Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

Da «Europa connosco» à «Mais Europa!»

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As gerações que não viveram o 25 de Abril não sabem que no início da fundação da CEE [Comunidade Económica Europeia], a qual se transformaria mais tarde na UE [União Europeia], os partidos socialistas e social-democratas apregoavam a «Europa do trabalhadores» e até uma «Europa socialista». Mário Soares que em 1976 para ganhar as eleições inventou o lema da «Europa connosco» proclamava que o Partido Socialista era contra a «Europa dos trusts» e pela «Europa dos trabalhadores». Dizia ser contra «a aproximação de Portugal às Comunidades Europeias numa perspectiva puramente capitalista» a qual «não correspondia aos interesses do povo português» e se afastava «dos imperativos de uma verdadeira independência nacional condicionando a transformação da sociedade portuguesa a caminho do socialismo». Este palavreado não impediu o dirigente do PS e o seu partido, uma vez no governo, de se transformarem em aplicados constructores da Europa dos monopólios e em ardentes coveiros da soberania nacional.

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publicado por António Vilarigues às 12:40
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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

Estas políticas têm de ser derrotadas

   Este governo PSD/CDS de Pedro Passos Coelho, como anteriormente o governo PS de José Sócrates, foge como o diabo da cruz da análise e discussão das causas desta crise. Percebe-se…

Esta crise tem causas e tem responsáveis.

Não obstante as grandes transformações por que passou o sistema capitalista, a análise marxista do capitalismo mantém uma extraordinária vitalidade. E as leis fundamentais da reprodução do capital formuladas por Marx e Engels revelam-se de uma flagrante actualidade. Tal como são válidas as teses de Lenine sobre o imperialismo, em particular da lei do desenvolvimento desigual do capitalismo.

A inevitabilidade das crises encontra-se no ADN do capitalismo. Como aqui escrevemos desde Novembro de 2008 as causas da crise actual do sistema capitalista (iniciada em Agosto de 2007) radicam por um lado, na contradição entre a sobreprodução e sobreacumulação de meios de produção. Por outro, na contracção dos mercados e níveis de consumo decorrentes das desvalorizações salariais e abismais assimetrias de rendimentos, agravadas pelas reduções das despesas públicas e pouca solvabilidade de inúmeros países.

Em 2009 afirmámos que iam continuar as políticas neoliberais e monetaristas. Que a factura dos custos da crise ia ser passada para os assalariados e para os contribuintes. Que um dos resultados ia ser o aumento substancial das dívidas públicas.

Onde estamos? A centralização e concentração do capital e da riqueza realizam-se a um ritmo sem precedentes. A financeirização da economia continua a acentuar-se com a explosão do crédito e do capital fictício. Intensifica-se a exploração dos trabalhadores com a extensão do uso da força de trabalho e a redução, por todos os meios possíveis, da sua remuneração. Aprofunda-se a polarização social, tanto dentro de cada país, como à escala mundial. Intensifica-se o ataque sistemático a funções sociais do Estado. Mercantilizam-se todas as esferas da vida social, numa lógica de privatizar tudo quanto possa gerar maiores lucros ao capital. Acentua-se a instalação no poder do crime organizado e o florescimento de todo o género de tráficos criminosos.

Numa palavra, os mandantes («Quem manda é quem paga»), os detentores do capital, os verdadeiros responsáveis pela crise, pretendem recuperar os milhares de milhões de capital fictício perdido. Seja a que preço for. As colossais dívidas soberanas de alguns países, que radicam na canalização de fundos para que o grande capital não declarasse bancarrota, aí estão para demonstrá-lo à saciedade. Só que a crise persistirá enquanto a procura (por parte da população) face à capacidade produtiva instalada continuar a ser insolúvel.

Em Portugal esta crise geral veio acrescentar mais crise à crise. A partir dos governos de Mário Soares e nos últimos 35 anos as políticas seguidas pelos sucessivos governos conduziram-nos à beira do abismo. Políticas contrárias ao desenvolvimento económico, à criação de emprego e ao combate às injustiças sociais. Políticas favoráveis à concentração e acumulação capitalistas, ao ataque às funções do Estado e aos serviços públicos, à liquidação de capacidade produtiva e agravamento da exploração e à soberania económica.

