TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Sábado, 5 de Novembro de 2016
Luís Veiga Leitão: Manhã

Luis Veiga Leitao3

 

Manhã

Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço...apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

 

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

 

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite, ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão

 


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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016
José Gomes Ferreira: Todos os punhais

Jose Gomes Ferreira_caricatura

 
Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)

 

Todos os punhais

Todos os punhais que fulgem nos gritos,

Todas as fomes que doem no pão

Todo o suor que luz nas estrelas

Todas as lanças nos dedos da reza,

Todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,

Todos os desejos nos alçapões do frio,

Todas as jóias nos pescoços dos espelhos rachados

Todos os assassinos que andaram aos colo das mães,

Todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,

Todos os murmúrios do sol no quarto ao lado à hora da morte…

 

Tudo, tudo, tudo

Se condensou de repente

Numa nuvem negra de milhões de lágrimas

A humilharem-me de ternura

– eu que quero ser alheio, duro, indiferente…

 

…. Enquanto os outros dançam, cantam, bebem,

vivem, amam, riem, suam

neste pobre planeta

magoado das pedras e dos homens

onde cresceu por acaso o meu coração no musgo

aberto para a consciência absurda

deste remorso sem sentido.

José Gomes Ferreira

 


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Sábado, 17 de Setembro de 2016
Ay Carmela!

Guerracivilespanhola_Avt

As canções dos revolucionários são a banda sonora da História, desde a Revolução Francesa à Unidade Popular do Chile, da Revolução de Outubro à de Abril, aqui connosco.

Desta Espanha aqui ao lado, houve um tempo em que soprou bom vento (bons casamentos sempre os houve), enchendo de entusiasmo popular a bandeira tricolor da República. E de canções. O golpe foi profundo para uma Europa capitalista em perda dos impérios coloniais e a ver sair às ruas os ideais do socialismo e do comunismo. Então, como agora, o Capital não se deitou a dormir e, como sempre quando se levanta o sopro da tal «terra sem amos», armou-se fascismo e caiu com a máxima violência em cima da República de Espanha e dos republicanos do mundo inteiro. No Alentejo dos nossos dias ainda há quem se lembre daquele tempo de maus ventos mas bons casamentos – os republicanos fugidos aos fascistas de Franco para a protecção das gentes de Ficalho e de outros lugares de consciência colectiva, a PIDE a entregar os que encontrava aos pelotões de fuzilamento.

«Ay Carmela!» permaneceu símbolo desse tempo, memória já de si memória de outro tempo em que a Espanha se defendia dos exércitos de Napoleão e a canção se chamava «El Paso del Ebro» ou «El Ejército del Ebro». O texto original cedia por vezes o lugar ao de «Viva la Quince Brigada», com palavras de homenagem à Brigada de combatentes comunistas da Guerra Civil. Fosse com que letra fosse esta era uma das canções da República Espanhola, por quem deram a vida milhares de espanhóis e de revolucionários de todo o mundo nos anos em que a Espanha era a trincheira antifascista da Europa Ocidental. Eram estas as palavras:

 

Ay Carmela!

 

El Ejército del Ebro/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Una noche el río pasó,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Y a las tropas invasoras/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Buena paliza les dio,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/  

El furor de los traidores/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Lo descarga su aviación,/¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Pero nada pueden bombas/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Donde sobra corazón,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/

Contrataques muy rabiosos/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Deberemos combatir,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Pero igual que combatimos/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Prometemos resistir,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!//

 

Para ver e ouvir «Ay Carmela!»:

 

 

 


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Quinta-feira, 14 de Julho de 2016
Estranhos frutos nas árvores do Sul

Nesse ano de 1936, em que Meeropol escreveu o poema «Fruta amarga», calcula-se em quase 200 o número de negros assassinados como resultado do sistema racista. Só nos primeiros seis meses de 2016, 125 negros morreram às mãos da polícia, muitos deles em circunstâncias que, de Philando e Alton, diferem apenas no local, na hora ou no número de tiros. O que nos diria hoje o poeta? O mesmo que um dia adoptou os filhos do casal de comunistas Julius e Ethel Rosenberg, executados na cadeira eléctrica?

