Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Quem disse que «organizações como a NATO só servem para nos associar à injustiça»?

     Não foi Augusto Santos Silva, claro! Nem podia ser! Augusto Santos Silva foi aquele que disse que «Portugal é um aliado sempre leal [da NATO], tem-no sido sempre», lembram-se?

Também não foi Jorge Sampaio que disse a frase. Jorge Sampaio está mais a meio caminho entre o «não me comprometa!» e o «eu estou comprometido mas NEGO, N-E-G-O». Aqui e aqui o vemos ao lado de Augusto Santos Silva quando ele pronunciou a frase «Portugal é um aliado sempre leal [da NATO], tem-no sido sempre», e não parece nada incomodado... Aqui pode ver-se Jorge Sampaio ao lado de Jose Luis Rodríguez Zapatero, Tayyip Erdoğan e Ban Ki-moon participando num forum da UNAOC (Aliança das Civilizações das NU), na Turquia. Sem que Sampaio se mostre incomodado «Zapatero ofrece a la OTAN la ayuda de la Alianza de Civilizaciones» ... Sampaio diz sempre qualquer coisa como «é de referir o elevado nível de participação que Portugal tem assegurado no seio das forças internacionais de paz da ONU, da NATO e da UE...», ou como «On the one hand, we have the intense but up till now incipient efforts to reform the major international organisations – UN, NATO, IMF, to mention just the more salient ones – that attest to the need to find answers that are better adjusted to the realities of our times.» [Traduzir isto? Não vale a pena. É uma daquelas frases de Jorge Sampaio que não aquecem nem arrefecem...]

    Cavaco Silva a dizer a frase do título? Nem pensar! Pois se «Cavaco Silva disse que o falhanço da NATO no Afeganistão será grave»...

Também não adianta pensar na hipótese de ter sido Sócrates: José Sócrates anunciou reforço militar português no Afeganistão...  

Está visto, portanto, que nem Santos Silva, nem Sampaio, nem Zapatero, nem Cavaco Silva, nem Sócrates, poderiam alguma vez ter dito a frase do título.

    Bem, deixemos os disparates. Passemos a uma hipótese séria: terá sido o PCP a afirmar o que está no título?

Não, não foi o PCP. Podia ter sido, mas não foi. O PCP disse (e diz) na Resolução Política do seu XVIII Congresso:

Os objectivos, métodos e evolução da NATO comprovam o seu carácter de «polícia de choque» do imperialismo e reforçam, de acordo com a própria Constituição da República Portuguesa, a exigência de dissolução desta organização agressiva, de cuja estrutura militar Portugal deve progressivamente desvincular-se.

O que está no texto original (de Bertrand Russell) que inclui a frase do título é:

The most useful contribution that we could make to educating world opinion about the evil of America’s military adventures would be to promote a serious campaign to force our own leaders to abandon their alliances with the USA. Bodies such as NATO serve only to associate us with injustice.

[A contribuição mais útil que poderia ser dada para educar a opinião pública mundial acerca da maldade das aventuras militares da América seria promover uma séria campanha para forçar os nossos próprios dirigentes a abandonar as suas alianças com os EUA. Organizações como a NATO só servem para nos associar à injustiça.]

    O PCP diz:

As declarações de inquietação com o investimento militar por parte de países em desenvolvimento são cabalmente desmascaradas pelo facto de os EUA e a NATO dominarem quase hegemonicamente as capacidades militares mundiais, incluindo a produção e o comércio de armas. Só o orçamento militar dos EUA representa cerca de metade das despesas militares mundiais, envolvendo 761 bases e outras instalações militares em território estrangeiro.

      O texto de Bertrand Russell afirma mais adiante: 

A long tradition of instinctive sympathy with oppressed peasants has been virtually wiped out by the present government with its servility to bankers and Washington, its sale of weapons to barbarous regimes, its ‘responsible’ anti-communism and its NATO-dominated view of Britain’s place in the world.

