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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Afinal o dinheiro não desapareceu... (2)

  • Só na primeira década do milénio, os lucros obtidos pelos bancos foram de 24 mil milhões de euros, seis mil milhões dos quais distribuídos pelos accionistas dos bancos.

  • Se tivermos em conta que, no final de 2008, o número de contratos para a aquisição de habitação, na sua maioria para habitação própria e permanente, era de 1.653.807, que o saldo em dívida era de 93.333 milhões de euros e que as famílias pagam cerca de 2,5 a 3 vezes o valor do empréstimo concedido, não é difícil perceber o porquê de lucros tão significativos.

  • O comércio dos carros de topo de gama não foi afectado pelo aumento do IVA para 23%. Nos primeiros 3 meses a Porsche teve um aumento de 92%!

Afinal o dinheiro não desapareceu! Bem me parecia...

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3 comentários

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    António Carvalho 19.05.2012

    POEMAS

    AO RETRATO DE CATARINA
    Carlos Aboim Inglez


    Esses teus olhos enxutos
    Num fundo cavo de olheiras
    Esses lábios resolutos
    Boca de falas inteiras
    Essa fronte aonde os brutos
    Vararam balas certeiras
    Contam certa a tua vida
    Vida de lida e de luta
    De fome tão sem medida
    Que os campos todos enluta

    Ceifou-te ceifeira a morte
    Antes da própria sazão
    Quando o teu altivo porte
    Fazia sombra ao patrão
    Sua lei ditou-te a sorte
    Negra bala foi teu pão
    E o pão por nós semeado
    Com nosso suor colhido
    Pelo pobre é amassado
    Pelo rico só repartido

    Tanta seara continhas
    Visível já nas entranhas
    Em teu ventre a vida tinhas
    Na morte certeza tenhas
    Malditas ervas daninhas
    Hão-de ter mondas tamanhas
    Searas de grã estatura
    De raiva surda e vingança
    Crescerão da tua esperança
    Ceifada sem ser madura

    Teus destinos Catarina
    Não findaram sem renovo
    Tiveram morte assassina
    Hão-de ter vida de novo
    Na semente que germina
    Dos destinos do teu povo
    E na noite negra negra
    Do teu cabelo revolto
    nasce a Manhã do teu rosto
    No futuro de olhos posto

    CATARINA EUFÉMIA
    Francisco Miguel

    Na vasta planície os trigos não ceifados.
    Ao longe oliveiras batidas pelo sol.
    Tu serena caminhas para os soldados
    com a ideia, para todos um farol.

    A brisa não se levantara.
    Ias armada apenas da razão.
    Contigo os milhões que têm, fome
    contigo o povo que não come e que ali cultiva o nosso pão.

    O monstro empunhava as armas de aço.
    Tu pedindo a paz serena caminhavas
    levando um filho no colo outro no regaço.

    As armas dispararam, tu tombaste.
    Com teu sangue a terra foi regada.

    E ali à luz do sol que tudo ardia
    dava mais um passo a nossa caminhada.
    Na boca da mulher assassinada
    certeza da vitória nos sorria.

    o sol que o teu sangue viu correr
    que teus camaradas viu ali aflitos
    ouvirá amanhã os nossos gritos
    quando o novo dia amanhecer

    Que nessa terra heróica - Baleizão -
    onde se recolhe o trigo branco e loiro
    teu nome gravado em letras de oiro
    tem já cada um no coração


    RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
    José Carlos Ary dos Santos



    Da medonha saudade da medusa
    que medeia entre nós e o passado
    dessa palavra polvo da recusa
    de um povo desgraçado.

    Da palavra saudade a mais bonita
    a mais prenha de pranto a mais novelo
    da língua portuguesa fiz a fita encarnada
    que ponho no cabelo.

    Trança de trigo roxo
    Catarina morrendo alpendurada
    do alto de uma foice.
    Soror Saudade Viva assassinada
    pelas balas do sol
    na culatra da noite.

    Meu amor. Minha espiga. Meu herói
    Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
    de corpo inteiro como ninguém foi
    de pedra e alma como ninguém quer.

    LAIVOS DE AQUENTEJO
    Luísa Vilão Palma


    O panal era branco em rendas de suor, como a cal que a Ti Liberta fervia no azado, ao fundo da rua do monte. O ervaçal no empedrado. O monte era o rumo dos dias nas tardes calmosas. Deixava a tarimba ao luzir do buraco, enquanto o cão ansiava a bôla de farelo, impaciente. A cauda do animal agitava-se na cadência dos passos da mulher.
    O patrão podia aparecer a qualquer hora. O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de coração apaixonado na metáfora do escritor.

    — Bom dia, Ti Liberta, já soube da desgraça?
    -Oh! home, o que dizes tu?

    O olhar da mulher fraquejou, começou a toldar-se, fundindo-se na sombra da azinheira solitária que o artista empresta à tela camponesa as tuas mãos em gesto ritmado no movimento da foice as paveias soam a queixume de quem implora o pão

    ..hás de fazer do teu lenço vermelho a única bandeira viva sobre a terra...

    Sim, a desgraça, ti Liberta. Ela caiu. Ali mesmo.

    Entre a terra e o céu. Lá. Pelo Maio calmoso das aceifas escureceu o sol tardiamente, beijando-lhe a face pela última vez. Lá. Onde a imensidão. Vagueiam gestos ousados em lágrimas de sangue da mulher.
    O cereal amassado a crescer. O forno em labaredas de ódio no retrato da tirania.

    Ti Liberta, abra os olhos.

    Já faz tempo que a ceifeira, na voz de todas as ceifeiras, deixou rolar a foice entre o trigal, desesperada. Foi por mor do acrescento de uns tostões à jorna.
    Ficou tamanho eco no infinito da gente que lutou até à exaustão.
    A tua foice, Catarina.
    Alentejo, vestimos os teus panos. Tu matas-nos a sede.





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    António Carvalho 19.05.2012

    POEMAS

    CATARINA EUFÉMIA
    Sophia de Mello Breyner Anderson

    O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
    E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
    Estavas grávida porém não recuaste
    Porque a tua lição é esta: fazer frente

    Pois não deste homem por ti
    E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
    Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
    Nem usaste de manobra ou de calúnia
    E não serviste apenas para chorar os mortos

    Tinha chegado o tempo
    Em que era preciso que alguém não recuasse
    E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
    Porque eras a mulher e não somente a fêmea
    Eras a inocência frontal que não recua
    Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
    E a busca da justiça continua


    CANTAR ALENTEJANO
    Vicente Campinas*


    Chamava-se Catarina
    O Alentejo a viu nascer
    Serranas viram-na em vida
    Baleizão a viu morrer

    Ceifeiras na manhã fria
    Flores na campa lhe vão pôr
    Ficou vermelha a campina
    Do sangue que então brotou

    Acalma o furor campina
    Que o teu pranto não findou
    Quem viu morrer Catarina
    Não perdoa a quem matou

    Aquela pomba tão branca
    Todos a querem p’ra si
    Ó Alentejo queimado
    Ninguém se lembra de ti

    Aquela andorinha negra
    Bate as asas p’ra voar
    Ó Alentejo esquecido
    Inda um dia hás-de cantar

    * Este poema foi musicado por José Afonso, no álbum «Cantigas de Maio», editado no Natal de 1971
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