção bélica e sem contemplações para os inimigos do Ocidente aparenta ser solução. Para isso, cita David Harris, director executivo do Comité Judeu Americano que descreve com precisão a forma como o Estado de Israel vê e actua em relação aos seus vizinhos islâmicos:

«Quando um líder terrorista coloca rampas de lançamento de mísseis em casas, hospitais, escolas e mesquitas, o que pode fazer um exército? Ataca-se a plataforma de mísseis, mesmo sabendo-se que pode haver lá mulheres e crianças, ou não se ataca, correndo o risco de que esses mesmos mísseis vão matar os nossos civis? A questão não é simples. (...) Viver num país mais pequeno que a Bélgica, sabendo quotidianamente que naquele dia pode haver um ataque terrorista, que pode haver um ataque militar. É normal, esta situação? Perante ela, é preciso, primeiro: ter um poder militar forte. Não há escolha nesta parte do mundo» (David Harris citado em Kontratempos, 14 de Setembro de 2006) [negritos do autor do blogue].

A transcrição é longa mas fornece importantíssimas pistas para a compreensão do fenómeno da apropriação e posterior efectivação concreta das teses do choque de civilizações pelos seus mais acérrimos defensores. Neste trecho – abertamente comungado pelo autor do blogue – os chamados danos colaterais são plenamente justificados do ponto de vista humano e militar. O pragmatismo da acção de matar um terrorista justifica plenamente a destruição de bairros civis inteiros de Beirute e de Sídon no Líbano ou do puro e simples esmagamento de casas palestinianos pelas lagartas dos tanques israelitas? Para os apologistas da Guerra Santa inter-civilizacional parece que sim.

É igualmente nítida a justificação e a aceitação tácita da violência mais cruel contra povos e Estados islâmicos – e que pouco afectam os chamados terroristas – no excerto de um artigo de Vasco Pulido Valente citado no mesmo blogue: «os políticos que se dedicam a louvar e a mimar os "moderados" do islão não percebem uma realidade básica: o extremismo é o único caminho para uma civilização falhada e o extremismo ganha» (Vasco Pulido Valente citado em Kontratempos, 23 de Setembro de 2007). Por conseguinte, a saída advogada passa por somar níveis de eficácia estratégica e militar e apostar cada vez mais em tentativas de constituir executivos governamentais coesos, unidos e dispostos a enfrentar tenazmente o que denominam de “inimigo islâmico”:

«nesta fase, deve exigir-se mais do governo israelita. A nível externo, duas guerras civis em potência -- entre palestinianos e entre libaneses -- obrigam ao isolamento dos radicais e ao apoio dos moderados. A nível doméstico, uma liderança política que não consiga unificar o país e o pesadelo de um exército dividido é tudo o Israel não precisa para enfrentar o desafio fundamental dos próximos meses: um Irão nuclear» (Kontratempos, 29 de Janeiro de 2007).

Gostaríamos ainda de aflorar a operação teórico-ideológica de construção da categoria do “Mal”. Atentemos na descrição que o autor do referido blogue realiza acerca dos terroristas islâmicos. «O objectivo [dos terroristas, nota nossa] foi sempre matar matar matar. Para a vertigem fundamentalista, nunca ninguém teve nem terá qualquer opção» (Kontratempos, 13 de Dezembro de 2007). Assiste-se, assim, à criação de um estereótipo do terrorista islâmico, fazendo dele uma pura encarnação do Mal, possuído por uma lógica de actuação estritamente irracional e perpassada por uma pulsão irresistível pelo assassinato. Ou seja, o fenómeno terrorista existiria apenas e tão-somente em si e para si mesmo, despojado de qualquer tipo de determinação complexa, multidimensional e/ou sócio-histórica. Esse seria, consequentemente, um fenómeno isolado de todos os outros (por exemplo, entre vários outros, da lógica do sistema internacional capitalista) e operando como mero depósito psicologista de intenções maquiavélicas. Aliás, essa é uma faceta evidenciada a toda a hora pelos opinion makers mais favoráveis às teses do choque de civilizações.

