Sexta-feira, 13 de Setembro de 2013

Álvaro Cunhal e o Partido com Paredes de Vidro

      Em 1985, quando foi lançada em Lisboa a 1ª edição dessa obra, era inimaginável a tragédia que destruiu a URSS e transformou a Rússia num país capitalista. No horizonte próximo o que se esboçava era a vitória do socialismo sobre o capitalismo.

Mas a História tomou outro rumo.

No prefácio a esta 6ª edição, Álvaro Cunhal apresenta por isso com espirito autocritico a perspectiva histórica da 1ª, mas reafirma que o capitalismo está condenado a desaparecer porque não pode superar «insanáveis contradições internas e continua a mostrar-se incapaz de responder às legítimas aspirações económicas, sociais, políticas e culturais da humanidade

Este livro traz respostas a questões relativas aos comunistas. Ajuda a compreender porque resistiu o PCP ao desaparecimento da União Soviética e é um dos poucos partidos comunistas que na Europa sobreviveu intacto ao vendaval que desnaturou ou destruiu a maioria deles.

Enquanto outros, como o italiano, o francês e o espanhol, aderiram ao anti sovietismo, e adotaram linhas reformistas que os tornaram cúmplices do neoliberalismo, o PCP manteve-se fiel aos princípios e valores do marxismo-leninismo.

O Partido com Paredes de Vidro não é apenas como ensaio uma demonstração brilhante do domínio pelo autor do materialismo dialectico. O livro não seria o que é sem o talento e a imaginação que fazem dele uma obra marcada por poderosa criatividade.

«Como somos, como pensamos, como atuamos, como lutamos, como vivemos,nós,os comunistas portugueses.»

Na sua resposta, Álvaro Cunhal procura e consegue com frequência imprimir força de revelação à própria evidência. A personagem central é sempre o Partido.

É nele que se inserem o abstracto - as ideias, a concepção do mundo - e o concreto, os homens que fazem do Partido um grande coletivo revolucionário.

O tratamento de questões teóricas surge entrosado em exemplos de uma praxis viva. Está ali praticamente tudo, exposto, comentado e explicado sem véus, nem omissões: a organização, o trabalho colectivo, o estilo e o tipo de direcção do centralismo democrático, as eleições internas, o voto secreto, a prestação de contas, a experiencia, a renovação permanente, o consenso, a unanimidade, os quadros, a democracia, os deveres e direitos, a crítica e a autocrítica, a moral comunista.Com transparência cristalina.

A estrutura orgânica do Partido e a sua praxis revelam a natureza de classe, inseparável da raiz ideológica e da firmeza política e revolucionária. Alias, a manutenção da regra de ouro de uma maioria de operários nos organismos de direção tem sido justificada pelas respostas da História. Sem ela o PCP seria um partido muito diferente.

O tema do individuo, do militante inserido no coletivo, merece uma atenção especial.

«Ser comunista – sublinha - não impede que se ria mais ou se ria menos, que se goste de estar em casa ou de passear ao ar livre, que se aprecie ou não se aprecie um bom petisco, que se fume ou não se fume, que se beba ou não se beba um copo, que se viva mais ou menos intensamente o amor (…) Amar o sol, o ar livre, a natureza, a terra e o mar, o ar e a água, as plantas e as flores, os animais, as pedras, a luz, a cor, o som,o movimento, a alegria, o riso, o prazer, é da própria natureza do ser humano (…) Que ninguém tenha vergonha de ser feliz. Alem do mais porque a felicidade do ser humano é um dos objetivos da luta dos comunistas

Trechos como estes, pela mundividência que expressam, derrubam pirâmides de mentiras erguidas pela propaganda anticomunista.

Álvaro Cunhal sabe que não há comunistas perfeitos. Não apresenta portanto o PCP como um partido de santos. Mas acha que a exigência moral dos comunistas favorece o seu aperfeiçoamento individual.

«Em cada ser humano – recorda - há imensas potencialidades de evolução para o bem e de evolução para o mal. O Partido, em relação aos seus membros tem de confiar que com a sua ajuda a evolução será para o bem».

