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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

A Guerra Civil de Espanha vista por Manuel Tiago (2)

(...)

Pessoas que nesses dias chegavam a Madrid, vindas de França e de Itália, não podiam crer no que viam. Caíam em cheio numa grande cidade envolvida, sob a torreira do sol, num tempestuoso turbilhão de choques, manifestações, conflitos armados e atentados.

E contrastes. E surpresas. Aqui, numa rua pacata, esplanadas, gente flanando. Logo ali perto a desfilada dos carros com enormes bandeiras desfraldadas à deslocação do ar. E palavras de ordem. E grupos apressados com destino desconhecido mas certo. E, aqui e além, neste ou naquele momento, tiros sem se saber onde e porquê.

Entre os motivos de surpresa, Guardas de Assalto, fardados e armados, a integrarem manifestações com bandeiras dos partidos e, tal como os populares, reclamando do Governo Republicano a imediata distribuição de armas.

Situação curiosa de facto. Criada para defender a ordem pública, concebida em termos militares como força especializada para nas ruas reprimir o povo, tornou-se nesses dias um corpo relativamente disperso e integrado pelos seus homens na defesa das liberdades, da democracia e da Frente Popular triunfante nas eleições. A conspiração fascista revelava dia a dia dominantes posições no Exército. Não na Guarda de Assalto. Os desacatos, os actos de violência, os atentados, o tiroteio, a desestabilização, eram movidos por grupos fascistas numa dinâmica conducente ao golpe militar em preparação. A ordem pública democrática era defendida directamente pelo povo. Com ele numerosos Guardas de Assalto fazendo frente às provocações, procurando agarrar e prender os provocadores.

Durante alguns dias, os actos de violência dirigiam-se contra as instalações e militantes dos partidos da esquerda, em particular contra os comunistas e os que vendiam nas ruas o Mundo Obrero. Depois passaram também a alvejar Guardas de Assalto. Actos soltos até ao dia em que os fascistas jogaram mais forte e, numa emboscada, abateram a tiro um comandante da Guarda.

O acto foi como que o anúncio de uma certeza: o golpe aproximava-se. Já não se podia evitar.

António, Manuel, Renato participaram juntos no funeral. Um mar de gente na vasta Plaza de Correos. Cordões de mãos dadas ao longo de centenas de metros das grandes avenidas, procurando conter a torrente de homens, mulheres, jovens, que acorriam com bandeiras a gritar consignas, mais parecendo que iam para uma batalha do que para um funeral. Melhor, com a consciência de que aquele funeral era também uma batalha. Entre as palavras, sobressaía uma: «Armas al pueblo!» — imperativa exigência ao Governo. Pelo que se sabia das posições das forças armadas, pela sublevação no Cuartel de la Montaña, tornava-se cada vez mais clara a consciência de que, se não fossem distribuídas armas, se o povo não fosse armado, a República estava perdida.

Na manhã seguinte ao funeral outra notícia correu veloz de boca em boca. Em retaliação pelo assassinato do seu comandante, Guardas de Assalto tinham abatido a tiro Calvo Sotelo, regressado há dias a Espanha vindo de Portugal, onde fora conferenciar com Salazar.


(...)

Afigurava-se irreversível o agravamento da situação. Cada dia se sabia de novas unidades sublevadas. Para o povo madrileno era já inevitável o confronto armado do qual sairia um vencedor e um vencido. A vitória do fascismo seria um banho de sangue e o terror instaurado como sistema do Estado. A democracia seria a liberdade, mas os fascistas, tendo ido até onde já tinham ido, pagariam caro os seus crimes. Uma das duas. Qualquer outra saída seria ilusória.

Por isso o povo nem queria acreditar nas notícias que corriam. Quiroga, presidente do Conselho, apavorado ou colaboracionista, fora demitido e o seu sucessor, Martínez Barrio, pelo que se dizia, estava negociando com os generais sublevados uma solução de compromisso.

— Eso seria entregamos al enemigo para ahogar-nos en sangre — protestou Eulália. — Hay que impedirlo y vamos a impedirlo.

Do Cuartel de la Montaña já se sabia. E as outras unidades militares de Madrid, perguntou Manuel, todas se tinham sublevado?

Não, não todas, informou Eulália. Segundo os camaradas, os Regimentos de Infantaria l e 2 e o de Artilharia do Pacífico estavam com a República. Isso não evitava que o Governo, ao mesmo tempo que se recusava a entregar armas ao povo, continuasse as negociações com os fascistas.

— Es el pueblo el que vá a impedirlo, amigos. Y si el Gobierno no quiere, le obligaremos.

No dia seguinte haveria uma grande manifestação a exigir do Governo combate decidido à rebelião militar e distribuição de armas.

Nunca António e Manuel haviam participado numa manifestação tão grandiosa, nem pensado que pudesse realizar-se e nela pudessem participar.

Dir-se-ia que Madrid convergia para a Puerta del Sol e a Gobernación. Uma multidão — que outra palavra existe para expressá-lo? — deslocava-se com um mar de dísticos e bandeiras. Autocarros apinhados de manifestantes avançavam ao ritmo dos peões.

— No al compromiso! Abajo los traidores!

Outro grito lançado por milhares de vozes ecoava ao longo das ruas.

— Armas! Armas! Armas!

A manifestação transformou-se numa concentração imensa enchendo em pleno o centro da capital.

A vontade, a determinação, a decisão do povo, tinham ali poderosa expressão. Um compromisso significaria a derrota da República, pois, na situação criada, só o povo em armas poderia salvá-la.

Martínez Barrio seria obrigado a desistir do caminho da traição.

— Vamos a impedirlo — dissera Eulália, categórica e certa.

A gigantesca manifestação reforçava a confiança em que seria impedido.

(...)

No Cuartel de la Montaña os fascistas, que se haviam sublevado e entrincheirado, fizeram pela tarde uma surtida com dois jeeps militares. Forçaram a paragem de um autocarro e, sob a ameaça das armas, levaram-no para o quartel no meio da gritaria e dos protestos dos populares que passavam. A um dos que se atravessaram à frente atiraram-lhe os carros para cima, deixando-o estatelado a sangrar. Homens, mulheres e crianças eram agora reféns. A notícia passava de boca em boca.

Sem dúvida, o golpe militar estava para breve. Aprontando-se para a luta, o partido estava todo mobilizado a concentrar-se nas sedes dos bairros.

(...)

Excertos do Capítulo 1 de "A Casa de Eulália"

                                                                             

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