Sábado, 31 de Maio de 2014

Mário Soares, Angola e o tráfico de diamantes

Desenho de Fernando Campos (o sítio dos desenhos)

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Mário Soares visto pelo jornalista António Marinho (ex-Bastonário da Ordem dos Advogados, António Marinho e Pinto), no «Diário do Centro» de 15 de Março de 2000.

 

MÁRIO SOARES E ANGOLA

 

   A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a cabo pela UNITA de Jonas Savimbi, tem sido conduzida na base de mistificações grosseiras sobre o comportamento daquelas figuras políticas nos últimos anos.

Espanta desde logo a intervenção pública da generalidade das figuras políticas do país, que vão desde o Presidente da República até ao deputado do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, passando pelo PP de Paulo Portas e Basílio Horta, pelo PSD de Durão Barroso e por toda a sorte de fazedores de opinião, jornalistas (ligados ou não à Fundação Mário Soares), pensadores profissionais, autarcas, «comendadores» e comentadores de serviço, etc.

Tudo como se Mário Soares fosse uma virgem perdida no meio de um imenso bordel.

Sei que Mário Soares não é nenhuma virgem e que o país (apesar de tudo) não é nenhum bordel. Sei também que não gosto mesmo nada de Mário Soares e do filho João Soares, os quais se têm vindo a comportar politicamente como uma espécie de versão portuguesa da antiga dupla haitiana «Papa Doc» e «Baby Doc».

Vejamos então por que é que eu não gosto dele(s).

A primeira ideia que se agiganta sobre Mário Soares é que é um homem que não tem princípios mas sim fins.

É-lhe atribuída a célebre frase: «Em política, feio, feio, é perder».

São conhecidos também os seus zigue-zagues políticos desde antes do 25 de Abril. Tentou negociar com Marcelo Caetano uma legalização do seu (e de seus amigos) agrupamento político, num gesto que mais não significava do que uma imensa traição a toda a oposição, mormente àquela que mais se empenhava na luta contra o fascismo.

JÁ DEPOIS DO 25 DE ABRIL, ASSUMIU-SE COMO O HOMEM DOS AMERICANOS E DA CIA EM PORTUGAL E NA PRÓPRIA INTERNACIONAL SOCIALISTA. Dos mesmos americanos que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador Allende no Chile e que colocara no poder Augusto Pinochet.

Mário Soares combateu o comunismo e os comunistas portugueses como nenhuma outra pessoa o fizera durante a revolução e FOI AMIGO DE NICOLAU CEAUCESCU, FIGURA QUE CHEGOU A APRESENTAR COMO MODELO A SER SEGUIDO PELOS COMUNISTAS PORTUGUESES.

Durante a revolução portuguesa andou a gritar nas ruas do país a palavra de ordem «Partido Socialista, Partido Marxista», mas mal se apanhou no poder meteu o socialismo na gaveta e nunca mais o tirou de lá. Os seus governos notabilizaram-se por três coisas: políticas abertamente de direita, a facilidade com que certos empresários ganhavam dinheiro e essa inovação da austeridade soarista (versão bloco central) que foram os salários em atraso.

 

INSULTO A UM JUIZ

 

   Em Coimbra, onde veio uma vez como primeiro-ministro, foi confrontado com uma manifestação de trabalhadores com salários em atraso. Soares não gostou do que ouviu (chamaram-lhe o que Soares tem chamado aos governantes angolanos) e alguns trabalhadores foram presos por polícias zelosos. Mas, como não apresentou queixa (o tipo de crime em causa exigia a apresentação de queixa), o juiz não teve outro remédio senão libertar os detidos no próprio dia. Soares não gostou e insultou publicamente esse magistrado, o qual ainda apresentou queixa ao Conselho Superior da Magistratura contra Mário Soares, mas sua excelência não foi incomodado.

Na sequência, foi modificado o Código Penal, o que constituiu a primeira alteração de que foi alvo por exigência dos interesses pessoais de figuras políticas.