Portugal viu agravados todos os seus problemas e assistiu ao acumular dos seus défices crónicos e estruturais. O processo de desindustrialização e a amputação do aparelho produtivo e da produção nacional foram brutais.

A década que findou, que coincide com os primeiros anos de permanência na União Económica e Monetária, foi atravessada por uma persistente situação de estagnação económica com taxas médias de crescimento anual de 0,4%. Como resultado desta destruição dos sectores produtivos, o nosso défice da balança de mercadorias situa-se hoje nos 10% do PIB. Fruto desta evolução o país assistiu ao aumento exponencial da sua dívida externa.

A continuação destas políticas não é parte da solução. Bem pelo contrário. Prossegui-las só irá agravar todos os problemas. Há que romper com estes estado de coisas.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 19 de Agosto de 2011

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Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

Convergências e calculismos

Sem qualquer motivação, assim sem mais nem menos, porque nos apetece, resolvemos hoje relembrar o resultado de uma Convergência 2011. São apenas cálculos, que nós não nos metemos em política... De qualquer modo, isto é a realidade, não é a fantasia.

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Percentagens e votos nacionais:
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Eleições presidenciais portuguesas de 2006

  • Manuel Alegre (militante do PS, candidato como independente): 

           20,74% / 1 138 297

           14,34% / 785 355

            5,32% / 292 198

 

Total: 40,40% / 2 215 850

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Eleições presidenciais portuguesas de 2011
  • Manuel Alegre (apoiado pelo Partido Socialista, pelo Bloco de Esquerda e por... Manuel Alegre):
         19,67% / 817 980
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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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publicado por António Vilarigues às 00:05
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Segunda-feira, 21 de Março de 2011

A mentira está-lhes no ADN

   «(…) os partidos reaccionários, pela natureza inconfessável dos seus fins, são os partidos da mentira.

Nenhum dos governos de direita e nenhum dos partidos seus componentes ousou dizer a verdade acerca dos objectivos da sua política. Todos os seus actos e todas as suas medidas foram e são apresentados com extenso rol de mentiras elaboradas, planeadas e sistematizadas. (…)

A mentira é parte integrante, constitutiva, intrínseca, permanente, da política dos governos de direita e dos partidos que nestes participam. Tornou-se uma prática que se insere com desfaçatez e cinismo na completa falta de escrúpulos morais desses governos e partidos.»

Estas palavras, escritas por Álvaro Cunhal em 1985 no seu conhecido ensaio «O Partido com paredes de Vidro», estão mais actuais que nunca.

Os exemplos abundam e a escolha é difícil.

Mário Soares escreveu esta semana «quem há mais de cinquenta anos, como eu, é um europeísta convicto». Este é o mesmo Mário Soares que, antes do 25 de Abril de 1974, declarou ser contrário à entrada de Portugal para a CEE, porque era «pela Europa dos trabalhadores e não pela Europa dos trusts». O mesmo que dizia em 1974 que «se tivéssemos que aplicar o princípio da livre circulação de pessoas, capitais e produtos, a nossa economia não resistiria». O mesmo que afirmava que «Portugal não está em condições de se integrar no Mercado Comum», pois se isso acontecesses, «a nossa economia ficaria arruinada a curto prazo». O mesmo que me 1976 brandia contra «certas forças políticas em Portugal que se encaminham para defender a aproximação de Portugal às Comunidades Europeias numa perspectiva puramente capitalista que não corresponde aos verdadeiros interesses do povo português e se afasta dos imperativos de uma verdadeira independência nacional».

