TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016
Crónicas do País da fome, do medo e da ignorância

Retalhos da vida de um médico

 

Em Retalhos da Vida de Um Médico, percorremos os itinerários do país salazarento, interior, doente, matreiro e desconfiado, país das homílias da conformação, das leiras da fome, das casas celtiberas, da insalubridade quase medieval, da rudeza elementar e da transcendência. O jovem médico, acantonado em Monsanto, nessa que foi, no desvario folclórico do fascismo, a aldeia mais portuguesa de Portugal, percorre veredas, socalcos, caminhos abertos nas faldas da serra por onde as mulas, os burros e os carros de bois se esgueiram entre ventos e chuva, para socorrer os pacientes que o procuram quase sempre em situação extrema, quando desenganados de charlatães, bruxedos e mezinheiros, muitas vezes para apenas confirmar o óbito. Um povo triste e desamado.

(...)

Retalhos da Vida de Um Médico é um exemplo do texto clássico do neo-realismo e uma das obras fundamentais da literatura portuguesa do século XX. Um documento raro, sensível e lúcido sobre a realidade profunda do Portugal fascista; país de silêncios, de medos e de revoltas crescendo no meio dos trigais que Namora, sem contemplações, põe a nu – país de ocultas misérias denunciado pela pena de um autor que nestes textos se revela indignado com o sofrimento dos seus concidadãos, e é esse modo de dizer a revolta, de a tornar humana e lídima, que torna estes textos actuais e de uma indefectível universalidade.

AQUI

 


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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016
6 de Dezembro de 1383 – Revolução burguesa em Portugal

Batalha_de_Aljubarrota_02

A morte do rei Fernando, sem deixar herdeiros masculinos, abriu uma crise dinástica em Portugal, na altura já a braços com revoltas camponesas e profunda insatisfação popular devido à fome e à peste que assolavam o País.

Para evitar que o reino acabasse sob o domínio de Castela – como queriam a rainha viúva Leonor Teles, o seu conselheiro galego conde Andeiro e grande parte da nobreza – alguns nobres, com D. João, mestre de Avis, irmão ilegítimo do rei Fernando, matam o conde Andeiro a 6 de Dezembro de 1383.

O povo de Lisboa aclama o Mestre de Avis Regedor e Defensor do Reino no dia 16 e a burguesia apoia-o com os meios necessários à guerra com Castela, que dura até 1385.

Portugal sai vitorioso.

Segundo vários autores, incluindo Álvaro Cunhal, «a revolução burguesa identificou-se com uma luta nacional pela independência» e a vitória da nação portuguesa foi uma «vitória das forças progressistas sobre as forças reaccionárias de Portugal e Espanha».

AQUI

 

Adenda em 09/12/2016  às 07h05m:

«Neste dia, no ano de 1383, começava em Lisboa a primeira revolução burguesa do mundo.

Revolução, pela mesma razão que ninguém ousaria chamar «interregno» à Revolução Francesa nem «crise» ao 25 de Abril.

Burguesa, porque, ainda que pavorosa aos próprios netos, inaugurou definitivamente o poder dos «homens honrados pela fazenda».

E, à semelhança da revolução francesa ou do 25 de Abril, a revolução portuguesa de 1383-1385 também foi condenada ao olvido e à mentira­­ – com a diferença, no entanto, de mais séculos de avanço.»

 


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Domingo, 30 de Outubro de 2016
Marinheiros insubmissos

Revolta marinheiros 1936-09-08

A história do movimento comunista está repleta de derrotas cujo exemplo e ensinamentos se constituíram como sementes de novos combates, vitoriosos.

Nos seus 95 anos de história, cerca de metade dos quais na situação de clandestinidade imposta pelo fascismo, o PCP conta com vários destes casos.

 

A revolta dos marinheiros de 8 de Setembro de 1936 é um deles: não venceu – e na verdade não podia ter vencido – mas o exemplo de heroísmo e generosidade dos jovens marinheiros cavou fundo na consciência de várias gerações de militantes comunistas e resistentes antifascistas. Ao mesmo tempo, a avaliação dos erros cometidos (que a direcção do PCP previra ainda antes da revolta, cuja eclosão procurou desencorajar por não estar enquadrada num amplo movimento de massas) permitiu ao Partido acumular experiência, factor indispensável ao seu desenvolvimento enquanto força política revolucionária.