Soares é arrogante, pesporrento e malcriado. É conhecidíssima a frase que dirigiu, perante as câmaras de TV, a um agente da GNR em serviço que cumpria a missão de lhe fazer escolta enquanto presidente da República durante a Presidência aberta em Lisboa: «Ó Sr. Guarda! Desapareça!». Nunca, em Portugal, um agente da autoridade terá sido tão humilhado publicamente por um responsável político, como aquele pobre soldado da GNR.

Em minha opinião, Mário Soares nunca foi um verdadeiro democrata. Ou melhor é muito democrata se for ele a mandar. Quando não, acaba-se imediatamente a democracia. À sua volta não tem amigos, e ele sabe-o; tem pessoas que não pensam pela própria cabeça e que apenas fazem o que ele manda e quando ele manda. Só é amigo de quem lhe obedece. Quem ousar ter ideias próprias é triturado sem quaisquer contemplações.

Algumas das suas mais sólidas e antigas amizades ficaram pelo caminho quando ousaram pôr em causa os seus interesses ou ambições pessoais.

Soares é um homem de ódios pessoais sem limites, os quais sempre colocou acima dos interesses políticos do partido e do próprio país.

Em 1980, não hesitou em APOIAR OBJECTIVAMENTE O GENERAL SOARES CARNEIRO CONTRA EANES, NÃO POR RAZÕES POLÍTICAS MAS DEVIDO AO ÓDIO PESSOAL QUE NUTRIA PELO GENERAL RAMALHO EANES. E como o PS não alinhou nessa aventura que iria entregar a presidência da República a um general do antigo regime, Soares, em vez de acatar a decisão maioritária do seu partido, optou por demitir-se e passou a intrigar, a conspirar e a manipular as consciências dos militantes socialistas e de toda a sorte de oportunistas, não hesitando mesmo em espezinhar amigos de sempre como Francisco Salgado Zenha.

Confesso que não sei por que é que o séquito de prosélitos do soarismo (onde, lamentavelmente, parece ter-se incluído agora o actual presidente da República – Cavaco Silva), apareceram agora tão indignados com as declarações de governantes angolanos e estiveram tão calados quando da publicação do livro de Rui Mateus sobre Mário Soares. NA ALTURA TODOS METERAM A CABEÇA NA AREIA, INCLUINDO O PRÓPRIO CLÃ DOS SOARES, E NEM TUGIRAM NEM MUGIRAM, APESAR DE AS ACUSAÇÕES SEREM ENTÃO BEM MAIS GRAVES DO QUE AS DE AGORA. POR QUE É QUE JORGE SAMPAIO SE CALOU CONTRA AS «CALÚNIAS» DE RUI MATEUS?

 

«DINHEIRO DE MACAU»

 

    Anos mais tarde, um senhor que fora ministro de um governo chefiado por MÁRIO SOARES, ROSADO CORREIA, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de milhares de contos. A proveniência do dinheiro era tão pouco limpa que um membro do governo de Macau, ANTÓNIO VITORINO, foi a correr ao aeroporto tirar-lhe a mala à última hora.

Parece que se tratava de dinheiro que tinha sido obtido de empresários chineses com a promessa de benefícios indevidos por parte do governo de Macau. Para quem era esse dinheiro foi coisa que nunca ficou devidamente esclarecida. O caso EMAUDIO (e o célebre fax de Macau) é um episódio que envolve destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos dirigentes do PS da época soarista. MENANO DO AMARAL chegou a ser responsável pelas finanças do PS e Rui Mateus foi durante anos responsável pelas relações internacionais do partido, ou seja, pela angariação de fundos no estrangeiro.

Não haveria seguramente no PS ninguém em quem Soares depositasse mais confiança. Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino dos financiamentos vindos de Macau. No entanto, em tribunal, os pretensos corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos, com esta peculiaridade (que não é inédita) judicial: os pretensos corruptores foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.

