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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Maria Alda Nogueira: Uma mulher, Uma vida, Uma história de amor (X)

   Conclui-se hoje o que se iniciou no dia do 85º aniversário do seu nascimento [19/03]: a transcrição integral de um texto da autoria de Helena Neves, com edição do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) sobre Maria Alda Nogueira. Foi publicado em 1987 por ocasião da entrega pelo MDM da Distinção de Honra, numa homenagem a uma vida dedicada à defesa da igualdade, da justiça social e da paz.

       

(conclusão)

Encontros e retornos de uma mulher


ABRIL E DIAS QUE DE SI VÊM

          

É na clandestinidade, mas ausente na Bélgica, com o estatuto de refugiada política, que Alda Nogueira recebe a nova de seu país liberto, a notícia do povo nas ruas, das armas depostas na guerra, da paz a nascer nos rostos, no sono tranquilo das manhãs tranquilas, nas vozes soltas das mulheres, no tempo de todas as esperanças e alegrias consentidas.

Alda Nogueira regressa então. Ao país. Ao bairro, ao Largo de Alcântara. A casa. Revê a escola, a rua onde a avó a aguardava e detinha em cada tarde, o prédio onde vivia essa amiga tão querida, a Helena. A casa está quase vazia de gente, mas a memória habita-a, recheia-a, rompe os silêncios, a solidão. E no bairro, há de novo um outro som, uma outra agitação, a da fala, a do encontro sem cautelas.

Alda Nogueira regressa para a luta. Pelos direitos da mulher. E por um outro tempo que este apenas avizinha.

Membro do C.C. do PCP, é deputada de 1975 a 1985, Presidente da Comissão Parlamentar da Condição Feminina de 1983 a 1985, ela permanece activa, interveniente, inquieta.

Membro do Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, é também e ainda no combate pela libertação da mulher que se move – faz mover outras mulheres – com paixão, empenhamento constantes.

Colabora no Suplemento “A Mulher” do Diário.

Publica os livros infantis escritos ou imaginados na prisão: “Viagem numa Gota de Água” e “Viagem numa Flor” e tem no prelo “As coisas também se zangam” com ilustrações de Ana Maria Cunhal.

Tem 64 anos. E toda uma vida à frente. Basta olhá-la. Ouvi-la. Encontrá-la na Gulbenkian, no teatro ou no cinema – esse vício ganho na juventude graças a um pai liberal que autorizava a sua ida sozinha às salas escuras num tempo em que tal se não usava em meninas. Basta vê-la com a última obra de Margueritte Yourcenar, ou de Margueritte Duras, ou de Saramago, na mão. Ouvi-la discordar. Contestar. Subverter enfim.

«Considero-me feliz e realizada, embora haja lacunas. Há aspectos em que fui defraudada, mas quem não foi, quem de nós que vivemos a maior parte da nossa vida sob o fascismo?

Como mãe, o meu filho compensa-me do que eu sonharia

Como mulher, guarda recordações inesquecíveis.

«Descobri coisas que nem sequer pensava ser possível descobrir. Trabalhei e conheci pessoas extraordinárias.

Penso que só numa sociedade em que todos tenham acesso a tudo, a mulher poderá acabar com as discriminações. É um processo lento e não compensatório. Há problemas que não vão estar resolvidos tão cedo. Estou metida neste processo, não verei o seu fim, mas a minha preocupação é dar a conhecer às jovens de hoje, o que as mulheres fizeram. E tanto que foi!»

É uma mulher viva. E cheia de vida!

Tem 64 anos. Dou por mim sempre a pensar nela como se fosse uma mulher da minha geração.

              
Helena Neves
                

Tibete: Declaração de voto do PCP na Assembleia da República

    O PCP apresentou uma declaração de voto, na Assembleia da República sobre o voto apresentado sobre acontecimentos no Tibete, em que considera que «não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas», mas sim «uma grande operação contra os Jogos Olímpicos de Pequim

                 

Ler Texto Integral

                     

Penalva do Castelo - Voluntariado, Sim: Dar é Receber

    No próximo dia 02 de Abril, pelas 14.00 horas, no Auditório da Banda Musical de Penalva do Castelo, a Rede Social, em colaboração com a Câmara Municipal, irá realizar uma Acção de Sensibilização destinada a apelar, junto das instituições e comunidade locais, para a importância da prática do voluntariado.

