TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017
Alguns aspectos do legado teórico de Álvaro Cunhal

Álvaro Cunhal16

Álvaro Cunhal nos 1930

 

«O caminho da libertação dos trabalhadores e dos povos foi descoberto e é definido e iluminado pelo marxismo-leninismo.

O marxismo-leninismo é um sistema de teorias que explicam o mundo e indicam como transformá-lo.

Os princípios do marxismo-leninismo constituem um instrumento indispensável para a análise científica da realidade, dos novos fenómenos e da evolução social e para a definição de soluções correctas para os problemas concretos que a situação objectiva e a luta colocam às forças revolucionárias.

A assimilação crítica do património teórico existente e da experiência revolucionária universal é arma poderosa para o exame da realidade e para a resposta criativa e correcta às novas situações e aos novos fenómenos.

O marxismo-leninismo surgiu na história como um avanço revolucionário no conhecimento da verdade sobre o mundo real — sobre a realidade natural, sobre a realidade económica e social, sobre a realidade histórica, sobre a realidade da revolução e do seu processo.

O marxismo-leninismo é uma explicação da vida e do mundo social, um instrumento de investigação e um estímulo à criatividade.

O marxismo-leninismo, na imensa riqueza do seu método dialéctico, das suas teorias e princípios, é uma poderosa arma para a análise e a investigação que permite caracterizar as situações e os novos fenómenos e encontrar para umas e outros as respostas adequadas.

É nessa análise, nessa investigação e nessas respostas postas à prova pela prática que se revela o carácter científico do marxismo-leninismo e que o PCP se afirma como um partido marxista-leninista.»

In «O Partido com Paredes de Vidro» pp. 36 e 37

 

Álvaro Cunhal desenho

 

«Na prossecução do seu objectivo de emancipação da classe operária, dos trabalhadores e do povo do jugo do capital, o PCP considera, na base das aquisições históricas do marxismo-leninismo, o sistema de alianças como uma questão essencial.

Reflectindo sobre a política de alianças escrevia Álvaro Cunhal que as alianças estratégicas tendo em vista o objectivo da revolução socialista não podem ser postas em causa por alianças tácticas relativas a um dado período histórico de um país nem muito menos estas últimas podem pretender converter-se naquelas. Mas anotava também que «as alianças “estratégicas” não devem ser invocadas como impeditivas de alianças “tácticas”», mais ou menos duradouras.»

 

 

«Uma procura que se mantém como uma constante da actividade do PCP e que atravessa as mais diversas fases da vida política nacional e se traduz numa política de unidade diversificada que se alicerça na sólida política de alianças do PCP, fundada na identidade objectiva de interesses e aspirações de todas as classes e camadas antimonopolistas, como o evidenciaram oradores que me precederam e que está presente nas análises e produção teórica de Álvaro Cunhal, de onde emana uma capacidade de perscrutar o futuro que nos continua a impressionar pela sua identificação com a realidade dos nossos dias, nomeadamente aquelas que contribuíram para a compreensão dos perigos que ameaçam Portugal como nação, em consequência da política de direita e da submissão das classes dominantes aos interesses estrangeiros.»

 


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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2015
CDU reúne com católicos

Debate católicos 2015-07-30

Promovido pela Comissão Concelhia da CDU de Viseu, realizou-se no dia 30 de Julho, em Viseu, um debate sobre a inter-relação entre os democratas e patriotas, os católicos e a Igreja, seguido com grande interesse por cerca de cinco dezenas de participantes e valorizado por múltiplas intervenções.

Pedro Nóbrega, presidente da Junta de Freguesia de Real (Penalva de Castelo), eleito pela Coligação PCP-PEV, abordou a perspectiva do quadro de intervenção de um jovem activista católico comprometido com o projecto da CDU; Sérgio Branco, leigo da Ordem Dominicana e membro do Sector Intelectual da Organização Regional de Coimbra do PCP, trouxe ao debate questões políticas e ideológicas de uma visão do mundo cristã e a sua inter-relação com o marxismo; Deolinda Machado, da Comissão Executiva da CGTP-IN e da Coordenadora Nacional da CDU, falou da experiência concreta de uma sindicalista e activista católica.

No debate, dirigido por Filomena Pires, eleita na Assembleia Municipal de Viseu e membro da Direcção Regional do PCP, interveio, entre outros, o Padre José António, que destacou a importância das reflexões produzidas e defendeu uma perspectiva de acção católica próxima das pessoas concretas, das suas dificuldades e da resolução dos seus problemas. Carlos Gonçalves, da Comissão Política do Comité Central do PCP, valorizou os caminhos de aproximação e convergência entre democratas, patriotas e católicos progressistas na luta contra o fascismo, na construção do regime democrático e na luta dos dias de hoje por uma nova política e uma alternativa patriótica e de esquerda no nosso País.

