Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O estranho caso Zemskov

     Víktor Nikoláievitch Zemskov é russo e historiador. Tem do mundo uma visão profundamente conservadora e anti-socialista: «E antes de isso [a Revolução de Outubro de 1917 na Rússia], ainda que a Rússia fosse da periferia europeia, tinha sido um país civilizado. Isto é, quanto mais civilizado é um país, tanto menos desejável é a revolução pelas terríveis consequências que esta tem».

Em 1989, cumprindo uma directiva do Bureau Político de Mikhail Gorbatchov, a Academia de Ciências criou uma equipa, na qual, a par de Zemskov, participaram outros reputados historiadores russos como A.N. Dúgine e O.V. Khlévniuk. O objectivo era esclarecer as reais dimensões da repressão stalinista.

Zemskov e a sua equipa tiveram pela primeira vez acesso a um dos sectores mais secretos dos arquivos do Ministério do Interior (MDV-MGB) e da polícia de Estado (OGPU-NKVD). Os resultados do seu trabalho foram publicados na URSS e na Rússia entre 1990 e 1993, num trabalho com cerca de 9 000 (nove mil) páginas.

Os relatórios de investigação russos dão resposta a uma quantidade muito grande de perguntas. O que era o sistema correccional soviético? Qual era o número de presos, políticos e de delito comum? Quantos mortos houve nos campos de trabalho? Quantos foram os condenados à morte até 1953 e em especial durante as depurações de 1937-38? Qual era em geral o tempo de prisão?

Zemskov documentou que entre 1921 e 1953 foram «reprimidas» quatro milhões de pessoas. De entre elas, o regime soviético fuzilou por motivos políticos cerca de 800 mil pessoas, em concreto 799 455.

Longe, muito longe, dos milhões, dezenas de milhões, mais de 100 milhões, referidos por Conquest, Soljenítsine, Medvedev e outros. Seria como se de repente nos viessem demonstrar que nos campos de concentração nazis não morreram cerca de doze milhões de pessoas (mais de 3,5 milhões eram soviéticos), mas sim 1,2 milhões ou mesmo 120 mil.

Como termo de comparação refira-se que de acordo com o relatório intitulado «Prisioneiros em 2005», havia 2 193 789 pessoas presas nos Estados Unidos em Dezembro de 2005. Mais 4,1 milhões estavam presos temporariamente e cerca de 800.000 em liberdade condicional. Estes números totalizam mais de 7 milhões de pessoas — o que representa 1 em cada 32 norte-americanos adultos — que estariam sob algum tipo de supervisão do sistema prisional dos EUA. (AQUI).

Estamos, qualquer que seja o prisma de análise, perante uma verdadeira «bomba atómica» política, ideológica, jornalística merecedora de profundo debate e discussão. Mas a realidade é outra.

Sobre esta importantíssima investigação (já com mais de dezasseis anos!!!) abateu-se um silêncio de chumbo. Os meios de comunicação social votaram-na ao esquecimento. A única excepção parece ser a entrevista ao jornal espanhol, assumidamente de direita, La Vanguardia, edição de 3 de Junho de 2001, de onde são retiradas as citações (publicada no blog em português «Para a História do Socialismo»). Na Internet encontramos, literalmente, uma meia dúzia de referências. Nos meios académicos estas investigações passaram quase totalmente desapercebidas. Os relatórios foram publicados em revistas científicas de pouca venda e praticamente desconhecidas do grande público: em França na revista L'Histoire em Setembro de 1993, nos EUA na revista The American Historical Review. Conhecem-se uns escassos livros (apesar de alguns dos investigadores russos hoje viverem e trabalharem nos EUA).

Como diz o jornal La Vanguardia na edição referida: «(…) a guerra-fria acabou há uma década e já é hora de a propaganda dar lugar à história, e a conjectura ao documento.».

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação 

In jornal "Público" - Edição de 30 de Outubro de 2009

                                                                                      

9 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

  •  
  • A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    K

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    W

    X

    Y

    Z

    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D