Sábado, 28 de Junho de 2008

Leitura Obrigatória (XCIII)

    Ex-URSS: Um Novo Terceiro Mundo (Gérard Streiff)

                                                         

Gérad Streiff estava em Moscovo na altura dos trágicos acontecimentos do Verão de 1991, na qualidade de enviado especial do jornal do Partido Comunista Francês, L´Humanité. Foi correspondente deste jornal na URSS entre 1982 e 1986 e é autor do livro La Dynamique Gorbatchev (1986).
Trata-se, portanto, de uma testemunha particularmente atenta e informada, que nos comunica aqui as suas reflexões, ainda «a quente», naturalmente discutíveis, sobre acontecimentos de profundas repercussões para o mundo inteiro.
Quais os obstáculos que se colocaram à perestroika? Será fatal passar de um «socialismo burocrático» a um «capitalismo selvagem»? O evoluir da situação, em profunda e diária mutação, poderá já ter desactualizado o texto em aspectos de pormenor. Nem por isso o livro de Gérard Streiff deixa de dar úteis pistas para a reflexão necessária sobre o sentido do que se passou e está a passar na ex-URSS.

                       

In Edições «Avante!»

                            

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publicado por António Vilarigues às 00:02
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Sexta-feira, 27 de Junho de 2008

Penalva do Castelo: IV Festival de Folclore

    Vai decorrer no próximo dia 29 de Junho, a partir das 15h00m, na Matela, o IV Encontro de Folclore.

Participantes:

            
Rancho Folclórico da Matela
Grupo de Danças e Cantares do Casal do Rato - Odivelas
Grupo Etnográfico de São Lourenço da Montaria
Rancho Folclórico da Casa do Povo da Ereira
Rancho Folclórico da Associação Cultural e Recreativa de Tabuado - Marco de Canaveses
Rancho das Cantarinhas de Buarcos - Figueira da Foz

             

In Câmara Municipal de Penalva do Castelo

                                     

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publicado por António Vilarigues às 18:33
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Pensamento de 27 de Junho de 2008

    Com Marx a utopia converteu-se em pensamento político e este em acção revolucionária. Com Lénine o projecto político e a acção revolucionária converteram-se na revolução vitoriosa, na realização concreta do objectivo de construção da sociedade nova – a sociedade socialista, considerada como primeira fase do comunismo.

                                                                                                                                 

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publicado por António Vilarigues às 16:14
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É fartar vilanagem

     A propósito do post anterior algumas notas:

O capital e os seus serviçais «confundem» aumento de produtividade com aumento no nº de horas de trabalho.
E «esquecem» que os resultados da revolução científica e técnica permitem um aumento do tempo de lazer (temática analisada pelo«ultrapassado» Marx).
E «escondem» que a União Soviética foi o primeiro país do mundo a instaurar a jornada de trabalho de 8 horas em 1917 (a partir de 1956 foram implementados os dias de trabalho de 7 horas e de 6 horas, bem como a semana de 5 dias).
E consideram muito «natural» que as 180 maiores fortunas do mundo tenham mais riqueza que os 2 mil milhões (quase 1/3 da humanidade) mais pobres.

                           

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publicado por António Vilarigues às 14:17
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Semana de 65 horas ou a nova proposta de directiva do tempo de trabalho

    A Presidência francesa do Conselho da União Europeia apresentou ontem na Comissão do Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu o programa de trabalho para a área social. Nessa apresentação tornou claro que um dos seus objectivos centrais é chegar a acordo com o PE sobre a proposta do Conselho que altera a "Directiva sobre a organização do tempo de trabalho".
O Ministro francês clarificou também as posições defendidas pelos vários Estados-Membros no Conselho da UE sobre esta inadmissível proposta, designadamente por parte do Governo Português, afirmando: "nenhum Estado-Membro esteve contra, apenas alguns se abstiveram".
Ora, esta "nova" proposta do Conselho recupera, no essencial, o projecto apresentado em 2004 pela Comissão Europeia, isto é:

          
-    recupera o conceito de tempo inactivo de trabalho, que não é considerado tempo de trabalho, nem para o cálculo do tempo de descanso;
-    possibilita que o cálculo médio de 48 horas de trabalho semanais seja feito com base num período de um ano, colocando em causa o horário semanal de trabalho;
-    mantém a famosa cláusula de opt-out, isto é, da não aplicação do princípio de 48 horas semanais, possibilitando o seu prolongamento até às 60 ou 65 horas semanais, em certas condições, sem prever algo sobre o fim dessa derrogação, quando até o PE tinha votado favoravelmente a abolição dessa possibilidade três anos após a aprovação da nova directiva. A introdução de pseudo limites à utilização desta cláusula, não consegue disfarçar o seu carácter de exploração, pois continua a permitir uma semana de trabalho de, em média, 65 horas, ou mais, se tivermos em conta também a introdução do novo/velho conceito de "tempo inactivo de trabalho", ou tempo de espera obrigatório no próprio local de trabalho. Isto pode significar mais de 9 horas de trabalho por dia, 7 dias por semana! Ou mais de 12 horas de trabalho por dia, nos cinco dias normais de trabalho.

                             

Ler Texto Integral

                          

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publicado por António Vilarigues às 14:05
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Eça de Queirós - O Crime do Padre Amaro

      Onde se fala, entre outras coisas, da nossa raça e da inveja que a Europa tem de nós

                                                                                                 

O Crime do Padre Amaro (Capítulo XXV)

                                                                                          

Mas Amaro, radiante de se achar ali, numa praça de Lisboa, em conversação íntima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma ansiedade de conservador assustado:
— E crê vossa excelência que essas idéias de república, de materialismo, se possam espalhar entre nós?
O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:
— Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar dez anos, etc., etc. Baboseiras!...
Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:
— A verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer não é para lisonjear a vossas senhorias: mas enquanto neste país houver sacerdotes respeitáveis como vossas senhorias, Portugal há-de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a fé, meus senhores, é a base da ordem!
— Sem dúvida, senhor conde, sem dúvida, disseram com força os dois sacerdotes.
— Senão, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animação, que prosperidade!
E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que àquela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipóias vazias rodavam devagar; pares de senhoras passavam, de cuia cheia e tacão alto, com os movimentos derreados, a palidez clorótica duma degeneração de raça; nalguma magra pileca, ia trotando algum moço de nome histórico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praça gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o símbolo de agriculturas atrasadas de séculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burguês enfastiado lia nos cartazes o anúncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operários havia como a personificação das indústrias moribundas... E todo este mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades: e iam, num vagar madraço. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime.
— Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, não admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
E o homem de Estado, os dois homens de religião, todos três em linha, junto às grades do monumento, gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do seu país, - ali ao pé daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopéia sobre o coração, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas heróicos da antiga pátria - pátria para sempre passada, memória quase perdida!
                                     

Eça de Queirós

                   

Ver:
Imprimir/O Crime do Padre Amaro
O Crime do Padre Amaro

                                                                                                     

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publicado por António Vilarigues às 12:01
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O Brasil está numa encruzilhada e terá de escolher o caminho

   No laboratório político que é a América Latina, com todas as suas contradições e complexidades, o Brasil está hoje numa encruzilhada e vai ter de decidir qual o caminho por onde quer seguir. Quem o afirma é Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP, que recentemente visitou aquele país. Os importantes progressos sociais registados no segundo mandato do governo Lula, em que participa o PCdoB, não iludem a questão de fundo com que se debatem as forças políticas progressistas brasileiras: sem pôr em causa o sistema capitalista não há solução para os problemas a que têm de fazer face.

