Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

A Resposta

    1. Cerca de 250 mil trabalhadores, convocados pela CGTP-IN, manifestaram-se em Lisboa contra as alterações à legislação laboral e exigiram uma mudança de políticas que dê resposta às crescentes dificuldades que se vivem no país. Esta impressionante acção de massas mostrou que há descontentamento real na sociedade portuguesa. Não é porque os sindicatos decidem convocar e organizar uma manifestação que conseguem trazer à rua muitas dezenas de milhar pessoas num dia de trabalho. Isso só é possível quando há causas reais que se expressam em acções de desagrado.
Causas que são actuais e conhecidas, mas que vêm de trás. Convém desmontar a falácia que o que foi a votos em 2005 foi o programa de Governo. Não é verdade. Até como lição para o futuro próximo (2009) sublinhe-se que o que os eleitores sufragaram foi o programa eleitoral do PS. É que a diferença é significativa.
As “Bases Programáticasdo PS nas eleições legislativas de 2005 são um extenso documento de 164 páginas. Nele encontramos inúmeras propostas que uma vez as eleições ganhas passaram a letra morta. E, no entanto, contribuíram decisivamente para a conquista dos votos necessários à obtenção da maioria absoluta.
É o caso do não aumento de impostos, ou da criação de 150 000 novos empregos durante a legislatura (p. 12).
É o caso da promessa de “assegurar comportamento exemplar das entidades públicas nos prazos de pagamento” (p. 29), ou seja a 67 dias. Só para rir.
É a crítica aos governos PSD/CDS-PP pela sua obsessão pelo défice e por passar os problemas da economia para 2º plano (p. 32/33). E o que fez e faz o governo em exercício?
É a solene afirmação “Prometer o que se sabe que não se vai cumprir, revela falta de sentido de Estado e de respeito pelos eleitores” (p. 33). Não diríamos melhor…
São as propostas de Reforma da Administração Pública (p. 41-43) e do Ensino (p. 44-51) a milhas de distância do que tem sido a actuação deste governo.
É a promessa de revisão do Código do Trabalho (p. 63/64) porque ele “desequilibrou as relações sociais no mundo do trabalho sem responder a alguns dos problemas fundamentais dos nossos dias”. Mas vai acentuar-se o desequilíbrio se as propostas governamentais se concretizarem.
Em vão procuramos referências ao encerramento dos SAP, dos serviços de urgência, dos blocos de partos. Ou para o aumento das taxas moderadoras (p. 77-86).
O governo de Sócrates faltou à palavra dada. Agravou a situação do país nos planos económico, social, político e cultural. A resposta aí está. E estará.
2. O sociólogo Alberto Gonçalves ao ler o meu artigo de 16 de Maio foi atacado por algum «vírus» de iliteracia. Não percebeu que a qualificação, adjectiva e substantiva, se dirigia ao que tinha escrito e não à sua pessoa. Não apreendeu que «tolo, pedante» é diferente de «tolo pedantismo». Não entendeu que ser ou não ser mentecapto não tinha nada a ver com ele. Não percepcionou que «Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação» é o mesmo que «Especialista em Sistemas de Informação e Comunicação» (neste caso a ordem dos factores é arbitrária). Mas não é o mesmo que «Especialista em Tecnologias de Informação e Comunicação», já que a minha área de intervenção se direcciona para os sistemas e os projectos. A minha profissão, aquela que me paga as contas, é, simplificando para Alberto Gonçalves alcançar, a informática.
E nem na avaliação de desempenho se safou. Analisar a actividade de uma pessoa, seja ela quem for, na base quase exclusiva de uma pesquisa de um qualquer motor de busca é pouco menos que medíocre. A um sociólogo que se preze exige-se mais. Quanto à substância, a minha crítica à sua inqualificável ironia, a roçar a apologia, da tortura e da morte, Alberto Gonçalves disse nada. Ainda bem.
            
Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
             

In jornal "Público" - Edição de 13 de Junho de 2008

                                                           

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publicado por António Vilarigues às 00:06
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Sábado, 17 de Maio de 2008

VITOR JARA, OU A BOÇALIDADE À SOLTA

    1. Víctor Jara nasceu no Chile em 1932. Foi músico, cantor e director de teatro. Morreu assassinado a 15 de Setembro de 1973 no Estádio que desde o ano 2003 tem o seu nome. Tinha 41 anos.
Foi preso com mais 600 professores e estudantes a 12 de Setembro e levado para o Estádio Chile, onde se aglomeravam milhares de prisioneiros. No dia do golpe de Pinochet, 11 de Setembro de 1973, deveria actuar no comício onde o Presidente Salvador Allende, também ele assassinado, ia anunciar ao povo chileno a realização de um referendo.
Victor Jara foi de imediato reconhecido pelos oficiais fascistas. Mãos na nuca foi logo ali pontapeado dezenas de vezes no corpo e no rosto. Os seus amigos e companheiros assistiam impotentes sob a mira das espingardas e metralhadoras. Como se as botas já não chegassem começam a bater-lhe com a pistola. O rosto fica rapidamente empapado de sangue.
Na noite de 12 para 13 jaz no chão sob custódia dos militares e sem possibilidade de auxílio. Não lhe dão alimento. Nem mesmo água. É exibido como troféu entre os oficiais. No meio da bestialidade, dos presos que vão chegando, das torturas e dos assassinatos os seus esbirros parecem esquecê-lo. Passa os dias 13 e 14 entregue aos cuidados dos seus companheiros de infortúnio.
Mas de novo a 15 voltam à carga. É insultado, espancado a pontapés e coronhadas. Já não se consegue levantar. É a última vez que é visto com vida. Antes tinha escrito o seu último texto. Um poema: Estadio Chile -“Somos diez mil manos menos/Que no producen./¿Cuántos somos en toda la Patria?/La sangre del compañero Presidente/golpea más fuerte que bombas y metrallas./Así golpeará nuestro puño nuevamente./Canto, qué mal me sales cuando tengo que cantar espanto./Espanto como el que vivo/como el que muero, espanto”.
Nesse mesmo dia à tarde é visto crivado de balas junto com mais cinquenta prisioneiros. No dia 16 o seu corpo é despejado no cemitério Metropolitano.
Foi sobre este homem e sobre estes acontecimentos que o sociólogo Alberto Gonçalves escreveu na revista «Sábado» palavras cheias de um tolo pedantismo e de um atrevimento ignorante. O problema deve ser meu, mas desconhecia que a ironia boçal e execrável sobre a morte e a tortura rendesse euros a quem escreve. E, pelos antecedentes, a quem paga também.
2. António Barreto não é nenhum mentecapto. É professor catedrático e sociólogo. Analista e comentador. Tem uma actividade de intervenção política conhecida – em várias organizações de quadrantes políticos muito diferentes – de quase meio século. Foi secretário de estado e ministro.
Mais. António Barreto foi durante alguns anos militante do PCP. Dele saiu em finais dos anos 60 em ruptura pela «esquerda» (maoista). Portanto tinha toda a obrigação de concluir sobre a pretensa carta do Almirante Rosa Coutinho o mesmo que Pacheco Pereira, que nunca foi membro do PCP: «Há documentos genuínos com este tom, mas em movimentos doutro tipo, milenários, religiosos, étnicos, mas não existe nada de parecido no movimento comunista.».
E nem me passa pela cabeça insinuar que a proximidade entre a data da publicação do controverso artigo e o regresso do secretário-geral do PCP da sua deslocação a Angola e África do Sul é algo mais do que isso: uma infeliz coincidência. Salazar dizia que «em política o que parece é». Eu não!

Nota final: A descrição das últimos horas de Víctor Jara pode ser lida em http://ocastendo.blogs.sapo.pt/189249.html

                
Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
               

In Jornal "Público" - Edição de 16 de Maio de 2008

                  

Adenda: "El Príncipe" vai finalmente a tribunal...

                                                                                  

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publicado por António Vilarigues às 00:09
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