A acção, intitulada “Voluntariado, sim: dar é receber”, que tem por fim último a criação de um Banco Local de Voluntariado, insere-se no âmbito da execução das acções do 2º Plano de Acção da Rede Social e tem por destinatários os dirigentes de instituições locais; técnicos com intervenção na área social; pessoas interessadas na prática do voluntariado e toda a comunidade em geral.

A Rede Social, conjuntamente com a Câmara Municipal de Penalva do Castelo, lança o repto a todos os interessados na matéria para que se inscrevam na referida acção.
Podem fazê-lo aqui, até ao próximo dia 31 de Março.

                                           

 
 
 
 
 
 
 
 
 

veja aqui o programa

veja aqui o desdobrável

 

                   

In Câmara Municipal de Penalva do Castelo

                   

Antonio Vega canta Pablo Neruda: No te quiero sino porque te quiero


                                                                                                                                             
No te quiero sino porque te quiero
                
Poema LXVI
            

NO TE QUIERO sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

                   

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

              

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

                

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

                                 

                                         

                                                                               


Para ver e ouvir Antonio Vega no álbum «Neruda en el corazón» a cantar «No te quiero sino porque te quiero»  de Pablo Neruda clicar AQUI

                                                  

Maria Alda Nogueira: Uma mulher, Uma vida, Uma história de amor (IX)

   Iniciou-se no dia do 85º aniversário do seu nascimento [19/03] a transcrição integral de um texto da autoria de Helena Neves, com edição do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) sobre Maria Alda Nogueira. Foi publicado em 1987 por ocasião da entrega pelo MDM da Distinção de Honra, numa homenagem a uma vida dedicada à defesa da igualdade, da justiça social e da paz.

       

(continuação)

Encontros e retornos de uma mulher


A LIBERDADE AINDA AUSENTE

          

A saída era como que um renascer. Mas doloroso. Dolorosamente vivido. Um reaprender dos gestos, do próprio andar, da vivência com os outros:

«O tempo tem uma contagem conforme se vive mais ou menos os acontecimentos. Ao fim de cinco anos de cadeia deixamos de ter a noção dos dias. O tempo deixa de contar. A sensação de sair liberta sozinha foi horrível. Eles tinham dito que eu saía e eu disse ao meu irmão para estar lá à minha espera. Anteciparam 24 horas e sai só, com duas malas grandes, num mundo que tinha mudado tanto.

À porta da António Maria Cardoso foi horrível, não podia com as malas. Meti-me no eléctrico até à Rua do Ouro. Aí, meti-me num táxi e disse ao homem para me levar a Alcântara, ao Largo do Calvário.

Eram destruidores, malvados até ao fim. Quando saí tinha dificuldade em andar. Lembro-me de ir na rua com o meu filho e parecia-me ter um tapete rolante que me levava a cair. Fez-me muita impressão ver as pessoas juntas num eléctrico, num autocarro. Sentia as pessoas com um ar muito triste. O primeiro filme que fui ver o “Romeu e Julieta”. Quando veio o intervalo e vi todas as pessoas juntas, fiquei agoniada e vomitei o jantar todo e tive de me vir embora.»

A vertigem dos espaços abertos. Sem grades. E o roçar da gente que vai ao nosso lado ou atrás de nós e passa à frente, e não é, afinal, um inimigo, como temíamos no coração feito pássaro de susto. Mas pode ser também a inocência no rosto apenas máscara, disfarce, armadilha.

«A maior partida não foi o amor que ma pregou, mas sim o fascismo. Se um homem andava atrás de mim, pensava logo que era PIDE.»

Em liberdade condicional, mas constantemente vigiada e perseguida, Alda vê-se forçada a retomar a clandestinidade, o risco maior da luta.