Acabas de regressar de uma viagem ao Brasil a convite do Partido Comunista do Brasil (PCdoB); recebeste recentemente o Secretário-geral da Fretilin, Mário Alkatiri; foste à África do Sul e a Angola. A que se deve este intensificar da actividade internacional do Secretário-geral do PCP?
Esta actividade deve-se às relações bilaterais e multilaterais muito vastas do Partido Comunista Português no plano internacional. Pelo seu papel, pelas suas análises, pela sua acção o PCP é um partido respeitado e de referência para muitos partidos comunistas e também para outros partidos progressistas e forças de esquerda. Por outro lado, esta actividade visa permitir que o nosso Partido tenha conhecimento de realidades muito diversas, de processos de grande complexidade e diversidade de modo a fazer uma avaliação do mundo em que vivemos, da actual correlação de forças, de modo a validar aquela tese congressual de que ao mundo e aos povos se colocam hoje grandes perigos e ameaças, mas simultaneamente grandes potencialidades no desenvolvimento progressista do nosso planeta. É assim que, com esforço da nossa parte, procuramos corresponder aos convites e iniciativas em que somos solicitados a participar.
O programa da tua visita ao Brasil foi particularmente intenso. Que balanço fazes dessa iniciativa?
O balanço, ainda que provisório, pode sintetizar-se em três aspectos. Em primeiro lugar, esta foi uma visita que permitiu o aprofundamento das relações com o PCdoB; em segundo lugar, possibilitou um melhor conhecimento da realidade brasileira e de todo o processo que está em desenvolvimento; em terceiro lugar, deu-nos possibilidade de expor as posições do nosso Partido em relação a questões como o desenvolvimento do processo da União Europeia, o nosso ponto de vista sobre a problemática da alternativa política e a política alternativa, e a avaliação no sentido em que vai o mundo, designadamente a evolução na América Latina, que é hoje um grande laboratório.
Durante esta visita tivemos uma grande diversidade de contactos, quer a nível partidário quer institucional, incluindo a Presidência da República, a Câmara dos Deputados, o Senado, bem como com as forças que sustentam o governo de Lula. Tivemos também oportunidade de nos encontrarmos com Oscar Niemeyer. Valorizamos muito esse o encontro, muito fraterno, muito solidário, que nos impressionou pela capacidade desse homem, desse comunista, que com 100 anos de idade mantém uma visão internacionalista muito interessante, para além de uma grande admiração pelo PCP face ao seu papel e coesão.
A participação do PCdoB no governo, a exemplo do que sucede ou sucedeu com outros partidos comunistas noutros países, está longe de ser pacífica. Como é que um partido que advoga a liquidação do sistema capitalista pode participar num governo que, apesar de algumas preocupações sociais, contribui objectivamente para perpetuar e mesmo branquear esse sistema?
Creio que neste segundo mandato do governo de Lula tem havido evoluções que, sem retirar ou eliminar as contradições que colocas, necessitam de uma avaliação mais rigorosa. Obviamente que para o PCdoB, um partido que pela sua identidade, pela sua natureza, pelo seu próprio projecto de transformação social, não é fácil participar como força apoiante do governo de Lula, tanto no plano institucional como pela participação ministerial. Durante as conversações ao mais alto nível com o Secretário-geral e uma importante delegação do PCdoB, constatámos que o partido não abdica de uma intervenção no plano de massas e da luta de massas, de uma concepção revolucionária, simultaneamente com a sua participação institucional. Sentimos que não é fácil articular tudo isto, mas no entendimento da realidade brasileira em relação ao governo de Lula, particularmente neste segundo mandato, mais do que a avaliação do seu posicionamento ideológico há um elemento que pesa bastante, que é aquilo que ele representa em termos de valores, de justiça social. A este aspecto junta-se um outro elemento, que é uma concepção de defesa da soberania nacional, muito ligada à solidariedade com outros povos da América Latina.
É bom ter presente, por exemplo, que o Brasil é hoje o primeiro parceiro de Cuba, não numa vertente assistencialista mas através do envio de tecnologia muito avançada, da disponibilização de instrumentos virados para o desenvolvimento de Cuba, a par de uma exigência de não interferência dos EUA em relação à soberania brasileira.
Temos igualmente de ter presente que estamos a falar de um continente, em que o processo de combate à pobreza e à exclusão social, com um poderoso investimento público, visando integrar na sociedade centenas de milhares de brasileiros que viviam numa situação extrema de pobreza, tem um grande impacto.
