Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

O Bem e o Mal revisitados (III)

O discurso do choque de civilizações em quatro blogues portugueses

   Neste artigo o autor, João Valente Aguiar do Blog «Vinhas da Ira», analisa com profundidade a blogosfera que, embora se apresente e seja “um campo idilicamente democrático e plural, não deixa de ser sintomática a coincidência de os blogues com maior número de leitores internáuticos partilharem significativa parte do ideário neoliberal veiculado pelos grandes meios de comunicação social, por políticos, por think tanks e por empresários”. É essa a razão por que “tanto blogues auto-definidos como de esquerda como blogues assumidamente de direita raramente discordam em torno da substância da sua visão do mundo”.

(continuação)

Na mesma senda ideológica, um outro blogue auto-proclamado de “esquerda” apresenta, em larga medida, as mesmas teses mas com um grau de sofisticação ideológica mais refinado, ao mesmo tempo que exacerba a componente da luta civilizacional do Ocidente contra o Islão na repetida dicotomia entre o Bem e o Mal. Aliás, a linguagem utilizada quase que chega a apelar a sentimentos de profecia e de apocalipse: «os integristas posicionam-se para restaurar o grande califado. Caindo a Argélia, caem todos em redor. Esse poderá ser um dos piores pesadelos da Europa e o actual Estado militarizado argelino acaba por ser um mal menor na geopolítica deste tempo» (Kontratempos, 13 de Dezembro de 2007). No mesmo tom, «depois de Bhutto e da delapidação do apoio popular ao ditador Musharraf, falta pouco para os islamistas tomarem o poder no Paquistão. E, com ele, a bomba nuclear. É só uma questão de tempo, cada vez menos tempo» (Kontratempos, 27 de Dezembro de 2007). Basicamente, o realce na tecla profética atinge nesta última frase foros apocalípticos onde o avanço dos islamitas surge como que uma revivescência das atrocidades de Átila, da Mongólia até Roma! Para este discípulo acéfalo da nova ordem do pensamento único neoliberal e imperialista, o avanço do Mal islâmico seria quase irreversível. Quase dizemos nós, na medida em que o autor do blogue considera, mais uma vez, que só a força e a violência militar poderia fazer recuar o avanço islâmico sobre o Ocidente!

«Na resposta ao terror cego, o Ocidente tem falhado. Guntánamo, o Iraque, os voos da CIA, a suspensão da Convenção de Genebra: tudo isso são derrotas cavadas. Depois, há os viveiros de integristas. No Afeganistão, George W. Bush desviou preciosos recursos financeiros e militares para o pântano de Bagdade e abriu terreno ao alastramento da mancha taliban» (Kontratempos, 12 de Setembro de 2007) [negritos e itálicos do autor].

O problema não estaria, segundo este autor, na invasão norte-americana do Iraque e que, segundo a revista Lancet, causou centenas de milhares de mortos (Hicks, 2007). O que se aponta de errado na política seguida pela Administração Bush não é, portanto, a sua linha intervencionista e militarista, mas por ter errado no alvo geopolítico de actuação principal.

Assim, para o autor do blogue Kontratempos, só uma acção bélica e sem contemplações para os inimigos do Ocidente aparenta ser solução. Para isso, cita David Harris, director executivo do Comité Judeu Americano que descreve com precisão a forma como o Estado de Israel vê e actua em relação aos seus vizinhos islâmicos:

«Quando um líder terrorista coloca rampas de lançamento de mísseis em casas, hospitais, escolas e mesquitas, o que pode fazer um exército? Ataca-se a plataforma de mísseis, mesmo sabendo-se que pode haver lá mulheres e crianças, ou não se ataca, correndo o risco de que esses mesmos mísseis vão matar os nossos civis? A questão não é simples. (...) Viver num país mais pequeno que a Bélgica, sabendo quotidianamente que naquele dia pode haver um ataque terrorista, que pode haver um ataque militar. É normal, esta situação? Perante ela, é preciso, primeiro: ter um poder militar forte. Não há escolha nesta parte do mundo» (David Harris citado em Kontratempos, 14 de Setembro de 2006) [negritos do autor do blogue].

