Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Declarações graves de Hillary Clinton

Caros amigos,

1

Junto de vós penso que não tenho que me justificar. Sabem que paguei para fazer política. Que entrei nesse mundo porque quis e saí dele quando quis. Ninguém me paga para pensar como penso. Ou para enviar um e-mail que sai de mim, por vezes dolorosamente, porque tem a ver com a minha própria vida, com as minhas alegrias e tristezas, com os meus sentimentos e as minhas reflexões, com o meu estudo e a minha procura da verdade, com as horas que roubo ao sono para escrever a palavra certa no local certo. Por vezes, eu sei, a minha mensagem perde eficácia, porque há sempre alguém, com ar pelo menos condescendente, a chamar-me sonhador, ou poeta, ou permanente navegante de mares por descobrir.

2

Os meus e-mails começaram por ser pequenos textos intimistas que pretendia enviar para os meus filhos e sobrinhos, para a minha mãe e a minha irmã. Eram como as crónicas de New York que tentei publicar aí em vários jornais, sem perceber que "não tinham interesse jornalístico" como me foi dito por pessoa competente. Queria que eles percebessem como tenho andado a ocupar parte do meu tempo, a tentar compreender, a procurar respostas. Comecei por lhes dizer, há uns anos atrás, que não gostava de falsas generalizações e demasiadas simplificações. Há pessoas que procuram sempre o mais fácil. A mim, o que me dá mais prazer é questionar impossíveis, perseguir utopias, saborear o caminho da descoberta, conseguir ultrapassar os riscos proibidos. A minha ideia era explicar como é incorrecto dizer "os Americanos são isto ou aquilo". Porque "os Americanos" de hoje são uma imensamente complexa sociedade onde coexistem culturas as mais diversas, passados os mais dramáticos, cores, sons, cheiros, peles, sabores os mais recônditos.

3

Apoio Obama. Nunca o escondi. As minhas mensagens não são neutras porque, na minha vida, para o bem e para o mal, nunca fui neutro. Tomei sempre parte, mesmo que errado. Fi-lo porque não me abstive, não me calei, não recuei, sempre acreditei no que fazia. As minhas mensagens não são neutras, mas são a verdade que eu considero que merecemos. Se alguma coisa não estiver vestida por essa verdade de que falo, estarei sempre disposto a reconhecer a falta de rigor, a corrigi-la, a responsabilizar-me por a ter cometido. Procuro que as minhas mensagens sobre o processo das Primárias nos EUA vos ajudem a ver um pouco para lá dos números, das notícias dispersas e confusas, das incompetências ou manipulações dos fazedores de opiniões, das politiquices que só ajudam a afundar a Política com P grande. Porque foi dessa politicazinha pequenininha que me afastei é que me posso dar ao prazer de levantar voo e ver a floresta.

4

Quando me preparava para vos enviar algumas fotografias do comício, com Obama, a que assisti hoje, ouço e vejo na televisão, a Senadora Hillary Clinton, ainda candidata a candidata, numa reunião em que esteve, hoje, também, aqui na Florida. E pasmo. Uma revolta tão grande que não posso calar. Que tenho de partilhar convosco.

5

Ela quer que os votos da Florida e de Michigan, contem para as Primárias. Depois de, antes destas se terem iniciado, ter declarado que estava de acordo em não as considerar. Nessa altura ela pensava que no dia 3 de Janeiro começaria o processo da sua própria coroação como Presidente dos EUA. Claro que haveria Primárias, claro que haveria outros candidatos democratas (um deles até nem era branco), claro que haveria um adversário republicano. Mas nada disso era importante porque ela "sabia" que já estava tudo ganho: as Primárias, a Convenção Democrática de Agosto, as eleições gerais de Novembro. Não eram eleições. Era a coroação da predestinada, da convencida, da mulher que tinha como certa a conquista da ambição da sua vida, que tudo tinha sofrido na vida para conseguir esse objectivo, que não olharia a meios para atingir esse fim: ocupar o lugar a que aqui se chama o "mais poderoso do mundo". Só que, até agora, houve eleições e ela perdeu. Em primeiro segue o tal candidato a candidato que não é branco, imagine-se! Tem menos delegados eleitos (Obama já tem maioria absoluta), tem menos superdelegados, tem um pouco mais de um terço das vitórias eleitorais, tem menos votos (embora diga o contrário e haja quem acredite). Resta-lhe um argumento: que se rasguem as regras unanimemente aprovadas, que se divida o Partido (em raças e sexos), que se favoreça o candidato do Partido Republicano, mas que se coroe quem deve ser coroado. Porque ela pensa que é a pessoa mais bem preparada para ser o que quer ser...

6

Hoje comparou o processo eleitoral das Primárias ao que se passou em 2000 nas presidenciais que deram a vitória a Bush (com uma mais que obscura vantagem na Florida, por 513 votos) sobre Al Gore (que teve mais votos populares no conjunto dos EUA e que, porventura, terá ganho a Florida).

Não satisfeita com a comparação, fez outra. Comparou as Primárias do Partido Democrático com as eleições no Zimbabwe e as trafulhices e corrupções de um regime completamente descridibilizado perante a opinião pública mundial.

Isto é, para a Senadora, o que foi acordado por todos os candidatos (inclusive, ela própria) e o que se está a passar é a mesma coisa que se passou com as trafulhices da Florida de 2000, em que o Governador era irmão de Bush, e as mugabices de um país africano, que poderia ter sido um exemplo de descolonização e desenvolvimento.

Estão a perceber, não é verdade? Basta olhar para a cor do outro candidato, saber que o seu pai era queniano e ignorar que ele é a última pessoa que poderá ser esponsabilizada por um processo que teve como responsáveis o Governador da Florida (Republicano) e a direcção do Partido Democrático.

Mais. O director da campanha da Senadora escreveu um livro, há quatro anos atrás, sobre um assunto em tudo semelhante, em que afirma que "quebrar as regras definidas antes de um processo eleitoral" é qualquer coisa inaceitável porque conduziria ao caos...

7

Para a candidata a candidata, ex futura coroada, vale tudo. Até dar a vitória ao Partido Republicano. Porque, se tal acontecer, ela vingar-se-á daqui a quatro anos. Inexoravelmente, a coroa estará à sua espera. E o sorriso escancar-se-á perante o mundo, rendido, a seus pés.

                                         

Fernando

                           

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:23
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