Não é de subestimar também o aumento significativo do emprego e, ao mesmo tempo – os números foram avançados na altura em que lá estivemos – do crescimento económico em 5,8 por cento, o que já não sucedia há décadas.
     Sem subestimar de modo algum o impacto dessas medidas, quer no imediato quer em termos de futuro, continuo no entanto a questionar-me qual o seu real alcance em termos de evolução social quando em cima da mesa não está a questão do controlo dos meios de produção, a redistribuição da riqueza. Sabemos que o Brasil é um dos países do mundo com maiores desigualdades sociais. A pergunta é se essas medidas, por maior impacto que tenham, não são paliativos para a manutenção do sistema que é o gerador dessas mesmas desigualdades.
Para essa pergunta, de grande profundidade e complexidade, não há uma resposta rigorosa nem meramente conjuntural. Nós próprios fizemos notar essa contradição, durante as conversações que mantivemos. Quem detém os principais meios de produção? Quem determina a política económica do país?
Um outro elemento de grande complexidade tem a ver com o carácter heterogéneo, no plano ideológico, das forças que apoiam o próprio governo. Creio que neste momento se poderia dizer que o Brasil e o governo se aproximam de uma encruzilhada em que vão ter de optar pelo caminho a seguir.
Notámos, durante a visita, que existe um esforço muito grande por parte do governo brasileiro para incentivar a produção nacional e o aparelho produtivo nacional. Sem se livrar das pressões das multinacionais, que naturalmente existem, o governo está a fazer um esforço claro na valorização do capital brasileiro, do desenvolvimento do aparelho produtivo, o que obviamente não invalida a questão central que colocas: quem detém o poder económico?
Aliás, há um outro elemento que nos impressionou muito, que é o papel da comunicação social dominante no Brasil. Os grandes grupos económicos e algumas seitas religiosas mandam nos média; não há televisão, nem rádios, nem jornais públicos. Estão todos nas mãos do capital privado e manifestam no plano político, no plano ideológico, no plano social uma hostilidade tremenda em relação ao governo e às suas medidas. Não é um obstáculo pequeno, tendo em conta as próprias contradições da sociedade brasileira. As notícias estão centradas em dizer mal do governo e de Lula, em falar da corrupção, da violência e da criminalidade. O PCdoB quase não tem voz na comunicação social.
Por isso é de admirar muito que Lula, pelo que representa, insisto, tenha neste quadro o apoio da larga maioria do povo brasileiro.
Em síntese, há uma questão por resolver. Existe um capital de esperança, partindo daqueles níveis que referi: situações de desigualdades muito grandes, uma sociedade muito violenta em termos de criminalidade e de insegurança, um poder económico muito concentrado nas mãos dos poderosos nacionais e multinacionais. A questão está em saber qual vai ser o desfecho desta situação.
É interessante referir que o próprio Niemeyer, no nosso encontro, tenha sublinhado que Lula, neste segundo mandato, está a ter uma evolução no sentido do progresso, da democracia e da soberania, e de solidariedade com os países da América Latina que convém acompanhar.
Portanto, não tendo resposta para a questão, em termos de desfecho, sentimos, pelo que pudemos observar, é que há uma evolução progressista mas num processo que não se esgota até ao final do actual mandato presidencial.
Não é estranho que o governo Lula, estando no segundo mandato, não tenha ainda tomado medidas de fundo em diversos sectores, como a criação de um sector público da comunicação social, ou de ter concretizado o que foi uma das suas mais fortes promessas, a distribuição da terra? É a correlação de forças que não o permite? É a falta de um movimento político organizado que dê sustentação ao governo?
Muito do que se passa, as medidas ou a falta delas, terá certamente a ver com a correlação de forças. O PT, o partido de Lula, tem apenas 17 por cento dos votos; há uma dispersão muito grande do eleitorado, com a agravante de que isto se verifica num quadro de desvalorização do papel dos partidos políticos. Às eleições concorrem pessoas, personalidades, não listas fechadas apoiadas pelos partidos. Tirando o PT, e mesmo este com muitas tendências, a força mais aglutinada é o PCdoB, que procura neste mar de contradições uma afirmação partidária, uma convergência e coesão dos seus eleitos. Como se compreende, neste contexto torna-se ainda mais difícil levar a cabo as medidas de fundo que, num sentido progressista, seriam desejáveis. Nesse sentido, quando falo numa encruzilhada, é porque considero que o processo tem de ter uma evolução.
Há quem afirme que os partidos comunistas não têm uma doutrina para a fase de transição do sistema capitalista para o sistema socialista. Tomando como exemplo o que se passa no Brasil, achas que este é um problema que se coloca aos partidos comunistas?