Ainda neste mesmo blogue pode-se ler que:

«Os terroristas não têm perfil. Não são “éticos”. Usam a multidão, a tecla do totalitarismo de Arendt, e nenhuma categoria ideológica parece ser capaz de os sustentar. Os integristas que se explodiram contra o WTC não eram pobres, nem excluídos, nem oprimidos. Viviam antes como toupeiras nas sociedades ocidentais, tal como os antigos agentes do KGB, levando uma vida estupidamente integrada, pacata, tolerante. Um dia, explodem. E explodem-se. Levam com eles ódio e pregos, o máximo de mortos para um terror maximalista. (…) Por mais que queiramos perceber de onde eles vêm, como vivem e onde vão actuar, nenhuma das respostas parece chegar com a limpidez e a rapidez necessárias. (…) Mas um dia, inevitavelmente, o relógio estará atrasado e desprevenido» (Kontratempos, 12 de Setembro de 2007).

Por aqui se vê que até o esforço de compreensão do fenómeno terrorista é veiculado como algo moroso e, mais grave do que isso, pouco relevante para actuar convenientemente sobre o assunto. Os terroristas atacam e cometem atentados porque sim, ponto. Procurar encontrar fundamentos de determinação causal dos mesmos pareceria ser um empreendimento ineficaz e desfasado da necessidade de actuações militares sobre eventuais alvos terroristas. Quer dizer, o terrorismo seria apenas uma perversidade malévola de gente imoral (ou amoral) – os “terroristas não têm perfil. Não são éticos”. Ficando a análise da origem do terrorismo assente numa base de índole moral, facilmente se pode descambar para, por um lado, pulverizar qualquer tipo de pensamento que se proponha perscrutar a natureza sociológica e histórica do terrorismo e, por outro lado, assumir que os fins (a chamada “guerra ao terrorismo”) justificam inteiramente os meios (utilizar a força bélica e medidas securitárias como únicas formas de enfrentar o terrorismo islâmico). Assim, se se quisesse entravar o terrorismo não valeria a pena interrogar e inquirir as origens do fenómeno, diz-nos este discurso. A resposta é muito simples e, como já se viu, só pode ser uma: o uso da força militar e bélica, procedimento que afecta principalmente as populações civis dos países atingidos e muito menos as ditas (para não dizer, inventadas pelos media dominantes) organizações terroristas. Quando aldeias afegãs ou curdas são bombardeadas, quando cidades iraquianas ou libanesas são arrasadas ou quando edifícios civis, da Cruz Vermelha ou outros são destruídos pelas nuke bombs, não parece de todo crível e intelectualmente honesto afirmar que a conduta dos EUA e seus aliados seja, no mínimo, democrática e humanitária. Por outro lado, atente-se que as chamadas “organizações terroristas”, das duas uma:

a) referem-se a criações orgânicas protagonizadas pelos serviços secretos ocidentais e norte-americanos para justificar a invasão e pilhagem das riquezas de outros povos.

b) referem-se a organizações progressistas, patrióticas ou revolucionárias que lutam contra o imperialismo norte-americano. Este último quando se defronta com a resistência dos povos, classifica imediatamente as suas organizações sociais, políticas e militares mais consequentes como “terroristas”. O exemplo calunioso das FARC, entre outros, é o mais actual e elucidativo da lógica perversa do imperialismo estadunidense e dos media ocidentais em catalogarem perversamente organizações populares de criminosas e terroristas.

Em jeito de parêntesis gostaríamos apenas de referir que chega a ser inegável a proximidade entre o discurso fascista do uso da força como único programa político a executar e a apologia da violência física e militar como única resposta política para conter um inimigo simultaneamente interno e externo. Já Mussolini afirmava que «o Estado deve estar limitado às suas funções políticas e jurídicas. O Estado deve ter apenas polícia para proteger as pessoas decentes dos vilões, um sistema de justiça, um exército pronto para qualquer eventualidade e uma política externa para servir o interesse nacional contra forças terroristas exteriores» (Mussolini citado por Poulantzas, 1970, p.112). A afirmação de Mussolini apesar de não ser directamente relacionada com esta questão chama a atenção para um dos pontos comuns entre o fascismo e as correntes liberais e conservadoras. Na prática, a ênfase colocada na redução do aparelho de Estado a um papel puramente securitário, policial e militar é de uma profunda similitude entre todas as correntes, sem com isto querer afirmar a sua identificação política tácita, mas “tão-somente” a partilha de determinados aspectos sobre o Estado e sobre as formas de resposta política deste último. É partindo do pressuposto que o Estado deveria reduzir o seu papel à esfera do seu aparelho repressivo, policial e militar que deriva a defesa tácita do uso da violência como única ou principal forma de actuação sobre o terrorismo. A política (e as ideologias políticas) não mais seriam do que ilustrações simbólicas de uma real virtude pragmática de aplicação da violência física e militar para resolver questões de ordem política. Só colocando o aparelho de Estado nesta perspectiva de estrutura quase exclusivamente repressora, se poderá lançar luz sobre o papel subsequente da violência como principal instrumento político de actuação interna e/ou externa.

