Segunda-feira, 21 de Março de 2011

A mentira está-lhes no ADN

   «(…) os partidos reaccionários, pela natureza inconfessável dos seus fins, são os partidos da mentira.

Nenhum dos governos de direita e nenhum dos partidos seus componentes ousou dizer a verdade acerca dos objectivos da sua política. Todos os seus actos e todas as suas medidas foram e são apresentados com extenso rol de mentiras elaboradas, planeadas e sistematizadas. (…)

A mentira é parte integrante, constitutiva, intrínseca, permanente, da política dos governos de direita e dos partidos que nestes participam. Tornou-se uma prática que se insere com desfaçatez e cinismo na completa falta de escrúpulos morais desses governos e partidos.»

Estas palavras, escritas por Álvaro Cunhal em 1985 no seu conhecido ensaio «O Partido com paredes de Vidro», estão mais actuais que nunca.

Os exemplos abundam e a escolha é difícil.

Mário Soares escreveu esta semana «quem há mais de cinquenta anos, como eu, é um europeísta convicto». Este é o mesmo Mário Soares que, antes do 25 de Abril de 1974, declarou ser contrário à entrada de Portugal para a CEE, porque era «pela Europa dos trabalhadores e não pela Europa dos trusts». O mesmo que dizia em 1974 que «se tivéssemos que aplicar o princípio da livre circulação de pessoas, capitais e produtos, a nossa economia não resistiria». O mesmo que afirmava que «Portugal não está em condições de se integrar no Mercado Comum», pois se isso acontecesses, «a nossa economia ficaria arruinada a curto prazo». O mesmo que me 1976 brandia contra «certas forças políticas em Portugal que se encaminham para defender a aproximação de Portugal às Comunidades Europeias numa perspectiva puramente capitalista que não corresponde aos verdadeiros interesses do povo português e se afasta dos imperativos de uma verdadeira independência nacional».

«O Estado Social está falido», clamam. O Estado já não pode assegurar o pagamento das despesas sociais, dizem-nos. Fica por explicar como pode faltar hoje, em 2011, o dinheiro para manter e aumentar essas conquistas. O chamado Estado Social foi criado na Europa do pós II Guerra Mundial como contrapeso à força do exemplo das conquistas dos trabalhadores e dos camponeses na União Soviética de então. Desde essa altura a produção da riqueza aumentou exponencialmente, a um ritmo muitíssimo superior ao do crescimento da população. A verdade é outra. A verdade é que as 280 maiores fortunas do planeta concentram em si mais riqueza que 2 mil milhões de pessoas. E em Portugal a distribuição do Rendimento Nacional passou de 59,5 para o trabalho em 1976 para perto dos 30% em 2011.

«Os sacrifícios são para todos», dizem a uma só voz todos os membros do governo, a começar por José Sócrates.

Mas qual é a realidade que todos os dias nos entra pelos olhos dentro?

Os sucessivos PEC (já vamos no PEC 4) e o Orçamento do Estado para 2011, foram-nos impostos pelo PS e pelo PSD e aplaudidos pelo Presidente da República. Traduziram-se numa diminuição brutal de rendimentos dos trabalhadores e do povo. Diminuição essa obtida pela conjugação do roubo nos salários, no corte dos apoios sociais e do aumento dos preços.

E para os mandantes detentores do capital, sobretudo os grandes grupos económicos e financeiros? «Manda quem pode» lá diz o dito popular.

Os banqueiros levantam a voz? Logo o governo inventa «dificuldades técnicas» e recua nas suas intenções de tributar, ainda que ligeiramente, o sector. Os patrões querem despedir mais barato? O governo cria-lhes um fundo a ser pago, imagine-se, pelos trabalhadores. A indústria e o comércio farmacêuticos espirram? O Governo recua na baixa dos preços dos medicamentos. As transportadoras refilam? Logo se abrem negociações e os acordos surgem? Os proprietários dos campos de golfe queixam-se? O IVA aplicado passa de 23 para 6%.

É preciso dizer basta a estas políticas e a estes políticos de mentira! A manifestação de 19 de Março será mais um passo nesse caminho que conduzirá à ruptura e à mudança.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 18 de Março de 2011

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:03
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1 comentário:
De Maria Dionisio a 23 de Março de 2011 às 14:26
Estou de acordo com a análise do comentador . Completamente
Só não concordo com as afirmações de Cunhal citadas no artigo. Sei bem que em nome do interesse politico os partidos de esquerda também mentem que se fartam!

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