 

Billie_Holiday5

 

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Quinta-feira, 30 de Junho de 2016
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

Sonetos

 

adaptado de um e-mail enviado pelo Cid

 


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Sábado, 12 de Março de 2016
12 de Março de 1572 – Publicação de Os Lusíadas

Luís Camões2

O poema épico de Luís de Camões, escrito numa época em que Portugal e a Espanha dividiam o mundo e em que o latim era a língua dos eruditos, constitui não só a exaltação dos feitos dos portugueses com os Descobrimentos, mas também a elevação da língua pátria – o português – ao nível da epopeia marítima.

Publicada 70 anos depois da descoberta do caminho marítimo por Vasco da Gama, a obra, dedicada a D. Sebastião, imortaliza os momentos marcantes da História de Portugal segundo as regras e convenções da epopeia clássica, que Camões enriquece com a sua imensa criatividade, como quando coloca os heróis portugueses em confronto com os deuses, atribuindo-lhes uma condição divina.

Uma característica fundamental do poema é de resto a existência de um herói colectivo – o povo português – que o poeta canta no «peito ilustre lusitano». Dividida em dez cantos, o maior poema épico da língua portuguesa é internacionalmente reconhecido como uma obra prima e está traduzido em várias línguas, do chinês ao russo.

AQUI

 

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Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2015
Um Ano Novo melhor

BoasFestas2015

Clicar na imagem para ampliar

 

Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

Para Ver e Ouvir:

Recordando o que foi publicado neste blog:

 


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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
Álvaro de Campos: Ora porra!

Fernando Pessoa _caricatura

Fernando Pessoa _caricatura1

Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)
 

Ora porra!


Ora porra!

Então a imprensa portuguesa é

que é a imprensa portuguesa?

Então é esta merda que temos

que beber com os olhos?

Filhos da puta! Não, que nem

há puta que os parisse.

 

Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 22.

adaptado de um e-mail enviado pelo Cid

 


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Domingo, 9 de Fevereiro de 2014
We Shall Overcome
Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)

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Poucos intérpretes e criadores de música popular terão merecido ao desaparecerem o destaque sobre a sua figura e o seu trabalho que praticamente em todo o mundo foi atribuído à morte na passada semana, com 93 anos, de Pete Seeger.

É de sublinhar que a atenção dedicada pela comunicação social foi – inclusive em Portugal – bastante rigorosa, contrariamente ao que habitualmente sucede ao recordar de personalidades com uma postura tão firmemente progressista e de esquerda com foi a de Seeger. Para tanto terão seguramente contribuído três aspectos mais importantes que definem a sua personalidade e a sua vida: a coerência, a persistência e a simplicidade e modéstia sempre justamente assinaladas.

O noticiário que lhe foi dedicado fornece um panorama bastante completo do essencial da sua longa vida e da sua intensa actividade cultural e, sobretudo, cívica e política, mas existirão seguramente alguns aspectos que se justifica sublinhar e desenvolver.

Ler texto integral

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Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014
Peter "Pete" Seeger (3 de Maio de 1919 / 27 de Janeiro de 2014)

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Pete Seeger

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No jornal «Avante!»

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Terça-feira, 25 de Junho de 2013
César Príncipe: Greve Geral

Greve Geral

Vamos falar de greve geral
Uma greve geral nunca é total
Imagina que todos fariam greve
Diz-nos O impossível para que serve
Sim Cumpre o possível É o teu dever
Não te desculpes para nada fazer
Hoje vamos falar de greve geral
Em qualquer local Aqui Em Portugal
Há quem não alinhe em greves gerais
Nem sequer adira a greves parciais
Há quem esteja contra as paralisações
Quando não são decretadas por patrões
Hoje vamos falar de greve geral
Esquece a tua greve imaginária
O capital marca greves todo o ano
Muito mais de 1 milhão não tem trabalho
Marca a nossa Fá-la tua Colabora
És uma peça do xadrez da vitória
Hoje vamos falar de greve geral
Mas de quem produz Da massa laboral
Não achas que é tempo de baixar os braços
Para levantar os salários baixos
Se não achas Fica a exigir a lua
Enquanto na terra a luta continua
Hoje vamos falar de greve geral
Não és só trabalhador a trabalhar
Não resolves o teu caso no cantinho
Nem com medo Nem com sorte Nem sozinho
Sim Decide com quem estás e com quem vais
Os teus problemas são todos nacionais
Hoje vamos falar de greve geral
Contra o poder de explorar e amedrontar
Camarada Colega Amigo Aliado
Pára Escuta Tens mais força parado
Hoje fabricarás faixas e bandeiras
Megafones Coletes e braçadeiras
Hoje vamos falar de greve geral
Em qualquer local Aqui Em Portugal
Os piquetes são a tropa perfilada
O abraço antigo A conversa actualizada
Se me perguntarem de que lado estou
Direi Do lado que a História me ensinou
Hoje vamos falar de greve geral
É dia da pátria obreira e fraternal
Estou contigo Estás comigo Companheiro
Traz outro amigo Camarada verdadeiro
Viva a máquina do mundo e do progresso
Faço greve Ganho o meu dia Protesto
Sim Greve geral Cada vez mais geral
Fazem a guerra Querem paz social
Fica à porta da empresa e do Estado
Hoje não entres no sítio errado
Não piques o ponto da resigNação
Dá um murro na mesa da enceNação
Sim Greve geral Cada vez mais geral
Em qualquer local Aqui Em Portugal
Viva a máquina do mundo e do progresso
Faço greve Ganho o meu dia Protesto

