Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Ary dos Santos: Meu Camarada e Amigo



                                                                          
Meu Camarada e Amigo
                
Revejo tudo e redijo
meu Camarada e Amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo tudo e redijo
meu Camarada e Amigo.

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
- mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país
.
                                        

José Carlos Ary dos Santos


                                                  
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publicado por António Vilarigues às 12:17
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A Crise energética e alimentar mundial

Texto de Rui Namorado Rosa

    A crise financeira que enche as bocas do mundo, não é mais que a expressão, a nível da super-estrutura financeira, da muito séria crise da economia real, esta evidenciada na crise energética e na crise alimentar. O capital financeiro já não pode garantir o seu crescimento futuro, por já não poder garantir contrapartida em crescimento material.

                             

Os noticiários vão dando eco do agravamento de preço dos produtos alimentares, um pouco por todo um mundo, com uma frequência cada vez maior. Os comentários são variados e as explicações imprecisas. A escassez de milho no México, do trigo no Egipto, de arroz nas Filipinas, na Indonésia e no Haiti, é acompanhada de agitação social e crises políticas. Noutros países como o Paquistão, para minorar o encarecimento dos bens de subsistência, o governo recorre ao seu racionamento.
                    
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Adenda às 17h01m: Como se pode ver por AQUI e AQUI os nossos governantes silenciam os reflexos desta  crise energética e alimentar mundial na situação económica de Portugal.

                                               

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publicado por António Vilarigues às 00:12
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Domingo, 27 de Abril de 2008

Pensamento de 27 de Abril de 2008

    Não há soluções que se imponham para todo o sempre sem a participação dos povos e contra a sua vontade. Não há soluções que resistam à continuada e persistente luta dos povos.

                                                                                                             

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publicado por António Vilarigues às 16:22
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Um toque de modernidade enganador - Orçamentos familiares espelham desigualdades

Texto de Anselmo Dias

    O INE publicou recentemente um estudo, ainda que sintetizado, dos orçamentos familiares baseado numa recolha de dados realizada entre Outubro de 2005 e Outubro de 2006. Com base em tal estudo alguma comunicação social e vários comentadores salientaram «o toque de modernidade» da sociedade portuguesa tendo em conta que a mesma gasta, percentualmente, cada vez menos em produtos alimentares, bebidas não alcoólicas, vestuário e calçado e, cada vez mais em hotéis, restaurantes, cafés, lazer, distracção e cultura.

                                                

Em termos genéricos (já lá vamos aos dados relativos aos vários grupos sociais) a conclusão atrás referida «era verdadeira» à data da recolha estatística, embora não se tenha dito que os negócios que mais cresceram, em valores percentuais, na base daquilo que foram as despesas das famílias, foram, por ordem decrescente: o ensino, as comunicações e a saúde, sectores vorazmente apetecidos pela iniciativa privada.
Mas voltemos ao «toque de modernidade» e às despesas familiares mais significativas que, entre 1989/90 e 2005/06, maiores diferenças tiveram, quer no plano das descidas, quer no plano das subidas. Para não carrear muitos dados vejamos, apenas, três casos.

                                         

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Sábado, 26 de Abril de 2008

Benfica 2-0 Belenenses

    SLB, SLB,SLB, GLORIOSO SLB

               

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publicado por António Vilarigues às 22:09
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Pensamento de Sábado (e de todos os dias da semana)

     O PCP reafirma a sua forma própria de fazer política: estar próximo das populações, conhecer de perto os seus problemas e usar os meios parlamentares de que dispõe para exigir a sua resolução.

                                  
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publicado por António Vilarigues às 16:21
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Penalva do Castelo: V Jogos desportivos (27 de Abril a 22 de Junho)

                             
                                   
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publicado por António Vilarigues às 08:00
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Entrevista com Fernando Lugo, Presidente eleito do Paraguai

    A eleição do bispo Fernando Lugo para a presidência do Paraguai configura mais uma derrota do EUA na América latina. Será agora muito difícil para Washington manter a base militar que instalou no país, próximo da fronteira da Bolívia. A primeira prioridade para Lugo é a renegociação com o Brasil do preço da energia de Itaipu, projecto a que o governo de Lula se opõe.

                                     

                                                                        

Sentado na sala da sua casa de Assunção, um modesto quarto onde numa parede chama a atenção a reprodução de um São Pedro pintado pelo Greco, Fernando Lugo, o presidente eleito do Paraguai diz-nos qual será a medida mais importante que tomará no inicio do seu mandato.: «Em 2009 a reforma da Constituição deve figurar na Agenda. A actual Constituição não produziu o efeito esperado. Para garantir a independência do Poder Judicial será preciso mudar os seus mecanismos. Temos que garantir a que a Justiça seja apolítica», sublinha muito sério.
Pergunto-lhe se introduzirá um artigo permitindo a reeleição. Ele permanece em silêncio e sorri, olhando para o lado, o que provoca também o riso de outras pessoas presentes. Mas não responde.
Lugo organizou uma coligação de nove partidos e aplica na política a mesma prudência que o leva a medir cada palavra quando se refere à relação com o Vaticano. Ele personifica, mais claramente do que muitos políticos, a dualidade do ser humano.