Aliás, no que respeita a Macau só um país sem dignidade e um povo sem brio nem vergonha é que toleravam o que se passou nos últimos anos (e nos últimos dias) de administração portuguesa daquele território, com os chineses pura e simplesmente a chamar ladrões aos portugueses. E isso não foi só dirigido a alguns colaboradores de cartazes do MASP que a dada altura enxamearam aquele território.

Esse epíteto chegou a ser dirigido aos mais altos representantes do Estado Português. Tudo por causa das fundações criadas para tirar dinheiro de Macau. Mas isso é outra história cujos verdadeiros contornos hão-de ser um dia conhecidos. Não foi só em Portugal que Mário Soares conviveu com pessoas pouco recomendáveis. Veja-se o caso de BETINO CRAXI, o líder do PS italiano, condenado a vários anos de prisão pelas autoridades judiciais do seu país, devido a graves crimes como corrupção. Soares fez questão de lhe manifestar publicamente solidariedade quando ele se refugiou na Tunísia.

Veja-se também a amizade com Filipe González, líder do Partido Socialista de Espanha que não encontrou melhor maneira para resolver o problema político do país Basco senão recorrer ao terrorismo, contratando os piores mercenários do lumpen e da extrema direita da Europa para assassinar militantes e simpatizantes da ETA.

Mário Soares utilizou o cargo de presidente da República para passear pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal. Ele, que tanta austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto primeiro-ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros exércitos de amigos e prosélitos do soarismo, com destaque para jornalistas. São muitos desses «viajantes» que hoje se põem em bicos de pés a indignar-se pelas declarações dos governantes angolanos.

Enquanto Presidente da República, Soares abusou como ninguém das distinções honoríficas do Estado Português. Não há praticamente nenhum amigo que não tenha recebido uma condecoração, enquanto outros cidadãos, que tanto mereceram, não obtiveram qualquer distinção durante o seu «reinado». Um dos maiores vultos da resistência antifascista no meio universitário, e um dos mais notáveis académicos portugueses, perseguido pelo antigo regime, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho, não foi merecedor, segundo Mário Soares, da Ordem da Liberdade. Mas alguns que até colaboraram com o antigo regime receberam as mais altas distinções. Orlando de Carvalho só veio a receber a Ordem da Liberdade depois de Soares deixar a Presidência da República, ou seja logo que Sampaio tomou posse. A razão foi só uma: Orlando de Carvalho nunca prestou vassalagem a Soares e Jorge Sampaio não fazia depender disso a atribuição de condecorações.

 

FUNDAÇÃO COM DINHEIROS PÚBLICOS

 

   A pretexto de uns papéis pessoais cujo valor histórico ou cultural nunca ninguém sindicou, Soares decidiu fazer uma Fundação com o seu nome. Nada de mal se o fizesse com dinheiro seu, como seria normal.

Mas não; acabou por fazê-la com dinheiros públicos. SÓ O GOVERNO, DE UMA SÓ VEZ DEU-LHE 500 MIL CONTOS E A CÂMARA DE LISBOA, PRESIDIDA PELO SEU FILHO, DEU-LHE UM PRÉDIO NO VALOR DE CENTENAS DE MILHARES DE CONTOS. Nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Alemanha ou em qualquer país em que as regras democráticas fossem minimamente respeitadas muita gente estaria, por isso, a contas com a justiça, incluindo os próprios Mário e João Soares e as respectivas carreiras políticas teriam aí terminado. Tais práticas são absolutamente inadmissíveis num país que respeitasse o dinheiro extorquido aos contribuintes pelo fisco.

Se os seus documentos pessoais tinham valor histórico Mário Soares deveria entregá-los a uma instituição pública, como a Torre do Tombo ou o Centro de Documentação 25 de Abril, por exemplo. Mas para isso era preciso que Soares fosse uma pessoa com humildade democrática e verdadeiro amor pela cultura. Mas não. Não eram preocupações culturais que motivaram Soares. O que ele pretendia era outra coisa.

