Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

O Peso das Palavras

    Numa campanha eleitoral nos EUA, todas as palavras dos candidatos são gravadas e analisadas, todos as vidas são espiolhadas (há quem contrate detectives privados e empresas especializadas), todos os movimentos de quem lhes está perto (maridos ou mulheres, amigos, responsáveis das candidaturas, etc.) são cuidadosamente investigados, todas as contas bancárias são investigadas.
Muitas vezes, os resultados obtidos (os que convêm) têm mais cobertura jornalística do que qualquer assunto de verdadeiro interesse. É o caso do reverendo Wright, ou de uma ou outra frase ou expressão utilizada, ou das várias "notícias" que diária e repetidamente vão tentando lavar cérebros, pelo menos os piores preparados, os menos informados ou precavidos, os que preferem isto a ter que pensar.
    Isto vem a propósito de uma palavra (sweety) usada por Obama, em resposta a uma jornalista, que, já sei, já chegou às tvs portuguesas! Muitos outros assuntos de grande importância não chegaram nem chegarão. Mas este sweety vai dar volta ao mundo. É a informação a que, dizem,  temos direito...
Parece um assunto sem interesse mas, na minha opinião não é.  E merece alguma reflexão.
      
O PESO DAS PALAVRAS!

                
As palavras têm pesos diferentes. Maçã não tem o peso de ódio. Amor é demasiado pesada para ser utilizada levianamente.
Por outro lado,  a mesma palavra pode ter pesos diferentes, consoante a forma e o contexto em que é usada, ou o ambiente cultural ou social em que é produzida.
Dizer "Odeio-te, meu amor", numa troca de segredos apaixonados,  é completamente diferente de dizer, mecanicamente, "Amo-te". O peso da primeira é incomensuravelmente maior e mais profundo.
Aqui vai uma pequena, incompleta e, porventura, não totalmente correcta, explicação acerca de certos termos que, nos EUA, são utilizados e que, alguns deles, me têm incomodado bastante, pelo que acho neles de ofensivo ou vulgar (com base na minha cultura europeia e de base judaico-cristã), quando, por aqui, não têm o sentido que, por vezes, lhes dou.
    A palavra sweety utilizada por Obama em resposta a uma jornalista, não deixa de parecer machista e inapropriada. No entanto, é uma expressão que é vulgarmente utilizada, por estas bandas,  em ambientes descontraídos ou familiares. Num restaurante, uma empregada pode chamar-me sweety, um pai ou uma mãe pode chamar sweety a um filho, um médico ou uma médica pode chamar sweety a um doente, etc.
Há quem use a palavra honney. Há quem use sweet heart.
Mas nem em todo o lado estas expressões têm o mesmo significado e o mesmo peso. Depende dos Estados em que cada um cresceu, das culturas que o envolvem, das religiões que praticam, das idades, da forma como são ditos e da forma como são ouvidos.
Obama já pediu desculpa e já explicou. Está tão habituado a usar a expressão em casa, com a mulher e as filhas, e, certamente, nas suas relações de amizade, que o fez de forma irreflectida e automática.
A importância de tudo isto, numa campanha eleitoral, é a de outros poderem utilizar o que dizemos para, malevolamente, "nos fazerem a cama"...
A palavra "folks" arranhava-me os ouvidos quando, sentado à mesa de um restaurante, aparecia um empregado e dizia "Hi folks, what do you want to drink?" Soava-me a qualquer coisa mais ou menos grosseiro ou leviano, do estilo "Então, pessoal, o que é que vai de bebidas?" Até que fui percebendo que há um certo carinho na pergunta. Os "my folks" são, aqui, "os meus pais", ou, talvez melhor, "os meus velhos". "Hey folks, how are you going?" já não tem o mesmo peso para mim. "Where are you folks from?" soa-me a pergunta à qual se responde com prazer, falando de Portugal, da Europa, das coisas boas e más de que sabemos...
Recebo um e-mail da mulher americana de um amigo americano. No fim ela escreve "Love," seguido do nome. Não estou a imaginar a mulher portuguesa de um amigo português a terminar um e-mail para mim, escrevendo "Amor," seguido do seu nome... A expressão "I love you" não tem o significado e o peso de "Amo-te". Pode ser utilizada num grupo de amigos, relativamente a alguém que se admira, de quem se gosta. E pode ser utilizada, num contexto de relação interpessoal profunda, como uma verdadeira declaração de amor apaixonado. Pesos completamente diferentes.
