Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!

(...)

Um dos círculos menos disputados era, nessa ocasião, o de Freixo de Espada à Cinta. Propunha-se como deputado da oposição um obscuro Gervásio Maldonado, proprietário local, com uma parentela larga na terra, interesses de lavoura, etc., e o governo Cardoso Torres combatia-o, apresentando na lista governamental, como candidato por Freixo de Espada à Cinta, o moço bacharel Artur Gavião, filho do presidente do Banco Nacional, que o pai, cansado da sua dissipação, queria forçar, pelos deveres que lhe imporia S. Bento – isto é o Parlamento – a uma vida disciplinada, sóbria e útil.

Conta-se que o Sr. Alexandre Herculano, a este respeito, dissera, com aquele espírito misantropo que a sua voz ríspida acentuava de um relevo amargo:

– Se o Gavião queria morigerar o rapaz, devia-o conservar no bordel, e não o mandar para o Parlamento!

Mas o que eu penso do Sr. Alexandre Herculano, dos seus ditos, da sua misantropia, da sua moral e das suas letras, escrevê-lo-ei um dia, desassombradamente.

O Sr. Artur Gavião (que tão desgraçadamente morreu depois afogado ao pé de Caxias), era pois o candidato governamental por Freixo de Espada à Cinta, quando Joaquim Osório Teixeira, ministro da Justiça, declarou, com decisão, que era sim-plesmente uma afronta ao Bom-Senso, à Câmara e à Dignidade do Governo, nomear por Freixo de Espada à Cinta um indivíduo que, às quatro horas da tarde, descia o Chiado, numa tipóia, com meretrizes andaluzas, inteiramente embriagado.

Gavião pai, mais tarde, afirmava que esta oposição do ministro da Justiça não era inspirada por puros motivos de moralidade pública, mas constituía a vingança pessoal de uma antiga humilhação, caso complicado de letras a três meses, etc., etc... como ele acrescentava com uma reticência maligna.

O Presidente do Conselho, porém, amigo do Gavião, e desejando conservar ao Governo aquele sólido apoio do Capital e da Propriedade, insistia na candidatura do libertino Artur.

Um dia, contudo, Joaquim Osório Teixeira declarou que faria dessa candidatura uma questão pessoal, que ele não podia autorizar o patrocinato legal do deboche, e que, se o Colega Cardoso insistisse, ele, Joaquim Teixeira, trotaria para Sintra a pôr a sua demissão nas mãos de S. M.

Cardoso, receando o conflito, riscou sem mais observações da lista governamental o nome do jovial libertino.

À noite, porém, em casa, ao chá, exprimiu com azedume o seu embaraço: não só descontentava o Gavião pai – um colosso – mas aí ficava o círculo de Freixo de Espada à Cinta vazio, viúvo...

– Homem – acudiu imediatamente o Dr. Vaz Correia, velho amigo da casa – parece-me que tenho exactamente o que lhe convém: o Alípio Abranhos!

Cardoso Torres não o conhecia pessoalmente. Vaz Correia, porém demonstrou-lhe com abundância eloquente as vantagens da escolha: como família, Alípio era um Noronha; como ilustração, um premiado; como posição de fortuna, era genro do Amado; como experiência política, fora redactor da Bandeira, formado na prudente escola do taciturno e profundo Conselheiro Gama Torres; como maneiras – um fidalgo; como lealdade – um Baiardo!

E Cardoso, apontando-lhe imediatamente no livro de notas que trazia sempre consigo, o nome, a idade, a morada e os prémios, retomou a sua xícara de chá, dizendo:

– Pois mande-mo cá. Metemo-lo por Freixo!

As eleições realizaram-se daí a três semanas e o ministério teve uma maioria compacta, sólida, homogénea.

Os jornais da oposição, é certo, afirmaram que, como corrupção, tricas, violências, peitas, influências obscenas, não só continuavam a tradição obsoleta dos Cabrais, mas ofereciam a evidência dolorosa da nossa decadência social!

O Estandarte dizia: «É imenso como torpeza; mas nós aplaudimos, porque um ministério que assim procede, inspira, ipso facto, um nojo genérico. Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!»

O Progresso Social afirmava: «somos o escárnio da Europa!»

A Nacionalidade informava com chiste: «Está averiguado que a maior parte das urnas tinham fundos falsos: nada admira o expediente, vindo de um ministério de pelotiqueiros» – aludindo maliciosamente ao ministro das Obras Públicas, cuja perícia em fazer habilidades com cartas era geralmente estimada e muito apreciada na socie-dade.

Mas o Globo, jornal do Governo, teve esta saída resplandecente: «O Estandarte,.jornal dos Bexigosos, escreve no seu artigo de ontem: «O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!» Este plagiato é torpe: aquela frase foi escrita por nós, ipsis verbis, no nº 1214 deste jornal, na ocasião em que os Bexigosos elegeram a câmara passada».

Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma nódoa – e se queriam suprimir com benzina! Ah, quando se compenetrará a Imprensa da elevação do seu sacerdócio?

A única eleição que nunca foi vituperada nos jornais da oposição foi a de Freixo. Com efeito Alípio Abranhos, logo que soube da sua nomeação, prevendo os uivos da minoria, correu as redacções, onde, do tempo da sua colaboração na Bandeira, conservara ligações afectuosas, e foi dizendo, aqui e além, com uma notável habilidade política:

– Vocês compreendem. Eu venho por Freixo. Venho pelo Governo... Mas eu não me liguei, não me comprometi. Estou na expectativa. Vocês compreendem...

Compreenderam, creio – e a Nacionalidade escreveu mesmo: «o melhor resultado destas eleições, foi mandar à Câmara o nosso antigo condiscípulo, o Ex.mo Alípio Abranhos, esposo da formosa filha do digno Desembargador Amado, e que já nos bancos da Universidade era justamente reputado pelos seus dotes notáveis de orador».

(...)

In Eça de Queirós, O Conde d'Abranhos

-

Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma nódoa – e se queriam suprimir com benzina!

-

-

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

_

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:05
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De geacieterietsch a 12 de Janeiro de 2011 às 13:43
Tão actual!!!!

Um beijo.
De Jorge a 12 de Janeiro de 2011 às 15:14
Todo este texto é actual, de facto!
Um abraço

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