(sublinhados meus)

                                                                               

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publicado por António Vilarigues às 00:05
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Pensamento de Sexta-feira (e de todos os dias da semana)

     Não há Partido como o PCP, este partido da classe operária e de todos os trabalhadores. O Partido que conhece e sente os problemas e intervêm para os resolver. O Partido que actua para dar resposta à aspiração a uma vida melhor. 

                                                                                

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publicado por António Vilarigues às 16:04
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José Carlos Ary dos Santos: As Portas que Abril abriu

  
                                  

                         

                                 

As Portas que Abril abriu

                          

              

Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais infeliz

dos povos à beira-terra.

          

Onde entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.

           
Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raiz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.

     

Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos do passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.

       
Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra.

        
Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos.

     
Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

           
Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.

                             
Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração.

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

               
Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão.

                   
Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação

                   
uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com que a força da vida

seja maior do que a morte.

               
Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

                   
Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão.

                  
Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão.

                                 
Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa.

                        
Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis.

                         
Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

– pode nascer um país

do ventre duma chaimite.

                          
Porque a força bem empregue

contra a posição contrária

nunca oprime nem persegue

– é força revolucionária!

            
Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

                      
Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena.

                         
E então por vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

desceram homens sem medo

marujos soldados «páras»

que não queriam o degredo

dum povo que se separa.

E chegaram à cidade

onde os monstros se acoitavam

era a hora da verdade

para as hienas que mandavam

a hora da claridade

para os sóis que despontavam

e a hora da vontade

para os homens que lutavam.

                         
Em idas vindas esperas

encontros esquinas e praças

não se pouparam as feras

arrancaram-se as mordaças

e o povo saiu à rua

com sete pedras na mão

e uma pedra de lua

no lugar do coração.

                       
Dizia soldado amigo

meu camarada e irmão

este povo está contigo

nascemos do mesmo chão

trazemos a mesma chama

temos a mesma ração

dormimos na mesma cama

comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo

soldadinho ou capitão

este povo está contigo

a malta dá-te razão.

                      
Foi esta força sem tiros

de antes quebrar que torcer

esta ausência de suspiros

esta fúria de viver

este mar de vozes livres

sempre a crescer a crescer

que das espingardas fez livros

para aprendermos a ler

que dos canhões fez enxadas

para lavrarmos a terra

e das balas disparadas

apenas o fim da guerra.

                            
Foi esta força viril

de antes quebrar que torcer

que em vinte e cinco de Abril

fez Portugal renascer.

                   
E em Lisboa capital

dos novos mestres de Aviz

o povo de Portugal

deu o poder a quem quis.

                       
Mesmo que tenha passado

às vezes por mãos estranhas

o poder que ali foi dado

saiu das nossas entranhas.

Saiu das vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

onde um povo se curvava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.

                               
E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe.

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu.

                     
Essas portas que em Caxias

se escancararam de vez

essas janelas vazias

que se encheram outra vez

e essas celas tão frias

tão cheias de sordidez

que espreitavam como espias

todo o povo português.

                  
Agora que já floriu

a esperança na nossa terra

as portas que Abril abriu

nunca mais ninguém as cerra.

                          
Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo do mês de Junho.

                       
Quando o povo desfilou

nas ruas em procissão

de novo se processou

a própria revolução.

                                   
Mas eram olhos as balas

abraços punhais e lanças

enamoradas as alas

dos soldados e crianças.

                           
E o grito que foi ouvido

tantas vezes repetido

dizia que o povo unido

jamais seria vencido.

                             
Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo do mês de Junho.

                          
E então operários mineiros

pescadores e ganhões

marçanos e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

souberam que o seu dinheiro

era presa dos patrões.

                   
A seu lado também estavam

jornalistas que escreviam

actores que se desdobravam

cientistas que aprendiam

poetas que estrebuchavam

cantores que não se vendiam

mas enquanto estes lutavam

é certo que não sentiam

a fome com que apertavam

os cintos dos que os ouviam.

                      
Porém cantar é ternura

escrever constrói liberdade

e não há coisa mais pura

do que dizer a verdade.

                           
E uns e outros irmanados

na mesma luta de ideais

ambos sectores explorados

ficaram partes iguais.

                    
Entanto não descansavam

entre pragas e perjúrios

agulhas que se espetavam

silêncios boatos murmúrios

risinhos que se calavam

palácios contra tugúrios

fortunas que levantavam

promessas de maus augúrios

os que em vida se enterravam

por serem falsos e espúrios

maiorais da minoria

que diziam silenciosa

e que em silêncio fazia

a coisa mais horrorosa:

minar como um sinapismo

e com ordenados régios

o alvor do socialismo

e o fim dos privilégios.

                  
Foi então se bem vos lembro

que sucedeu a vindima

quando pisámos Setembro

a verdade veio acima.