 


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Sábado, 18 de Julho de 2015
Debate: os democratas e patriotas, os católicos e a igreja

Debate Católicos 2015-07-30

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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015
Encontro «Diálogo e Acção para uma Politica Patriótica e de esquerda»

carta

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Sábado, 16 de Novembro de 2013
Contra o Pacto de Agressão Demissão do Governo

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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2013
Basta de roubos e de mentiras!

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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013
Este sábado: Em defesa de um Portugal soberano e desenvolvido

 

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013
Em defesa de um Portugal soberano e desenvolvido

 

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Está já disponível a página de Internet do Apelo «Em defesa de um Portugal soberano e desenvolvido»:

Aí pode encontrar o texto do Apelo, a lista das 600 personalidades que já o subscreveram, notícias de actividades e material gráfico, nomeadamente o convite para a Conferência Nacional.

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Quinta-feira, 19 de Março de 2009
E então o senhor padre faz certas proibições e prescreve abstenções

Eis aí, espetada na ponta da nossa pena, mais uma proeza eclesiástica. Os senhores padres prodigalizam-se, e os seus feitos despertam a cada momento, com um rumor irritado, o silêncio da opinião. O País está com o clero, como um homem débil e nervoso que sente umas unhas compridas raspar a cal da parede. Encolhe-se, dobra-se, geme. E termina por mostrar aos senhores eclesiásticos os seus dois poderosos punhos - fechados e impacientes.

(...)

O sermão obsceno é uma particularidade minhota dos senhores missionários. Um de suas senhorias sobe devotamente ao púlpito, e depois das ave-marias murmuradas, olha pausadamente a multidão feminina, apertada e contrita, e com gestos sumptuosos, anuncia que vai tratar da castidade. Tratar da castidade significa contar a que se arriscam, nos futuros infernos de além-vida, os que cometem os ternos pecados do amor. E então o senhor padre, revolvendo o assunto com a sofreguidão com que um avaro revolve o dinheiro, dilata-se, explica, diz as palavras próprias cruamente, descreve, conta anedotas, especializa atitudes, faz certas proibições, marca dias, prescreve abstenções, divide as espécies, aprofunda, exalta-se, clama - e as mulheres coram. E a Correspondência de Portugal contava ultimamente que, num desses derradeiros sermões, o povo rompeu num grande tumulto indignado, e saiu do templo como de um lugar desonesto. Tal é o sermão galante.

(...)

Uma Campanha Alegre (Volume II: Capítulo XXVIII: O sermão político), por Eça de Queirós

Leituras:

Vídeo dos Monty Python:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                               


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Quarta-feira, 18 de Março de 2009
As coisinhas minúsculas e as ideias e as palavras que ficam

(...)

Creio que esta será, a nosso respeito, a impressão geral e definitiva: estamos fazendo muito barulho por causa de muito pouco toucinho...

E pensarmos nós, caro Chagas, que enquanto você está aí ocupado a compor no Atlântico uma formidável equação algébrica, para provar (Deus me perdoe!) não sei que coisas sinistras sobre as Molucas, enquanto eu me estou aqui abandonando a este pairar indiscreto — o grande Darwin publica o seu livro do Movimento das Plantas, o professor Huxley lança o seu grande manifesto da Educação Científica contra a Educação Clássica, Zola dá-nos o seu prodigioso trabalho sobre Gustavo Flaubert, tantos outros trabalham e criam, e o Génio do século forja, com um ruído sublime, na sua bigorna de bronze e ouro, as ideias e as palavras que ficam!

E nós, aqui, a escrevinharmos não sei que coisinhas minúsculas, que, apenas rabeiam um momento sobre o papel, são logo pó imperceptível!... — Você não tem vontade de se atirar a um poço? Eu tenho.

(...)
Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Leituras aconselhadas de Eça:

Todo Eça neste blog: 

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                               


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Sábado, 14 de Março de 2009
Injuriar Portugal, deitar peçonha no Alviela e dinamitar a estátua de Camões!

(...) 