(continua)

                                                                 


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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (II)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

O primeiro procedimento da aplicação das teses do choque de civilizações encontrado no blogue Tugir – nomeadamente no respeitante à dicotomia Ocidente versus Islão – centra-se na assunção de que nos encontramos numa situação de guerra. A citação que colocamos em epígrafe, retirada de um dos jornais com maior circulação e maior influência na formação de opinião em Portugal, é esclarecedora. Assim, para os opinion makers da blogosfera, num contexto de guerra só respostas firmes tomadas por governos ainda mais “firmes” e “corajosos” (leia-se, autoritários) poderão estar à altura dos acontecimentos. Múltiplos exemplos podem ser referidos:

«Israel soube que estava a surgir uma central nuclear, em território sírio junto da fronteira com o Iraque. Uma central que contava com apoio técnico da Coreia do Norte. Ora, os aviões israelitas foram à Síria destruir a central, numa operação que nem israelitas nem sírios confirmam ou desmentem, cada uma, pelas razões óbvias que se pode deduzir. Os perigos estão a alastrar e de duas uma, ou se previnem as ameaças ou estas podem mostrar-se da pior forma» (Tugir, 18 de Setembro de 2007a) [itálicos nossos].
«Muitos assustam-se com a referência de uma possível intervenção militar no Irão (e há razões para isso), mas ninguém se assusta com a ameaça nuclear iraniana?» (Tugir, 18 de Setembro de 2007b).
«A ameaça é real. No Irão quase todos sabem para que servirá um projecto nuclear. Há momentos em que se deve prevenir, antes de remediar» (Tugir,17 de Setembro de 2007a) [itálicos nossos].
«Israel dá, assim, uma mensagem clara não só ao regime de Damasco mas também de Teerão, de que se for necessário a segurança nacional israelita é garantida fora do território de Israel» (Tugir, 17 de Setembro de 2007b).

O Irão é imediatamente catalogado como sendo uma terrível ameaça à humanidade, como um Estado em vias de lançar o Ocidente em chamas. O grau de diabolização desse Estado soberano é tal que os autores do blogue Tugir não se coíbem de reproduzir um cartoon do Irão como um malévolo polvo que estende os seus tentáculos a todo o Médio Oriente, sublinhado com a frase: «O polvo cresce e estende-se quanto maior liberdade lhe derem. É o que está a acontecer» (Tugir, 19 de Junho de 2007).

Neste blogue a persistência num discurso de firmeza e de força perante o inimigo chega a ser, portanto, obsessiva. Em simultâneo, ressalve-se que se denota a presença da formação de uma arena onde o Ocidente se confronta com um dos mais poderosos estados islâmicos:

«o G-8 anunciou hoje que apoiará novas medidas se o Irão não cumprir as resoluções das Nações Unidas (ONU) que exigem que o país suspenda o respectivo programa de enriquecimento de urânio» (Tugir, 30 de Maio de 2007)
«”Se o Irão continuar a ignorar as exigências do Conselho de Segurança apoiaremos mais medidas apropriadas, conforme acordado pela resolução 1747”, afirmaram os ministros do G-8 em comunicado conjunto. O tempo de ingenuidade e hesitações da Comunidade Internacional parece estar a terminar em relação ao projecto nuclear iraniano. Já não era sem tempo» (idem).

Na última frase percebe-se ainda mais nitidamente a defesa do princípio dominante e hegemónico dos EUA e seus aliados mais poderosos na cena internacional, quando se coincide a Comunidade Internacional – um termo nebuloso mas que procura funcionar como equivalente de sociedade civil mundial – com os interesses dessas mesmas potências, na sua maioria ocidentais. Por outro lado, neste blogue a situação de guerra entre civilizações não só é real como evidente. «Como qualquer pessoa, mesmo sem saber pouco mais do que a sua língua nativa, percebe-se o que pretende o flamejante de Teerão. Basta somar um mais um. Está tudo escarrapachado, preto no branco. Ninguém desmentiu as palavras» (Tugir, 30 de Março de 2007). Presumem então os autores do blogue que existe uma verdade absoluta relativamente ao dossier da suposta tentativa de construção de um arsenal nuclear por parte do Irão? Pelos vistos sim, sendo, dessa maneira, inquestionável a construção de uma imagem dual, de uma imagem a preto e branco, entre “bons” e “maus”, entre evidências não comprovadas e comprovadas intenções de legitimação de um ataque militar sobre um Estado soberano e onde não existem provas cabais sobre o teor supostamente armamentista do seu programa nuclear. O exercício puramente ideológico e manipulador de unilateralmente rotular o Estado em questão como a única nação da região com intenções nucleares e expansionistas é esquecer, por exemplo, o Estado de Israel e a ocupação que tem vindo a efectuar dos territórios palestinianos que já resultou na morte de milhares de civis de ambos os lados, os seus sucessivos incumprimentos de resoluções das Nações Unidas, dos Acordos de Oslo e a posse de armamento nuclear.