Porque as suas ambições não têm limites ele precisava de um instrumento de pressão sobre as instituições democráticas e dos órgãos de poder e de intromissão directa na vida política do país. A Fundação Mário Soares está a transformar-se num verdadeiro cancro da democracia portuguesa.

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O livro de Rui Mateus, que foi rapidamente retirado de mercado após a celeuma que causou em 1996 (há quem diga que “alguém” comprou toda a edição), está disponível AQUI ou AQUI

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Marinho Pinto: depois de ter escrito isto ainda o veremos em coligação com o PS e a apoiar Sócrates para PR...

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adaptado de um e-mail enviado pelo Carlos

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Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

Daniel Oliveira e a coerência

 

Veja a coerência de Daniel Oliveira (DO), em vídeo e a cores, no «Eixo do Mal» de 23 de Abril de 2011, aos 45 minutos. Clique em «Eixo do Mal», claro! Também aqui: «Eixo do Mal».

O tema era «a ronda das negociações [com a "troika": FMI, etc.]»

DO começou por dizer que «não são negociações», «a troika está a auscultar os partidos políticos, não está a negociar com os partidos políticos, nem poderia», «negoceia-se com o Estado e com o Governo», «[a troika] está a ouvir os parceiros sociais e os partidos políticos».

Em seguida, DO lamenta-se: «Bloco de esquerda e PCP acharam que não deviam ir...».

Finalmente, intitulando-se da «esquerda combativa», DO proclama definitivo: «todos os lugares, todos os momentos são bons, para apresentar os nossos argumentos, as nossas propostas, as nossas soluções». E, talvez para mostrar até que ponto é da tal «esquerda combativa», remata com uma «citação» - «como dizia o Lénine eu até com o diabo negoceio a bem da Revolução» - tendo recolhido os aplausos dos restantes galhofeiros (será que também são da tal «esquerda combativa»?).

Por que razão não falou DO em negociação, em auscultação, em vez de mandar avançar os aviões contra a Líbia?

E mais comentários para quê? «Há coisas que se comentam a si próprias», como diria o mesmo Daniel Oliveira.

PS1: Caso DO não saiba, o PCP tem uma página (http://www.pcp.pt/) onde o troika pode ir «auscultar».

PS2: Alguma coisa anda no ar... É o Daniel Oliveira a falar em Lénine e Jorge Sampaio a invocar o exemplo de Le Duc Tho: «Caíam bombas americanas sobre Hanói, bombas sucessivas, e em Paris estava a discutir a paz o senhor Kissinger e o representante do Vietname do Norte, o senhor Le Duc Tho, enquanto os bombardeamentos continuavam». Jorge Sampaio é aquele senhor que achava que a Cimeira dos Açores era «a última oportunidade para a paz»... E Daniel Oliveira é aquele senhor que achava que a guerra contra a Líbia «É para ser ao contrário do Iraque»...

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

O caso de défice alimentar: Do «gamanço legal» à crise económica

(...)

Como já em anteriores artigos dissemos, importámos em 2009 produtos alimentares e animais vivos no valor de 6079 milhões de euros, enquanto as exportações se quedaram por 2371 milhões de euros, ou seja, o défice alimentar equivale a 3708 milhões de euros (Nota: estes valores não integram as bebidas alcoólicas e o tabaco).

Trata-se de um valor muito vultuoso que, a somar aos défices na área da energia, dos produtos químicos e farmacêuticos e do material de transporte explicam, objectivamente, aquilo que as vozes dominantes na comunicação social procuram ocultar, ou seja, a umbilical relação entre a produção e o défice orçamental e a dívida pública.

(...)

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publicado por António Vilarigues às 00:04
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Será mesmo uma candidatura diferente?