Creio que temos conversado bastante. Não terminarei, porém, sem aludir a uma parte do seu artigo que me não parece prudente: é quando você fala de somas recebidas da Gazeta de Notícias, do alto preço por que me vendi para injuriar o país, etc... Eu bem sei que você usou notáveis precauções oratórias: mencionou o boato, e demoliu logo o boato; depois tornou a pôr de pé o boato, para volver a derrubá-lo com furor. Isto é amável; mas enfim você traiu a confidência, que eu lhe fiz. Lembra-se, Chagas? Foi naquela noite de tormenta, na encruzilhada, a poucos passos da capela solitária onde estava dobrando a finados. Eu cheguei rebuçado num manto cor de treva, e punhal à ilharga, deixando pela sombra um tinir de esporas. Um relâmpago fuzilou, e houve um tremolo na orquestra. Até eu lhe disse, lembro-me bem: 

— Meu Chagas, esta situação patética parece mesmo inventada por você, amigo! 

Você respondeu, com engenho: 

— Parece. Eu teria colocado alguma luz eléctrica, batendo as roupagens de uma virgem, cuja alma o mundo não compreende... 

Então eu arrastei-o para o pé do cruzeiro, onde bruxuleava uma lâmpada; e, sentados sobre os degraus de pedra fria, eu comecei a contar-lhe o meu segredo: que a Gazeta de Notícias me dava um milhão (um milhão em ouro) para eu injuriar semanalmente Portugal, deitar peçonha nas nascentes do Alviela e fazer saltar pela dinamite a estátua de Camões!

Você tremeu, amigo! E murmurou-me ao ouvido estas palavras:

— Prudência, prudência...

Eu repliquei com furor:

— Hei-de beber o sangue a Portugal. Hei-de beber-lho! 

Um trovão retumbou. Sobre um dos braços da cruz piou um mocho. E separámo-nos, na estrada negra, quando dava a meia-noite na torre da catedral.

Você tinha-me jurado segredo. E vem agora publicar tudo no Atlântico! Hei-de assassiná-lo no quinto acto...

(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Leituras aconselhadas de Eça:

Todo Eça neste blog: 

Mais leituras sobre «terrorismo»: 

Vídeo: 

Uma sugestão para José M. D. Barroso e outros. Da próxima vez que for necessário justificar o massacre de um país digam também que «eles» querem deitar peçonha na barragem de Castelo do Bode, fazer saltar pela dinamite a estátua de Camões e beber o sangue a Portugal! E não se esqueçam de jurar que viram as provas...

E de quem vos contradisser digam que se vendeu por «alto preço».

                                                                       

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                               


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Quarta-feira, 11 de Março de 2009
E o monstro ainda não está no Santo Ofício?

(...)

Começou então o voltarete do senhor marquês. Você não foi admitido à partida do fidalgo: fez apenas um gamão subalterno com um monsenhor da Patriarcal. E pela sala, no entanto, iam sussurrando as conversações.

Discutia-se o processo de uma linda mulher de Alfama que comia crianças em salada: um desembargador aconselhou, para curar quartas, pérolas que tivesse usado a Rainha, moídas em pó: falou-se da escandalosa aparição de Belzebu no convento do Sacramento de Alcântara: e uma dama contou do judeu que dera uma dentada na perna do Senhor dos Passos da Graça!...

Isto arrepiou de horror. E foi então que você, Pinheiro Chagas, disse, depois de se pitadear com gozo:

— Mas há pior! Há pior!...

— Pior que a dentada? Não, ninguém podia acreditar que houvesse pior!

E você, pausado e grave, narrou o meu nefando caso: um herege, um jacobino, um traidor comprado pelo ouro do Brasil, tinha escrito que Portugal fora uma colónia brasileira, e que houvera horrores na nossa dominação da Índia!...

Fez-se na sala um silêncio trágico. As sedas, apavoradas, encolheram-se contra os monsenhores. De comovido, o herdeiro ilustre da casa de Ângeja perdeu a vaza. E os morrões das tochas pareceram mais tristes...

O sr. prior de S. Julião, esgazeando o seu olho de coruja, exclamou a tremer:

— E o monstro ainda não está no Santo Ofício?

— Trago-o de olho, meu reverendo — disse você, severo. — E hei-de ir falar ao Manique...

Ciciou então pelo sarau um suspiro de alívio. A sociedade estava salva! Chagas velava.

Já em baixo tilintavam os guizos das liteiras. Saiu-se. E foi você que, chegando-se ao senhor arcebispo de Tessalonica, e querendo resumir numa palavra todo o mundo de verdades e de ideias que se agitara nesse sarau, o esplendor intelectual que aí brilhava e para que você concorrera — disse respeitosamente ao prelado:

— Portugal é pequenino, mas é um torrãozinho de açúcar.

E sua eminência replicou, depois de arrotar:

— Tem você razão, brigadeiro Chagas.

Brigadeiro, sim! Brigadeiro do tempo da senhora D. Maria I! O último brigadeiro patriota!

