Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Afinal o dinheiro não desapareceu... (2)

  • Só na primeira década do milénio, os lucros obtidos pelos bancos foram de 24 mil milhões de euros, seis mil milhões dos quais distribuídos pelos accionistas dos bancos.

  • Se tivermos em conta que, no final de 2008, o número de contratos para a aquisição de habitação, na sua maioria para habitação própria e permanente, era de 1.653.807, que o saldo em dívida era de 93.333 milhões de euros e que as famílias pagam cerca de 2,5 a 3 vezes o valor do empréstimo concedido, não é difícil perceber o porquê de lucros tão significativos.

  • O comércio dos carros de topo de gama não foi afectado pelo aumento do IVA para 23%. Nos primeiros 3 meses a Porsche teve um aumento de 92%!

Afinal o dinheiro não desapareceu! Bem me parecia...

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:33
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4 comentários:
De António Carvalho a 19 de Maio de 2012
CATARINA EUFÉMIA - 13 de Fevereiro de 1928 - 19 de Maio de 1954



Catarina Eufémia nasceu em Baleizão, em 1928, e começou a trabalhar ainda criança.

Nos anos 50, o proletariado agrícola alentejano fervia de revolta face às aviltantes condições de trabalho. Aos 24 anos, adere ao PCP, e pouco depois, já no Comité Local, lidera a organização de mulheres da sua terra.

Em 54, a luta ganha novo fôlego, enquanto os latifundiários e o seu governo fascista tentavam por todos os meios impor jornas baixas. Multiplicam-se amplas comissões de unidade nas Praças de Jorna.

Em Baleizão, perante a recusa do latifundiário em pagar uma jorna digna, os trabalhadores entram em greve a 15 de Maio. Tentando furar a unidade o latifundiário recruta trabalhadores de outra aldeia. O povo marcha então a 19 para a herdade, para juntar à sua luta os novos contratados. O que consegue sem dificuldades. A GNR cerca a herdade e obriga os novos “contratados” a trabalhar sobre as suas armas. Mas o povo de Baleizão não desiste, e perante a sua unidade a GNR deixa uma Comissão de mulheres passar o cordão policial para negociar.

Catarina lidera esse grupo, grávida do seu quarto filho, o com o mais novo, de 8 meses ao colo. O tenente Carrajola pergunta-lhe “Que queres, bruta?”, “O que eu quero é pão para matar a fome aos meus filhos!”.

A resposta soou em três tiros desfechados à queima-roupa. Às 11.00 da manhã, de pé e sem medo, morria Catarina Eufémia...

Este assassinato a sangue-frio foi uma das mais brutais acções do regime de Salazar, causando uma revolta surda e contida entre as massas rurais alentejanas.


Catarina tornou-se, depois da sua morte trágica, como um símbolo, principalmente entre o Partido Comunista Português, como um modelo de mulher, mãe e militante. Muitas vezes se lhe jurou vingança, tal foi a raiva de dor que pulsou durante décadas no Alentejo por aquela morte estúpida e cruel, aparecendo também flores na campa de Catarina, no cemitério de Quintos, depositadas por desconhecidos.

Os cantores de intervenção e os poetas opositores ao regime não deixaram também de cantar a pobre camponesa assassinada: José Afonso, Sophia de Mello Breyner ou José Carlos Ary dos Santos, entre outros. No imaginário popular e oposicionista, o assassinato de Catarina Eufémia era a demonstração clara da crueldade e brutalidade dos métodos e formas de resposta por parte do regime às desigualdades e injustiças que apoiava e mantinha.

Com a devida vénia, um poema de Sérgio O. Sá dedicado a Catarina Eufémia.

CHAMAVA-SE CATARINA
Rica de fome,
Pobre de pão.
Chamava-se Catarina,
Trágica foi sua sina.

Seus, teve apenas dois braços,
Braços de mulher, franzinos,
Três filhos bem pequeninos,
Esperança e tantos sonhos
E uma voz inocente
Que não conhecia o medo.
Por isso morreu tão cedo.

