TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Quinta-feira, 6 de Julho de 2017
6 de Julho de 1871 – Morre Castro Alves

Castro Alves Av

Um dos poemas da grande obra de Pablo Neruda «Canto Geral» é dedicado ao poeta abolicionista brasileiro Castro Alves, lembrando como este soube cantar a natureza e a beleza feminina mas também fazer com que a sua voz batesse «em portas até então fechadas para que, combatendo, a liberdade entrasse».

«A tua voz uniu-se à eterna e alta voz dos homens. Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar», escreve o poeta chileno, que assim homenageia o carácter social da poesia de Castro Alves em poemas que o popularizaram, como «O Navio Negreiro», um dos mais conhecidos da literatura brasileira, em que descreve a terrível situação dos africanos arrancados das suas terras, separados das suas famílias e tratados como animais nos navios negreiros que os levavam para o Brasil como escravos, e «Vozes d'África», ambos publicados no livro «Os Escravos».

Também conhecido como «poeta condoreiro», numa associação ao pássaro condor cujo voo atinge grandes alturas, simbolizando a liberdade, Castro Alves morreu às três e meia da tarde do dia 6 de Julho 1871, no Palacete do Sodré, junto a uma janela banhada pelo sol.

A sua poesia, imortal, continua a aquecer-nos.

AQUI

 


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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016
Crónicas do País da fome, do medo e da ignorância

Retalhos da vida de um médico

 

Em Retalhos da Vida de Um Médico, percorremos os itinerários do país salazarento, interior, doente, matreiro e desconfiado, país das homílias da conformação, das leiras da fome, das casas celtiberas, da insalubridade quase medieval, da rudeza elementar e da transcendência. O jovem médico, acantonado em Monsanto, nessa que foi, no desvario folclórico do fascismo, a aldeia mais portuguesa de Portugal, percorre veredas, socalcos, caminhos abertos nas faldas da serra por onde as mulas, os burros e os carros de bois se esgueiram entre ventos e chuva, para socorrer os pacientes que o procuram quase sempre em situação extrema, quando desenganados de charlatães, bruxedos e mezinheiros, muitas vezes para apenas confirmar o óbito. Um povo triste e desamado.

(...)

Retalhos da Vida de Um Médico é um exemplo do texto clássico do neo-realismo e uma das obras fundamentais da literatura portuguesa do século XX. Um documento raro, sensível e lúcido sobre a realidade profunda do Portugal fascista; país de silêncios, de medos e de revoltas crescendo no meio dos trigais que Namora, sem contemplações, põe a nu – país de ocultas misérias denunciado pela pena de um autor que nestes textos se revela indignado com o sofrimento dos seus concidadãos, e é esse modo de dizer a revolta, de a tornar humana e lídima, que torna estes textos actuais e de uma indefectível universalidade.

AQUI

 


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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016
31 de Outubro de 1902 – Nasce Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, o consagrado poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade é justamente considerado como um dos principais representantes da literatura do Brasil do século XX.

Inicia os estudos em Belo Horizonte e aos 16 anos vai estudar com os jesuítas no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

Apesar de bom aluno, é expulso por mau comportamento e «insubordinação mental», por discordar de um professor durante a aula.

Colabora no Diário de Minas, de que chega a ser Chefe de Redacção, e integra o movimento modernista em formação, que mais tarde o leva a conhecer os modernistas paulistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Blaise Cendrars.

O ingresso no serviço público como chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação – cargo de que se demite em protesto contra a ditadura de Getúlio Vargas – não o afasta da escrita.

Data dessa época a obra «Rosa do Povo» (Uma flor nasceu na rua!/ Passem de longe, bondes, ónibus, rio de aço do tráfego./ Uma flor ainda desbotada/ ilude a polícia, rompe o asfalto...).

Empenhado política e socialmente, Drummond de Andrade afirma-se como o poeta mais influente da literatura brasileira do seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.

AQUI

 


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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016
UPP: Início das aulas

UPP Horário 2016-2017

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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016
15 de Junho de 1924 – 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada

20-Poemas de Amor

Pablo Neruda, aliás Nefatali Ricardo Reyes, tinha apenas 20 quando editou o livro «20 Poemas de Amor uma Canção Desesperada», consensualmente considerado como uma jóia da poesia latino-americana.

