Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

A grande mentira e a resposta necessária

    Hoje, mais do que nunca, o Homem tem os conhecimentos e os instrumentos científico técnicos para acabar com a pobreza e a miséria na Terra. Dispõe dos recursos materiais para assegurar as condições de vida necessárias ao livre desenvolvimento das capacidades de cada um dos quase 7 mil milhões de habitantes do planeta. Possui os recursos humanos, em quantidade e em qualidade, com as competências necessárias para levar a cabo essa realização.

O que passa por pôr a satisfação das necessidades humanas como a principal prioridade da organização económica, do trabalho social de uma sociedade. Por valorizar o trabalho, para criar as condições objectivas para a transformação da sociedade. Por colocar como objectivo das relações sociais de produção, da actividade económica, não o lucro, mas a satisfação das necessidades humanas.

Mas não é essa ainda a realidade dos nossos dias. Os actores da versão portuguesa da crise do sistema capitalista tentam passar uma grande mentira. A todo o instante difundem a mensagem de que o pacto das troikas, esse verdadeiro programa de agressão e submissão assinado pelo PSD/CDS/PS, é a solução, a única solução, dos problemas nacionais. É falso! O seu objectivo primário, ao qual todas as medidas se encontram subordinadas, é apenas o de assegurar a taxa de lucro dos grandes grupos económicos e financeiros.

A pretexto da chamada crise da dívida soberana - dívida que eles próprios criaram ao transferirem os prejuízos dos bancos, das companhias de seguros e dos fundos de investimento para o Estado – assiste-se a ataques organizados e sistemáticos contra os direitos económicos e sociais da maioria da população. A austeridade, a redução dos défices orçamentais com cortes brutais nos orçamentos sociais e no emprego tornaram-se as receitas únicas. Às quais se acrescentam as privatizações e os novos impostos sobre o consumo.

Tudo visando favorecer de forma sistemática uma classe da sociedade, a classe capitalista. Em contrapartida, a grande maioria da população suporta os custos destas políticas e vê os seus direitos serem espezinhados. É a política de classe, da classe dominante, em todo o seu esplendor!

Pelo caminho agitam-se alguns papões. A dívida da Grécia e o seu défice orçamental é um deles. Mas não se refere o endividamento crítico da França (81% do PIB), da Alemanha (80%), do Japão (220%) e dos Estados Unidos (91%). Como não se fala do défice da Irlanda de 32%. Porquê? Porque este espantoso valor (3 vezes e meia o de Portugal!) foi alcançado quase em exclusivo através da injecção de dinheiros públicos em bancos privados falidos.

Portugal regista hoje níveis de investimento e produção industrial idênticos aos de 1996. A produção do sector agrícola e do sector da construção é hoje inferior à produção registada em 1995. O país deu um salto atrás de 15 anos! E, segundo o INE, 1,9 milhões de portugueses vivem em situação de pobreza. E mais 2,7 milhões só ainda não estão porque recebem prestações sociais. Prestações, saliente-se, que o Governo PSD/CDS está a cortar. A situação económica e social agrava-se a cada dia que passa. Acentua-se a ofensiva contra a democracia de Abril. De que são exemplos, entre outros, as propostas do governo de alteração à legislação laboral e o ataque ao Poder Local Democrático. Portugal caminha para o desastre e para o abismo.

Mas existem saídas no actual quadro. Saídas que passam por uma ruptura com as políticas vigentes. Que passam pela necessidade de derrotar os seus instrumentos de classe. E que passam pela implementação de políticas de sentido oposto. Políticas ao serviço dos trabalhadores e da maioria da população.

Neste contexto o próximo dia 1 de Outubro, pode e vai ficar na história da luta social em Portugal. Será de certeza um dia marcante do combate firme a estas políticas. Como o será de luta pela alternativa capaz de responder às aspirações justas dos trabalhadores e ao desenvolvimento do País. A alternativa política e a política alternativa, gostem ou não governantes e seus mandantes, também se constrói na rua.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 30 de Setembro de 2011

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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

Núm3ros

     A vantagem dos números é que, devidamente contextualizados, quase que dispensam comentários. E obrigam-nos a reflectir sobre onde estamos e para onde vamos, ou queremos ir. Pelo menos assim parece nestes que seleccionei para partilhar com os leitores deste jornal. 