Rica de fome,
Pobre de pão.
Em terras do Alentejo
Uma MULHER disse NÃO
À injustiça do tempo.
Por isso morreu tão cedo.
...mataram-na à traição!
Seu sangue puro regou
Os campos de Baleizão.
Quando foi a enterrar
Amortalhou-a a razão.

Rica de fome,
Pobre de pão.
Mataram-na à traição.
Da sua voz inocente
Ficou eco, um eco ingente.

Trágica foi sua sina.
Não terá morrido em vão.
Chamava-se CATARINA!

1978- in; Sérgio O. Sá, VERSOS NA GUERRA - VERSOS DE PAZ



De António Carvalho a 19 de Maio de 2012
POEMAS

AO RETRATO DE CATARINA
Carlos Aboim Inglez


Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto

CATARINA EUFÉMIA
Francisco Miguel

Na vasta planície os trigos não ceifados.
Ao longe oliveiras batidas pelo sol.
Tu serena caminhas para os soldados
com a ideia, para todos um farol.

A brisa não se levantara.
Ias armada apenas da razão.
Contigo os milhões que têm, fome
contigo o povo que não come e que ali cultiva o nosso pão.

O monstro empunhava as armas de aço.
Tu pedindo a paz serena caminhavas
levando um filho no colo outro no regaço.

As armas dispararam, tu tombaste.
Com teu sangue a terra foi regada.

E ali à luz do sol que tudo ardia
dava mais um passo a nossa caminhada.
Na boca da mulher assassinada
certeza da vitória nos sorria.

o sol que o teu sangue viu correr
que teus camaradas viu ali aflitos
ouvirá amanhã os nossos gritos
quando o novo dia amanhecer

Que nessa terra heróica - Baleizão -
onde se recolhe o trigo branco e loiro
teu nome gravado em letras de oiro
tem já cada um no coração


RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
José Carlos Ary dos Santos



Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.

Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.

Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.

Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.

LAIVOS DE AQUENTEJO
Luísa Vilão Palma


O panal era branco em rendas de suor, como a cal que a Ti Liberta fervia no azado, ao fundo da rua do monte. O ervaçal no empedrado. O monte era o rumo dos dias nas tardes calmosas. Deixava a tarimba ao luzir do buraco, enquanto o cão ansiava a bôla de farelo, impaciente. A cauda do animal agitava-se na cadência dos passos da mulher.
O patrão podia aparecer a qualquer hora. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de coração apaixonado na metáfora do escritor.

— Bom dia, Ti Liberta, já soube da desgraça?
-Oh! home, o que dizes tu?

O olhar da mulher fraquejou, começou a toldar-se, fundindo-se na sombra da azinheira solitária que o artista empresta à tela camponesa as tuas mãos em gesto ritmado no movimento da foice as paveias soam a queixume de quem implora o pão

..hás de fazer do teu lenço vermelho a única bandeira viva sobre a terra...

Sim, a desgraça, ti Liberta. Ela caiu. Ali mesmo.

Entre a terra e o céu. Lá. Pelo Maio calmoso das aceifas escureceu o sol tardiamente, beijando-lhe a face pela última vez. Lá. Onde a imensidão. Vagueiam gestos ousados em lágrimas de sangue da mulher.
O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de ódio no retrato da tirania.

Ti Liberta, abra os olhos.

Já faz tempo que a ceifeira, na voz de todas as ceifeiras, deixou rolar a foice entre o trigal, desesperada. Foi por mor do acrescento de uns tostões à jorna.
Ficou tamanho eco no infinito da gente que lutou até à exaustão.
A tua foice, Catarina.
Alentejo, vestimos os teus panos. Tu matas-nos a sede.





De António Carvalho a 19 de Maio de 2012
POEMAS

CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Anderson

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua


CANTAR ALENTEJANO
Vicente Campinas*


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

* Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971
De:
Anónimo
Data:
8 de Março de 2013 às 02:51

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