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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

As FARC são modernas e têm um órgão oficioso

    Transportando a polémica daqui para aqui. Algumas notas telegráficas:

1.    A violência na sociedade colombiana tem sido endémica. Vem desde a independência da Colômbia. Não estou sequer a fazer juízos de valor. É um facto.

2.    Desde 1853 a 1902 o país esteve mergulhado em guerra civil quase permanente. Entre 1899 e 1902 deu-se a chamada guerra dos mil dias entre facções lideradas pelos partidos conservador e liberal. Resultado: entre 150 mil a 200 mil mortos (varia consoante as fontes), numa população que não chegava aos 5 milhões. Ainda não existiam nem comunistas, nem guerrilhas…

3.    Em 1932 começa a guerra com o Peru. Entre 1930 e 1946 sucedem-se governos revanchistas de liberais contra conservadores e vice-versa. As mortes aos milhares continuam.

4.    De 1948 a 1953 o período da história deste país conhecido como «La Violência». A sua origem vem de longe, como se vê. Mas a causa mais imediata está no «Bogotazo». Mais de 200 mil mortos é o saldo. Mais uma vez nem comunistas, nem guerrilhas marxistas têm o que quer que seja a ver com esta questão.

    5.    Mantém-se o sistema bipartidário entre liberais e conservadores. Consequência: nos anos 50 criam-se as primeiras guerrilhas populares (originárias nomeadamente de elementos do partido liberal) como forma de protecção das populações. Em 1964 as FARC assumem um carácter marxista.

6.    Pode encontrar dados e análises sobre esta realidade no livro de 1968, editado no Brasil (creio que foi o 1º livro a ser apreendido pela ditadura brasileira de então), da autoria de Miguel Urbano Rodrigues «Opções da Revolução da América Latina». Ou, tirando os considerandos ideológicos, na Wikipedia versão em castelhano.

7.    As primeiras guerrilhas na Colômbia surgiram em 1950 e até Setembro de 2001 NUNCA foram consideradas «terroristas». É um facto. George Bush desencadeou em 2001 a sua guerra contra o terrorismo e Álvaro Uribe pediu que as guerrilhas colombianas fossem reclassificadas como «terroristas». E Bush acedeu.

8.    Em 1985 formou-se a “União Patriótica” (UP), movimento político amplo e democrático ao qual pertenciam também as FARC (na altura num processo de cessação de hostilidades e de pacificação). Na UP participavam igualmente diferentes grupos políticos de esquerda, nomeadamente o PCC. Contra a UP foi desencadeada una operação de extermínio por parte de grupos narcotraficantes, militares e paramilitares de direita e extrema-direita. Só para o PCC isto representou um saldo de cerca de 3.000 militantes assassinados. Para as forças democráticas da Colômbia significou candidatos presidenciais, senadores, deputados, presidentes de câmaras, autarcas, sindicalistas, dirigentes associativos assassinados aos milhares. De forma selectiva nuns casos. Indiscriminadamente noutros. Isto é legítimo da parte de um governo eleito?

9.    A Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos (CIDH) exigiu junto do governo colombiano “medidas cautelares de protecção para os dirigentes e sobreviventes da União Patriótica e do Partido Comunista Colombiano”. Acresce que a referida Comissão aceitou a queixa instaurada contra o Estado colombiano pelo genocídio político de que foram alvos a UP e o PCC.

     10.    A CIDH admitiu o caso em Março de 1997, e no Informe n.º 5 do dia 12 desse mesmo mês reconheceu que as provas apuradas pela queixa “tendem a caracterizar uma conduta de perseguição política contra a União Patriótica cujo objectivo era exterminar o grupo, e a tolerância dessa prática por parte do Estado na Colômbia”.

11.    A Corte Constitucional, órgão máximo da justiça colombiana, assinalou, na sentença n.º T-959/06, que “essa classe de propaganda desconhece que a União Patriótica foi um movimento político, que participou em actos eleitorais e que teve presença em distintos órgãos representativos. O ocultamento desta realidade tem como consequência a promoção de uma imagem negativa do movimento e dos seus membros, pois em lugar destes serem considerados legítimos actores políticos, são apresentados como responsáveis de delitos perpetrados contra civis”.

12.    Agora vamos ao meu artigo do Público de 11/07.

13.    De acordo com a legislação colombiana os PR só podem ser eleitos uma vez. Em 2006 a lei foi alterada por proposta de Álvaro Uribe. O Supremo Tribunal contesta a legalidade de sua reeleição em 2006, obtida mediante a compra de votos confirmado pela confissão da ex-parlamentar Ydis Medina (num processo semelhante ao de Collor de Mello no Brasil). É um facto.