Dirigidos por um homem a uma mulher – não necessariamente a mesma –, os poemas abordam a complexidade da relação amorosa, misturando a felicidade com a melancolia, a alegria da posse com a tristeza da ausência, a certeza do amor («Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejeiras», poema 14), com o desespero do abandono («Posso escrever os versos mais tristes esta noite», poema 20).

Com propriedade, esta obra da juventude revela o poeta que Neruda tão bem definiu quando recebeu o Nobel de Literatura em 1971:

«Frequentemente disse que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia, o padeiro mais próximo e que não se crê um deus. Ele cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, colocar o pão no forno, dourar e entregar o pão de cada dia como uma obrigação comunitária. E se o poeta alcançar esta consciência poderá também converter-se como parte de uma colossal obra de artesão [...] e entregar com a sua mercadoria: pão, verdade, vinho e sonhos.»

AQUI

 

Pablo Neruda_Av

Pablo Neruda e Pablo Neruda

 


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Terça-feira, 7 de Junho de 2016
UPP: Cursos livres 2016 / 20217

UPP Dia Horário Prov

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Terça-feira, 7 de Abril de 2015
UPP: Alves Redol

UPP Alves Redol

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
Álvaro de Campos: Ora porra!

Fernando Pessoa _caricatura

Fernando Pessoa _caricatura1

Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)
 

Ora porra!


Ora porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.

 

Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 22.

adaptado de um e-mail enviado pelo Cid

 


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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
UPP: Óscar Lopes, o intelectual completo (actualização)

UPP Óscar Lopes

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Adenda em 17/12/2014 às21h58m: 

UPP Cancelamento Óscar Lopes

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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2014
Urbano Tavares Rodrigues: O intelectual, o homem o comunista

Urbano Tavares Rodrigues

No passado sábado, dia 6 de Dezembro, a Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP realizou no auditório da Biblioteca Nacional uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues. No dia em que completaria 91 anos de idade, familiares, escritores e sobretudo muitos camaradas e amigos ouviram durante cerca de quatro horas testemunhos sobre a obra do escritor, sobre a sua forma de estar na vida, sobre a sua luta em defesa da liberdade, sobre a sua militância no PCP.

Intelectual, autor de uma vasta obra literária que abarcou todos os domínios da escrita – romance, novela, conto, teatro, poesia, crónica, ensaio, jornalismo e viagens –, Urbano Tavares Rodrigues é uma das referências mais intensas da literatura portuguesa dos séculos XX e XXI e deixa-nos um legado inestimável para futuras gerações de escritores. Urbano Tavares Rodrigues possuía um conjunto de qualidades humanas que raramente observamos concentradas numa mesma pessoa, cujos valores sempre nortearam a sua vida – a liberdade, a justiça social, a paz, a solidariedade, a fraternidade –, qualidades que estiveram sempre presentes na sua obra e na sua intervenção social e política, que fizeram dele um resistente e um combatente pela liberdade e por uma sociedade mais justa.

Membro do PCP desde muito cedo, desde logo desenvolveu uma intensa actividade política que se prolongou ao longo de toda a sua vida. Apesar de preso três vezes pela PIDE, impedido de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa e noutros estabelecimentos de ensino e de ter sido o escritor português com mais livros apreendidos pela PIDE, Urbano Tavares Rodrigues – como escreveu José Casanova no Avante! do dia 13 de Agosto de 2013 – «nem perseguições, nem ameaças, nem prisões, nem torturas, o fizeram abrandar, sequer, a sua prática de resistência».

Ler texto integral

 


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Terça-feira, 2 de Setembro de 2014
UPP: Cursos Livres Setembro 2014

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Quinta-feira, 26 de Junho de 2014
UPP: Cursos Verão 2014

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014
UPP: Shakespeare em crise

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Domingo, 16 de Junho de 2013
Universidade Popular do Porto: Cursos Livres 2013/2014

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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013
Álvaro Cunhal e a Luta pela Emancipação da Mulher

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Terça-feira, 14 de Maio de 2013
A Presença das Mulheres na obra de Álvaro Cunhal abordada em colóquio na FNAC

A Presença das Mulheres na obra de Álvaro Cunhal

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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013
Convite: «As Mulheres na Obra de Álvaro Cunhal»

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Terça-feira, 7 de Maio de 2013
Viseu - FNAC - 10 de Maio - 21h: Colóquio «As Mulheres na Obra de Álvaro Cunhal»

Colóquio «As Mulheres na Obra de Álvaro Cunhal»