Para compreender a origem da revolta e os motivos dos seus protagonistas é preciso compreender o panorama nacional e internacional que então se vivia e ter presente o prestígio de que o Partido gozava entre os marinheiros e os esforços da ditadura para lhe pôr fim: na sequência da reorganização do Partido iniciada em 1929 sob direcção de Bento Gonçalves foi criada três anos depois a Organização Revolucionária da Armada (ORA), que congregava as diferentes células do PCP na Marinha de Guerra e editava O Marinheiro Vermelho, órgão partidário clandestino de grande tiragem cuja influência se estendia a muitas embarcações militares – e muito para além delas. Rapidamente a ORA se tornaria na maior organização do Partido, chegando a ter perto de 20 por cento do total de militantes comunistas.

Ler texto integral

 


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Quinta-feira, 19 de Maio de 2016
19 de Maio de 1917 – Revolução da Batata

BatataCR_Protesto1

A falta de alimentos provocada pelo racionamento resultante da I Guerra Mundial leva a revoltas populares.

Em Lisboa e posteriormente nos concelhos limítrofes, no Porto e noutros pontos do País há assaltos a mercearias e armazéns entre 19 e 21 de Maio, que resultam em violentos confrontos entre a população e a guarda republicana e a polícia.

Na capital, onde se regista simultaneamente um surto de greves, a repressão «severa» ordenada pelo governo salda-se em pelo menos duas dezenas de mortos e meia centena de feridos graves.

Na mesma altura, operários da construção civil manifestam-se no Parque Eduardo VII.

Estes levantamentos ficaram conhecidos como a «revolução da batata».

Os confrontos foram igualmente violentos no Porto, provocando cerca de duas dezenas de mortos.

O Governo de Afonso Costa, considerando que o movimento queria causar «desordem» e «anarquia», decreta o estado de sítio a 20 de Maio, suspende as garantias constitucionais e a cidade passa a ser patrulhada por forças de infantaria e cavalaria.

O parlamento adere à tese de que a revolta foi planeada e não uma explosão social motivada pela degradação das condições de vida e confirma o estado de sítio em 22 de Maio. 

AQUI

 


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Sábado, 2 de Fevereiro de 2013
Ciclo de conferências: Ferramentas para a cidadania

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012
Apelo à revolta armada?

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Graças à minha infecção bacteriana não tinha lido este texto. Mas mais vale tarde que nunca...

«(...)

Outra leitura possível é que o TC [Tribunal Constitucional] tenha plena consciência de que a situação bateu no fundo, que a descredibilização das chamadas "instituições democráticas" é total, que a legitimidade do Governo é insustentável, que as eleições já não conseguem traduzir a vontade do povo nem os partidos querem interpretá-la e assumi-la.
Talvez o TC tenha querido mostrar ao povo como é infundada a sua fé no sistema, como é disparatada a sua esperança de que alguma instância estatal assuma a defesa da justiça e da comunidade. Talvez o TC tenha querido enviar um sinal ao povo, demonstrar-lhe que não existe nenhum obstáculo entre o presente e a barbárie, que a lei não é uma defesa contra a arbitrariedade. Talvez o TC tenha querido mostrar que as "instituições democráticas" não conseguem defender os direitos dos cidadãos e que a revolta armada  é a única solução. Talvez o acórdão pretenda apenas mostrar aos cidadãos que a via da legalidade democrática como forma de gerar alternativas políticas está esgotada. Se for assim, o acórdão [sobre o Código do Trabalho] tem lógica. Poderemos discordar dele, mas a coerência entre o objectivo e o instrumento será total.»

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Sexta-feira, 8 de Junho de 2012
Pobreza

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Para que se tenha uma ideia das desigualdades desta Europa, observe-se que, por exemplo, o limiar da pobreza de vários países é superior ao rendimento mediano português. Isto é, quem é considerado pobre nesses países ganha mais do que a maioria dos portugueses.

Uma desigualdade tão gritante deveria ser preocupação dos governos e das instituições da União Europeia.

Mas não é, como se sabe...

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Notícias AQUI, AQUI e AQUI

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2012
Privações por pessoa
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É uma outra leitura da figura do post anterior. O relatório da Unicef chama a atenção para os casos de Portugal e da República Checa. PIBs muito idênticos, mas a privação em Portugal a ser mais de 3 vezes superior (!!!).