(continua)

            

Tibete: O fascínio pelo feudalismo

    Alguns contributos para uma melhor análise do que se passa no Tibete.

«O jornalista francês Hubert Beuve-Mery, fundador do Le Monde, costumava insistir que “a missão do jornalista é saber e dizer o máximo possível”. Ainda há jornais e jornalistas que seguem esse preceito. Mas cresce o número dos que substituem qualquer esforço investigador pela reprodução acomodada de versões unilaterais e distorcidas dos acontecimentos.

A controvérsia sobre o Tibete é um bom exemplo. Livros, reportagens e documentários repetem, monocordiamente, os relatos e as acusações difundidas pelos separatistas tibetanos. Não entrevistam as autoridades atuais da região, nem os monges patriotas que apoiam a unidade da China. Não recorrem às informações e aos documentos oferecidos pelo governo central do país. Não consultam especialistas independentes. Se o fizessem, seria obrigados a reconhecer que a história da China, do Tibete e de suas relações mútuas é muito diferente da propagada pelos separatistas.

A polêmica envolve três questões básicas. Primeira: o Tibete é um país independente, invadido e ocupado pelos comunistas, à frente do Exército Popular, ou faz parte da China há 700 anos, tendo os comunistas apenas cumprido o dever de libertar e reunificar o conjunto do país? Segunda: antes de 1950, o Tibete era uma terra pacífica e feliz, governada por monges sábios e desprendidos como a mítica Shangri-la do novelista britânico James Hilton, ou penava sob um regime teocrático-feudal, atrasado e cruel? Por último, o que é melhor para as nacionalidades chinesas e para os povos do mundo nas vésperas do século XXI: a divisão e o dilaceramento da China, ou a preservação de sua unidade estatal e o progresso conjunto de suas nacionalidades?»

(sublinhados meus)

                            

Ler Texto Integral

              

Ler também                                   

                         
Uma dúvida: será possível no século XXI haver quem, no seu perfeito juízo, defenda o regresso ao sistema feudal?
                                                                                                

PENALVA DO CASTELO: Mais GNR... para não ter de remediar

Texto de António Figueiredo

    Município quer mais efectivos, no posto da GNR. Embora o concelho não registe níveis significativos de criminalidade, diz que vale mais prevenir que remediar.

Exigir a colocação de mais elementos no posto local da GNR, foi a primeira tomada de posição do recém-criado Conselho Municipal de Segurança de Penalva do Castelo. Segundo o presidente da câmara municipal, Leonídio Monteiro, a melhor maneira de prevenir a insegurança "é ter efectivos da GNR em número suficiente, que garantam o número de patrulhas necessárias em todo o concelho". O pedido não surge por existir qualquer sentimento de insegurança no concelho, mas apenas para tomar medidas preventivas, que se reclamam.

No posto da GNR, há nesta altura 13 elementos, o que, segundo o autarca, "é um número reduzido, tendo em conta o gozo de folgas, férias... e um ou outro que, por vezes, está com baixa".

Sem quantificar, Leonídio Monteiro tem a certeza de que é necessário aumentar o número de elementos da GNR, para que não se perca a segurança existente no concelho. O autarca espera que os responsáveis governamentais, para quem foi enviada a deliberação, tenham em boa conta o pedido efectuado pelo conselho municipal de segurança.

O Conselho Municipal de Segurança de Penalva do Castelo, que tomou posse no final do mês de Fevereiro, é constituído por 12 elementos. Para além dos presidentes da câmara e da assembleia municipal, fazem ainda parte do órgão o vereador da área da protecção civil, os comandantes da GNR e dos bombeiros voluntários, o procurador adjunto da Comarca de Mangualde, dois presidentes de junta, o provedor da Misericórdia de Penalva do Castelo e quatro cidadãos "de reconhecido mérito e idoneidade".

(sublinhados meus)

                 

In "Diário as Beiras" - Edição de 26 de Março de 2008

                   

Em TODOS os sectores de actividade da Câmara a política da maioria PSD do executivo devia ser «mais vale prevenir...». Só que não é!