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Domingo, 31 de Março de 2013
UPP: Conversas a propósito da Primavera Árabe Líbano-Egipto-Argélia
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Segunda-feira, 25 de Março de 2013
Óscar Lopes: exemplo para os dias por vir

Sobre Óscar Lopes:

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Sexta-feira, 22 de Março de 2013
Óscar Luso de Freitas Lopes (2 de Outubro de 1917 / 22 de Março de 2013)

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Domingo, 28 de Outubro de 2012
Universidade Popular do Porto: Cursos Livres

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012
Um episódio ridículo que deve ser levado muito a sério

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Ao que isto chegou! Pedro Passos Coelho não gosta que Jerónimo de Sousa utilize a palavra «roubo». Nem a palavra «agressão». Nem a palavra «mentira». Nem ... (o melhor é ficarmos por aqui...).

São, diz ele, palavras que não devem ser utilizadas no debate parlamentar.

É caso para dizer que se Eça de Queirós e Ramalho Ortigão fossem vivos passariam a constar do Index censório do nosso primeiro-ministro!!! Para não falar de outros vultos maiores da nossa literatura, ou das lides parlamentares, de finais do século XIX princípios do século XX. Isto para não recuarmos mais no tempo.

Este episódio caricato na forma revela, no seu conteúdo, os tiques autoritários e censórios dos executantes conselheiros de administração de e ao serviço dos interesses dos grupos económicos e financeiros seus mandantes.

Cuidado que eles andam por aí!

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Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
Mineiros de Aljustrel - nas barrenas da memória

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Com prefácio de José Casanova e Sérgio Ribeiro e ilustrações de Roberto Chichorro.

Como diz o autor:

«Este trabalho é fruto, além de afincada investigação, de fortes laços de amizade e camaradagem com os intervenientes que dão o som à tinta que se segue»
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
António Alves Redol (29 de Dezembro de 1911 / 29 de Novembro de 1969)

Um escritor comprometido com o povo e a sua cultura

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(...)

Como escritor, Alves Redol ficará na história, em primeiro lugar, como o autor do primeiro romance do neo-realismo português – Gaibéus – e, depois, por uma vasta e diversificada obra literária: romances, contos, teatro, histórias infantis, ensaios, que marcaram impressivamente a nossa literatura e fazem dele um nome maior da história da cultura portuguesa.

Com Gaibéus, Fanga, Avieiros, Vindimas de Sangue, Uma Fenda na Muralha, A Barca dos Sete Lemes, Barranco de Cegos, entre outras obras, Redol trouxe para a literatura os problemas dos trabalhadores, os seus anseios, as suas aspirações, as suas lutas. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas peças de teatro, ele toma partido: com o seu talento, com a sua inteligência, com a sua sensibilidade, toma inequivocamente o partido dos explorados, dos oprimidos, dos humilhados e ofendidos, contra os exploradores e os opressores. E sabemos as implicações decorrentes de tal opção naquele tempo de ausência total de liberdade.

Não foi por acaso que Alves Redol conheceu por duas vezes a brutalidade da PIDE – como não foi obra do acaso o facto de ele ter sido o único escritor português obrigado a submeter os seus romances à censura prévia dos esbirros fascistas.

(...)

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Para Ouvir e Ver:

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Domingo, 21 de Novembro de 2010
Joaquim Gomes (4 de Março de 1917 / 20 de Novembro de 2010): «O primeiro emprego aconteceu depois de completados os seis anos»

O primeiro emprego aconteceu depois de completados os seis anos. Não recordo o tempo que durou o trabalho nesta primeira fábrica de cristalaria, mas lembro-me que era conhecida como Fábrica do Açúcar — não significando o nome, porém, que o trabalho dos aprendizes fosse menos amargo que noutras do ramo. Necessário se torna esclarecer que no respeitante à idade não bati qualquer recorde pois houve crianças, e não foram poucas, que começaram antes dos seis anos, não sendo também raros os casos em que os pais tinham de as levar ao colo quando iam para o trabalho!

As fábricas de cristalaria ou a potes trabalhavam num único turno diário. Os aprendizes, regra geral, entravam numa «obragem» (uma equipa de trabalho) pelo último escalão, que consistia em preparar o molde para que cada peça pudesse ser moldada.