«O Estado Social está falido», clamam. O Estado já não pode assegurar o pagamento das despesas sociais, dizem-nos. Fica por explicar como pode faltar hoje, em 2011, o dinheiro para manter e aumentar essas conquistas. O chamado Estado Social foi criado na Europa do pós II Guerra Mundial como contrapeso à força do exemplo das conquistas dos trabalhadores e dos camponeses na União Soviética de então. Desde essa altura a produção da riqueza aumentou exponencialmente, a um ritmo muitíssimo superior ao do crescimento da população. A verdade é outra. A verdade é que as 280 maiores fortunas do planeta concentram em si mais riqueza que 2 mil milhões de pessoas. E em Portugal a distribuição do Rendimento Nacional passou de 59,5 para o trabalho em 1976 para perto dos 30% em 2011.

«Os sacrifícios são para todos», dizem a uma só voz todos os membros do governo, a começar por José Sócrates.

Mas qual é a realidade que todos os dias nos entra pelos olhos dentro?

Os sucessivos PEC (já vamos no PEC 4) e o Orçamento do Estado para 2011, foram-nos impostos pelo PS e pelo PSD e aplaudidos pelo Presidente da República. Traduziram-se numa diminuição brutal de rendimentos dos trabalhadores e do povo. Diminuição essa obtida pela conjugação do roubo nos salários, no corte dos apoios sociais e do aumento dos preços.

E para os mandantes detentores do capital, sobretudo os grandes grupos económicos e financeiros? «Manda quem pode» lá diz o dito popular.

Os banqueiros levantam a voz? Logo o governo inventa «dificuldades técnicas» e recua nas suas intenções de tributar, ainda que ligeiramente, o sector. Os patrões querem despedir mais barato? O governo cria-lhes um fundo a ser pago, imagine-se, pelos trabalhadores. A indústria e o comércio farmacêuticos espirram? O Governo recua na baixa dos preços dos medicamentos. As transportadoras refilam? Logo se abrem negociações e os acordos surgem? Os proprietários dos campos de golfe queixam-se? O IVA aplicado passa de 23 para 6%.

É preciso dizer basta a estas políticas e a estes políticos de mentira! A manifestação de 19 de Março será mais um passo nesse caminho que conduzirá à ruptura e à mudança.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 18 de Março de 2011

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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

O caso de défice alimentar: Do «gamanço legal» à crise económica

(...)

Como já em anteriores artigos dissemos, importámos em 2009 produtos alimentares e animais vivos no valor de 6079 milhões de euros, enquanto as exportações se quedaram por 2371 milhões de euros, ou seja, o défice alimentar equivale a 3708 milhões de euros (Nota: estes valores não integram as bebidas alcoólicas e o tabaco).

Trata-se de um valor muito vultuoso que, a somar aos défices na área da energia, dos produtos químicos e farmacêuticos e do material de transporte explicam, objectivamente, aquilo que as vozes dominantes na comunicação social procuram ocultar, ou seja, a umbilical relação entre a produção e o défice orçamental e a dívida pública.

(...)

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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2010

Wikileaks: o óbvio

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1. Como escreveu Carlos Gonçalves, «O que se pode dizer da Wikileaks é que nasceu próxima de círculos do imperialismo, como a Freedom House, que M. Chossudovsky define como uma «organização cão de guarda» baseada em Washington, que se diz de «apoio à expansão da liberdade no mundo», que define como «alvos prioritários os regimes muito opressivos na China, Rússia e Ásia central», e visa ainda apoiar «os que no ocidente queiram revelar comportamentos ilegais ou imorais dos seus governos e corporações».

2. Os factos revelados pela Wikileaks não são propriamente os mais actuais e sensíveis sobre a actividade criminosa do imperialismo. Nesse aspecto, embora com anos de  atraso,  é muito mais esclarecedor o National Security Archive (AQUI e AQUI), criado no âmbito do Freedom of Information Act (FOIA).

3. Aliás não é por acaso que o nosso velho conhecido Henry Kissinger se refere ao FOIA neste telegrama. O mesmo Henry Kissinger que há uns anos em entrevista ao seu amigo Mário Soares negou, com o maior dos desplantes, que os EUA tivessem dado luz verde em 1975 à invasão de Timor-Leste pela Indonésia (AQUI e AQUI).