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César Príncipe

In Notícias do Resgate, AJHLP, 2013

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012
Daniel Oliveira: Congressos do PCP «só das seis e meia às sete, em frente ao cassetete»

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Numa segunda-feira (!), escreveu Daniel Oliveira, num "post" particularmente inspirado:

«Quando vi que o Congresso do PCP começava numa sexta-feira, de dia, não pude deixar de pensar: como pode um partido político juntar os delegados a um congresso num dia de semana?»

Ficamos a saber que ele, Daniel Oliveira, pode fazer política todos os dias, escrevendo para o Expresso ou comentando na SIC, mas os comunistas não podem iniciar um congresso a uma sexta-feira. Ele não deixa... Ele não quer... Ele não acha bem...

Mas foi a uma quinta-feira que ele escreveu o texto Obama, um tipo decente, a propósito do presidente de um país que fez e faz várias guerras. Foi a uma segunda-feira que escreveu que a guerra contra a Líbia era para ser ao contrário do Iraque.

E foi aí, que me decidi ir para a porta da IMPRESA pedir a Balsemão:

Arranja-me um Emprego!
(texto)
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E tu, Bloco de Esquerda, cuidado com as imitações!

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sábado, 9 de Junho de 2012
Miguel Torga: QUANTOS SEREMOS?

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QUANTOS SEREMOS?


Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

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Miguel Torga

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adaptado de um e-mail enviado pelo Cid Simões

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Sábado, 19 de Maio de 2012
«Tu, Liberdade Livre»

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A obra intitulada «Tu, Liberdade Livre» é composta por um poema inédito de Manuel Gusmão, uma serigrafia de Álvaro Siza e uma carteira de Armando Alves.

Trata-se de uma obra de arte limitada a 150 exemplares, numerada e assinada pelos autores.

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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012
Da fome, do desperdício e da tristeza

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Na semana passada, a difusão na Internet de um vídeo do hino da campanha Zero Desperdício, no qual participaram alguns dos mais talentosos músicos da nossa praça, levantou uma compreensível onda de protestos. A letra do hino, da autoria de Tim, é (para ser benevolente) profundamente infeliz, dizendo, a certa altura, “o que eu não aproveito ao almoço e ao jantar / a ti deve dar jeito, temos que nos encontrar”. Devo dizer que, quando li uma parte da letra que alguém pôs a circular na Web, tive a certeza de que se tratava de uma sátira. Quando vi, pareceu-me uma das coisas mais tristes que já me foi dado ver. É chocante a ausência de consideração pela dignidade das pessoas destinatárias da campanha, é chocante a naturalidade com que se encara o facto de umas pessoas viverem das sobras de outras, é chocante a maneira como esta desigualdade é travestida de solidariedade, é chocante o facto de os participantes na campanha não terem sentido nada disto.

Os erros acontecem e é possível que ninguém se tivesse dado conta de que o hino tinha esta leitura. Mas, nesse caso, alguma sensibilidade teria aconselhado a imediata retirada do vídeo e um pedido de desculpas mal a reacção surgiu. É triste que isso não tenha acontecido.

Mas a campanha Zero Desperdício merece outras considerações.

Vale a pena reflectir sobre a expressão “desperdício alimentar”, cujo combate é apresentado pela campanha como o seu objectivo número um. “Pôr fim ao desperdício” é apresentado como a missão da campanha e “Portugal não se pode dar ao lixo” é o seu slogan.

