Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

A Guerra Civil de Espanha vista por Manuel Tiago (3)

(...)

Pelo caminho, perguntaram para onde ia tanto pessoal.

— Que adónde? Al asalto del Cuartel de la Montaña, adónde querias que fuera?

À medida que se aproximavam do centro, intensificava-se o tiroteio, passavam mais carros com bandeiras, via-se mais gente com espingarda à bandoleira ou na mão.

(...)

Pelas ruas estreitas da cidade velha, correram para onde todos corriam, cada vez mais envolvidos por intenso tiroteio. Já não eram disparos soltos, mas a atmosfera dominada pela orquestra ininterrupta de um fogo cerrado. Disparos próximos e o silvar de balas de origem indeterminada, a diversidade dos tiros de pistola, espingarda e metralhadora, o som simultâneo, sobreposto ou fundido, de zonas de fogo às mais diversas distâncias, o abrandar de umas, a brusca intensificação de outras, o ressoar compassado mais distante dos tiros de canhão, os ecos respondendo a ecos fluindo e refluindo por ruas e ruelas — a grandiosa e terrífica sinfonia de uma batalha urbana.

O inimigo foi surgindo pouco a pouco. Emboscado num portal ou numa esquina, cortando o avanço por uma rua transversal, ou abrigado em improvisados obstáculos. Até aí seguiram uma corrente de gente armada, dando tiros como os outros, sem saber onde começava e onde acabava a linha de confronto e sem discernir qualquer comando.

Foram finalmente retidos num cruzamento, onde pela primeira vez se apercebia alguém que comandava, ou pelo menos orientava Três ou quatro civis armados indicavam a uns e a outros que se chegassem aos prédios e aos vãos das portas e seguissem em frente com cuidado. Logo adiante, com o som da fuzilaria a dominar o espaço, as precauções intensificaram-se. A uma esquina, deitados por terra, atrás de uma tosca barricada, populares faziam fogo contra um inimigo que os recém-chegados não viam.

Inesperadamente os da barricada deixaram de disparar, levantaram-se de armas na mão, acenaram aos recém-vindos para os seguirem, dobraram a esquina colando-se aos prédios e avançaram rua fora, agora sem oposição. Noutra esquina o tiroteio recomeçou e Manuel e António, com os outros, atiravam também. Os fascistas, certamente reforçados, opunham-se agora dos telhados, varando as ruas com saraivadas de balas.


(...)

Ao voltar de mais uma esquina, com o redobrar violento do fogo, depararam, aí a duas centenas de metros de distância, com os altos muros e o portão negro do Cuartel. De fora, nas primeiras linhas, civis armados e soldados fardados das unidades fiéis à República alvejavam o friso dos muros, donde sem parar disparavam os fascistas. Avançar mais como? Era campo descoberto, sem qualquer abrigo. Depois o muro e o portão.

Não demorou porém muito a resistência. Ainda na manhã a batalha se decidiu. Sem que os assaltantes o esperassem, abriram-se os portões e, de roldão, em mangas de camisa e agitando os braços ao alto com farrapos brancos, saíram dezenas de soldados, que correram a atravessar o campo raso.

Atrás deles tiros dispersos fizeram cair alguns. Depois, durante breves minutos, o fogo cessou. Então, vindos de todos os lados, avançaram em sentido inverso soldados e centenas de populares, armados uns, desarmados outros, que romperam pelo portão e se sumiram lá dentro. Manuel correu veloz e entrou também. Cá fora ouviu-se furiosa fuzilaria. Aos tiros de espingardas, metralhadoras e pistolas somavam-se agora algumas explosões soltas de granadas.

(...)

Soube-se depois. Aos que entraram no Cuartel apresentou-se um cenário aterrador na parada. Reféns apanhados no autocarro — homens, mulheres e crianças — jaziam por terra, estendidos uns, contorcidos outros, chacinados, manchados de sangue ainda fresco.

Boa parte dos soldados tinham-se sublevado, aberto os portões e passado para o lado republicano. Outros, despida a farda, eram deixados seguir em paz. Os oficiais foram-se rendendo também. A resposta ao crime foi inevitável. Os primeiros assaltantes, farda que vissem atiravam a matar. A guarnição militar de Madrid, sublevada pelos fascistas, fora derrotada pelo povo em armas.

— A Carabanchel! — gritaram de uma camioneta.

— A Carabanchel! A Carabanchel! — repetiram outros.

(...)

Carabanchel. Aquartelamento militar nos arredores da capital. Vários regimentos. Soldados das unidade madrilenas fiéis à República e o povo armado começaram o cerco.

(...)

A conversa suspendeu-se num breve embaraço. Depois o camarada retomou a palavra e explicou.

Já tinham vindo lá a casa camaradas espanhóis que o haviam informado da situação. Pelo que então se sabia, no Sul tropas marroquinas trazidas por Franco apareciam a par dos carlistas requetés como a principal força de combate. Com extrema ferocidade espalhavam o terror. De uma maneira geral as unidades militares tinham acompanhado o golpe. Os fascistas avançavam para Norte pelo ocidente da Andaluzia e avançavam para Sul através de León e Castela a Velha, vindos de Salamanca e de Valladolid. O perigo agora estava na serra do Guadarrama, defesa natural de Madrid, e em Talavera de la Reina a ocidente. Entretanto, se no interior do Norte o golpe tivera êxito, de Madrid até ao Mediterrâneo o povo derrotara os fascistas e apoiava o Governo Republicano. As Astúrias estavam com a República. Na Catalunha, os anarquistas tinham a situação nas mãos. Duas colunas do povo armado avançavam para Aragão.

— E Huelva? — interrompeu António impaciente pela falta de referência.

Havia razões para a pergunta. Precisamente em Huelva estavam os dois camaradas que há semanas tinham sido presos pela Guardia Civil, apanhados ao passar clandestinamente a fronteira pelo Guadiana. Ali em Madrid estavam procurando que a intervenção dos camaradas espanhóis conseguisse que o Governo os libertasse para regressarem a Portugal. Ele próprio teria que tratar da passagem. 

— As notícias são más, amigo — respondeu o camarada. — Pelas notícias que nos chegam, Huelva está nas mãos dos fascistas. Dos dois camaradas nada sabemos.

(...)

Excertos do Capítulo 2 de "A Casa de Eulália"

                                                                              

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

  •  
  • A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    K

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    W

    X

    Y

    Z

    Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2020
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2019
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2018
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2017
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2016
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2015
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2014
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2013
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2012
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2011
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2010
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2009
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2008
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2007
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D