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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

A Guerra Civil de Espanha vista por Manuel Tiago (6)

(...)

Como fora possível a António imaginar que o português preso por suspeita no Guadarrama fosse Manuel? Apenas porque Guadarrama e Manuel a combater no Guadarrama eram pensamentos inseparáveis. Porque tinha visto de perto a coragem de Manuel e receava cada dia que ele ali perdesse a vida.

Não, com Manuel não se podia ter passado aquilo. Porque desde os primeiros dias combatia nas linhas mais avançadas. Porque dava a cada momento provas de iniciativa e de valentia. Porque era querido pelos camaradas espanhóis com os quais continha com êxito na Serra as tentativas de os fascistas romperem caminho para Madrid.

Logo no primeiro dia, participara no assalto ao Cuartel de la Montaña e fora daqueles que rompera portão dentro a finalizar à metralha os últimos actos de resistência dos oficiais sublevados.

Depois em Carabanchel, quando avançava com António e com a vaga do povo armado, vendo que o nicho fascista da metralhadora tinha sustido o ataque, a ideia lhe viera rápida e instintiva. Por ali não avançavam. Não conseguiam. Só atacando os fascistas pela retaguarda. E disparara em correria procurando vencer o espaço descoberto onde se cruzavam as balas. Ele próprio se surpreendeu com o êxito. Descendo mais e mais, descrevendo uma prolongada curva na encosta, viu-se ante um terreno nu e um pouco acima, de costas para ele, sem qualquer apoio na retaguarda, o grupo dos quatro ou cinco fascistas fazendo fogo com a metralhadora. A Mauser era pouco para o confronto. O factor psicológico iria decidir. Manuel surpreendia-se a si próprio com a rapidez com que apreciava a situação e encontrava a resposta. «Quando se virem atacados pela retaguarda, põem-se a fugir.» Rastejou, aproximou-se e fez pontaria. No estrondoso fragor da batalha que ressoava na atmosfera, os dois tiros de espingarda nem se ouviram. Junto à metralhadora, atingidos pelas balas, dois corpos caíram. O crepitar da metralhadora cessou e os sobreviventes do grupo, abandonando as armas, correram desesperados em direcção ao aquartelamento.

Descendo as encostas o avanço tornou-se irresistível. Manuel perdeu de vista o mocinho que se colara a ele e também não mais viu António e os do seu grupo. Decerto tinham ficado muito para trás. Continuou o avanço acompanhado por muitos outros que de todos os lados surgiam. Com eles foi dos que, nas primeiras linhas, confraternizando com militares fiéis à República, forçaram os oficiais sublevados à rendição.

Voltara a Madrid no cortejo da grande coluna vitoriosa integrado num grupo de jovens combatentes espanhóis com quem partilhara o último assalto. Com Pablo, com Jaime, com Alonso, com Consuelo. Grupo de combate que, como centenas de outros, se criara, constituíra e actuara como unidade militar nessa mesma manhã. Uma só manhã. Haviam-se escudado uns aos outros sempre atentos ao inimigo e à acção e perigo que corriam os companheiros. Vencendo o inimigo e vencendo a morte, que incessantemente rondava a seu lado. E agora Pablo, Jaime, Alonso, Consuelo, Manuel, olhavam-se como conhecidos de sempre e como se não pudessem mais separar-se.

(...)

Juntos tinham regressado a Madrid com as forças vencedoras de Carabanchel. Ao contrário dos muitos que dispersaram, eles não mais se separaram das forças armadas. Donde veio a indicação ninguém o saberia dizer. Uma coisa foi certa para eles e para milhares de outros combatentes. Alguém os integrara na coluna militar que partira para o Guadarrama a cortar o passo aos fascistas que avançavam do Norte. Ao integrarem-se nessa coluna não eram mais apenas cinco amigos que se haviam unido no combate. Eram bem, e como tal se sentiam, uma unidade militar do novo exército, do exército popular em formação desde esse dia.

Eles e centenas de outros foram conduzidos directamente para as linhas mais avançadas na Serra. Certamente havia já quem conhecia o terreno e comandava a disposição das forças. O certo porém é que, depois de estarem na Serra, cada qual por si tomava a iniciativa de escolher as suas posições.

Manuel e os seus companheiros, entre muitos outros, foram conduzidos até uns penhascos sobranceiros a um vale ao longo do qual serpenteava uma estrada.

A missão era simples. Para impedir o avanço fascista pela estrada, havia outras forças, com outros meios, que dali não se viam. Essas dispunham de artilharia, metralhadoras e morteiros. Ali a tarefa era outra, era impedir que os fascistas, avançando pelas encostas, ganhassem posições dominando o vale, ou conseguissem atacar as tropas republicanas pela retaguarda.

A previsão confirmara-se. Logo nos primeiros dias travaram-se combates por toda a Serra.

Manuel, Pablo, Alonso, Jaime, Consuelo, agiam como uma unidade de combate. Com iniciativa. Ajudando-se e assistindo-se mutuamente.

Uma vez foi Manuel a ficar isolado em má posição. E foram Pablo e Alonso quem, com grande risco, tomando perigosas posições, seguraram os fascistas e deram cobertura a Manuel.

Outra vez foi Manuel que viu os companheiros em situação de perigo. Os fascistas tinham ganho uma posição superior no terreno e daí faziam fogo. Nesse momento vieram à memória de Manuel as Festas Populares de Lisboa, os camaradas a lançarem os manifestos e ele, Manuel, assegurando a sua defesa, atacando o polícia que os prendera. Tal como em Carabanchel, a iniciativa saiu-lhe natural e sem esforço. No caso tinha que ganhar uma posição no terreno superior à dos fascistas, daí dominá-los, obrigá-los a fazer fogo na sua direcção e assim abrir espaço a Pablo e Alonso para se escaparem.

Batiam-se em conjunto, não pensando sequer na morte, quase parecendo que brincavam com ela. Mas na guerra a morte não só espreita como golpeia sem piedade. Logo nos primeiros dias do Guadarrama o grupo sofreu duro golpe. Consuelo, a jovenzita que se lhes juntara em Carabanchel, que de espingarda em punho avançara com eles no ataque final ao aquartelamento, que ali no Guadarrama procurava sempre as primeiras linhas e os maiores riscos, heroína do grupo e querida de todos, caíra em pleno combate.

(...)

Excertos do Capítulo 5 de "A Casa de Eulália"

                                                                              

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