A transcrição é longa mas fornece importantíssimas pistas para a compreensão do fenómeno da apropriação e posterior efectivação concreta das teses do choque de civilizações pelos seus mais acérrimos defensores. Neste trecho – abertamente comungado pelo autor do blogue – os chamados danos colaterais são plenamente justificados do ponto de vista humano e militar. O pragmatismo da acção de matar um terrorista justifica plenamente a destruição de bairros civis inteiros de Beirute e de Sídon no Líbano ou do puro e simples esmagamento de casas palestinianos pelas lagartas dos tanques israelitas? Para os apologistas da Guerra Santa inter-civilizacional parece que sim.

É igualmente nítida a justificação e a aceitação tácita da violência mais cruel contra povos e Estados islâmicos – e que pouco afectam os chamados terroristas – no excerto de um artigo de Vasco Pulido Valente citado no mesmo blogue: «os políticos que se dedicam a louvar e a mimar os "moderados" do islão não percebem uma realidade básica: o extremismo é o único caminho para uma civilização falhada e o extremismo ganha» (Vasco Pulido Valente citado em Kontratempos, 23 de Setembro de 2007). Por conseguinte, a saída advogada passa por somar níveis de eficácia estratégica e militar e apostar cada vez mais em tentativas de constituir executivos governamentais coesos, unidos e dispostos a enfrentar tenazmente o que denominam de “inimigo islâmico”:

«nesta fase, deve exigir-se mais do governo israelita. A nível externo, duas guerras civis em potência -- entre palestinianos e entre libaneses -- obrigam ao isolamento dos radicais e ao apoio dos moderados. A nível doméstico, uma liderança política que não consiga unificar o país e o pesadelo de um exército dividido é tudo o Israel não precisa para enfrentar o desafio fundamental dos próximos meses: um Irão nuclear» (Kontratempos, 29 de Janeiro de 2007).

Gostaríamos ainda de aflorar a operação teórico-ideológica de construção da categoria do “Mal”. Atentemos na descrição que o autor do referido blogue realiza acerca dos terroristas islâmicos. «O objectivo [dos terroristas, nota nossa] foi sempre matar matar matar. Para a vertigem fundamentalista, nunca ninguém teve nem terá qualquer opção» (Kontratempos, 13 de Dezembro de 2007). Assiste-se, assim, à criação de um estereótipo do terrorista islâmico, fazendo dele uma pura encarnação do Mal, possuído por uma lógica de actuação estritamente irracional e perpassada por uma pulsão irresistível pelo assassinato. Ou seja, o fenómeno terrorista existiria apenas e tão-somente em si e para si mesmo, despojado de qualquer tipo de determinação complexa, multidimensional e/ou sócio-histórica. Esse seria, consequentemente, um fenómeno isolado de todos os outros (por exemplo, entre vários outros, da lógica do sistema internacional capitalista) e operando como mero depósito psicologista de intenções maquiavélicas. Aliás, essa é uma faceta evidenciada a toda a hora pelos opinion makers mais favoráveis às teses do choque de civilizações.

Ainda neste mesmo blogue pode-se ler que:

«Os terroristas não têm perfil. Não são “éticos”. Usam a multidão, a tecla do totalitarismo de Arendt, e nenhuma categoria ideológica parece ser capaz de os sustentar. Os integristas que se explodiram contra o WTC não eram pobres, nem excluídos, nem oprimidos. Viviam antes como toupeiras nas sociedades ocidentais, tal como os antigos agentes do KGB, levando uma vida estupidamente integrada, pacata, tolerante. Um dia, explodem. E explodem-se. Levam com eles ódio e pregos, o máximo de mortos para um terror maximalista. (…) Por mais que queiramos perceber de onde eles vêm, como vivem e onde vão actuar, nenhuma das respostas parece chegar com a limpidez e a rapidez necessárias. (…) Mas um dia, inevitavelmente, o relógio estará atrasado e desprevenido» (Kontratempos, 12 de Setembro de 2007).