14.    Sessenta parlamentares da sua base de apoio estão incriminados num escândalo de corrupção, ligações com o narcotráfico e os paramilitares. Tem um primo e conselheiro político, Mário Uribe, preso pelos mesmos motivos. É um facto.

15.    Mais de 11.200 colombianos foram assassinados desde que Uribe foi «eleito» (não inclui os mortos em combate entre as guerrilhas e as Forças Armadas). É um facto. Isto é legítimo da parte de um governo eleito?

    16.    Os organizadores desta manifestação, realizada a 6 de Março na Colômbia, têm vindo a ser sistematicamente liquidados. Desde esse dia até hoje, Leónidas Gómez, da União Nacional de Empregados Bancários; Giraldo Gómez Alzate, membro do Centro de Estudos e Investigações Docentes; e Carlos Burbano, da Associação Nacional de Trabalhadores de Hospitais e Clínicas foram alguns dos assassinados. Muitos outros estão ameaçados de morte. Isto é legítimo da parte de um governo eleito?

17.    O número de desaparecidos ronda os 30 mil. Mais uma vez este número não inclui os desaparecidos em combate entre as guerrilhas e as Forças Armadas. É um facto. Isto é legítimo da parte de um governo eleito?  

18.    O inqualificável passado e presente de Álvaro Uribe e dos seus mais próximos colaboradores é conhecido dos EUA e da U.E. há muito. Está, por exemplo, aqui

19.    A Colômbia é campeã do mundo em assassinatos de sindicalistas e de jornalistas: mais de metade dos sindicalistas assassinados em todo o mundo. Só este ano já foram 28. É um facto. Isto é legítimo da parte de um governo eleito?

20.    Fontes «subversivas»: Amnistia Internacional, Human Rights Watch, Confederação Internacional de Sindicatos Livres, Pólo Democrático Alternativo, Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização de Estados Americanos, comunicação social capitalista (e comunista e progressista também…) da América Latina, Espanha, EUA, etc.. Ah, é verdade, a CIA…

21.    Em nenhum momento do meu artigo coloquei «as FARC acima do governo legítimo da Colômbia». O que escrevi foi: «Dizer que o governo Uribe é o mais à direita da América Latina dá apenas uma pálida imagem do seu posicionamento político e ideológico. Ele e sua base de classe são com frequência comparados aos regimes nazi-fascistas. Sobretudo depois de a oligarquia colombiana ter entrado no ramo das drogas e ter criado os paramilitares

22.    Quanto à «legitimidade» de governos eleitos a história está cheia de maus exemplos a começar no de Hitler em 1933.

    23.    E quanto à minha sugestão de solidariedade que estou certo os blasfemos (e todos os seus leitores) não deixarão de prestar?

24.    Para concluir vejamos o «órgão oficioso». Já li o mesmo comunicado na íntegra, ou quase, em inúmeras agências e órgãos de comunicação social de todo o mundo, em particular da América Latina. E?...

25.    Reduzir as relações dentro de uma sociedade ao preto e ao branco dá sempre mau resultado. Elas são por demais complexas e têm miríades de cores como penso ter demonstrado…
                                 

Os “terroristas” – de Nelson Mandela às FARC

   1. Quando foi preso pela última vez em 1962, Nelson Mandela era o comandante do braço armado do ANC, «Umkhonto we Sizwe», a «Lança da Nação». Tal prisão só foi possível por informações passadas pela CIA à polícia política do regime do apartheid na África do Sul. Mandela era considerado um perigoso terrorista e comunista. O «Umkhonto we Sizwe» manteve-se activo até ao fim do apartheid, desenvolvendo acções de sabotagem e de guerrilha, algumas das quais atingiram civis inocentes. Durante os 27 anos de prisão Nelson Mandela sempre recusou a sua liberdade condicional em troca de uma declaração de renúncia à luta armada.

A história depois da sua libertação em 1990 é por demais conhecida. O que poucos leitores deviam saber é que Mandela e o seu partido, o ANC, estiveram na lista negra do «terrorismo» americano até bem recentemente (ver o PÚBLICO de 6/7). Segundo uma lei aprovada no mandato de Ronald Reagan, poderiam deslocar-se à sede das Nações Unidas, mas não estavam autorizados a viajar no resto do território americano. Finalmente a 1 de Julho de 2008 (!!!) o Presidente Bush promulgou a lei aprovada pelo Senado a 27 de Junho.