4. O ministro australiano dos Negócios Estrangeiros, Kevin Rudd, já disse o óbvio: «A responsabilidade central e, assim, também a imputabilidade legal fica com aqueles que são responsáveis pela fuga inicial não autorizada.».

5. E acrescentou algo igualmente óbvio: «E acho que há várias questões que se colocam sobre a eficiência dos sistemas de segurança [dos Estados Unidos] e sobre os níveis de acesso que as pessoas têm àquele tipo de material confidencial.».

6. Quem quer ter segredos deve saber como guardá-los. O que, como é óbvio, é incompatível com o facto de 2,5 milhões (!!!) de funcionários norte-americanos terem acesso a documentos classificados como «secret». E que, como é óbvio, é igualmente incompatível com o facto de, por sua vez, os documentos «top secret» estarem acessíveis para 850.000 norte-americanos (!!!).

7. E quem foi o «especialista» que decidiu juntar numa ÚNICA (!!!) lista as «infra-estruturas vitais» localizadas em vários países que os Estados Unidos  da América querem proteger. Ninguém lhe(s) ensinou que isso NUNCA se faz? E, muito mais importante, a que título a Administração dos EUA elabora uma lista dessas (ainda se fosse de instalações em território dos EUA...)? Actuação imperialista no seu melhor!

8. Confesso que, por tudo isto e muito mais, ando divertidissimo a ler e a ouvir os «especialistas» de ocasião, bem como alguns jornalistas. E ando fascinado em particular com a veia censória e securitária de alguns (ex) radicalistas pequeno-burgueses de fachada socialista que ainda «ontem» defendiam o oposto. É a vida!...

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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Será mesmo uma candidatura diferente?

Confesso que ando fascinado, diria mesmo sensibilizado, com tanto desvelo. De repente analistas, jornalistas e comentadores andam numa lufa-lufa que só visto, ouvido e lido. Ele é análises e contra-análises. Ele é propostas e contrapropostas. Tudo com um só objectivo: assegurar uma votação histórica do candidato comunista às eleições presidenciais. Quiçá mesmo vencê-las!

Mas de repente, vá-se lá saber porquê, veio-me à ideia aquela conhecida frase: «Sob o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.» E desci à terra!

A perturbação causada em diferentes sectores (à esquerda e à direita) do espectro político pela apresentação da candidatura do dirigente comunista Francisco Lopes é evidente. Porque será?

Será pela análise que faz à situação do país e às suas causas? Será pelas soluções que aponta para a resolução dos problemas existentes? Será por querer dar voz aos trabalhadores e ao povo de Portugal, protagonistas da ruptura e da mudança cada vez mais necessárias? «Eles» sabem muito bem que sim!

Os argumentos dos adversários confessos, visando desvalorizar esta candidatura, são múltiplos e variegados. Desde logo, as baixas e soezes, na forma e no conteúdo, referências quer à origem social, quer às habilitações literárias de Francisco Lopes. Apetece dizer que o (des)governo dos «doutores»  e «engenheiros» é que conduziu Portugal ao actual estado de coisas.

Depois vêm os chavões do costume, típicos argumentos ad nauseam.

«Homem do aparelho», proclamam. Cavaco Silva, Francisco Louçã, Mário Soares, Jorge Sampaio não foram - ou são - dirigentes partidários? E Manuel Alegre? Ou será que ser do aparelho só é mau se o aparelho for o do PCP?

«Ortodoxo», berram aos quatro ventos. E não disseram ou escreveram o mesmo sobre os outros candidatos comunistas em anteriores eleições presidenciais?

«Perfeito desconhecido» do país e do eleitorado. A sério? Então expliquem lá onde foram buscar, de uma hora para a outra, tantas informações quanto aos seus supostos deméritos? A algum Espírito Santo de orelha?

Perante tais «argumentos», seria lógico e natural que festejassem e aplaudissem a candidatura de Francisco Lopes. Mas não o fazem. E sabem muito bem porquê. E nós também...

A realidade é outra. E está toda ela na declaração de candidatura de Francisco Lopes, sintomaticamente silenciada na comunicação social dominante.