(...)
Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

Mais leituras:

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Sexta-feira, 6 de Março de 2009
Falar por ordem de uma associação secreta...

    

(...)

A Nação tem sobre os conferentes do Casino esta admirável opinião:
Que eles iam ali falar, não por vontade sua, mas por ordem de uma associação secreta;
Que nenhum acto seu é espontâneo, mas execução de uma ordem da Internacional;
Que nada lhes pertence, em próprio, nem a acção, nem as ideias, nem o nome!
De modo que se um conferente toma à noite um sorvete no Áurea, é porque recebeu pela manhã este sinistro telegrama:
«Comité central: 7 da manhã. - Esta noite tomai sorvete botequim. Conveniente levantamento classes operárias! Em sorvete intransigentes. Viva a comuna! De morango!»
E o Sr. Antero de Quental, de ora em diante, terá de assinar assim o seu nome:
Antero (por assim dizer) de Quental (se ouso exprimir-me assim).
Ó Nação, tu és grande!
(...) 

Uma Campanha Alegre, (Volume I: Capítulo XIII: Máximas e opiniões da Nação, jornal), por Eça de Queirós

Mais leituras:

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009
Arrasar o bei de Tunes

    

(...)
Neste momento, eu vejo daqui o leitor honesto, que vai percorrendo estas linhas, parar, pousar o jornal, o seu charuto, e dizer de si para si, ou às senhoras que costuram ao lado:
—Esta é singular! Caso lamentável e raro! O quê! é isto o que ele tinha escrito? Então, o procedimento do Sr. Pinheiro Chagas não me parece regular. Pois o outro cita as palavras de um jornal inglês, ofensivas para Portugal, condena-as como perversas e descorteses, e o autor da Morgadinha de Valflor atribui-lhas a ele e quer-lhe fazer suportar a responsabilidade delas? Se isto são costumes e maneiras literárias, bem faço eu em odiar os literatos! Porque é que o Sr. Pinheiro Chagas não citou o que o outro escrevera? Caso triste e antipático!...
Riamos, meu caro Chagas, riamos aqui a este canto, abraçados um no outro! Rebolemo-nos! Como se vê que aquele honrado homem, que lê o Atlântico, ignora as amarguras, as necessidades formidáveis do jornalismo... A querer que você me citasse! O ingénuo! Se você me citasse, não podia fazer o artigo: e você tinha absolutamente de fazer o seu artigo!...
Eu conheço a situação: é medonha. Na véspera tem-se dito ao director do jornal, apertando-lhe ferventemente a mão, e com a voz a tremer:
—Palavra de honra, menino. Pela minha vida, que tens lá o artigo, além de amanhã, às nove horas. Eu sou incapaz de te comprometer! Juro-to, pela alma de meus filhos... Boa noite. Lá o tens!
Depois, naturalmente, como você sabe, não se pensa mais no artigo. Mas, cruel destino! no dia aprazado, lá toca a campainha, lá chega, fatal, implacável, irrevogável — o moço da tipografia!
É horroroso. Sobretudo quando ele usa botas que rangem! Fica à espera, passeando no pátio ou no corredor: e aquele lento gemer de solas tristes, cadenciado e acusador, alucina!
E cá no nosso gabinete, que pavorosa luta! As cinco tiras de papel ali estão sobre a mesa, lívidas, irónicas, vazias: e é necessário enchê-las todas, de alto a baixo, com coisas extraídas do nosso interior.
É trágico. A parte da carcaça humana a que se recorre primeiro é naturalmente ao crânio, depósito de ideias, impressões, adjectivos e teorias; aperta-se o crânio nas mãos frementes; sacode-se o crânio como uma velha algibeira: — nada sai do crânio. E as botas ao longe, a ranger!
Maldição! Recorre-se então ao peito, asilo dos afectos, dos sentimentos generosos. Talvez de lá saia um canto, um grito, uma apóstrofe. Arranha-se convulsivamente o peito; bate-se desesperadamente no peito como numa porta fechada: — o peito fica mudo como o crânio. E as botas ao longe a ranger!
Inferno! E então os crentes rezam à Virgem Maria; os ateus invocam a morte, a doce aniquilação da matéria; os mais violentos pensam em atrair o moço da tipografia com palavras doces, cortá-lo aos pedaços com uma navalha de barba, esconder os fragmentos na sarjeta doméstica... E as botas, lá no fundo, ironicamente, rangem!
Ah, caro Chagas, é daí que vêm as cãs precoces. Sabe você o que eu fiz numa destas agonias, sentindo o moço da tipografia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da pena e dei, meio louco, uma tunda desesperada no bei de Tunes...
No bei de Tunes? Sim, meu caro Chagas, nesse venerável chefe de Estado, que eu nunca vira, que nunca me fizera mal algum, e que creio mesmo a esse tempo tinha morrido. Não me importei. Em Tunes há sempre um bei: arrasei-o.
Por isso eu compreendo bem que você não me pudesse citar. Que diabo! se me citasse, adeus belas frases! adeus belo patriotismo! adeus belo artigo! — E você ouvia, no corredor, as solas malditas rangendo. Talvez eu, no seu caso, tivesse feito pior ...
O leitor compreende agora as razões de ordem íntima que impediram o meu amigo e colega Pinheiro Chagas de me citar?
(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Exemplos de como redigir um texto, seguindo o conselho de Eça, quando não se pode «arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre»: 

