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O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

O CASTENDO

TERRAS DE PENALVA ONDE «A LIBERDADE É A COMPREENSÃO DA NECESSIDADE»

Greve geral!

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Gostava de ter escrito isto:

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Hoje é dia de greve geral. As greves gerais são momentos excecionais na vida coletiva das sociedades, e não há muitos assim nas nossas vidas, porque permitem experienciar a participação social e política no que ela tem de mais intenso, quando milhões de pessoas, que se não conhecem entre si, mas que partilham razões idênticas para reagir contra a perda de direitos, a falta de liberdade, o abuso dos poderosos, param a sua atividade e demonstram que podem paralisar o país em que vivem, e uma economia que os explora na sua força de trabalho e no seu bem-estar, e tomam decisões, partilham histórias, tecem uma nova e poderosa forma de conhecimento que cimenta a solidariedade e o espírito humano. A greve geral é uma grande festa da democracia. Uma festa daqueles a quem há muito não se ouve a voz, daqueles que engoliram vezes de mais em seco, na solidão de um combate desigual contra o empregador, o chefe, o diretor, o capataz.
     Você que me lê teve de tomar posição perante a greve. É inevitável. Pode estar entre os que, como eu, a fazem com a profunda alegria do homem livre e indignado que se sabe acompanhado na resistência pública contra o abuso e a indignidade a que o querem submeter. Sou dos que, sem ter sido havido nem achado, Sócrates e Passos decidiram que tinha de contribuir para um colossal erro que não cometi. Eu que - como você que me lê, esteja empregado ou sem trabalho, ou se tenha já reformado - não fui nunca favorável ao festival de livre criminalidade fiscal e económica que, à nossa custa, auto-instituíram os ricos do meu país, e os de todo o mundo, ostentando uma riqueza ofensiva e patética a que chamaram "liberdade económica", "globalização" e outros equívocos trágicos. Alguns deles tramaram-se (e tramaram-nos...), provocando uma tempestuosa crise financeira que nos marcará a vida por muitos anos; mas a maioria, contudo, continua a triunfar, e parece disposta a arrancar-nos o que conquistámos, e o que outros nos legaram após décadas, séculos, de batalhas pela dignidade de cada ser humano, verificável em condições de saúde, educação, cultura e segurança na doença, na incapacidade e na velhice.
Hoje chamam-me, a mim e a si, a contribuir, por pura imposição, para salvar um sistema económico e financeiro que se baseia na mais evidente desumanidade.
Dir-me-á que a democracia é assim mesmo, que ainda há pouco tivemos oportunidade de votar. É muito possível que tenhamos votado de forma diferente, mas nenhum de nós pôde votar nos off-shores da Madeira ou no segredo das contas bancárias na Suíça, na corrupção que mina o aparelho de Estado que gere os mesmos serviços públicos de que depende muita da nossa vida quotidiana. E se você votou Passos/Portas porque se queria ver livre de Sócrates, e antes votou Sócrates porque se queria ver livre de Santana, e votou Durão porque..., permita-me perguntar-lhe como se sente depois de lhe terem mentido tão refinadamente anos a fio, dizendo-lhe que o país estava "de tanga" mas que a crise não ia durar mais de um ano, ainda que fosse preciso fazer sacrifícios; e depois que esses sacrifícios não incluiriam quebra do seu salário, mas que era preciso congelá-lo; e depois, afinal, era mesmo preciso tirar-lhe salário, mas que não lhe tirariam os subsídios; e depois que lhe tiravam os subsídios mas os reformados não perderiam pensões; e depois, afinal, que havia que fazer tudo isso... Pergunto-lhe o que diz agora a si próprio: que ficamos por aqui? que eles não voltarão à carga? Suspeito que se sentirá bem mais traído que eu. É que eu nunca acreditei neles.

     Fizemos, seguramente, caminhos diferentes para chegar às mesmas conclusões. Resta-nos saber o que fazer. Roubados, ofendidos, esmagados, desanimados..., como podemos reagir? Você, que duvidou em fazer esta greve, que não achava que servisse para alguma coisa, o que pensa fazer, então, que julgue que produza efeito? Esperar por 2015 para votar outra vez? Até agora, não parece ter sido grande estratégia... Escrever uma mensagem no Facebook, abrir um blogue? Vai-se ficar por aí? Se for para convocar uma manifestação cívica como a do 12 de Março ou a do 15 de Outubro, saiba que é bem vindo nas de hoje, e que aqui encontrará muitos dos que então se reuniram.

Ou vai trabalhar hoje? Face aos seus 800 mil compatriotas que não o podem fazer porque nem trabalho têm, está com sorte. Eu também, por enquanto. Não julgará, isso não, que estará a ajudar a salvar o país, como nos dizem. Quem no-lo diz, pretende obrigá-lo a trabalhar mais 12 horas/mês à borla, e, ou lhe assegura desde já que tirará mais 14,3% do seu salário (se trabalha para o Estado), ou, com toda a evidência, se prepara para o fazer (se trabalha no privado). Some-lhe a facilidade com que ameaçam e concretizam o seu despedimento, a degradação de condições a que sujeitam todos os serviços públicos de que precisa para que a sua sobrevivência não dependa mais ainda do seu parco rendimento, e diga-me, honestamente, se acha que está a salvar o país... É certo que imagino que tivesse muitas razões práticas, económicas em primeiro lugar, para não fazer greve. Não julgue que eu tenho menos! Mas sei que não posso, não vou ficar calado!
E você? Acha mesmo que vai poder colher sem lavrar a sua terra? Reaproprie-se da sua vida! Não fique em silêncio enquanto se preparam para fazer pior do que já lhe fizeram! Não julgue que se é livre sem usar da liberdade!
Manuel Loff in jornal «Público» edição de 24 de Novembro de 2011 (link só para assinantes)

A pedido do autor, este texto respeita as normas do Acordo Ortográfico

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O descanso é uma dimensão essencial da existência humana

      Na sequência dos dois posts anteriores:

(...)

«A supressão de feriados levanta uma infinidade de questões. Para começar, um problema social e ético: o da justa remuneração do trabalho. Se o nosso salário corresponde a um determinado número de dias de trabalho, aumentar esse número significa baixar o valor do trabalho.

(...)

os feriados são uma das dimensões do nosso direito ao descanso, tal como as férias ou as folgas semanais. E o descanso é uma dimensão essencial da existência humana, tanto quanto o é o trabalho. Se há função económica que cumpra a obtenção de riqueza é a de assegurar o descanso. É natural, portanto, que, tal como com a riqueza, um dos objetivos essenciais de uma sociedade democrática deva ser o de assegurar uma distribuição equitativa do descanso.»

Manuel Loff in jornal «Público» (link só para assinantes)

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