As coisas passavam-se mais ou menos assim. Se o molde era de madeira o aprendiz tinha de o mergulhar numa celha com água após cada moldagem. Se o molde era de ferro mas pequeno, a operação podia ser idêntica. Se o molde era de ferro mas mais pesado, tinha de ser lubrificado, ou levar uma fita de madeira especialmente preparada para o efeito, para que o vidro ainda incandescente se não pegasse ao molde. Os moldes de madeira destinados à moldagem de peças grandes tornavam-se muito pesados, pelo que os miúdos em pouco tempo ficavam bastante cansados. O que na prática também se verificava com os moldes mais pequenos, não pelo peso, mas pelo ritmo de trabalho ser mais acelerado, acontecendo por vezes os oficiais ou outros operários adultos terem mais força no sopro do que os aprendizes nos braços. Em consequência disto, nem sempre durante a moldagem o molde se mantinha bem fechado, do que podia resultar a inutilização da peça e com ela um bofetão ou coisa do género, sem se ter em conta tanto o cansaço como a idade do aprendiz.

A esta distância estaria errado quem pensasse que estas e outras atitudes, algumas bem mais violentas, dos operários vidreiros para com os aprendizes eram devidas à falta de sentimentos humanos e de carinho pelas crianças. Primeiro, porque era a própria engrenagem da exploração capitalista que produzia estas situações, uma vez que ganhando os adultos à peça, cada uma que se inutilizasse acabava por se reflectir negativamente no salário. Segundo, porque mais ou menos em todas as profissões estava generalizada a convicção de que sem se chegar a «roupa ao pelo dos aprendizes», eles se não faziam homens a valer e ainda menos bons profissionais, mas também porque fosse até tradição os pais dos aprendizes recomendarem aos mestres: «Não lhas poupe sempre que as mereçam.» E é claro, isto dava para tudo... De resto, não se pode esquecer que no ensino de então se tinham como indispensáveis as reguadas, ponteiradas e outros mimos do género. Até o senhor prior, quando ensinava a doutrina na casa de Deus, não fugia à regra!

Voltando à minha trajectória como aprendiz de operário vidreiro, recordo perfeitamente que para ingressar na segunda fábrica onde passei a trabalhar teve a minha mãe de me acompanhar e mostrar ao patrão a minha cédula de nascimento para provar que tinha completado os sete anos, idade mínima para nessa fábrica os aprendizes serem admitidos. Tratava-se da Fábrica Marquês de Pombal cujo patrão, o Sr. Magalhães, com alguma razão tinha fama de ser bom. Os esforços desenvolvidos pela minha velhota para que ingressasse nesta fábrica justificavam-se também pelo facto de nela trabalharem já um irmão e uma irmã mais velhos do que eu, o que facilitava imenso o avio do farnel. Este consistia numa fatia de broa com um bocado de toucinho ou, mais frequentemente, com uma sardinha fresca ou salgada, sendo a broa e o conduto cortados em três bocados. Se o conduto era toucinho nunca a divisão levantava grandes problemas, mas tratando-se de sardinha, no dia em que devia calhar a cabeça a um de nós e isso não sucedia, havia discussão, já que todos consideravam essa parte a mais gostosa e a que melhor condutava. De tal modo isto me ficou que, ainda hoje, detesto comer sardinhas em locais onde «pareça mal» chupar as cabeças.

Do trabalho e dos problemas vividos nesta fábrica, o que mais me marcou, além do esforço violento que os aprendizes tinham igualmente de despender, foi um acidente que sofri, o qual podia ter tido consequências muito graves, deixando-me marcas para sempre. Os ganhos, como anteriormente, eram uma miséria. Se a memória me não atraiçoa, trabalhei nela cerca de dois anos. Com o meu irmão fui trabalhar para a Fábrica Nova, Companhia Industrial Portuguesa, que por essa altura ensaiava, creio que pela primeira vez na Marinha Grande, a produção de artigos correntes chamados de «cristalaria em forno a tanque». A decisão que tomámos tinha em vista a subida de categoria e, consequentemente, aumentos de salários. Contudo, o trabalho foi de pouca duração pelo facto de a tentativa de alterar a produção não ter resultado.

In Joaquim Gomes, excerto de Estórias e Emoções de uma vida de luta

Estórias e Emoções de uma vida de luta

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Domingo, 7 de Novembro de 2010
30 anos: «Levantado do Chão» - a terra a quem a trabalha

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Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
Para os filhos dos homens que nunca foram meninos...

(...)