(continua)


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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008
O Bem e o Mal revisitados (I)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.  

I – Blogues portugueses do mainstream e a apropriação do discurso do choque de civilizações

«Estou contente com a notícia [da anulação do rali Lisboa-Dacar, nota nossa]: muitos deram-se conta, ontem, de que estamos em guerra. E, acreditem, ainda é só a fase suave da guerra»

Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 5 de Janeiro de 2008

Os blogues têm-se tornado, segundo algumas concepções, uma das ferramentas mais bem sucedidas na revitalização da discussão política e teórica num plano alargado de difusão, reflexão e discussão. A presença de bloggers (autores de blogues na língua inglesa) em cada vez mais espaços televisivos e jornalísticos de opinião e de debate tem expandido a penetração desse espaço internáutico no seio do campo mediático mais vasto.

A temática do choque de civilizações e do terrorismo islâmico não foge a essa regra. Porquanto a blogosfera se apresente e represente como um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários. Neste aspecto, o poder da ideologia dominante possibilita-lhe atravessar todos os tabuleiros de produção cultural e simbólica, mantendo a sua posição hegemónica no e sobre o conjunto da sociedade. Do nosso ponto de vista, o que poderemos chamar de mainstream da blogosfera portuguesa padece de uma incapacidade para reflectir fora do modelo formatado do neoliberalismo, fechando a maioria das discussões do mesmo espectro ideológico a tendências de aplicação, efectivação e legitimação desse ideário.

Como procuraremos mostrar nesta secção, tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo. O caso do choque de civilizações é, a todos os títulos, evidente. Nenhum dos quatros blogues em análise [1] (Tugir e Kontratempos auto-apresentados como de esquerda, O Insurgente e Atlântico auto-apresentados como de direita) fogem ou sequer questionam nos seus textos as teses do choque de civilizações e do papel missionário dos EUA e do Ocidente no mundo. Na verdade, o ocidentalocentrismo das propostas de Huntington é, em muitos casos, quase liminarmente repetido nas suas linhas mestras. Noutros casos, é inter-relacionado com a legitimação da violência indiscriminada sobre povos e países, bem como se assiste a uma ligação a um discurso moralista do Bem contra o Mal, independentemente destes dois pólos não se encontrarem de forma explícita nos textos. Aliás, boa parte do sucesso dos argumentos expressos na blogosfera prende-se com a capacidade que os «intelectuais orgânicos» (Gramsci, 1976, p.25) do neoliberalismo e do choque de civilizações têm para sub-repticiamente construírem um discurso dualista assente em proposições morais, parciais e para-religiosas (o Bem contra o Mal; os ocidentais civilizados contra os islâmicos bárbaros, etc.).

(continua)

              

Notas:
[1] Gostaríamos de justificar a escolha cronológica dos posts analisados, bem como dos próprios blogues. Sobre este ponto, interessou-nos analisar blogues que partilhassem disposições com o espectro político do chamado arco governativo e que, ao mesmo tempo, consagrassem boa parte da sua produção textual a assuntos de política internacional, particularmente às questões do terrorismo islâmico. Com efeito, a análise, em blogues portugueses, de fenómenos de política internacional a partir de uma perspectiva que se afirmasse próximo de uma visão neoliberal afirmou-se como decisiva para a escolha dos blogues referidos. Por outro lado, a concentração da maioria dos posts  no ano de 2007 teve que ver com dois acontecimentos relevantes sucedidos nesse ano. Em primeiro lugar, a evocação (e proximidade) dos seis anos dos atentados às Torres Gémeas do World Trade Center em Nova Iorque. Em segundo lugar, por causa do exacerbar das relações tensas entre os EUA e o Irão no mesmo período.

                                      


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