Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

A crise revisitada

    Neste início de 2010, apesar dos esforços propagandísticos dos mesmos do costume – economistas e políticos, que foram incapazes de prever a crise, as suas causas e os seus efeitos, a sua forma e o seu conteúdo – a crise financeira, económica e social não dá sinais de abrandar.

Continuamos a assistir por um lado, à desvalorização do capital sob todas as formas (comercial, financeiro). Por outro, à desvalorização da força de trabalho (como mercadoria). Para os marxistas é algo que não é nem novo, nem surpreendente. Apareceu pela primeira vez no começo do século XIX Repetiu-se sucessivas vezes. E voltará a suceder no futuro enquanto existir capitalismo.

A inevitabilidade das crises encontra-se no ADN do capitalismo. Uma economia capitalista pressupõe uma força motriz que conduza a reprodução capitalista até aos seus extremos, à acumulação de lucros imensos e a que a apropriação da mais-valia dos trabalhadores adopte uma forma de especulação monetária. Ou seja, que os imensos lucros, expressos em diferentes formas de capital, e naturalmente na sua circulação (fundos mútuos, títulos, acções em órgãos financeiros e empresas de fundos financeiros para gestão de capitais, Hedge Funds) reproduzidos como capital, como valor auto-crescente, devem ser reciclados no processo reprodutivo: sugando como vampiros novo trabalho não pago, para que se transforme em mercadoria, que depois se vende e se expressa como novo lucro.

É disto, expresso aqui duma forma muitissimo resumida e simplificada, que se trata. E não de quaisquer «maus comportamentos» (que também existiram e existem) deste ou daquele capitalista. Os sinais aí estão.

Confirma-se a tendência para as cessações de pagamentos por parte de alguns de Estados. Do Dubai à Grécia, passando pelos discursos cada vez mais inquietos das agências de classificação acerca das dívidas americana e britânica, ou pelo orçamento draconiano adoptado pela Irlanda e as recomendações da zona Euro para o controle dos défices públicos. A incapacidade crescente dos estados para enfrentar as suas dívidas é um tema sempre em destaque na comunicação social.

Refira-se que, ainda e sempre, as agências americanas de classificação não souberam (ou não puderam) antecipar este tipo de evolução. Lembremo-nos que elas não haviam previsto as implicações da crise das subprimes ou do afundamento do Lehman Brothers e da AIG. Nem igualmente a do Dubai…

Confirma-se, também, a tendência para aos governos europeus (e outros) manipularem cada vez mais as estatísticas económicas e sociais. Só que estas manipulações não fazem senão mergulhar os países ainda mais na crise. Os exemplos abundam: a «Verdade» na Grécia antes da crise actual era bem diferente da «Verdade» de hoje.

Em Portugal são conhecidos vários casos, dos quais um dos mais paradigmáticos é o da «limpeza de ficheiros» de desempregados por parte do IEFP: só no mês de Novembro de 2009 «desapareceram» dos ficheiros dos Centros de Emprego 49.501 desempregados.

Confirma-se, ainda, a impossibilidade da criação de uma política financeira comum, mesmo nas condições da recessão. Isto verificou-se em diferentes propostas, como as da Alemanha e da Grã-Bretanha sobre as medidas e pacotes de gestão da crise. Ou na formação das taxas de juro acima das que eram fixadas pelo Banco Central Europeu.

As diferentes visões sobre o Pacto de Estabilidade – se se privilegia a flexibilidade financeira ou a estabilidade monetária – expressam as diferentes necessidades dos Estados membros, e não uma falta de órgãos de governo da UE ou um excesso de poder do Banco Central Europeu.

Como nota final, uma chamada de atenção. Neste manancial de análises e informações com que quotidianamente somos bombardeados convém ter em conta um provérbio chinês: «Quando o sábio aponta a Lua, o idiota olha para o dedo».

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 10 de Janeiro de 2010

                                                                                         

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:08
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