2. A comunicação social dominante em Portugal nada disse nestes dias sobre o facto do Presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, enfrentar uma crise política grave. Sessenta parlamentares da sua base de apoio estão incriminados num escândalo de corrupção, ligações com o narcotráfico e os paramilitares. Tem um primo e conselheiro político, Mário Uribe, preso pelos mesmos motivos. O Supremo Tribunal contesta a legalidade de sua reeleição em 2006, obtida mediante a compra de votos confirmado pela confissão da ex-parlamentar Ydis Medina. Não possui uma base política sólida e nem um sucessor de confiança, o que o leva à tentação de mudar de novo as regras do jogo e tentar um terceiro mandato.

Dizer que o governo Uribe é o mais à direita da América Latina dá apenas uma pálida imagem do seu posicionamento político e ideológico. Ele e sua base de classe são com frequência comparados aos regimes nazi-fascistas. Sobretudo depois de a oligarquia colombiana ter entrado no ramo das drogas e ter criado os paramilitares. A Colômbia não é apenas o único país das Américas que vive uma experiência guerrilheira. É também campeã do mundo em assassinatos de sindicalistas e de jornalistas: mais de metade dos sindicalistas assassinados em todo o mundo.

Mais de 11.200 colombianos foram assassinados desde que Uribe foi «eleito» (não inclui os mortos em combate entre as guerrilhas e as Forças Armadas). O número de desaparecidos ronda os 30 mil. São homens e mulheres, novos e velhos, com nome. Mas a comunicação social dominante cala-se, ou refere friamente os números. Não são mediáticos. Não podem aparecer nas televisões. Jazem sob sete palmos de terra.

Aparentemente quem fala e escreve sob a Colômbia ignora também que as forças democráticas de esquerda deste país (socialistas, sociais-democratas e comunistas) estão aglutinadas no seio do Pólo Democrático Alternativo (PDA). Em 2007 o PDA elegeu 9 deputados em 166 e 11 senadores em 100. Destes 1 senador e 1 deputado são membros do PCC. O candidato do PDA às últimas eleições presidenciais na Colômbia, Carlos Gaviria Díaz, foi o 2º mais votado com 22,04% dos votos. Em 2008 o PDA conquistou, entre outros, o município de Bogotá.

Notas finais: Para quem não sabe, na Colômbia há várias organizações que se reclamam do marxismo-leninismo: o PCC, as FARC, um PCC clandestino criado pelas FARC, o PC da C (m-l), o PCC-M, o PPS.

Já por três vezes, a propósito das mentiras das sucessivas administrações americanas, indiquei nesta coluna o sítio do National Security Archive da George Washington University. Vão lá e revisitem o inqualificável passado e presente de Álvaro Uribe e dos seus mais próximos colaboradores. Talvez revejam algumas ideias feitas…

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
                                                                                     

In jornal "Público" - Edição de 11 de Julho de 2008

                                                           

Silêncios ensurdecedores

    1. A semana passada o Banco Central Europeu (BCE) decidiu-se por uma nova subida das taxas de juro de referência. Trata-se da 9ª em pouco mais de dois anos, fixando-se agora em 4,25%. Tal decisão constitui um novo factor de penalização para os trabalhadores, as populações e os micro pequenos e médios empresários (MPME´s). Corresponde às pretensões de concentração e acumulação capitalista por parte dos grandes grupos económicos e do capital financeiro. Mas penaliza as economias mais frágeis e dependentes como é o caso da portuguesa.

Vivemos um quadro económico e social em que se avolumam as dificuldades para fazer face ao desemprego, à precariedade, aos baixos salários e à subida generalizada dos preços. Neste contexto esta decisão traduz-se num novo agravamento das suas condições de vida das famílias portuguesas, em particular das que possuem empréstimos à habitação. Recorde-se que o nível de endividamento atinge já hoje 129% do rendimento disponível das famílias.

No plano das empresas e da economia nacional o panorama não é melhor. O seu nível de endividamento atinge já hoje 114% do PIB. Esta medida por um lado, vem colocar um novo garrote às MPME´s. Por outro, vem acentuar a tendência (que se vinha verificando desde o 1º trimestre de 2007) de agravamento do deficit da balança comercial e da dependência do país. Acresce que este aumento das taxas de juro traz por arrasto uma sobrevalorização do euro.