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Portugal, pais de privações para crianças e jovens

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Quarta-feira, 14 de Abril de 2010
Os "canuts" do século XXI

Esta fotografia é da Índia mas podia ser de outros países como se sabe.

E na Europa?


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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
Aristide Bruant: Les Canuts

Uma canção escrita nos finais do século XIX dando voz aos " canuts", os operários tecelões da seda de Lyon, que protagonizaram a primeira revolta operária da História em 1831 e inspiraram as correntes de pensamento operárias posteriores.

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Les Canuts

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Pour chanter Veni Creator
Il faut une chasuble d'or.
Pour chanter Veni Creator
Il faut une chasuble d'or.
Nous en tissons
Pour vous grands de l'Église,
Et nous pauvres canuts
N'avons pas de chemise.

C'est nous les canuts,
Nous sommes tout nus.
C'est nous les canuts,
Nous sommes tout nus.

Pour gouverner, il faut avoir
Manteaux ou rubans en sautoir.
Pour gouverner, il faut avoir
Manteaux ou rubans en sautoir.
Nous en tissons
Pour vous grands de la Terre
Et nous, pauvres canuts,
Sans drap on nous enterre

C'est nous les canuts
Nous sommes tout nus !
C'est nous les canuts
Nous sommes tout nus !

Mais notre règne arrivera
Quand votre règne finira
Mais notre règne arrivera
Quand votre règne finira
Nous tisserons le linceul du vieux monde,
Car on entend déjà la révolte qui gronde

C'est nous les canuts

Nous sommes tout nus !

C'est nous les canuts

Nous n'irons plus nus !

Aristide Bruant

Para ver e ouvir «Les Canuts» de Aristide Bruant:

«Vivre en travaillant, ou mourir en combattant»

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"Les canuts, étant soumis à de rudes conditions de travail (ils travaillaient 18 heures par jour), se révoltèrent à de nombreuses reprises (cf. l'article détaillé la Révolte des Canuts). Leur première révolte d'octobre 1831 est considérée comme l'une des premières révoltes ouvrières. Ils occupèrent Lyon aux cris «Vivre libre en travaillant ou mourir en combattant !». Le roi Louis-Philippe Ier envoya 20 000 hommes de troupe et 150 canons pour réprimer «l'émeute».

Le 14 février 1834, les Canuts se révoltèrent de nouveau en occupant les hauteurs de Lyon, et ils firent face pendant 6 jours à 12 000 soldats. Ils utilisèrent des traboules, passages obscurs qui permettent d'aller d'une rue à l'autre à travers les immeubles.

Une troisième insurrection aura lieu en 1848, au moment de la proclamation de la Seconde République, menée par les Voraces. La république permettra aux sociétés ouvrières de sortir de la clandestinité (association de type mutualiste ou coopératif).

Les mêmes Voraces mèneront une quatrième insurrection en 1849, en écho au soulèvement des républicains parisiens. Circonscrite sur le faubourg Croix-Rousse, elle sera violemment réprimée".

Esta fotografia não é do século XIX...

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010
Sinais de Fogo: A Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936 (3)

(...)

Saí, atirando com a porta que logo se abriu para a minha mãe me lançar maldições lacrimosas, entremeadas de aterrorizados avisos pelos riscos que eu corria; e, do alto do patamar, os clamores seguiram-me até à rua. Na rua, não tinha para onde ir, e fui des­cendo a caminho da Baixa.

Não se sentia nas pessoas e nas coisas alteração alguma. Talvez em tudo um ar de acontecimento, certa movimentação à porta das mercearias e outras lojas, pessoas que ostensivamente paravam na rua de jornal aberto (para darem ênfase à atmosfera que pressen­tiam ou que desejavam pressentir) e depois procuravam os olhos dos restantes transeuntes, em busca de tácito calor comunicativo. Mas, e seria talvez impressão minha, os outros olhares furtavam-se. Era como se dois pares de olhos se levantassem de um jornal, ou se cruzassem para comunicar um silencioso acordo ou um começo de conversa, e logo recuassem a refugiar-se numa cauta reserva. Subitamente, senti que a solidão que era a minha, a de saber que sabia e não sabia o quanto sabia, não era senão um caso parti­cular de outra solidão maior que se abatera sub-reptícia sobre tudo e todos, e a que todos se sujeitavam sub-repticiamente. Não era que as pessoas fossem coniventes de uma revolução falhada, uma rebelião, uma «intentona», como eu me lembrava de ouvir dizer quando era pequeno, e temessem denunciar-se com um gesto ou uma palavra. Algumas, por certo, leriam o jornal com o mesmo ansiado prazer de a ordem e a disciplina serem mantidas, que houvera na voz de minha mãe. E, todavia, essas mesmas sentiam-se sós e incomuni­cáveis, por terem aceitado que a ordem e a disciplina fossem uma coisa exterior a elas, defendida por outros, em nome de um governo que tomara sobre si o defini-las e se atribuía a omnisciência mesmo de revoluções que chegavam a sair e causavam mortos e feridos. Ainda que se entusiasmassem umas às outras, seria sempre um entusiasmo triste, como forçado pela necessidade de compensar o que nem saberiam haver perdido ou abandonado.