Aos que, caluniando o Partido, insistem em apresentá-lo como uma máquina que tritura os seus membros, Álvaro Cunhal responde com uma crítica profunda ao dogmatismo e ao sectarismo. Apontando erros cometidos, condena como inadmissível a tendência de alguns dirigentes e quadros a ingerir-se na vida privada dos militantes.

Não surpreendeu que o livro de Álvaro Cunhal tenha suscitado reparos no Leste europeu. Em alguns países foi publicado com cortes. A transparência do PCP incomodou dirigentes que se sentiram retratados em críticas ao autoritarismo e ao dogmatismo.

Uma certeza: a publicação pela Editora Expressão Popular do Partido com Paredes de Vidros é uma contribuição valiosa para um melhor conhecimento no Brasil do Partido Comunista Português, do seu coletivo revolucionário, da sua luta por um Portugal democrático, soberano, progressista.

O livro de Álvaro Cunhal, sendo pessoal, é de todo o Partido, um ser único, com vida e vontade próprias cujo caminhar é traçado por todos e cada um.

Miguel Urbano Rodrigues

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 09:27
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (XII)

Ana Menezes

-

Aviso

[Tradução de António Ramos Rosa]

  

A noite que precedeu a sua morte

foi a mais breve de toda a sua vida

Pensar que estava vivo ainda

era um fogo no sangue até aos punhos

A sua força era tal que ele gemia

Foi quando atingia o fundo deste horror

Que o seu rosto num sorriso se lhe abriu

Não tinha apenas um único camarada

Mas sim milhões e milhões de camaradas

Para o vingarem sim bem o sabia

E então para ele ergue-se a alvorada

 

Paul Éluard

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:11
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Quinta-feira, 19 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (XI)

Ana Biscaia

-

Canção da esperança

 

Corações nossos faróis

Na noite desta batalha

Num refulgir de navalha

 Rasgai o véu aos heróis.   

 

As nuvens hão-de passar!

Penetra-as o sol da alma

Para além do próprio olhar.

E os medos de arrefecer

Espanta-os um peito calmo

À firmeza de vencer.

 

Os golpes de viva dor

Temperam a fé futura

Constante forjam o amor.

E as quedas não são fatais

Se a chama desta aventura

Em nós cresce ainda mais.

 

A luta nunca foi vã!

Os braços em liberdade

Levantam outro amanhã.

E os lábios dão a florir

Os hinos desta verdade:

É de acção nosso porvir.

 

Arquimedes da Silva Santos

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:03
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (X)

Miguel Carneiro

-

publicado por António Vilarigues às 12:04
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (IX)

Ana Biscaia

-

Entre patrão e operário

 

Entre patrão e operário,

entre operário e patrão,

o que é extraordinário

é pretender-se união.

Não vista a pele do lobo

quem do lobo a lei enjeita.

A propriedade é um roubo.

Ladrão é quem a aproveita.

Negar a luta de classes

é negar a evidência

de um mundo de duas faces,

de miséria e de opulência.

 

Armindo Rodrigues

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:05
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (VIII)

Ana Biscaia

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:01
link do post | comentar | favorito
Domingo, 15 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (VII)

Christina Casnellie

Frase inscrita no memorial aos Mártires de Chicago na revolta de Haymarket de 4 de Maio de 1886

 -

Para vós o meu canto...

-

Para vós o meu canto, companheiros da vida!

Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,

vós, para quem não existe batalha perdida,

nem desmedida margura,

nem aridez nos desertos;

vós, que modificais um leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,

penso em vós: e confio;

penso em mim e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,

das pragas imensas lançadas ao mar

e da fome dos pescadores, 

- penso em vós, companheiros,

que trazeis outros búzios para cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;

aponto as ruas tristes da cidade

a crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,

que trazeis ruas com outra claridade

e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,

erguido ao alto como um grito de guerra,

à espera do Dia de Juízo...