Repare-se que o problema identificado não é a “fome” ou a “carência alimentar” nem a missão “dar de comer a quem tem fome” ou algo do género. A actividade desenvolvida também não é apresentada primordialmente como uma acção de “solidariedade” nem sequer de “ajuda” ou “assistência” (expressões não isentas de carga negativa, pelo paternalismo e desigualdade que lhes está associado, mas certamente defensáveis). Repare-se na diferença entre este “pôr fim ao desperdício” e o nome do Banco de Ajuda Alimentar, claramente apresentado como assistencial, e cuja razão de ser, assumida sem ambiguidades, é melhorar as condições de vida dos destinatários da sua ajuda. Repare-se na diferença entre este ““Vamos brincar à caridadezinha” – José Barata Moura (gravação original de 1973)” e os famosos Restos du Coeur, criados pelo humorista francês Coluche e cuja designação é, em si, um grito solidário (estes “Restos” são a abreviatura de “Restaurantes” e não os restos do almoço e do jantar).

Toda a campanha do Zero Desperdício coloca, pelo contrário, a tónica “do lado da oferta”. Toda a iniciativa é “supply-side economics”. Tudo é apresentado como se fosse o facto de haver desperdício de alimentos que justifica a campanha e as acções dos dadores e não o facto de haver pessoas com fome. Mais: o facto de haver desperdícios parece até positivo, já que permite que os pobres beneficiem das sobras, num exemplo perfeito de “trickle-down economics”. O racional da campanha parece ser e poderia ser: “Já que esta comida ia para o lixo, vamos dá-la aos pobres”. É evidente que o desperdício de alimentos é intolerável, mas o que motiva a acção solidária não pode deixar de ser o combate à fome e a pobreza e às suas causas - e este objectivo, um claro imperativo ético, não pode ser deixado diplomaticamente de lado, para não ofender os poderes por chamar a atenção para a política de empobrecimento a que o país está a ser submetido. Há um dever de denúncia que é inalienável e indeclinável.

É evidente que o “combate ao desperdício” - objectivo razoável em termos gerais, mas moralmente neutro - se insere bem no discurso ideológico caro ao Governo e à direita e se alinha com os apelos à produtividade e à competitividade, enquanto que o “combate à pobreza” tem tonalidades que o Governo, o Presidente da República, os partidos da direita e os grandes patrões não apreciam. Cheira a socialismo, a comunismo, a direitos humanos, aquelas coisas que a direita portuguesa abomina. Mas aquilo a que a simples solidariedade humana nos obriga é a partilhar, de forma a acabar com a fome, independentemente de haver ou não desperdício.

É possível que os autores da campanha “Zero desperdício” tenham decidido não realçar nos seus documentos as expressões “fome” nem“combate à pobreza” (pelas suas tonalidades de esquerda) e falar apenas de “redução do desperdício” (pelas suas tonalidades de direita). Pode ter sido uma astuta decisão de marketing político, uma decisão pragmática de quem sabe que o PSD e o CDS têm a maioria em Portugal. Mas, se o foi, a decisão aceita o pressuposto de que algo tão básico como o combate à fome, tão central nos direitos humanos, deve ser posto de lado devido à sua pretensa tintagem política e deve ser substituído por algo mais aceitável nos salões, algo que cheire a promoção da eficiência empresarial. O que seria triste.

José Vítor Malheiros in jornal «Público» edição de 24 de Abril de 2012 (link só para assinantes)

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Gostaria de ter escrito isto!

Para ver e ouvir a diferença de forma e de conteúdo do artista. E na altura «cantigas» destas podiam dar direito a uns «safanões a tempo»…

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Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
Um grupo de cantores radicais vai "criar uma cadeia" - e quem vão lá meter?

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Um grupo de cantores muito catitas propõe-se criar uma cadeia. Será que é para lá meter alguns dos patrocinadores do projecto? Eles que se acautelem!...

A ideia não é má... Talvez que, se a cadeia for bastante grande, dê para albergar todos os responsáveis pela miséria que atinge os "cerca de 360 mil portugueses que passam fome".

Olhem, podem começar pelos janotas que decidem isto:

Três milhões de galinhas poedeiras poderão ser abatidas até Julho.

(É o capitalismo, estúpidos!)

Será que estas galinhas já "davam para ir até à Lua"?