Confesso que ando fascinado, diria mesmo sensibilizado, com tanto desvelo. De repente analistas, jornalistas e comentadores andam numa lufa-lufa que só visto, ouvido e lido. Ele é análises e contra-análises. Ele é propostas e contrapropostas. Tudo com um só objectivo: assegurar uma votação histórica do candidato comunista às eleições presidenciais. Quiçá mesmo vencê-las!

Mas de repente, vá-se lá saber porquê, veio-me à ideia aquela conhecida frase: «Sob o manto diáfano da fantasia a nudez crua da verdade.» E desci à terra!

A perturbação causada em diferentes sectores (à esquerda e à direita) do espectro político pela apresentação da candidatura do dirigente comunista Francisco Lopes é evidente. Porque será?

Será pela análise que faz à situação do país e às suas causas? Será pelas soluções que aponta para a resolução dos problemas existentes? Será por querer dar voz aos trabalhadores e ao povo de Portugal, protagonistas da ruptura e da mudança cada vez mais necessárias? «Eles» sabem muito bem que sim!

Os argumentos dos adversários confessos, visando desvalorizar esta candidatura, são múltiplos e variegados. Desde logo, as baixas e soezes, na forma e no conteúdo, referências quer à origem social, quer às habilitações literárias de Francisco Lopes. Apetece dizer que o (des)governo dos «doutores»  e «engenheiros» é que conduziu Portugal ao actual estado de coisas.

Depois vêm os chavões do costume, típicos argumentos ad nauseam.

«Homem do aparelho», proclamam. Cavaco Silva, Francisco Louçã, Mário Soares, Jorge Sampaio não foram - ou são - dirigentes partidários? E Manuel Alegre? Ou será que ser do aparelho só é mau se o aparelho for o do PCP?

«Ortodoxo», berram aos quatro ventos. E não disseram ou escreveram o mesmo sobre os outros candidatos comunistas em anteriores eleições presidenciais?

«Perfeito desconhecido» do país e do eleitorado. A sério? Então expliquem lá onde foram buscar, de uma hora para a outra, tantas informações quanto aos seus supostos deméritos? A algum Espírito Santo de orelha?

Perante tais «argumentos», seria lógico e natural que festejassem e aplaudissem a candidatura de Francisco Lopes. Mas não o fazem. E sabem muito bem porquê. E nós também...

A realidade é outra. E está toda ela na declaração de candidatura de Francisco Lopes, sintomaticamente silenciada na comunicação social dominante.

Aí se afirma que o declínio nacional, a descaracterização do regime democrático e o ataque à soberania e independência nacionais marcam hoje a realidade do país. E que há responsáveis: o PS e o PSD, com ou sem o CDS, que durante mais de três décadas partilharam alternadamente a governação em confronto com os valores de Abril.

Aí se sublinha que este caminho de retrocesso e desigualdades sociais contrasta com a escandalosa protecção e apoio dados ao grande capital e ao aumento dos seus colossais lucros. Que esta situação exprime as contradições do sistema capitalista mundial e o peso cada vez mais negativo do processo de integração europeia. E que este é um caminho inaceitável.

Aí se destaca que esta candidatura exprime a exigência de uma profunda ruptura e de uma efectiva mudança em relação às orientações políticas seguidas nas últimas décadas. E se afirma, sem hesitações, que há um outro rumo e uma outra política capazes de responder aos problemas nacionais. E se apresentam as grandes linhas desse rumo.

Qual das outras candidaturas, já apresentadas ou por apresentar, pode - falando verdade - dizer o mesmo? Alguém dá um passo em frente para responder afirmativamente? Ao leitor a possibilidade de decidir.

In jornal "Público" - Edição de 17 de Setembro de 2010

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Quem disse que «organizações como a NATO só servem para nos associar à injustiça»?

     Não foi Augusto Santos Silva, claro! Nem podia ser! Augusto Santos Silva foi aquele que disse que «Portugal é um aliado sempre leal [da NATO], tem-no sido sempre», lembram-se?