O silêncio do Governo PS face a esta medida e ao escândalo dos lucros fabulosos que o sistema bancário vem acumulando nos últimos anos à custa da degradação da situação financeira das famílias e das empresas é ensurdecedor. Confirma a sua cumplicidade e indiferença perante as decisões do BCE e as graves implicações para o país. Saliente-se que só nos últimos 4 anos (de 2004 a 2007) os lucros do sistema bancário cresceram 155,4%, atingindo em 2007 os 4,467 mil milhões de euros.

2. O Grupo Parlamentar do PCP apresentou no passado dia 4 um voto de congratulação na Assembleia da República sobre «Ingrid Betancourt em liberdade». Quase todos os meios de comunicação social fizeram cair sobre este voto um inqualificável manto de silêncio ensurdecedor, muito próximo da censura. O que noticiaram foi, em geral, claramente manipulado. O que só pode ser explicado pelo anticomunismo mais primário.

E no entanto nesse voto referia-se que: «Após seis anos de cativeiro na selva, é motivo de justa satisfação o regresso à liberdade de Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana.». E após uma série de considerandos, que podem ser lidos AQUI ,terminava:

«1. Congratula-se pelo regresso à liberdade de Ingrid Betancourt.
2. Exprime o seu desejo de que a liberdade de Ingrid Betancourt possa contribuir para um caminho de paz para a Colômbia.
3. Apela às partes envolvidas para que encetem negociações no sentido da libertação de todos os prisioneiros.
4. Valoriza todos os esforços orientados para alcançar uma solução política negociada.
5. Apela às partes para que se empenhem na busca de uma solução política negociada do conflito, que dura há mais de quatro décadas.
6. Manifesta-se pelo respeito da soberania do povo colombiano na definição dos destinos do seu país.
»

A quem incomodam estas palavras?
                                                                    

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

                                          

In "Jornal do Centro" - Edição de 11 de Julho de 2008

                                                                             

Liberdade para Guillermo Rivera Fúquene

    «Daqui lanço um apelo sincero à expressão de formas de solidariedade com Sónia Betancur que permitam salvar a vida de seu marido e do pai da pequena Chiara Guillermo Fúquene. E conto, daqui por 15 dias, poder informar os leitores de «o tempo das cerejas» do número de blogues que se referiram a este assunto.».

Este é o apelo do Vítor Dias com que aqui nos solidarizamos. O motivo está AQUIGuillermo Rivera Fúquene, marido e pai, comunista e membro do Polo Democrático Alternativo que governa o munícipio de Bogotá, e ainda e sobretudo Presidente do Sindicato dos funcionários da autarquia da capital do país.

Foi visto pela última vez no dia 22 de Abril, às 6.30 da manhã, numa rua do bairro «El Tunal» onde tinha ido levar a filha à escola, em Bogotá, onde reside. Uma testemunha e câmaras de video instaladas no local atestam que foi abordado por um grupo de agentes policiais e foi forçado a entrar num carro da Polícia Metropolitana.

Três meses depois do seu desaparecimento, as autoridades dependentes do Presidente Álvaro Uribe não prestam nenhum esclarecimento cabal sobre este drama (que se deseja não se transforme em mais um crime). 

                      

                                                 

Maís notícias sobre Guillermo Rivera Fúquene aqui:     

                                                                 

                                            

De novo a Colômbia

Texto de Albano Nunes

    Eles aí estão uma vez mais, os incondicionais defensores da ordem dominante, a descarregar o seu ódio de classe sobre quem se não renda à sua versão manipulatória da realidade. Não lhes interessa a verdade dos factos mas a versão que deles lhes foi encomendada pelos centros de diversão do imperialismo. Não se propõem dar a conhecer a reflexão e opinião de outros, pelo contrário escondem-na e caluniam-na para impor a sua. Atrevem-se mesmo, imagine-se, a pretender que o PCP apoie posições que, a coberto de fingidos propósitos «humanitários», servem afinal bem concretos interesses de classe. E como o PCP não lhes faz a vontade, acusam-no de «não se demarcar», de «não condenar», de «não acompanhar» aquilo que pretendiam de que o PCP se demarcasse, condenasse, acompanhasse, procurando atingir a imagem do Partido.