Jorge de Sena, Sinais de fogo

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010
Sinais de Fogo: A Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936 (2)

(...)

Vesti outra vez o pijama, fui tomar café. Sentada à mesa, minha mãe lia atentamente o jornal. Debrucei-me por cima do ombro dela, para ler também.

— Senta-te e come primeiro, que são mais do que horas — por­que embirrava que alguém lesse por cima do ombro dela, e nem o sensacionalismo do caso lhe alterava o reiterado hábito.

Enquanto eu comia, ia-me recitando excertos de noticiário. Mas eu detestava ouvir ler por fracções: — Leia, que eu leio depois.

Mas minha mãe prosseguiu apaixonadamente: — «Uma revolta a bordo do navio Afonso de Albuquerque e do contratorpedeiro Dão...» Ora aí está. «Algumas dezenas de cabos e marinheiros tomaram conta dos navios»... Coisa de gente ordinária... Marinheiros, ui que gente!... Ah, espera, «marinheiros, representando uma pequena parte das guarnições daqueles barcos, tomaram conta dos navios»... Foram poucos, está-se a ver... «prenderam os oficiais de serviço»... Prender os oficiais, que indisciplina... «e tentaram sair a barra para se irem juntar à esquadra marxista espanhola»... Para onde é que eles iam?

—  Juntar-se à esquadra espanhola, à do governo.

—  Qual governo, aquilo não é governo, estás a ver o resultado dos maus exemplos? Ouve, espera. «Um fogo violento e certeiro das baterias de Almada e do Alto do Duque reduziu os rebeldes à impotência»... Bem feito, foi a tempo... «Em poucos minutos»... Durou pouco, por isso não chegámos a ouvir nada... «obrigando-os a arvorar a bandeira branca, quando os navios estavam já a meter água»... Meter água? (Ir ao fundo — expliquei eu). «À parte estes dois navios, toda a esquadra se manteve absolutamente disciplinada.» Afinal foram só dois navios. E não mataram os oficiais (havia na voz de minha mãe como que uma decepção inconsciente que a levou a percorrer o jornal com precipitada atenção). Não, não dizem nada de terem matado os oficiais.

—  Só podiam matar dois, um em cada um.

—  Essa agora! Pois não há tantos em cada navio?

—  Há, mas vão ficar a casa. E como nos quartéis. E é o que aí diz, não é? «Prenderam os oficiais de serviço.» O que quer dizer que só estavam lá os oficiais de serviço.

—  É... não mataram os oficiais de serviço... Mas não diz aqui se os navios foram ao fundo... Foram só dois, porque aqui diz que «dos vinte e um navios que ontem se encontravam surtos no Tejo apenas dois se sublevaram, capitaneados por pequenos comités». Aqui está... «Desembarque dos mortos, dos feridos e dos presos...» Vês?... Houve mortos e feridos.

— Os marinheiros e os cabos.

— Ah, espera... o governo já sabia (estremeci). «O governo, que já conhecia as intenções dos sublevados, tinha tomado as providências necessárias para os reduzir imediatamente à obediência.» Olha, e vão castigar «os oficiais e sargentos que não tenham empregado todos os esforços para dominar a insubordinação».

—   Como é que é isso?

—   Como é? Claro que devem ser castigados.

—   Mas, se eles não estavam a bordo, porque só estavam os oficiais de serviço, é porque não sabiam de nada, e o governo também não. Ou o governo sabia e eles não, e como é que agora pagam pelo que não sabiam?

—   Não me perguntes isso a mim. Mas que confusões estás tu a fazer? Olha, sabes que mais? Quem manda manda. O governo lá tem as suas razões. Oh, que horror... Tinham a bordo exemplares, diz aqui, do Marinheiro Vermelho. Que horror.