O mesmo se passa com "dear" e "darling". "My dear" pode ser meu ou minha querido/a mas, normalmente, é usado com o sentido de meu ou minha caro/a. Se alguém quiser, de facto, chamar meu/minha querido/a, deverá usar a expressão "my darling". Mas, mesmo aqui, cuidado com o peso das palavras.
Perguntarão.
Este Fernando está a ficar passado.
O que tem isto a ver com as eleições nos EUA, ou com a política?
    Bush, na cerimónia oficial comemorativa do 60º aniversário de Israel, na qualidade de Presidente dos EUA, perante o Parlamento Israelita, disse, referindo-se claramente, a Obama, que este estava disposto a negociar com terroristas (neste caso, o Hamas). Chamou-lhe appeaser (apaziguador, conciliador), comparando-o com Chamberlain, Neville Chamberlain, primeiro-ministro inglês entre os anos de 1937 a 1940. E concluiu tudo isto com insinuações mais ou menos claras, comparando o candidato democrata com os nazis...
Appeaser tem, obviamente, vários possíveis pesos. Desde o que quer encontrar uma solução conciliadora. Até ao que está disposto a trair, como foi o caso de Chamberlain, quando, em 1938, apoiou Hitler a invadir a Checoslováquia e, mais tarde, a utilizar portos da Irlanda. Importa recordar que Chamberlain foi forçado a resignar do cargo, a favor de Winston Churchil, em 1940, depois da Alemanha ter invadido a Holanda, a Bélgica e a França.
Bush quis utilizar uma palavra muito pesada. Chamar appeaser a Obama, nas condições em que o fez, foi chamar-lhe traidor. Ainda por cima, na qualidade de Presidente de um Estado, numa cerimónia realizada noutro Estado, acontecimento único na história americana das últimas décadas.
Agora assistimos a um coro de apoiantes seus, jornalistas, padres, locutores de rádio ou televisão, tal papagaios a gritar Appeaser! Appeaser! Appeaser!...
    Lamentavelmente, McCain faz parte do coro.
A reflexão importante não é nova. Lembram-se certamente do poema de Brecht em que ele dizia que, primeiro, levaram o vizinho que era comunista, mas, como ele não o era, não se revoltou. Depois levaram o vizinho que era judeu, mas como judeu não era, não de incomodou. Depois levaram o vizinho que era operário, mas como nunca tinha sido operário, não questionou. E, agora, levavam-no a ele e ninguém o apoiava...
É antiga. No tempo de McCarthy (anos 40 e 50) eram os "comunistas", palavra pesadíssima.
Hoje são os "terroristas" que se usa a propósito e despropósito.
A expressão National Defense foi substituída, no mandato de Bush, por Homeland Security. O peso é diferente. As pessoas ouvem e compreendem que não se está a falar apenas da nação, mas do seu próprio espaço, da sua casa, da sua segurança pessoal e familiar.
A palavra Patriot é utilizada no sentido mais nacionalista e chauvinista. Repetida à exaustão. Tudo com um pin na lapela em que esteja, bem visível, a bandeira da pátria. E quem o não usar é porque não é "patriota", não no sentido nobre da palavra, mas com o peso terrível da mancha da traição.
E tudo isto leva a condicionar a opinião pública, os media (mesmo os que são honestos), qualquer pessoa que, em qualquer fórum, queira discutir a sério as coisas sérias.
Abres a boca? Estás feito com os terroristas!
Defendes uma política externa diferente que respeite os outros e aumente o prestígio mundial do teu país  (que, aliás, está de rastos)? És APPEASER!
Criticas uma guerra feita em nome da liberdade, mas encharcada de petróleo? És traidor!
Queres que os soldados regressem? Estás a pôr em causa a Homeland Security!
Não se analisam os problemas.
Não se procuram soluções.
Levanta-se a voz em falsetes provocadores.
Apontam-se dedos acusadores.
Por enquanto, ainda não se apontam armas...
                
Fernando

                  

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:03
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