Aí se afirma que o declínio nacional, a descaracterização do regime democrático e o ataque à soberania e independência nacionais marcam hoje a realidade do país. E que há responsáveis: o PS e o PSD, com ou sem o CDS, que durante mais de três décadas partilharam alternadamente a governação em confronto com os valores de Abril.

Aí se sublinha que este caminho de retrocesso e desigualdades sociais contrasta com a escandalosa protecção e apoio dados ao grande capital e ao aumento dos seus colossais lucros. Que esta situação exprime as contradições do sistema capitalista mundial e o peso cada vez mais negativo do processo de integração europeia. E que este é um caminho inaceitável.

Aí se destaca que esta candidatura exprime a exigência de uma profunda ruptura e de uma efectiva mudança em relação às orientações políticas seguidas nas últimas décadas. E se afirma, sem hesitações, que há um outro rumo e uma outra política capazes de responder aos problemas nacionais. E se apresentam as grandes linhas desse rumo.

Qual das outras candidaturas, já apresentadas ou por apresentar, pode - falando verdade - dizer o mesmo? Alguém dá um passo em frente para responder afirmativamente? Ao leitor a possibilidade de decidir.

In jornal "Público" - Edição de 17 de Setembro de 2010

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Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

O pai da política de direita

Às terças-feiras, infalivelmente, Mário Soares enche, de cabo a rabo, uma página do Diário de Notícias (só legível por dever de ofício, diga-se, em abono da verdade).
Ali, Soares, de espada em riste, trava a semanal cruzada na defesa daquela que é, inequivocamente, a menina dos seus olhos: a política de direita.

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Domingo, 25 de Julho de 2010

Que «indisponibilidade» para governar?

A questão é recorrente. Sempre que a luta aquece, como gostam de dizer os dirigentes do Partido Socialista, vai-se ao baú das velharias e lá vem a falácia: «os comunistas não estão disponíveis para governar connosco.» Acrescenta-se num tom choradinho, qual Calimeros: «se estivessem…». E o cenário fica composto. É assim há mais de 33 anos, de Soares a Sócrates com passagem por Guterres.

Só que a realidade tem sido outra bem diferente e entra pelos olhos dentro: a permanente indisponibilidade do PS em abandonar as políticas resultantes da aliança entre a direita dos interesses e os interesses da direita.

Um exemplo claro, clarinho, para todos entendermos. Ao contrário do que diz o PS (e o PSD), há uma outra via alternativa para aumentar as receitas do Estado em época de crise e de contracção económica.

É por aqui que o PCP quer ir. Propondo que os rendimentos que nunca pagam impostos os passem a pagar. Propondo que os mais ricos e poderosos, a banca e os grandes grupos económicos, tenham menos benefícios e paguem mais do muito pouco que hoje pagam.

Por isso o PCP propôs em Junho na Assembleia da República a criação, entre outros, de um novo imposto sobre transacções e transferências financeiras. Este imposto iria, nomeadamente, taxar em 20%, as transferências financeiras efectuadas para os paraísos fiscais (offshore).

Entre 2005 e 2009, durante os dois governos de José Sócrates, mais de 78 000 milhões de euros foram transferidos de Portugal para os offshore. Em 2009, não obstante a crise, foram mais de 11 000 milhões de euros. E, em 2010, só nos primeiros três meses, já saíram mais de 2 200 milhões de euros para paraísos fiscais. Tudo capitais e rendimentos que não pagam um único cêntimo sequer de imposto!

Com a taxa que o PCP propunha que fosse aplicada a estas transferências seria possível arrecadar mais de 2 200 milhões de euros de receita fiscal adicional, só no ano de 2009. Quase o triplo (!!!) do que o Governo e o PSD esperam obter com o aumento do IRS e com o aumento geral das taxas do IVA (cerca de 830 milhões de euros).

O que fez o PS? Recusou liminarmente esta (e todas as outras) proposta do PCP. Optou, mais uma vez, por aumentar a carga fiscal sobre os trabalhadores e o povo que trabalha. Aumentou de forma acentuada os escalões mais baixos do IRS. Subiu as taxas do IVA.