  • «Sejam quais forem os agravos em relação a outro País, há regras de convivência internacional que não consentem ofensas gratuitas nem linguagem de caserna nas palavras de um chefe de Estado contra outro Estado. Desta vez o bei de Tunes ultrapassou-se a si mesmo.»

    Adaptado de Despautérios verbais 

  • «Embora inatacável quanto à sua lisura e genuinidade que veio afastar os limites constitucionais à reelegibilidade do bei de Tunes, o referendo constitucional não pode ser aplaudido sob um ponto de vista democrático-republicano.»

    Adaptado de Sem limites  

  • «Há pouca gente com dúvidas, mas também sem certezas. Há na CIA, nas Nações Unidas, gente com dúvidas sobre se as "provas" que os americanos apresentam são mesmo provas a sério, mas são mais dúvidas sobre as "provas" do que sobre o facto do bei de Tunes ter armas de destruição maciça

    Adaptado de O DELITO DE OPINIÃO: AS "MENTIRAS"

  • etc. etc. etc.

 

E depois de uns bons meses de campanha atacando «esse venerável chefe de Estado», lá para Julho e Agosto pode ser começada outra do género: Escândalo! O bei de Tunes vai à Festa do Avante!

                                                                       

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Domingo, 1 de Março de 2009
Patriotaças, patriotinheiros, patriotadores, ou patriotarrecas

(...)

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna — mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna do Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria: Oh pátria! Oh filha! Ai querida! Oh pequena! que linda que és! — exactamente como tinha dito na véspera, num restaurante, a uma andaluza barata. Esse, coisa pavorosa! não ama a pátria, namora-a; não lhe dá obras, impinge-lhe odes. Esse, quando a pátria se aproxima dele, com as mãos vazias, pedindo-lhe que coloque nelas o instrumento do seu renascimento — põe lá (ironia magana!) o quê? os louros de Ceuta! Quando o povo lhe pede mais pão e mais justiça, responde-lhe, torcendo o bigode: — Deixa lá... Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém solta uma verdade, acode de mão à cinta, e com a Monarquia de Frei Bernardo de Brito apertada ao coração, exclamando: — Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia? E a prova tenho-a neste in-fólio! E querendo garantir a indolência própria, por uma grande inércia pública, esse patriotismo aconselha que se não faça nada, nada se estude, nada se crie — porque o senhor D. Manuel foi outrora um grande rei! E apenas um homem sincero tenta despertar a alma portuguesa e o seu génio do sono em que ela se afunda — esse patriotismo corre, debruça-se, e procura tornar esse sono da pátria mais pesado e mais profundo, cantando-lhe ao ouvido a lenda embaladora da tomada de Arzila!

Este patriotismo, caro Chagas, é o dos brigadeiros vestidos à moderna. E, lamento ter de dizê-lo, parece-se muito com o seu. Os Franceses chamam-lhe chauvinisme: eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice. E aos que o cultivam daria os nomes (segundo os seus diferentes temperamentos) de — patriotaças, patriotinheiros, patriotadores, ou patriotarrecas. É o vício fatal que leva às catástrofes. É ele que não deixando fazer nada sob o pretexto que já se fez tudo, imobilizando a nação num pasmo fictício para o passado, que a impede de trabalhar pelo futuro — é ele que dá à Áustria Sadova e à França Sedan. É ele que grita no bulevar: A Berlim! a Berlim! — quando moralmente no bulevar já marcham os Prussianos. Fazendo discursos como Mr. Prudhome, produz finais como Ésquilo. E têm depois os patriotas de vir recompor as ruínas que fizeram os patriotinheiros!
(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

«...a pátria (...) é a multidão que (...) palpita na luta da vida moderna...»

 

Mais leituras:

«...a ir arrasar aldeias de mouros e traficar...»       

                                                                       

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