                   

Victor Jara: El derecho de vivir en paz

    
                                                                       
El derecho de vivir en paz
                                           

(Víctor Jara)


El derecho de vivir
poeta Ho Chi Minh,
que golpea de Vietnam
a toda la humanidad.
Ningún cañón borrará
el surco de tu arrozal.
El derecho de vivir en paz.

Indochina es el lugar
mas allá del ancho mar,
donde revientan la flor
con genocidio y napalm.
La luna es una explosión
que funde todo el clamor.
El derecho de vivir en paz.

Tío Ho, nuestra canción
es fuego de puro amor,
es palomo palomar
olivo de olivar.
Es el canto universal
cadena que hará triunfar,
el derecho de vivir en paz.
     

(1970)

                     
Las Canciones de Víctor Jara
                                                                       
Para ver e ouvir a canção «El derecho de vivir en paz» interpretada por Víctor Jara clicar AQUI
                        

Maria Alda Nogueira: Uma mulher, Uma vida, Uma história de amor (VIII)

   Iniciou-se no dia do 85º aniversário do seu nascimento [19/03] a transcrição integral de um texto da autoria de Helena Neves, com edição do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) sobre Maria Alda Nogueira. Foi publicado em 1987 por ocasião da entrega pelo MDM da Distinção de Honra, numa homenagem a uma vida dedicada à defesa da igualdade, da justiça social e da paz.

       

(continuação)

Encontros e retornos de uma mulher


A PRISÃO
             

E em 1959 é presa. Abruptamente. Num táxi cujo motorista tenta salvá-la, em vão, da perseguição da PIDE. «O carro da PIDE vinha lá muito atrás, mas o polícia desceu e correu em direcção ao táxi. Conseguiu chegar a tempo de dizer ao sinaleiro que o “chauffeur” vinha de há muito infringindo as regras de trânsito, e entrou para o meu táxi. Começámos a barafustar, juntou-se gente, houve uma certa confusão, e eu aproveitei para dizer às pessoas quem era, a minha morada e o meu telefone. E pedi-lhes que avisassem a minha família. O “pide” mandou seguir o táxi para a António Maria Cardoso, e não houve outro remédio senão obedecer.

Entrei na António Maria Cardoso às nove horas da noite, e soube posteriormente que às onze horas do mesmo dia, a minha família já estava em Caxias a reclamar para me falar. Isso espantou muito a Polícia, pois, sabendo eles que eu estava na clandestinidade, não percebiam como é que os meus familiares tinham tido tão rapidamente a notícia da minha prisão. Não há dúvida de que alguém tinha muito prontamente transmitido o meu recado

Ficará presa desde Outubro de 1959 até Dezembro de 1969. Será a primeira mulher condenada a 8 anos de prisão maior e medidas de segurança, a mulher com mais anos seguidos numa única prisão.

Dez anos. Longos, longos. Sofridos e intensos. «Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida. Entrei com 35 anos, saí com 45 anos

É logo nos primeiros dias de prisão, quando incomunicável, que Alda imagina a primeira história infantil, que termina já em liberdade e publicará em 1977: «A viagem numa Gota de Água

Uma escrita que corresponde à recordação do filho e de outras crianças atravessando docemente a sua memória – com a mesma doçura que haviam atravessado a vida.

«Estou convencida que foi das perguntas que meu irmão e meu filho em pequenos me fizeram: Para onde vai o Sol quando vem a noite? Para onde vai a água? O que é o Céu? etc., etc., - que nasceu em mim o desejo de explicar às crianças de forma a que elas compreendessem alguns fenómenos da vida, da terra, da natureza, e me pus a escrever livros para elas

E que corresponde também à necessidade de sobreviver, sem desespero, à incomunicabilidade. «Quando estávamos completamente isoladas, só tínhamos o pente, o prato, o púcaro e pão. Nem lápis, nem papel, nem caneta. Deixaram-me ficar o bâton, que me serviu para fazer na mesa um jogo de xadrez com bolinhas de pão. Cada pessoa tentava enfrentar esta situação de isolamento. Eu entrei no caminho da recriação. Trazia para a minha mente coisas que me afastassem da realidade

Esta fuga ela vai exercitá-la indefinidamente. Nos interrogatórios. Nas horas pesadas de solidão da cela.

