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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

A pulhice humana revisitada

Pulha – Pessoa sem carácter, bandalho; patife (Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da Porto Editora).

1. Banco Português de Negócios (BPN). Em 2006 reportou resultados positivos 86 milhões de euros. Em 2007 o valor passou para 77 milhões. Mas a 30 de Outubro de 2008, os prejuízos ascendiam a 700 milhões de euros. Hoje, neste final de ano de 2010, já vamos em 4,8 mil milhões de euros.

Mas o regabofe não acaba aqui. O Orçamento para 2011 destina-lhes mais 400 milhões de euros. Fala-se num «aumento de capital» por parte do estado de 500 milhões. Economistas de vários quadrantes referem que ainda falta contabilizar 2 mil milhões de euros de «activos tóxicos» (forma enviesada de dizer que não valem nada, zero). Tudo somado temos cerca de 7,7 mil milhões de euros. Ou quase 5 por cento do PIB de Portugal! E não nos esqueçamos que a base de licitação do BPN é de 180 milhões de euros!!!

O Ministro das Finanças jura a pés juntos que, até agora, «não gastou dinheiro dos contribuintes». Longe de mim duvidar da palavra do ministro. Mas os 400 milhões que estão no orçamento para 2011 são dinheiro de quem? E, mais importante, donde vem todo este dinheiro? Ao que parece da Caixa Geral de Depósitos (CGD). O ministro pretende dar um rombo nas contas da CGD? Quando, onde e como, vão ser contabilizados estes valores obscenos? Quais os seus efeitos nos Orçamentos do Estado de 2012, 2013 e seguintes? Que novos «sacrifícios» vão ser pedidos?

2. No passado dia 13 de Outubro de 2010, 5 militantes (4 raparigas e 1 rapaz) da Juventude Comunista Portuguesa (JCP) viram ser impedida a pintura de um mural junto à Rotunda das Olaias, em Lisboa. Os elementos da PSP detiveram e insultaram os jovens. Na esquadra obrigaram as raparigas (menores) a despirem-se integralmente com o argumento que procuravam drogas. Sublinhe-se que nem as mochilas, nem o rapaz foram revistados. Durante várias horas ficaram retidos na esquadra, sem a presença de defensor ou dos pais.

Sobre tudo isto a JCP enviou uma nota para as redacções. NENHUM, repito, NENHUM órgão da comunicação social dominante noticiou estes acontecimentos. Que critérios jornalísticos conduziram a que o comportamento a vários títulos abusivo e intolerável da PSP (a pintura de murais em locais públicos é um direito reconhecido por lei e um parecer do Tribunal Constitucional condena impedimentos ao seu exercício) tenha merecido o silêncio da imprensa escrita e falada? Será pelo facto de os cinco jovens serem militantes de uma organização comunista?

Só depois destes acontecimentos terem sido divulgados na blogosfera alguns arrepiaram caminho e noticiaram estes factos. Questionada, a PSP considerou naturalíssimo e «decorre[nte] das medidas cautelares de polícia» que as jovens detidas tenham sido obrigadas a despir-se completamente na esquadra. O objectivo seria fazer-lhes uma «revista sumária» (imagine-se se tivesse sido uma «revista completa») à procura de «armas, de fogo ou brancas» ou «produtos cujo transporte pode ser considerado crime, nomeadamente drogas».

Dois meses depois as autoridades competentes ainda não averiguaram o que aconteceu. O anunciado inquérito aberto pelo IGAI ainda não tem qualquer conclusão. Mas os menores, após terem apresentado queixa da PSP de Lisboa, estão a ser sujeitos a um processo de inquérito, de avaliação da sua personalidade, de inquisição à sua família e ambiente escolar e social. Chega-se ao cúmulo de a mãe de uma das menores estar a ser investigada para ver se tem condições para criar a filha! A que título? Por ter pintado um mural?

Estamos, objectivamente, perante sucessivos comportamentos abjectos e execráveis de cariz fascizante. O que tem o ministro da tutela a dizer sobre o assunto? E todos aqueles e aquelas sempre tão céleres a expressarem a sua indignados com as violações dos direitos humanos noutras paragens?

Pessoas sem carácter…

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 24 de Dezembro de 2010

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