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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

A Guerra Civil de Espanha vista por Manuel Tiago (7)

(...)

Dia após dia afluíam à capital cortejos de refugiados. As tropas fascistas atacavam num furacão de atrocidades. Violando mulheres. Pilhando aldeias. Fuzilando. Não longe de Madrid, avançavam em Talavera de la Reina e na região de Toledo.

As populações campesinas acondicionavam à pressa o mais que podiam, aparelhavam as bestas, atrelavam os burros ou cavalos às carroças, largavam tudo o mais que tinham e, salvo alguns que por vezes ficavam a esboçar resistência e a dar tempo à retirada, encetavam a caminhada para a capital.

Na lonjura dos campos, os grupos de refugiados marcavam o seu itinerário por atalhos e caminhos, convergindo e engrossando, até se juntarem nas estradas principais em grandes caudais humanos, já longe dos combates.

(...)

[Nota: o excerto seguinte só pode ser inteiramente compreendido no contexto do romance]

Regressou a casa amargurado. Era assim que os espanhóis consideravam os portugueses? O seu apoio e a sua participação desde a primeira hora na luta contra a sublevação fascista? Não era um oficial português instrutor do V Regimento em formação? Não fora um aviador português exilado um dos primeiros a bombardear unidades sublevadas? Não assistira ainda há pouco em Madrid, com participação de milhares de pessoas, ao funeral de um combatente português, caído heroicamente na serra do Guadarrama? Não era um português que, além da Coluna Durruti, encabeçava e comandava uma das outras colunas que a partir da Catalunha avançavam para o interior ocupado pela sublevação militar? E não tinha qualquer significado que ele, e Manuel, e Renato, dessem a sua modesta sem dúvida mas real e activa solidariedade? E quanto às Brigadas Internacionais? Não via Gonzalo que os portugueses, integrados na vida social espanhola, compreendendo a língua e fazendo-se compreender, se integravam também naturalmente nas unidades espanholas e (sabe-se lá) viriam a aparecer nas Brigadas com nomes espanhóis?

(...)

Onde estavam os comandantes se à partida não os havia? Quem, nos primeiros e decisivos confrontos, tivera o talento de dispor na Serra as forças populares, sem preparação militar, mal armadas, de forma a cortar o passo às tropas fascistas, unidades do exército comandadas por oficiais de carreira e dispondo de artilharia, de morteiros, de metralhadoras?

No pasarán!, gritava-se em Madrid. E então não passaram.

Nas principais estradas que cortavam a Serra e nos raros povoados, tomaram posições milicianos equipados com armas ligeiras e militares fiéis à República, com armas pesadas.

Pelas encostas a situação era outra.

Como que orientando-se por mapas militares de que não dispunham, milhares de populares ocuparam cumeadas, e distribuíram-se pelos declives, dominando os vales e as estradas. Aqui e além escolheram lugares propícios a emboscadas. Quando o inimigo tentava progredir, travavam-se verdadeiras batalhas de movimento, tentativas de cerco, avanços e recuos, conquista e reconquista de posições. Em tal ou tal zona da Serra estabeleciam-se assim temporários campos de batalha por vezes horas e horas, onde iam tombando os corpos, de um lado e de outro, atingidos em insuficientes abrigos ou em terreno raso.

Os camilleros chegavam debaixo de fogo. Onde havia corpos caídos, para lá corriam, ora quase rastejando ora à desfilada, como se pudessem correr mais que as balas. Até parecia que assim era. Quantas vezes Renato e seus companheiros não cruzaram aquela encosta quando mais intenso era o fogo. Quantas vezes não levantaram do chão e levaram para qualquer abrigo feridos expostos a serem de novo atingidos. Quantas vezes, para estancar uma hemorragia, para fazer um penso imediato, para atar uma ligadura, para apertar um garrote, demoravam ali, sem pressa de sair e de se safarem daquele inferno de dor e de morte. Não se sabe, porque impossível é sabê-lo, quantas vezes as balas lhes não passaram a centímetros ou mesmo a milímetros de distância, como que desviando-se, a fazer justiça e a prestar homenagem a um heroísmo de que se não fala tanto como do heroísmo daqueles que se batem com armas na mão.

(...)

O primeiro bombardeamento aéreo colheu Madrid de surpresa. Breve, em zonas periféricas, como um aviso. No centro ouviram-se estrondos surdos que pareciam de canhão. Apenas cada um mais longo, mais separado dos outros, ficando a ressoar no espaço. Só depois soaram sirenes de ambulâncias e chegaram notícias. Mais alarmante que o bombardeamento em si, a revelação: os aviões eram alemães. Confirmava-se a intervenção e a agressão militar da Alemanha hitleriana.

Prepararam-se abrigos nas caves. Improvisaram-se serviços e alertas. À noite a cidade ficava às escuras.

Animados pelo facto, os fascistas saíram das tocas e ensaiaram novas surtidas e novos tiroteios. Calcularam mal. Já não se estava nos primeiros dias. Agora havia forças armadas, serviços de segurança organizados, além da intervenção maciça da população. Tais tentativas acabaram mal para os seus autores, apanhados ou abatidos nas ruas da cidade.

O segundo bombardeamento foi diferente.

Soaram os sinais de alarme. A antiga «carreira de tiro» do hospital de sangue transformara-se numa imensa enfermaria. Conduziram para as caves os refugiados, que enchiam o grande pátio de entrada. Podia então observar-se um comportamento estranho. O pessoal disponível não ficou nas caves, nem foi reforçar a guarda dos portões. Correu apressado, trepando escadas e descobrindo, por busca nos compridos corredores, o caminho para os telhados. E aí ficou olhando o céu.

Apareceram, roncando, luzes vermelhas e verdes bem visíveis, Junkers trimotores, com velocidade aparentemente lenta ao aproximarem-se e como gigantescos avejões negros ao passarem como furacões mesmo ali por cima.

— Boummm... Boummm... Boummm... Boummm...

Um rasto do ribombar de trovões, anunciando a estrada de destruições e de mortos que iam deixando na cidade.

Aos ouvidos não chegou porém apenas o tenebroso ruído dos motores e das explosões. Soaram também, deixando um rasto coincidente com o dos aviões inimigos, breves estalidos, tímidos mas contínuos e em salva, lembrando foguetes. Vendo passar os aviões, os populares disparavam dos telhados as pistolas na sua direcção. Não era esperança de resultado. Era protesto, declaração de determinação e de resistência.

Depois todos desceram à rua. As ambulâncias e os camilleros já tinham partido. Renato com eles a desobstruir ruínas. Sob iluminação improvisada nos locais atingidos, a buscar feridos ou mortos nos prédios esventrados, a recolher os desalojados, a conter desorientações, a organizar e a dirigir os trabalhos de salvamento.

Porque o bombardeamento não se dirigia a quaisquer alvos militares. Dirigia-se abertamente contra o aglomerado urbano, contra a população, contra Madrid, Madrid capital da República, Madrid do povo armado, Madrid que esmagou a revolta do exército equipado e comandado pela hierarquia militar, Madrid que pusera e punha em causa o avanço de Franco, que, com a ajuda de Hitler, de Mussolini, de Salazar, contara com uma rápida vitória.

(...)

Excertos do Capítulo 6 de "A Casa de Eulália"

                                                                              

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