1. Os núm3ros da crise do sistema capitalista. O FMI estima que só as perdas, ao nível dos activos financeiros e empréstimos dos EUA, possam atingir os 1,4 milhões de milhões de dólares. Estima-se que a capitalização bolsista, a dívida titularizada e os activos financeiros em posse dos bancos comerciais, representem mais de 4,2 vezes o produto mundial.  

O valor da dívida internacional titularizada ascendia a quase 22 milhões de milhões de dólares em 2007. Ou seja, mais de 40% do produto mundial e quase 2,5 vezes o valor de 2002. Só o valor nocional dos contratos estabelecidos no mercado de derivados, em Dezembro de 2007, ascendia a cerca de 596 milhões de milhões de dólares. Ou seja, 11 vezes o produto mundial, tendo como base contratos cujo valor de mercado não chegava aos 15 milhões de milhões de dólares.  

Existiam a nível mundial em 2007 cerca de 190 milhões de desempregados e mais de 1,3 mil milhões de «trabalhadores pobres». Só nas últimas duas décadas estima-se que o peso dos salários no rendimento se tenha reduzido 13 pontos percentuais na América Latina, 10 na Ásia e Pacífico e 9 no centro do sistema capitalista.  

Os EUA com 5% da população mundial consomem 25% dos recursos ao nível mundial. É de sublinhar que neste país, o défice público e o défice da balança de transacções correntes em 2007, duplicaram face a 2000, atingindo os 345 mil milhões de dólares e os 739 mil milhões de dólares respectivamente.  

2. Os núm3ros em Portugal. Um terço da estrutura accionista das empresas nacionais é detido por capital estrangeiro, com uma forte presença em empresas e sectores estratégicos (EDP, 48%, PT, 64%, GALP, 50%, CIMPOR, 30%, BCP, 36%). O investimento directo português no estrangeiro, IDPE, atingiu a soma de 90 mil milhões de euros a preços correntes, entre 1997 e 2005.  

Existem em Portugal 139 grandes grupos económicos. Dos quais 77,6% criados nos últimos 18 anos em resultado directo do processo de privatização e consequente restauração dos grandes grupos monopolistas. A análise dos maiores Grupos Económicos Nacionais no final de 2005 mostra-nos que dos doze grupos com lucros mais elevados – com um valor superior a 250 milhões de euros –, apenas dois se encontram ligados predominantemente à actividade produtiva (cimentos – Cimpor e papel – Semapa). Este conjunto de Grupos Económicos - ao mesmo tempo que a nossa economia crescia a um ritmo médio de apenas 1,3% entre 2004 e 2007 -, viu os seus lucros aumentarem de 75%, atingindo os 6,8 mil milhões de euros – 4,2% do PIB.

A estrutura empresarial da economia portuguesa é dominada por micro e pequenas empresas. Em 2006, 99,4% do total de empresas, 49,1% do volume de negócios e 62,2% do emprego. 

O salário médio real caiu 2,6% (enquanto na OCDE cresceu 1,3%), sendo agora o quarto país com menor poder de compra. Cerca de 18% da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza. Tal como 20% das crianças e jovens até aos 17 anos e 25% dos portugueses com mais de 65 anos. Quase três milhões de portugueses vivem com menos de 10 euros por dia. Mais de 230 mil com menos de 5 euros. 

E para rematar registe-se que o BPP só aceita clientes com um saldo médio de contas de 1 milhão de euros. Que geria no final de 2007 activos no montante 2 mil milhões de euros. Que teve em 2007 lucros de 24,4 milhões de euros (+ 34,2% do que em 2006). E que distribuiu pelos seus accionistas neste ano 12,2 milhões de euros de dividendos. Só nos últimos 5 anos esta distribuição de dividendos somou os 32,1 milhões de euros.

Conclusões?...

 

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

            

In jornal "Público" - Edição de 28 de Novembro de 2008 

 

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