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sexta-feira, 9 de Março de 2012
António Aleixo (V)
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Esta mascarada enorme

com que o mundo nos aldraba,

dura enquanto o povo dorme,

quando ele acordar, acaba.

António Aleixo

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António Aleixo sempre actual...



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Quinta-feira, 8 de Março de 2012
António Aleixo (IV)
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Não me dêem mais desgostos

porque sei raciocinar...

Só os burros estão dispostos

a sofrer sem protestar!

António Aleixo

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António Aleixo sempre actual...

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Quarta-feira, 7 de Março de 2012
António Aleixo (III)
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Esses por quem não te interessas

produzem quanto consomes:

vivem das tuas promessas

ganhando o pão que tu comes.

António Aleixo

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António Aleixo sempre actual...

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Terça-feira, 6 de Março de 2012
António Aleixo (II)
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Sou um dos membros malditos

dessa falsa sociedade

que, baseada nos mitos,

pode roubar à vontade.

António Aleixo

-

António Aleixo sempre actual...

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Segunda-feira, 5 de Março de 2012
António Aleixo (I)
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Acho uma moral ruim

trazer o vulgo enganado:

mandarem fazer assim

e eles fazerem assado.

António Aleixo

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António Aleixo sempre actual...

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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Um verdadeiro camarada, no sentido mais sublime da expressão

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José (Zeca) Afonso: (2 de Agosto de 1929 / 23 de Fevereiro de 1987)

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AO VIVO NO COLISEU (1983): 

  • À Proa (José Afonso)

  • Balada do Mondego (Artur Paredes)

  • Senhora do Almortão (tradicional - José Afonso)

  • Dor na Planície (Octávio Sérgio) 

  • Canção de embalar (José Afonso) 

  • Natal dos Simples (José Afonso) 

 

  • Um Homem Novo Veio da Mata (José Afonso) 

  • O Anel que Tu Me Deste (tradicional) 

  • Murinheira (tradicional) 

  • Utopia (José Afonso)

 

 

Vídeos:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge (publicado inicialmente a 2 de Agosto de 2009)

                                                                     


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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
Manuel da Fonseca: A certeza de querer e construir

O seu «exemplo de firmeza ideológica e partidária constitui uma referência para todos os militantes comunistas»

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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011
Federico García Lorca (5 de Junho de 1898 / 18 de Agosto de 1936)

Lorca foi fuzilado há 75 anos

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Domingo, 3 de Abril de 2011
Paco Ibañez canta José Agustín Goytisolo: No sirves para nada

No sirves para nada

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Cuando yo era pequeño
estaba siempre triste
y mi padre decía
mirándome y moviendo
la cabeza: hijo mío
no sirves para nada.

Después me fui a la escuela
con pan y con adioses
pero me acompañaba
la tristeza. El maestro
graznó: pequeño niño
no sirves para nada.

Vino luego la guerra
la muerte-yo la vi-
y cuando hubo pasado
y todos la olvidaron
yo triste seguí oyendo
no sirves para nada.

Y cuando me pusieron
los pantalones largos
la tristeza en seguida
mudó de pantalones.
Mis amigos dijeron:
no sirves para nada.

De tristeza en tristeza
caí por los peldaños
de la vida. Y un día
la muchacha que amo
me dijo –y era alegre-
no sirves para nada.

Ahora vivo con ella
voy limpio y bien peinado.
Tenemos una niña
a la que siempre digo
-también con alegría-
no sirves para nada.

De: Salmos al viento

José Agustín Goytisolo / Paco Ibañez

 

Para ver e ouvir Paco Ibañez a cantar «No sirves para nada» de José Agustín Goytisolo:

Cuando yo era pequeño estaba siempre triste

Para Ler e Ouvir:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sábado, 26 de Fevereiro de 2011
Paco Ibañez canta José Agustín Goytisolo: Por mi mala cabeza

Por mi mala cabeza
-
Por mi mala cabeza
yo me puse a escribir.
Otro, por mucho menos,
se hace Guardia Civil.
-
Por mi mala cabeza
creí en la libertad.
Otro respira incienso
las fiestas de guardar.
-
Por mi mala cabeza
contra el muro topé.
Otro levantó el muro
con los cuernos, tal vez.
-
Por mi mala cabeza
sólo digo verdad.
Por mi mala cabeza
me descabezarán.