Também não foi Jorge Sampaio que disse a frase. Jorge Sampaio está mais a meio caminho entre o «não me comprometa!» e o «eu estou comprometido mas NEGO, N-E-G-O». Aqui e aqui o vemos ao lado de Augusto Santos Silva quando ele pronunciou a frase «Portugal é um aliado sempre leal [da NATO], tem-no sido sempre», e não parece nada incomodado... Aqui pode ver-se Jorge Sampaio ao lado de Jose Luis Rodríguez Zapatero, Tayyip Erdoğan e Ban Ki-moon participando num forum da UNAOC (Aliança das Civilizações das NU), na Turquia. Sem que Sampaio se mostre incomodado «Zapatero ofrece a la OTAN la ayuda de la Alianza de Civilizaciones» ... Sampaio diz sempre qualquer coisa como «é de referir o elevado nível de participação que Portugal tem assegurado no seio das forças internacionais de paz da ONU, da NATO e da UE...», ou como «On the one hand, we have the intense but up till now incipient efforts to reform the major international organisations – UN, NATO, IMF, to mention just the more salient ones – that attest to the need to find answers that are better adjusted to the realities of our times.» [Traduzir isto? Não vale a pena. É uma daquelas frases de Jorge Sampaio que não aquecem nem arrefecem...]

    Cavaco Silva a dizer a frase do título? Nem pensar! Pois se «Cavaco Silva disse que o falhanço da NATO no Afeganistão será grave»...

Também não adianta pensar na hipótese de ter sido Sócrates: José Sócrates anunciou reforço militar português no Afeganistão...  

Está visto, portanto, que nem Santos Silva, nem Sampaio, nem Zapatero, nem Cavaco Silva, nem Sócrates, poderiam alguma vez ter dito a frase do título.

    Bem, deixemos os disparates. Passemos a uma hipótese séria: terá sido o PCP a afirmar o que está no título?

Não, não foi o PCP. Podia ter sido, mas não foi. O PCP disse (e diz) na Resolução Política do seu XVIII Congresso:

Os objectivos, métodos e evolução da NATO comprovam o seu carácter de «polícia de choque» do imperialismo e reforçam, de acordo com a própria Constituição da República Portuguesa, a exigência de dissolução desta organização agressiva, de cuja estrutura militar Portugal deve progressivamente desvincular-se.

O que está no texto original (de Bertrand Russell) que inclui a frase do título é:

The most useful contribution that we could make to educating world opinion about the evil of America’s military adventures would be to promote a serious campaign to force our own leaders to abandon their alliances with the USA. Bodies such as NATO serve only to associate us with injustice.

[A contribuição mais útil que poderia ser dada para educar a opinião pública mundial acerca da maldade das aventuras militares da América seria promover uma séria campanha para forçar os nossos próprios dirigentes a abandonar as suas alianças com os EUA. Organizações como a NATO só servem para nos associar à injustiça.]

    O PCP diz:

As declarações de inquietação com o investimento militar por parte de países em desenvolvimento são cabalmente desmascaradas pelo facto de os EUA e a NATO dominarem quase hegemonicamente as capacidades militares mundiais, incluindo a produção e o comércio de armas. Só o orçamento militar dos EUA representa cerca de metade das despesas militares mundiais, envolvendo 761 bases e outras instalações militares em território estrangeiro.

      O texto de Bertrand Russell afirma mais adiante: 

A long tradition of instinctive sympathy with oppressed peasants has been virtually wiped out by the present government with its servility to bankers and Washington, its sale of weapons to barbarous regimes, its ‘responsible’ anti-communism and its NATO-dominated view of Britain’s place in the world.

[Uma longa tradição de simpatia natural com os camponeses oprimidos tem sido virtualmente varrida pelo governo actual com a sua subserviência aos banqueiros e a Washington, com a sua venda de armas a regimes bárbaros, com o seu anti-comunismo 'responsável' e com a sua visão, dominada pela NATO, do lugar do Reino Unido no mundo.]

Neste blogue:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                                  

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publicado por António Vilarigues às 12:08
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