Creio que a questão da transição, ou das etapas, é uma questão central que leva a uma grande discussão no seio do próprio PCdoB. Nas duas conferências que fiz com militantes do partido, em S. Paulo e no Rio de Janeiro, um dos aspectos mais relevantes foi justamente a questão da política alternativa e da alternativa política. Há uma grande vontade em saber como é que o PCP se posiciona em relação a este aspecto, que envolve naturalmente os aspectos da transição. Creio que o PCdoB está muito empenhado na procura de soluções. É um partido que luta pelo socialismo, que considera que são necessárias etapas onde os trabalhadores tenham um papel determinante. Por exemplo, os comunistas do PCdoB e outros democratas que estão no movimento sindical romperam com a CUT e formaram uma nova central sindical de classe, que está a crescer e tem já um peso significativo, demonstrando assim que não se ficam pelas «inevitabilidades», antes dando com esta decisão importantíssima uma prova da sua autonomia e do seu objectivo de transformação social.
     E muito provavelmente um destes dias estão a tomar posição contra medidas do governo em que se integram ministros do PCdoB...
Pode ser. O PCdoB não tem uma posição acrítica em relação às medidas que o governo de Lula toma. Está naturalmente numa posição de grande responsabilidade e de grande honestidade no governo, percebendo que é importante que este processo de democratização e de evolução social positiva, de afirmação da soberania, não só se mantenha como se aprofunde. Nesse sentido, há uma relação do PCdoB com o PT de grande seriedade mas sem perda da sua autonomia.
E não corre o risco de ficar refém do facto de estar no governo?
Nos encontros que tivemos, e designadamente nas conversações ao mais alto nível, os camaradas do PCdoB manifestaram uma clara vontade de preservar a sua autonomia, ao mesmo tempo que se empenham seriamente para que a evolução dos elementos positivos se aprofunde, ao contrário do PCB (Partido Comunista Brasileiro), com quem também nos encontrámos. Considera o PCB que não há espaço para períodos de transição, para os «etapismos», como dizem, e que estão a amadurecer as condições para a revolução socialista no Brasil, o que contraria a visão dialéctica que temos da transformação social para o nosso País e das etapas para uma democracia avançada.
A situação política existente no Brasil, à semelhança do que sucede noutros países da América Latina, como os casos da Venezuela, Equador, Bolívia, coloca novos desafios aos partidos comunistas. Como achas que vai ser a evolução política na região?
Eu diria que a América Latina é actualmente um gigantesco laboratório de experiências e evoluções sociais, políticas e ideológicas, que neste momento não têm ainda uma orientação definida. Sem dúvida que é de progresso; não é por acaso que assistimos à crescente preocupação do imperialismo com o que se passa na região. Não é de somenos para os EUA que o Brasil seja hoje um parceiro fraterno de Cuba...
...Mas entretanto os EUA entendem-se com o Brasil por causa da questão do etanol...
Sim, mas de qualquer forma é marcante o relacionamento com Cuba, bem como a existência de alguma articulação com outros países, como os que referiste, para encontrar resposta para as políticas económicas e até de articulação noutras áreas. Depois, coloca-se a questão de saber até onde se aprofundam as medidas de justiça social e de progresso nesses mesmos países. Por exemplo, no Brasil, durante a nossa estadia, foi afirmado que vão avançar com a lei fixando a jornada de trabalho, o que constitui um avanço histórico. Outro aspecto significativo é a paralisação do processo de privatizações. Convém também avaliar o posicionamento dos partidos da social-democracia, relativamente ao que sucede na Europa.
Em que sentido?
Em termos de uma visão de justiça social, por exemplo. Estamos a lidar aqui com uma social-democracia que se tem demarcado do neoliberalismo, ao contrário do que sucedeu na Europa.
A sensação que se tem, quando se olha para qualquer destes processos, é que estão todos ainda muito dependentes de personalidades. Onde estão as forças políticas que é suposto serem o suporte das transformações sociais?
Em relação a isso, bem poderemos reafirmar o que foi tese do nosso XVII Congresso: tendo em conta a evolução do mundo e a sua crescente complexidade, os partidos comunistas são mais necessários do que nunca. Independentemente da avaliação que possamos fazer da actuação própria do indivíduo, do democrata mais ou menos progressista, mais ou menos revolucionário, mesmo na situação da América Latina, que com todas as suas contradições precisa de uma avaliação mais cuidada e rigorosa, o sentimento que temos é que são indispensáveis fortes partidos comunistas para fazer face aos desafios que se colocam.   