Por aqui se vê que até o esforço de compreensão do fenómeno terrorista é veiculado como algo moroso e, mais grave do que isso, pouco relevante para actuar convenientemente sobre o assunto. Os terroristas atacam e cometem atentados porque sim, ponto. Procurar encontrar fundamentos de determinação causal dos mesmos pareceria ser um empreendimento ineficaz e desfasado da necessidade de actuações militares sobre eventuais alvos terroristas. Quer dizer, o terrorismo seria apenas uma perversidade malévola de gente imoral (ou amoral) – os “terroristas não têm perfil. Não são éticos”. Ficando a análise da origem do terrorismo assente numa base de índole moral, facilmente se pode descambar para, por um lado, pulverizar qualquer tipo de pensamento que se proponha perscrutar a natureza sociológica e histórica do terrorismo e, por outro lado, assumir que os fins (a chamada “guerra ao terrorismo”) justificam inteiramente os meios (utilizar a força bélica e medidas securitárias como únicas formas de enfrentar o terrorismo islâmico). Assim, se se quisesse entravar o terrorismo não valeria a pena interrogar e inquirir as origens do fenómeno, diz-nos este discurso. A resposta é muito simples e, como já se viu, só pode ser uma: o uso da força militar e bélica, procedimento que afecta principalmente as populações civis dos países atingidos e muito menos as ditas (para não dizer, inventadas pelos media dominantes) organizações terroristas. Quando aldeias afegãs ou curdas são bombardeadas, quando cidades iraquianas ou libanesas são arrasadas ou quando edifícios civis, da Cruz Vermelha ou outros são destruídos pelas nuke bombs, não parece de todo crível e intelectualmente honesto afirmar que a conduta dos EUA e seus aliados seja, no mínimo, democrática e humanitária. Por outro lado, atente-se que as chamadas “organizações terroristas”, das duas uma:

a) referem-se a criações orgânicas protagonizadas pelos serviços secretos ocidentais e norte-americanos para justificar a invasão e pilhagem das riquezas de outros povos.

b) referem-se a organizações progressistas, patrióticas ou revolucionárias que lutam contra o imperialismo norte-americano. Este último quando se defronta com a resistência dos povos, classifica imediatamente as suas organizações sociais, políticas e militares mais consequentes como “terroristas”. O exemplo calunioso das FARC, entre outros, é o mais actual e elucidativo da lógica perversa do imperialismo estadunidense e dos media ocidentais em catalogarem perversamente organizações populares de criminosas e terroristas.

Em jeito de parêntesis gostaríamos apenas de referir que chega a ser inegável a proximidade entre o discurso fascista do uso da força como único programa político a executar e a apologia da violência física e militar como única resposta política para conter um inimigo simultaneamente interno e externo. Já Mussolini afirmava que «o Estado deve estar limitado às suas funções políticas e jurídicas. O Estado deve ter apenas polícia para proteger as pessoas decentes dos vilões, um sistema de justiça, um exército pronto para qualquer eventualidade e uma política externa para servir o interesse nacional contra forças terroristas exteriores» (Mussolini citado por Poulantzas, 1970, p.112). A afirmação de Mussolini apesar de não ser directamente relacionada com esta questão chama a atenção para um dos pontos comuns entre o fascismo e as correntes liberais e conservadoras. Na prática, a ênfase colocada na redução do aparelho de Estado a um papel puramente securitário, policial e militar é de uma profunda similitude entre todas as correntes, sem com isto querer afirmar a sua identificação política tácita, mas “tão-somente” a partilha de determinados aspectos sobre o Estado e sobre as formas de resposta política deste último. É partindo do pressuposto que o Estado deveria reduzir o seu papel à esfera do seu aparelho repressivo, policial e militar que deriva a defesa tácita do uso da violência como única ou principal forma de actuação sobre o terrorismo. A política (e as ideologias políticas) não mais seriam do que ilustrações simbólicas de uma real virtude pragmática de aplicação da violência física e militar para resolver questões de ordem política. Só colocando o aparelho de Estado nesta perspectiva de estrutura quase exclusivamente repressora, se poderá lançar luz sobre o papel subsequente da violência como principal instrumento político de actuação interna e/ou externa.

(continua)

                                                                 

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:02
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