Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Memórias históricas

    A razão de ser da memória histórica está na extracção das lições do passado.

Como se tornou possível na sociedade burguesa, em pleno século XX, a formação do regime nazi? Como foi possível a vitória do nazismo na Alemanha em 1933? Como se consolidou o seu poder num dos Estados mais poderosos da Europa Central? Como formaram um mecanismo específico de terror? Como criaram uma máquina militar gigantesca dirigida para a obtenção da dominação mundial? Quais as forças que promoveram e apoiaram Hitler e conseguiram desencadear um genocídio maciço?

Historiadores e publicista, autores de dezenas e centenas de monografias sobre o nazismo e sobre Hitler tentam esconder a resposta a estes factos. Porquê?

«Sem a acção conjunta dos industriais alemães e do partido nazi, Hitler nunca teria tomado o poder na Alemanha, nem o teria consolidado…” (Taylor, acusador público americano em Nuremberga, no dia 30 de Agosto de 1946).

«1. É falso que os grandes industriais alemães só tenham aderido ao nacional-socialismo no último minuto. Desde o início que eles eram seus protectores entusiásticos.

«2. Foi o apoio por parte dos grandes industriais e dos banqueiros que tornou possível ao nacional-socialismo alcançar o Poder.» (Conclusões da Comissão Kilgore do senado americano).

Factor decisivo para a carreira de Hitler, logo na primeira etapa, foi o facto de ele ter estabelecido as mais estreitas ligações com os capitalistas bávaros. Na altura ainda não conseguia chegar até às primeiras «trezentas famílias». Mas o facto de o futuro Fuhrer ter desde o princípio dado passos para estabelecer ligações com os grandes industriais tem uma importância vital.

Quando o grande capital necessita de uma determinada política, sempre aparece um político que corresponde às exigências do momento.

Nos anos 20 e 30 do século passado a encomenda social da reacção era clara: criação duma organização de massas que pudesse combater a sempre crescente influência das ideias do socialismo no povo alemão.

A partir de 1925 Hitler e os nacionais-socialistas começaram a procurar activamente patronos entre os industriais do Reno e do Ruhr. Com pleno sucesso. Thyssen, Kirdorf, Kepler e Otto Dietrich, representantes dos grandes consórcios alemães, tornaram-se desde essa data agentes de Hitler nos meios do grande capital.

Desde o início da crise de 1929 todas as classes possuidoras da Alemanha guinaram fortemente à direita. A crise assustava-os. Sobretudo porque conduzia à radicalização das massas, à sua viragem para a esquerda.

Era o medo do comunismo que cegava e imbecilizava os políticos alemães. Tal como mais tarde, nos dias de Munique, esse mesmo medo cegou e imbecilizou os ministros ingleses e franceses.

No início da década de trinta surgiu a nada santíssima trindade nacional-socialismo-militarismo-imperialismo, de que falava o principal acusador americano em Nuremberga, o general Taylor.

É bem sintomático que, nos últimos dias do Reich fascista, não tenham sido destruídos os arquivos da Gestapo. Nem, a correspondência de serviço de altos dignitários nazis. Nem sequer os documentos pessoais da cúpula hitleriana.

Mas que tenham sido, isso sim, destruídos os livros de contas do tesoureiro do NSDAP, Xaver Schwarz. Nos quais eram diariamente registados os «donativos» dos monopólios alemães. O próprio Schwartz esteve detido numa prisão americana, de 1945 a 1947. Mas as actas dos seus interrogatórios nunca foram publicadas. «Não foi convenientemente interrogado» escreve a Wikipedia…

Nota final: memórias soltas de artigos aqui publicados em 2005.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In jornal "Público" - Edição de 27 de Novembro de 2009

                                                                                      

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 08:07
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