Dez biliões de euros em 20 meses. Mais de 50 vezes o PIB de um país como Portugal. Ou 30 apartamentos com 150 metros quadrados de área cheios de notas de 500€ até ao tecto. Tal é a verba injectada pelos bancos centrais e pelos governos, SÓ NO SISTEMA FINANCEIRO, desde Agosto de 2007. Há um ano este número, a todos os títulos obsceno, era dez vezes menor. E não se vislumbra quando parará de crescer.
No entanto, apesar das injecções massivas de biliões de euros e de dólares no sistema bancário e nos mercados, a crise está longe de ser debelada. Porquê?
Desde logo, porque a crise financeira está a ser politicamente combatida por aqueles que, felizes e contentes, conviveram com as maravilhas das políticas monetaristas, ditas neoliberais, durante estes últimos trinta anos. Ora não é crível que estes estejam agora em condições de propor uma verdadeira alternativa.
Depois, porque o montante dos títulos que nada valem – os eufemisticamente chamados «activos tóxicos» – é colossal. Muito superior ao que foi estimado inicialmente. E, para não fugir à regra, os bancos continuam a mascará-lo nos seus Balanços.
Acresce que muitos destes bancos e transnacionais não têm apenas um problema de liquidez. Estão pura e simplesmente falidos. Portanto o dinheiro que aí entra em catadupas desaparece a uma velocidade vertiginosa. São um verdadeiro poço sem fundo.
Finalmente, o problema central. Esta crise resulta, por um lado, da contradição entre a sobreprodução e sobre-acumulação de meios de produção. Por outro, da contracção de mercados e níveis de consumo decorrentes das desvalorizações salariais e abismais assimetrias de rendimentos.
Durante dezenas de anos a fio temos tido o crédito a suprir a perda de poder de compra. O crédito a compensar a concentração de riqueza. A procura não foi alimentada por aumentos reais dos salários e pensões. Pelo contrário. Como o provam todos os indicadores, a distribuição do Rendimento Nacional em detrimento dos salários agravou-se nos EUA e noutros países. Em Portugal também – de 59% em 1975 a parte do trabalho passou para menos de 40% em 2007.
As crises têm sido consideradas pelos defensores e teóricos do capitalismo apenas como acidentes de percurso. Acidentes que se podem superar, afirmam, com mais e melhor regulação e supervisão. Bem como com uma intervenção mais «responsável» dos principais intervenientes no mercado. Os mesmos que ontem proclamavam «deixem o mercado trabalhar», vêm hoje fazer espantosas confissões e mesmo autocríticas.
Mas, na realidade, o que pretendem é continuar com as políticas neoliberais. É passar a factura dos custos da crise para os assalariados e para os contribuintes. Um dos resultados vai ser o aumento substancial das dívidas públicas.
Esta crise tem também demonstrado à saciedade que uma boa parte da teoria económica não tem qualquer base científica. De nada lhe valem roupagens matemáticas, modelos complexos, linguagem hermética, chancelas académicas, prémios Nobel. É tudo pura ideologia ao serviço das classes dominantes, visando a manutenção imutável do sistema.
Os dados tornados públicos apontam para um forte agravamento da crise neste primeiro semestre de 2009. Com empresas a mostrarem os seus maus resultados. Com o desemprego a subir aceleradamente. Com os sistemas de pensões por capitalização em risco de se afundarem brutalmente.
A ruptura com a actual política e a construção de uma política alternativa são o primeiro passo para uma efectiva saída da crise. Uma política alternativa é indispensável para devolver ao País uma dinâmica de desenvolvimento económico e social. É inegável a necessidade da ruptura com os eixos centrais das orientações políticas, económicas e sociais seguidas nos últimos 33 anos.
Quanto aos 10 000 000 000 000€, a educação e o decoro impedem-me de escrever o que penso…
Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
In jornal "Público" - Edição de 4 de Abril de 2009
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