                         
E foi um mosto tão forte

que sabia tanto a Abril

que nem o medo da morte

nos fez voltar ao redil.

                 
Ali ficámos de pé

juntos soldados e povo

para mostrarmos como é

que se faz um país novo.

                
Ali dissemos não passa!

E a reacção não passou.

Quem já viveu a desgraça

odeia a quem desgraçou.

                       
Foi a força do Outono

mais forte que a Primavera

que trouxe os homens sem dono

de que o povo estava à espera.

                              
Foi a força dos mineiros

pescadores e ganhões

operários e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

que deu o poder cimeiro

a quem não queria patrões.

                               
Desde esse dia em que todos

nós repartimos o pão

é que acabaram os bodos

— cumpriu-se a revolução.

                             
Porém em quintas vivendas

palácios e palacetes

os generais com prebendas

caciques e cacetetes

os que montavam cavalos

para caçarem veados

os que davam dois estalos

na cara dos empregados

os que tinham bons amigos

no consórcio dos sabões

e coçavam os umbigos

como quem coça os galões

os generais subalternos

que aceitavam os patrões

os generais inimigos

os generais garanhões

teciam teias de aranha

e eram mais camaleões

que a lombriga que se amanha

com os próprios cagalhões.

Com generais desta apanha

já não há revoluções.

                       
Por isso o onze de Março

foi um baile de Tartufos

uma alternância de terços

entre ricaços e bufos.

               
E tivemos de pagar

com o sangue de um soldado

o preço de já não estar

Portugal suicidado.

                
Fugiram como cobardes

e para terras de Espanha

os que faziam alardes

dos combates em campanha.

                  
E aqui ficaram de pé

capitães de pedra e cal

os homens que na Guiné

aprenderam Portugal.

                    
Os tais homens que sentiram

que um animal racional

opõe àqueles que o firam

consciência nacional. 

            
Os tais homens que souberam

fazer a revolução

porque na guerra entenderam

o que era a libertação.

                          
Os que viram claramente

e com os cinco sentidos

morrer tanta tanta gente

que todos ficaram vivos.

                               
Os tais homens feitos de aço

temperado com a tristeza

que envolveram num abraço

toda a história portuguesa.

                               
Essa história tão bonita

e depois tão maltratada

por quem herdou a desdita

da história colonizada.

                           
Dai ao povo o que é do povo

pois o mar não tem patrões.

– Não havia estado novo

nos poemas de Camões!

               
Havia sim a lonjura

e uma vela desfraldada

para levar a ternura

à distância imaginada.

                       
Foi este lado da história

que os capitães descobriram

que ficará na memória

das naus que de Abril partiram

                          
das naves que transportaram

o nosso abraço profundo

aos povos que agora deram

novos países ao mundo.

                      
Por saberem como é

ficaram de pedra e cal

capitães que na Guiné

descobriram Portugal.

                           
E em sua pátria fizeram

o que deviam fazer:

ao seu povo devolveram

o que o povo tinha a haver:

Bancos seguros petróleos

que ficarão a render

ao invés dos monopólios

para o trabalho crescer.

Guindastes portos navios

e outras coisas para erguer

antenas centrais e fios

dum país que vai nascer.

                               
Mesmo que seja com frio

é preciso é aquecer

pensar que somos um rio

que vai dar onde quiser

                                  
pensar que somos um mar

que nunca mais tem fronteiras

e havemos de navegar

de muitíssimas maneiras.

                   
No Minho com pés de linho

no Alentejo com pão

no Ribatejo com vinho

na Beira com requeijão

e trocando agora as voltas

ao vira da produção

no Alentejo bolotas

no Algarve maçapão

vindimas no Alto Douro

tomates em Azeitão

azeite da cor do ouro

que é verde ao pé do Fundão

e fica amarelo puro

nos campos do Baleizão.

Quando a terra for do povo

o povo deita-lhe a mão!

             
É isto a reforma agrária

em sua própria expressão:

a maneira mais primária

de que nós temos um quinhão

da semente proletária

da nossa revolução.

                         
Quem a fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

                     
De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

um menino que sorriu

uma porta que se abrisse

um fruto que se expandiu

um pão que se repartisse

um capitão que seguiu

o que a história lhe predisse

e entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo que levantava

sobre um rio de pobreza

a bandeira em que ondulava

a sua própria grandeza!

De tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

e só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães

viessem ferrar o dente

na carne dos capitães

que se arriscaram na frente.

                         
Na frente de todos nós

povo soberano e total

que ao mesmo tempo é a voz

e o braço de Portugal.

                         
Ouvi banqueiros fascistas

agiotas do lazer

latifundiários machistas

balofos verbos de encher

e outras coisas em istas

que não cabe dizer aqui

que aos capitães progressistas

o povo deu o poder!

E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu!

    

José Carlos Ary dos Santos         
Lisboa, Julho-Agosto de 1975

              

                                                                   

Pode descarregar «Portas que Abril Abriu»  - Poema de José Carlos Ary do Santos (em mp3) AQUI

Ver notícias AQUI     

                                                                              

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