O PCP sabe bem que a resistência à chantagem e aos cantos de sereia do pensamento dominante tem um preço, mas sabe também que é infinitamente maior o valor da independência, da coerência revolucionária e da firmeza de princípios. Para uma força que luta por uma sociedade nova, navegar contra corrente é um dever e uma honra que, tarde ou cedo, a história acaba por reconhecer. Que o digam os patriotas das antigas colónias portuguesas e os revolucionários vietnamitas, argelinos, palestinianos ou sul-africanos, para apenas referir alguns que durante tantos anos viram a sua justa luta libertadora taxada de «terrorista». E que o digam combatentes heróicos como Mandela que por vontade dos seus povos passaram directamente das cadeias, da clandestinidade e da resistência armada para o poder.

A realidade mundial é um mosaico extraordinariamente variado. Cada povo tem a sua história, tradições e cultura, a sua realidade económica e social e a sua original trajectória de luta libertadora. Há leis gerais do desenvolvimento social, não há receitas para a transformação social nem modelos de revolução. E é a cada povo que compete escolher o seu próprio destino. A Revolução de Abril veio confirmar em plena Europa capitalista que um povo determinado a libertar-se da exploração e da opressão é invencível e quão surpreendentes e diversificadas são as vias da libertação.

Vem isto a propósito da Colômbia e dos caminhos percorridos pelo povo colombiano na sua luta pela liberdade, a paz e o progresso social. Caminhos profundamente originais onde se desenvolveram e combinaram diferentes formas de luta, legais e clandestinas, institucionais e armadas, mas todas elas profundamente enraizadas nas massas, nas suas aspirações, no seu combate a um sistema de poder oligárquico dos mais reacionários e sanguinários da América Latina. Se assim não fosse como seria possível que o Partido Comunista e as forças progressistas colombianas tivessem resistido a milhares de assassinatos de sindicalistas, autarcas, activistas dos direitos cívicos e ao dizimar da União Patriótica acabando por alcançar nas últimas eleições os melhores resultados de sempre? E como teria sido possível às FARC resistir às mais sofisticadas e violentas operações de guerra assessoradas por militares e agentes de segurança norte-americanos e israelitas e tornar-se num factor incontornável à solução dos gravíssimos problemas da sociedade e cujo estatuto de força beligerante urge reconhecer para alcançar uma solução negociada do conflito militar colombiano?

Claro que não é disto que nos fala a formidável operação mediática em torno do resgate de Ingrid Betancourt, empenhada em branquear o governo proto-fascista de Uribe e dar cobertura à escalada intervencionista do imperialismo norte-americano em curso na região. Mas é disto que importa falar para que se não perca de vista o essencial: a aguda luta de classes que se trava na Colômbia e a exigência, com a paz, das profundas transformações democráticas e progressistas reclamadas pelo povo colombiano.

                            

In jornal "Avante!" - Edição de 10 de Julho de 2008

                                                