«As primeiras 24 horas são as mais difíceis, depois espera-se tudo. Também nos interrogatórios, eu imaginava como seria o Minho socialista ou esta ou outra terra, e desligava do que eles estavam para lá a dizer. Eles apercebiam-se e batiam com a gaveta. Isto foi uma espécie de defesa. Eu ia para outro mundo e imaginava una história para crianças.

Quando saí da incomunicabilidade tinha a história toda escrita na minha cabeça e uma das primeiras coisas que fiz foi passar a papel aquelas ideias, imaginei o desenho. Isto foi o alimento intelectual para este período. Havia também uma preocupação de dar ao inimigo uma imagem de que não estava de rastos, nem estava abatida, de que estava bem. Eu que sou desafinada e não gosto de ouvir a minha voz, cantava o dia todo – “Rosa arredonda a saia” – e o guarda foi dizer ao director que eu devia estar maluca.

Pois foi assim que comecei a imaginar histórias… Escrevi, então, “A viagem numa Gota de Água”. Quanto à outra, “A Viagem numa Flor”, quando saí da cadeia já a tinha mais ou menos escrita, mas só depois é que a concluí

E na prisão, ao longo desses longos dez anos, Alda faz novas amigas, companheiras e dias lentos, como se imóvel o tempo, iludindo com jogos, leitura, cursos, a angústia à espreita, o desespero mesmo.

«Estive com várias amigas durante muitos anos – a Sofia Ferreira, Ivone Dias Lourenço, Maria da Piedade, Aida Paula, Matilde bento, Maria Luísa Costa Dias e tantas outras. Passámos por várias situações. Houve salas com beliches (10 ou 12 pessoas) e outras menores. Dividíamos o dia em duas partes. De manhã levantávamo-nos e tínhamos de correr para tomar o banho quente (com o tempo contado e só uma por casa de banho). A inspecção e a contagem eram às 8H. Recebíamos um jornal diário – o Século – e líamos em colectivo. À volta da mesa fazíamos os nossos trabalhos. Fiz então as camisolas todas do meu filho, saias para a minha mãe, pegas para a cozinha, essas coisas… A Ivone fazia bonecas, caixas e outras coisas interessantes. Elas foram-me ensinando. A visita era às 10H, em geral de meia hora. Depois trocávamos as notícias… que não eram muitas pois a vigilância era muito grande. Almoçávamos. Repousávamos. E retomávamos o trabalho

Um trabalho ainda e sempre solidário…

«Passavam pelas prisões pessoas analfabetas e outras com cursos. E umas ensinavam às outras. Tínhamos cursos de matemática, ciências, português, línguas e história.

Depois tínhamos o recreio. Inicialmente davam-nos apenas 15 minutos, mas lutámos e chegámos a ter 1 hora. Uma hora num terraço por cima da cela, uma cela sem telhado.!...

Na prisão retiraram-me os melhores anos da minha vida

Irreversivelmente. «As pessoas mudavam os caracteres. Aquilo tinha tudo um efeito destruidor. As celas mediam 4m por 4m, contando com a casa de banho

Mas teimando em resistir.

E conseguindo-o.

Conseguindo mesmo a festa, o riso. Ou o seu similar, que importa?

O certo é que resistiam…

«Nas salas grandes fazíamos teatro, caricaturávamo-nos umas às outras, na brincadeira. Tínhamos direito a meia hora de gira-discos. A mim proibiram-me de ouvir uma sinfonia porque era tocada pela orquestra de Leninegrado. Os nossos tempos livres tinham grandes animadoras, cantava-se o fado. E cantigas de infância até!» As mulheres pides não tinham prática. Eram muito ignorantes e tinham uma certa mesquinhez e quando eram más, eram piores que os homens

No desfiar da memória, permanece um olhar magoado. Húmido.

(continua)

                  

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