—   Horror porquê? A mãe já viu esse jornal alguma vez?

—   Nem preciso, basta o nome. Marinheiro já é gente de bebe­deira e facada, homens cheios de vícios, ainda por cima «vermelho»! Onde é que tu vais?!

—   Vou ver navios.

—   Tu não sais daqui! Bem basta que o teu pai tenha saído, por obrigação. Quem o mandou telefonar para o escritório?! Claro que logo disseram que não havia nada, aquela gente não perdoa nem uma revolução. Mas tu não tens nada que fazer. A tua obrigação é ficares em casa para defenderes a tua mãe.

—   Defender de quê? — e a discussão eternizava-se, com vai­ vém de razões em círculo e a minha mãe dramaticamente já na porta da rua, de braços abertos, e a criada atrás de mim, supli­cando que eu não saísse, a senhora estava tão aflita, eu não me dava conta?

Saí, atirando com a porta que logo se abriu para a minha mãe me lançar maldições lacrimosas, entremeadas de aterrorizados avisos pelos riscos que eu corria; e, do alto do patamar, os clamores seguiram-me até à rua. Na rua, não tinha para onde ir, e fui des­cendo a caminho da Baixa.

(...)

Jorge de Sena, Sinais de fogo

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge
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Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Sinais de Fogo: A Revolta dos Marinheiros de 8 de Setembro de 1936 (1)

(...)
Minha mãe mandou a criada para a cozinha, arrastou-me para a sala de jantar e fechou a porta.
—   Valha-nos Deus! O coração bem me dizia! E agora?
— E agora o quê? A mãe não entende. Eu não estou metido nisto, em revolução nenhuma, é outra coisa.
— Que outra coisa? Eu logo vi que toda esta vadiagem havia de acabar mal.
— Não faça misturas nem confusões (e eu sentia que em mim tudo era mistura e confusão), deixe-se de romances. Já disse que não tenho nada que ver com coisa nenhuma e — foi uma inspiração — acha que, se tivesse, tinha ficado em casa esta noite?
O argumento impressionou-a: — Não sei... Talvez não... Juras que não andas com gente perigosa?
— Juro — e, ao mesmo tempo, perguntava-me quem seria ou não perigoso.
— Tem cuidado, não te desgraces, nem nos desgraces a nós.
Fui para a casa de banho, a pensar naquela filosofia: «não te desgraces, nem a nós», como se desgraçar voluntariamente ou por inadvertência, ou por inesperada consequência, os outros fosse decidi­damente secundário. Tremi, reconhecendo naquilo o pior dos egoísmos, sem dúvida. O egoísmo da inocência, da ignorância, do conformismo, o egoísmo pavoroso dos que se querem, e querem os outros, inocentes, ignorantes, e conformados, cada um fechado sossegadamente na sua paz, e defendendo, pior que com ferocidade, com bondade e até honesta doçura, as fronteiras invioláveis do seu primeiro, segundo ou terceiro andar, mais as pratas e os filhos, contra a invasão de qualquer grito de angústia. Estendido no banho, deixando-me embebedar de ensaboado calor, não me sen­tia lavado ou repousado. E o próprio parcial flutuar na banheira dava-me uma sensação de horror. Mas recusava-me a recordar fosse o que fosse, a fazer ligações entre os acontecimentos e as pessoas. De súbito, levantei-me, ou uma ideia levantou-me: se o forte, um dos fortes que tinham entretanto afundado os navios, estava de prevenção na véspera, era porque o governo sabia o que ia acon­tecer — e ou não sabia a extensão do que ia acontecer, e esperara pela saída da revolução, para agir depois, ou sabia perfeitamente a extensão dela, e deixara que tudo acontecesse, porque isso muito melhor servia os seus fins. E navios iam ao fundo, pessoas eram mortas, por um frio cálculo de vantagens políticas. Estava eu, porém, isento de ter feito cálculos semelhantes? E tinha sequer a desculpa de um plano de acção, que, por idealismo ou por reles cálculo, ou mesmo por obediência a sórdidos interesses que tivesse por missão defender, me justificasse? Mas justificar era afinal o mesmo que estar dentro da justiça e da razão? Mas que justiça e que razão não serviam para justificar tudo?
(...)
Jorge de Sena, Sinais de fogo
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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge
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