[Uma longa tradição de simpatia natural com os camponeses oprimidos tem sido virtualmente varrida pelo governo actual com a sua subserviência aos banqueiros e a Washington, com a sua venda de armas a regimes bárbaros, com o seu anti-comunismo 'responsável' e com a sua visão, dominada pela NATO, do lugar do Reino Unido no mundo.]

Neste blogue:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                                  

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Quem disse que «os EUA deviam continuar o seu esforço de guerra e acabar o trabalho»?

     Foi George Brown, político britânico dos anos 60 que chegou a Ministro dos Negócios Estrangeiros, aquele que disse a frase do título há mais de 40 anos e a propósito da guerra do Vietnam: «Immediately after the news of the My Lai massacre broke into the headlines in the United States and Great Britain, Mr George Brown gave an interview, on the BBC’s The World at One, in which, as a former Foreign Secretary, he defended the Americans and urged them to ‘finish the job’ in Vietnam.»

Eis um fragmento da resposta de Bertrand Russell escrita há 40 anos exactos:

«Mr Brown revealed all too clearly his attitude to the war: 1. The United States should continue its war effort and finish the job. (With Goldwater, Mr Brown asks: ‘Why not victory?’) Any interruption of this task is described as American ‘weeping’ and must be stopped. 2. A US defeat in Vietnam would be a threat to freedom’. Mr Brown wants a ‘free South Vietnam; free, I mean, to choose its own decisions’. How grotesque!» 

Em resumo, para George Brown, os EUA deviam continuar o seu esforço de guerra e «acabar o trabalho» no Vietnam, porque uma derrota significaria uma ameaça para a paz. «Que grotesco!», comentou Bertrand Russell.

As palavras de George Brown são repetidas agora, letra por letra, a propósito do Afeganistão, por muito «boa gente». Que grotesco!

     Mais recentemente, foi o Prémio Nobel da Paz de 2009, Barack Obama, que disse que queria «acabar o trabalho» no Afeganistão... Nem uma só vez pronunciou a palavra «guerra», mas é disso que se trata: enviar mais tropas e intensificar os massacres no Afeganistão e no Paquistão. Não é deste Prémio Nobel da Paz que necessitamos... 

In BBC News - Obama says he wants to 'finish the job' in Afghanistan

President Obama on Afghanistan (tem a transcrição da conferência de imprensa)

O vídeo seguinte mostra o momento em que Obama manifesta a sua intenção de «acabar o trabalho», começando e acabando com o seu costumeiro e forjado sorriso(1). Será que para anunciar que vai continuar a bombardear o Afeganistão, que vai mandar para lá mais soldados, que vai matar mais gente (em suma, que vai «acabar o trabalho»), tem de fazê-lo a sorrir porque «é preciso que haja algum humor»

Pedro Méndez Suárez - humor gráfico IV

 

Cangalheiro 1: Diz-se que o presidente duplicará as tropas no Iraque.

Cangalheiro 2: Temos de estar preparados para triplicar o nosso serviço.

Isto era no Iraque. No Afeganistão a proporção deve ser idêntica...

      (1) O riso estudado de Obama:

«Jornalista da CBS: O senhor está aqui sentado. E o senhor - - ri-se. O senhor ri-se de alguns destes problemas. As pessoas vão olhar para isto e dizer: "Pois, ele está ali sentado só a fazer piadas sobre dinheiro". Como é que o senhor responderia, quer dizer, explicaria... 

OBAMA: Bem...

Jornalista da CBS: ...a sua disposição e as suas gargalhadas.

OBAMA: Sim, quer dizer, é preciso que haja...

Jornalista da CBS: O senhor perdeu o juízo?

OBAMA: Não, não. É preciso que haja algum humor (RISOS) ao longo de um dia

In Transcript: President Obama, Part 2 - CBS News 

Neste blogue:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                                      

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publicado por António Vilarigues às 12:05
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