José Agustín Goytisolo / Paco Ibañez

Para ver e ouvir Paco Ibañez a cantar «Por mi mala cabeza» de José Agustín Goytisolo:

Gabriel Celaya, Blas de Otero, Asunción Carandell, Carlos Barral y José Agustín Goytisolo

Para Ler:

«Fue alrededor de 1968. El poeta había publicado ya 5 de sus 21 libros de poemas -de El retorno (1955) a Las horas quemadas (1996)- cuando el músico [Paco Ibañez] se presentó en su casa con una guitarra para cantarle algunos de sus versos: "No tuve tiempo para sentirme halagado, porque me asusté. Me parecían poemas de otra persona, escritos como para ser cantados o hechos cantando".

"A veces la verdadera intención de un poema aparece cuando sólo cuando lo cantas", cuenta Paco Ibáñez. "Lo que hay que hacer es encontrarle la música".

Que los poemas de José Agustín Goytisolo hayan pasado por la voz de Joan Manuel Serrat, Rosa León, Kiko Veneno, Los Suaves, Muchachito o Peret demuestra la naturalidad de sus versos y el acierto primero de Paco Ibáñez, que empezó con 'Me lo decía mi abuelito' y 'El lobito bueno' y cuya versión de 'Palabras para Julia' se ha convertido en un icono de la cultura española reciente. De hecho, en 1994, el poeta y el cantante iniciaron juntos la gira La voz y la palabra, que se convertiría en disco tres años después. "Improvisábamos mucho", recuerda Ibáñez. "José Agustín tenía mucha chispa y mucho sentido del ritmo del espectáculo. Sabía interpretar el humor del público. En el fondo funcionábamos como músicos callejeros".

(...)

Nacido en 1928, Goytisolo fue un niño de la guerra al que marcó la muerte de su madre en marzo de 1938 durante un bombardeo sobre Barcelona de la aviación italiana a las órdenes de Franco. Esa muerte protagoniza, además, su primer poemario, El retorno. Con aquel libro marcadamente elegiaco se daba a conocer uno de los poetas fundamentales de una generación entre cuyos miembros figuran, además de sus amigos barceloneses, poetas como José Manuel Caballero Bonald, José Ángel Valente, Claudio Rodríguez, Ángel González o Francisco Brines. Con el tiempo, a las antologías canónicas del grupo se añadirían nombres como Antonio Gamoneda y María Victoria Atencia.»

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011
José (Zeca) Afonso

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (Zeca Afonso)

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publicado por António Vilarigues às 21:03
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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
Paco Ibañez canta José Agustín Goytisolo: Me lo decía mi abuelito

Me lo Decía mi Abuelito

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Me lo decía mi abuelito,
me lo decía mi papá,
me lo dijeron muchas veces
y lo olvidaba muchas más.
-
Trabaja niño, no te pienses
que sin dinero vivirás.
Junta el esfuerzo y el ahorro
ábrete paso, ya verás,
como la vida te depara
buenos momentos, te alzarás
sobre los pobres y mezquinos
que no han sabido descollar.
-
Me lo decía mi abuelito,
me lo decía mi papá,
me lo dijeron muchas veces
y lo olvidaba muchas más.
-
La vida es lucha despiadada
nadie te ayuda, así, no más,
y si tú solo no adelantas,
te irán dejando atrás, atrás.
¡Anda muchacho dale duro!
La tierra toda, el sol y el mar,
son para aquellos que han sabido,
sentarse sobre los demás.
-
Me lo decía mi abuelito,
me lo decía mi papá,
me lo dijeron muchas veces,
y lo he olvidado siempre más.

José Agustín Goytisolo / Paco Ibañez
-
Para ver e ouvir Paco Ibañez a cantar «Me lo Decía mi Abuelito » de José Agustín Goytisolo:
Para Ler:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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publicado por António Vilarigues às 12:11
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011
Paco Ibañez canta José Agustín Goytisolo: Érase una vez

Érase una vez

-

Érase una vez
un lobito bueno
al que maltrataban
todos los corderos.

Y había también
un príncipe malo,
una bruja hermosa
y un pirata honrado.

Todas estas cosas
había una vez.
Cuando yo soñaba
un mundo al revés.

José Agustín Goytisolo / Paco Ibañez
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Para ver e ouvir Paco Ibañez a cantar «Érase una vez » de José Agustín Goytisolo:

Para Ler:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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publicado por António Vilarigues às 12:02
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