Que o Dia do Juízo

não é no céu... é na Terra!

-

Sidónio Muralha

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:03
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Sábado, 14 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (VI)

Pedro Nora

-

A camisola

[Tradução de Manuel de Seabra]

 

Sou filho de família muito humilde,
tão humilde que duma cortina velha
me fizeram uma camisola. Vermelha.
E por causa dessa camisola
nunca mais pude andar pela direita.
Tive de ir sempre contra a corrente,
porque não sei o que se passa,
que todos os que a enfrentam
vão sempre de cabeça ao chão.
E por causa dessa camisola
não mais pude sair à rua
nem trabalhar no meu ofício
de ferreiro.
Tive de ir para o campo de jornal,
pois assim ninguém me via.
Trabalhava com a foice.
E apesar de todos os males,
sei trabalhar com duas coisas:
com o martelo e a foice.
Quase não compreendo como a gente
quando me via pela rua
me gritava: Progressista!
Eu julgo que tudo era
causado pela ignorância.
Talvez noutra circunstância
já tivesse mudado de camisola.
Mas como gosto muito dela
porque é quente e me consola,
peço-lhe que não se faça velha.

 

Ovidi Montllor

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:06
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 13 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (V)

Pedro Nora

-

Ana e António

 

A Ana e o António trabalhavam 

na mesma empresa.

Agora foram ambos despedidos.

Lá em casa, o silêncio sentou-se

em todas as cadeiras

em volta da mesa vazia.

«Neo-Realismo!» dirão os estetas

para quem ser despedido

é o preço do progresso.

Os estetas, esses, nunca

serão despedidos.

Ou julgam isso, ou julgam isso.

 

Mário Castrim

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:02
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

Maio, poesia e luta (IV)

Bruno Borges

-

Canção dos que vivem das suas mãos

 

Não peço o de ninguém.

Apenas o meu pão,

meu ar.

 

Apenas a flor,

o fruto do que fazem minhas mãos.

 

Jesús López Pacheco

-

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:09
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 26 seguidores

.pesquisar

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Álvaro Cunhal e o Partido...

. Maio, poesia e luta (XII)

. Maio, poesia e luta (XI)

. Maio, poesia e luta (X)

. Maio, poesia e luta (IX)

. Maio, poesia e luta (VIII...

. Maio, poesia e luta (VII)

. Maio, poesia e luta (VI)

. Maio, poesia e luta (V)

. Maio, poesia e luta (IV)

.arquivos

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Outubro 2018

. Julho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. álvaro cunhal

. assembleia da república

. autarquia

. avante!

. bce

. benfica

. blog

. blogs

. câmara municipal

. capitalismo

. caricatura

. cartoon

. castendo

. cds

. cdu

. cgtp

. cgtp-in

. classes

. comunicação social

. comunismo

. comunista

. crise

. crise do sistema capitalista

. cultura

. cultural

. democracia

. desemprego

. desenvolvimento

. desporto

. dialéctica

. economia

. economista

. eleições

. emprego

. empresas

. engels

. eua

. eugénio rosa

. exploração

. fascismo

. fmi

. futebol

. governo

. governo psd/cds

. grupos económicos e financeiros

. guerra

. história

. humor

. imagens

. imperialismo

. impostos

. jerónimo de sousa

. jornal

. josé sócrates

. lénine

. liberdade

. liga

. lucros

. luta

. manifestação

. marx

. marxismo-leninismo

. música

. notícias

. parlamento europeu

. partido comunista português

. paz

. pcp

. penalva do castelo

. pensões

. poema

. poesia

. poeta

. política

. portugal

. precariedade

. ps

. psd

. recessão

. revolução

. revolucionária

. revolucionário

. rir

. salários

. saúde

. segurança social

. sexo

. sistema

. slb

. socialismo

. socialista

. sociedade

. sons

. trabalhadores

. trabalho

. troika

. união europeia

. vídeos

. viseu

. vitória

. todas as tags

.links

.Google Analytics

blogs SAPO

.subscrever feeds