                                

In jornal "Avante!" - Edição de 26 de Junho de 2008

                                        

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publicado por António Vilarigues às 00:04
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Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Reunião Assembleia Municipal - Junho

    A reunião da ASSEMBLEIA MUNICIPAL é na segunda-feira, dia 30 de Junho pelas 15h00m.

Desta Ordem de Trabalhos (ver AQUI) faz parte o «Regulamento Municipal de Taxas por Operações Urbanísticas»

Vamos comparecer?

                                                                         

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publicado por António Vilarigues às 18:52
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Pensamento de 26 de Junho de 2008

    A substituição da produção nacional pela estrangeira continua a ter uma preocupante evolução, em resultado da contínua liquidação do nosso aparelho produtivo, nomeadamente nos sectores da agricultura e das pescas. No sector do comércio, os pequenos e médios comerciantes são sufocados e arruinados pelas facilidades de instalação e horários das grandes superfícies, a crise alimentar expressa, agora, com mais evidência as fragilidades e dependência do nosso país, em resultado de uma política que não foi capaz de acautelar a segurança alimentar dos portugueses.

                                                                            

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publicado por António Vilarigues às 16:10
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As dívidas de Clinton

    Hillary Clinton suspendeu, como se sabe, a campanha eleitoral para as Primárias. Não a deu por terminada. Suspendeu-a até à Convenção.

Dentro de dois dias aparecerá lado a lado com Obama na campanha eleitoral para as Presidenciais de 4 de Novembro. Curiosa e significativamente a sua primeira acção de campanha irá concretizar-se em New Hampshire, num local onde empataram nas Primárias, uma pequena town chamada Unity (Unidade), em que cada um deles teve, exactamente, 107 votos.
Termina assim o período de dúvida e interrogação. Lado a lado irão continuar até 4 de Novembro. A própria carreira política da senadora depende disso. Poderá ser Vice-Presidente ou não. Neste momento, o que interessa é que estarão no mesmo combate.
Para trás ficam umas Primárias que fizeram História. E ficam muitas histórias por contar. Principalmente as que explicam a derrota de uma candidata que, no final de 2007, uns dias antes das Primária começarem:
a) tinha 80% de probabilidade de ganhar;
b) contava com o apoio da maioria do Partido Democrático (militantes, votantes e "aparelho");
c) tinha mais fundos e mais dadores de peso;
d) tinha um afamado marido ex-Presidente;
e) tinha "experiência" e ambição (uma enormíssima ambição pessoal);
f) contava com 60% de mulheres no seu universo eleitoral;
g) durante mais de 8 anos alargara laboriosamente os seus lobbies e influências (junto de governadores e sindicatos, de jornalistas e religiosos, de representantes das mais diversas raças, a nível nacional e internacional);
h) etc...
A sua campanha foi, no entanto, em muitos aspectos, um exemplo do que se não deve fazer. Será certamente analisada, se não por académicos e especialistas, por mim próprio, a seu devido tempo. Limito-me, neste momento, a falar do desastre da sua gestão financeira. Quem gere assim uma campanha, como poderá gerir uma barca destas?
Hillary Clinton tem dívidas a credores (até final de Abril) que ultrapassam os 9,5 milhões de dólares. Para além disso, ela própria, emprestou, à campanha, 11,4 milhões. A dívida global ultrapassará os 22 milhões. Precisa de ajuda.
No seu site da campanha continua a apelar aos seus apoiantes. Um enorme ractângulo vermelho com a palavra CONTRIBUTE apela aos que a apoiaram. Mas, pelo vistos, isso não chega. Mesmo que estejam lá as seguintes frases: "Você e Hillary podem escrever em conjunto o próximo capítulo da história da América. Ao ajudarem-nos a pagar o défice da nossa campanha, estará, também, a ajudar Hillary a eleger um Presidente Democrata e a aumentar a nossa maioria no Congresso (nota: realizar-se-ão, em simultâneo, eleições para o Congresso). Estarão a tornar possível que ela trabalhe arduamente nos assuntos que a si lhe interessam."
Obama não pode ajudar. Está impedido por lei: não pode transferir fundos da sua campanha para outra qualquer campanha, mesmo do seu próprio Partido. As receitas da sua campanha, da sua campanha são. A única coisa que poderá fazer é apelar a que os seus apoiantes vão carregar no botão CONTRIBUTE do site de Hillary. Mas ele próprio tem de contar com as despesas dos próximos meses e com as necessidades do próprio Partido.
Mesmo que sejam candidatos a Presidente e a Vice-Presidente, as receitas que recolherem não poderão servir para cobrir défices das Primárias. Trata-se de outra campanha que deverá ter contas próprias.
Hillary vai ter de resolver o problema até à Convenção, altura em que tem de fechar as contas e apresentar os resultados. Se até lá conseguir pagar aos credores (mais de 10 milhões de dólares), ainda lhe faltará resolver o problema dos seus próprios empréstimos (11,4 milhões). Se não conseguir recolher os fundos necessários, as contas serão fechadas e ela terá direito a receber, apenas, 250 mil dólares.
Aqui está. A campanha de Hillary foi suspensa. Será encerrada com o fecho das contas.
                
Fernando

             

                                   

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publicado por António Vilarigues às 14:33
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