Rolam dias iguais a todos os dias; o Outono chega, cavalgando o vento. E Gineto mantém a mesma fé de quando entrou na prisão.

Através da cela, ouve tropel de cavalos e alarido de muito povo, a entrecortar um sussurro distante, confuso, de música e tiros e vozes... É a Feira. Gineto anima-se, crente de que os companheiros virão buscá-lo neste dia de festa, trazendo Rosete com eles. Encosta a face às grades, espera o regresso à vida livre.

Uma voz canta, mesmo por baixo da janela, uma canção que ele ouviu, certa tarde, no alto do Mirante. Ele grita:

— Gaitinhas! Tou aqui, Gaitinhas!

Mas a voz afasta-se. Gaitinhas-cantor vai com o Saguí correr os caminhos do mundo, à procura do pai. E, quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos.

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Final de «Esteiros» , de Soeiro Pereira Gomes, livro que tem a seguinte dedicatória:

«Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro»

(...)

A sua obra de escritor é curta, mas valiosa e significativa. A par dos «Contos Vermelhos», em que narra episódios da vida e da luta clandestina, e do romance «Engrenagem», inspirado pela sua experiência na Cimento Tejo, a sua afirmação como romancista revela-se com «Esteiros» escrito e editado antes de passar à clandestinidade.

«Esteiros» é uma comovente história da vida de crianças que (como ele escreveu) «nunca foram meninos». Uma história de trabalho infantil; de miséria; de picardias, de audácia e aventuras, transbordando qualquer coisa de heróico na vida dessas crianças.

«Esteiros» foi desde logo considerado e reconhecido como uma pequena obras prima. Pediu-me que a ilustrasse e assim fiz, certo porém de que os modestos desenhos não eram dignos do valor da obra literária. Observação atenta da vida, «Esteiros» é um romance de profundos sentimentos de amor e ternura pelas crianças e transmite (sem o explicitar) a indignação pela exploração e miséria de que são vítimas.

Este romance traduz (não em termos de análise política, mas com igual força de expressão e convencimento) o humanismo dos ideais e da luta dos comunistas.

Trecho de um depoimento de Álvaro Cunhal in «Avante!» Nº 1359 - Soeiro Pereira Gomes

Este "post" é dedicado às crianças vítimas da pedofilia, a propósito da leitura da sentença do "Processo Casa Pia"

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sábado, 11 de Setembro de 2010
En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...

en un lugar de la mancha (cosmoscrist)

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Obama: Num lugar da mancha, de cujo nome não quero lembrar-me...

Telespectador: Obama não está a citar D. Quixote, está a falar do novo derrame de petróleo no Golfo do México...


A legenda refere-se ao início do livro de Miguel de Cervantes:

«En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no hace mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor

Notícia já do início de Setembro:
adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
Levantado do chão - Ou a história da epopeia do operariado agrícola Alentejano contada ao mundo

José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998 e recentemente falecido, escreveu e publicou o essencial da sua obra nos 20 anos anteriores à conquista desse prémio. O primeiro dos romances em que se revela o seu estilo próprio de escrita é precisamente Levantado do Chão. Publicado em 1980, representa para o autor «o último romance do Neo-Realismo, fora já do tempo neo-realista» (Reis, 1998, p.118). De facto, não sendo estritamente um romance neo-realista, Levantado do Chão pode ser visto como um entroncamento para onde confluiu toda uma forma de fazer literatura em Portugal no século XX.

Nesta obra de ficção Saramago aborda, por um lado, a história da vida e morte do latifúndio, com efeito, desde a Idade Média até finais dos anos 70 e, por outro lado, num espaço histórico mais curto, a saga da família Mau-Tempo «que, em três gerações (Domingos Mau-Tempo, seu filho João e seus netos António e Gracinda, esta casada com outra personagem central, António Espada), vai conquistar a terra para as capacidades do seu trabalho, vai arrancar-se à vergonha das humilhações, vai preencher a fome de uma falta total. O romance é, assim, a história de um fatalismo desenganado, constantemente combatido pelo apontar da esperança feita luta» (Seixo, 1987, p.39). As duas ondas históricas entrelaçam-se num período de tempo que vai do final do século XIX até aos anos seguintes à Revolução de 25 de Abril de 1974. Esta articulação entre dois planos tem a vantagem de oferecer uma problematização assaz instigante do papel e do lugar do(s) indivíduo(s) no desenvolvimento histórico mais vasto.

Ler Texto Integral

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