A criação do mito Ingrid

Texto de Rodrigo Tavares

    Há cerca de 2500 anos, Dario I, rei da Pérsia, mandou gravar numa rocha no monte Behistun, no actual Irão, a história da sua ascensão ao poder. Foi o primeiro exemplo conhecido de propaganda política. Há cerca de uma semana os media transmitiram compulsivamente o resgate de Ingrid Betancourt. Poderá ter sido o exemplo mais recente.
Quando foi capturada, Ingrid Betancourt era praticamente desconhecida na Europa. Ainda que candidata presidencial na Colômbia, Ingrid não tinha mais do que 2 por cento das intenções de voto até se tornar refém das FARC. Contudo, em seis anos tornou-se um ícone internacional da luta contra o grupo rebelde colombiano e o maior trunfo político de todos os intervenientes no conflito. Tal como a Inscrição de Behistun - em persa antigo, elamita e babilónico - também a história de Ingrid é escrita por vários actores interessados na criação do mito.
Uma visão consistente aponta para o papel da França. Ainda que ela só tenha obtido a cidadania francesa depois de se casar com o diplomata francês Fabrice Delloye, em 1983, o ex-presidente Jacques Chirac transformou a sua prisão em causa nacional e incumbiu o então ministro Dominique de Villepin de a resgatar. A escolha não foi fortuita. Enquanto estudante no Institut d'Études Politiques de Paris, Ingrid teve um caso amoroso com o então professor Villepin. É esta uma das principais teses do livro Ingrid Betancourt, Histoire de Coeur ou Raison d'Etat?, de Jacques Thomet, ex-correspondente da AFP na Colômbia. Em 2003, Villepin planeou uma operação de resgate a partir da Amazónia brasileira, que terminou em fracasso. Há mais pontos de ligação. Em 2007, Jacques Chirac nomeou o diplomata francês Daniel Parfait como seu "interlocutor pessoal nas negociações com as FARC". Parfait é casado com Astrid Betancourt, irmã mais velha de Ingrid. Depois do resgate de Ingrid feito pelo Exército colombiano, Sarkozy foi expedito a recolher os dividendos da libertação.
Um outro interessado no mito Ingrid é o Presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. Eleito em 2002 e impedido pela constituição de se candidatar a um terceiro mandato nas eleições de 2010, a libertação de Ingrid e os vários golpes militares sofridos pelas FARC nos últimos meses criaram condições para que o Presidente colombiano aspire a uma nova emenda constitucional que lhe permita uma segunda reeleição sem a necessidade de realização de um referendo. A União Europeia já sancionou essa ideia.
Também Ingrid já foi acusada de ter agido intencionalmente para alavancar as suas ambições políticas - visto ela saber que a zona de San Vicente del Caguán, onde foi raptada, era bastião das FARC. Foi o que fez novamente esta semana o famoso escritor colombiano Fernando Vallejo, autor da A Virgem dos Sicários durante uma palestra na VI Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil.
O Presidente George W. Bush, com a popularidade em baixo, também insiste em colher os louros. Com o sucesso do resgate conseguiu mitigar as críticas constantes ao plano americano de assistência militar à Colômbia, no valor de 700 milhões de dólares anuais, feitas por grupos de direitos humanos e pela oposição colombiana.
Após a queda do império persa e o desaparecimento da escrita cuneiforme, o significado da Inscrição de Behistun (hoje património da UNESCO) foi esquecido. Apesar do aproveitamento político, o mesmo poderá acontecer com Ingrid. Como disse Fernando Pessoa, "O mito é o nada que é tudo/O mesmo sol que abre os céus/É um mito brilhante e mudo".

                                                  

Doutor em Estudos de Paz e dos Conflitos pela Universidade de Gotemburgo. Investigador na Universidade da ONU

                   

In jornal "Público" - Edição de 10 de Junho de 2008

                

Colômbia: Notícias do mês de Junho

    Na hiperligação poderá encontrar notícias sobre a realidade colombiana dividida por temas: nacional, internacional, política, direitos humanos, economia, conflito armado, Polo Democrático Alternativo, classe operária, juventude, movimento social, Partido Comunista, teoria e crítica, vida militante, opinião, ciência, arte e literatura, humor e imprensa oficial.

                                                                            

                                                 

Ver AQUI

              

Ingrid Betancourt e 14 outros reféns em liberdade

    Ler e ver notícias 

                         

Ler «Eu não acredito em bruxas, mas...» e mais

                     

Uma falsa notícia

    O senhor José Assis, vereador socialista na Câmara Municipal do Seixal, fala do que não sabe com o costumeiro atrevimento da ignorância. E pelos vistos tem um «submarino» infiltrado no PCP. A lista dos convidados da Festa do «Avante!» 2008 só será conhecida, na melhor das hipóteses, dentro de um mês. Mas José Assis já a conhece...

Acresce que a ignorância sobre a história da Colômbia em geral e sobre as FARC em particular é quase total. Sabia, por exemplo, que as FARC só passaram a  ser consideradas "terroristas" em 2001? (ler AQUI).

Mas como não quero que fique na ignorância aqui fica um link para 32 (trinta e dois) artigos editados sobre a Colômbia neste blog.

                         

Um governo fora da lei

    Os organizadores desta manifestação, realizada a 6 de Março na Colômbia, têm vindo a ser sistematicamente liquidados. Desde esse dia até hoje, Leónidas Gómez, da União Nacional de Empregados Bancários; Giraldo Gómez Alzate, membro do Centro de Estudos e Investigações Docentes; e Carlos Burbano, da Associação Nacional de Trabalhadores de Hospitais e Clínicas foram alguns dos assassinados. Muitos outros estão ameaçados de morte. Sobre estes factos a comunicação social dominante disse zero.

E o que têm a dizer o Tiago Barbosa Ribeiro ("El Niño colombiano") e todos os que por altura da Festa do «Avante!» de 2007 estiveram a seu lado nas  invencionices a isto e a tudo o que sobre a Colômbia se tem sido escrito neste blog?

É que no caso do Tiago a maioria dos assassinados são seus companheiros ideológicos...

                                                              

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