Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Jorge de Sena: Carta a meus filhos Sobre os fuzilamentos de Goya (por Mário Viegas)

CARTA A MEUS FILHOS

Sobre os fuzilamentos de Goya


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena

 

 

Este quadro, pintado por Francisco de Goya em 1814, chama-se "El Tres de Mayo" e refere-se ao 3 de Maio de 1808, fez agora 200 anos


Para ouvir Mário Viegas a declamar «CARTA A MEUS FILHOS Sobre os fuzilamentos de Goya» de Jorge de Sena clicar AQUI e AQUI

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:02
link do post | comentar | favorito
6 comentários:
De lisboa a 28 de Maio de 2008 às 13:06
vamos falar dos fuzilamentos da Floresta de Kathyn, na Polónia, levado a efeito pelos nazis de Hitler?
vamos falar dos fuzilamentos em massa e dos mais de 30 milhões de mortios de José Estaline?
De António Vilarigues a 28 de Maio de 2008 às 13:41
Caro Lisboa,
Como ja repeti inúmeras vezes não tenho por hábito responder a anónimos.
Mas aproveito para o aconselhar (a si a outros) a informar-se melhor antes de dizer disparates pela boca (ou teclado) fora. A comissão nomeada por Gorbatchov, todos não membros do PCUS e todos anti-comunistas e anti-stalinstas, apurou 300 mil mortos de 1923 a 1953 (incluindo os não políticos e com uma invasão Hitleriana pelo meio). Número que NINGUÉM contestou, nem a leste, nem a oeste. Tem a certeza de que não se enganou nos zeros???
É que se efectivamente tivessem morrido 30 milhões, para repor a populaçaõ ao nível que tinha nos censos de 1960 e posteriores isso implicava que TODAS as mulheres soviéticas em idade fértil (16 aos 45 anos) tivessem tido um filho por ano durante 20 anos!!!
http://www.mariosousa.se/MentirassobreahistoriadaUniaoSovietica.html
E já agora, o que é que têm a ver fuzilamentos napoleónicos, frutos das invasões francesas , que dizimaram no mínimo 10% (sabia???) da população de PORTUGAL (alguns autores falam em até 25% - ver Vasco Correia Guedes, vulgo, Vasco Pulido Valente) com as questões que colocou?
Sobre Kahtin, na Polónia, aconselho-o a ler a versão brasileira do livro belga «Um outro olhar sobre Stalin» (pesquise no Google). Se souber ler em francês encontra o original aqui: http://www.communisme-bolchevisme.net/
De lisboa a 30 de Maio de 2008 às 16:19
R trzentos mil são poucos???
De António Vilarigues a 30 de Maio de 2008 às 16:34
Eu não disse isso. O que eu disse foi:
1. Foram 300 mil e não 30 milhões (há uma grande diferença...);
2. Foram presos políticos e presos de delito comum;
e acrescento,
3. Num país onde havia, e há, a pena de morte;
4. Num país onde só em Leninegrado (actual São Petersburgo) durante os 900 dias de cerco, na II Guerra Mundial, morreram 900 mil civis à FOME por se recusarem a render às tropas hitlerianas (para sua informação morreram na II Guerra Mundial 250 mil americanos e 600 mil ingleses em TODOS os cenários de guerra).
De José Pedro Campos a 11 de Agosto de 2011 às 14:58
Boa tarde, Amigo! Conheci hoje este extraordinário poema do Jorge de Sena e ouvi atentamente a interpretação do José Viegas igualmente única, igualmente arrepiante. Agradeço-lhe desde já a oportunidade que me deu de conhecer por seu intermédio esta página dourada da nossa literatura. Se quiser sugerir-me mais algum texto, esteja à vontade, envie-me sff para o email. Um abraço!
De António Vilarigues a 11 de Agosto de 2011 às 16:44
Antes de mais obrigado pelo seu comentário.
Não tenho o seu e-mail, mas pode pesquisar quer pela tag "poesia", quer pelas tag "escritor" e/ou "literatura". Tem algumas centenas de posts dos quais alguns, espero, satisfaçam o seu gosto.
Um abraço

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