Pergunta-se: de que lado está o Partido Socialista? Quem está indisponível para o quê?

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In "Jornal do Centro" - Edição de 23 de Julho de 2010

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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

Quem disse que «os Partidos Socialistas foram colonizados pelo neoliberalismo americano»?

Bem, se o PCP tivesse dito a frase do título seria logo insultado... Mas não, não foi o PCP.

 

O PCP disse isto, por exemplo:

«Os primeiros seis meses de vida do Governo do PS confirmaram não apenas a persistência nas mesmas opções e orientações políticas comprometidas com o interesse do grande capital e que tem conduzido ao agravamento dos problemas do país, como a intenção de prosseguir de forma agravada como o evidenciam o Orçamento de Estado para 2010 e a apresentação e discussão do Programa de Estabilidade e Crescimento.»

«O Governo PS e o capital tentam apresentar como inevitável uma política que, ditada pela alienação de sectores estratégicos, pela mercantilização de serviços públicos essenciais à vida das populações e pela liquidação da capacidade produtiva, se traduzirá no final de 2013 numa situação económica e social ainda pior.»

(Comunicado do Comité Central do PCP)

 Quem proferiu a frase do título foi Mário Soares numa entrevista à Antena 1 no dia 23 de Abril.

Ouvir aqui:

Ouviram? Mário Soares disse: «Houve um momento em que os próprios Partidos Socialistas foram um pouco colonizados (e digo isto entre aspas: "colonizados") pelo neoliberalismo americano no tempo do Bush».

Mas este gigante da política nacional, Mário Soares, já tinha afirmado coisa parecida em 6 de Setembro de 2009:

«Acho que começa a haver uma reacção muito positiva mesmo dentro dos partidos socialistas europeus que foram muito colonizados pelo neoliberalismo

Ler aqui:

Vamos lá pôr ordem nisto.

Para começar, foram muito colonizados ou foram um pouco colonizados? Ó Dr. Mário Soares, decida-se, não nos deixe nesta angústia! E como é que é ser colonizado-com-aspas?

Depois, Mário Soares afirma que foi «no tempo do Bush». No tempo do Bush-pai, do Bush-filho, do Bush-Clinton ou do Bush-Obama? Ou de todos os Bushes anteriores?

Ora vamos lá a ver qual era o Bush que colonizava (com aspas ou sem aspas?) o PS no tempo em que Mário Soares visitava Carlucci no «ninho do corvo» (lembra-se, Dr. Soares?). Era Gerald Ford, aquele presidente que nem sequer tinha sido eleito, visto ter substituido Spiro Agnew e, depois, Richard Nixon.

E agora, com Obama? Não foi já este Governo do PS que mandou tropas de combate para o Afeganistão?

Vamos lá perguntar a opinião ao «amigo» de Mário Soares, Manuel Alegre:

«Esperava-se então que fosse a hora do socialismo democrático. Mas o que veio foi a globalização neoliberal. Com os socialistas na defensiva ou ideologicamente colonizados

Está ver, Dr. Soares? Afinal o seu «familiar» está praticamente de acordo consigo! O meu palpite é que vocês andam zangados porque ambos querem mostrar que «restauram» melhor a aparência do PS!

E o que diz Mário Soares de Manuel Alegre, na citada entrevista à Antena 1? Ouçamos:

«[Manuel Alegre] esteve durante muito tempo, enquanto deputado (...) a condenar e a criticar de uma maneira dura e de uma maneira, às vezes, difícil o Partido Socialista».

Mas, ó Dr. Mário Soares, o senhor faz uma crítica, que se pode dizer implacável!, ao PS (que «foi colonizado pelo neoliberalismo americano») e depois vem censurar o Manuel Alegre?

Bem, como diz Aguiar Branco citando Lénin: O que é que se há-de fazer? [Isto não vem a propósito mas fica sempre bem uma citação]

E mais "palavras para quê? Mário Soares é um artista português!".

Vídeo com mais acrobacias:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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