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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

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TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Penalva do Castelo - As amarras de Nuno Henriques

Texto Isabel Bordalo

 

    Com 24 anos, à beira de ser pai pela segunda vez e sem saber ler nem escrever, Nuno Henriques anda em desespero por não conseguir concretizar o seu grande sonho que é tirar a carta de condução.

  

Dizem que os homens não choram, mas os olhos do Nuno Henriques facilmente marejam. Quando recorda os maus tratos do pai, quando lhe vem à memória a imagem das irmãs, de quem foi separado após a morte violenta da tia às mãos do seu progenitor; e quando deixa perceber que a sua condição de filho mais velho lhe traçou uma sina pesada.

Por nunca ter ido à escola, não consegue tirar a carta de condução, o seu "grande sonho" e o passaporte para uma vida melhor. "Conheço as letras, mas não as sei ler", explica Nuno. Apenas sabe escrever o nome e, quanto ao dinheiro, aprendeu a decifrar os números.

Como era o mais velho de seis irmãos, o pai impediu-o de estudar e pô-lo a trabalhar com ele "a recolher sucata e a apanhar pinhas". Mas não é a ausência da escola que mais pesa sobre Nuno. São as recordações dos maus tratos que sofria e que viu sofrer a mãe, sempre que tentava convencer o marido a deixá-lo ir à escola: "Ele batia-lhe e dava-lhe navalhadas". Aos 16 anos, quando vivia em Moimenta da Beira com um tio, depois de o pai ter sido preso pelo assassinato da companheira (uma tia materna do Nuno), ainda tentou estudar, mas acabou por desistir. "Não tinha tempo, nem cabeça", justifica recordando que a sua prioridade "era seguir a vida sozinho", cortar as amarras que o agarravam a uma vida de "miséria e maus tratos".

Nuno Henriques engole em seco sempre que fala do passado enquanto os olhos marejam. Depois de se ter fixado novamente em Penalva, conheceu a mulher, Inês, numa das idas a Moimenta da Beira com o conjunto musical "República", para quem trabalhava. O casal vive com um filho, de dois anos, numa casa arrendada por 150 euros/mês, e tem que esticar o pouco que Inês ganha, na Câmara de Penalva, e o que Nuno recolhe nos biscates, para cobrir as despesas. Daqui a sete meses, o "magro" rendimento tem que chegar para mais um. A Inês está grávida e vem aí o segundo filho.

A carta de condução iria torná-lo independente de um tio, que vive em Mangualde, e permitir-lhe estabelecer-se por conta própria no negócio da recolha, compra e venda de sucata. Como sabe conduzir, Nuno arriscou o volante mas foi apanhado e condenado, duas vezes, pelo Tribunal de Mangualde. Da segunda vez, a pena, de nove meses de prisão, foi substituída por 190 horas de trabalho comunitário, depois de ter recorrido.

A JCP de Penalva tenta integrar o Nuno num agrupamento de escolas, mas não tem sido fácil encontrar uma solução. Da família, Nuno apenas mantém contacto com a progenitora e com o irmão mais novo, de 12 anos, (filho da mãe e do padrasto), que vive em Penalva, e com uma irmã, que reside em Mangualde, com quem o pai se reúne, quando lhe são concedidas saídas da cadeia. As duas irmãs, filhas do pai e da tia, com idades entre os sete e os nove, estão num lar em Lamego. "Um dia hei-de procurá-las", assegura Nuno que derrapa nas datas e nos acontecimentos. A memória vai fazendo a triagem e deixando para trás o que não quer continuar a guardar.

Nunca mais falou com o pai. "Nem o quero ver", repete lembrando, entre as muitas agressões, um episódio em que o progenitor lhe espetou uma chave-de-fendas no ombro: "Estive um ano e meio, em Lisboa, em casa de um tio, a ser tratado". Já o pai tinha tirado a vida à tia, com um tiro, tinha ela 27 anos.

(sublinhados meus) 

      

In "Jornal do Centro" - Edição de 2 de Novembro de 2007

  

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