Com uma Imensa Alegria - Notas Biográficas (Joaquim Pires Jorge)
Estas são histórias da História de Joaquim Pires Jorge, dirigente do Partido Comunista Português, escritas na primeira pessoa, tal como foram contadas, ao longo de entrevistas sucessivas, a um jornalista.
São histórias da História da classe operária portuguesa que valem pelas experiências e pelas lições que encerram na vida duríssima exemplar de um revolucionário.
Joaquim Pires Jorge morreu, mas deixou a lição da sua vida.
É isto também, como dizia Pablo Neruda, o Partido: «Fizeste-me ver a claridade do mundo e como é possível a alegria. Fizeste-me indestrutível pois contigo não termino em mim próprio.»
Joaquim Pires Jorge (desenho de Álvaro Cunhal) Francico Miguel Duarte
Há 100 anos nasciam Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel Duarte. Filhos da classe operária, ambos elevaram-se à categoria de heróis, combatendo sempre, por mais difícil que se revelasse a luta, pelos ideais da democracia, do socialismo e do comunismo. Com percursos e personalidades distintas, ambos demonstraram uma enorme generosidade na execução das tarefas partidárias, aliada a uma inquebrantável coragem. Sofrendo as torturas da PIDE e largos anos de prisão, Pires Jorge e Francisco Miguel prepararam fugas e fugiram, eles mesmos, das mais guardadas masmorras do País para – sempre – retomarem a luta. Ambos aderiram ao PCP quando o Partido era mais uma aspiração do que uma organização consolidada. Ajudaram a construí-lo e a defendê-lo, ligando-o à classe operária e aos trabalhadores, às suas aspirações a uma vida melhor, libertada da exploração e da opressão. No horizonte, sempre o socialismo e o comunismo. Construtores do Partido, Pires Jorge e Francisco Miguel serão, também, obreiros da futura sociedade socialista em Portugal. Porque nela estará o seu exemplo, a sua dedicação e o Partido que ajudaram a construir.
desenho de Álvaro Cunhal recuperado de um pedaço de papel (in Anónimo Séc. XXI)
Joaquim Pires Jorge
• Nasce em 28 de Novembro de 1907, na Ajuda, em Lisboa, para onde os seus pais, camponeses da região de Castelo Branco, tinham vindo à procura de melhores condições de vida. O pai, depois de trabalhar em várias fábricas, torna-se guarda-freio da Carris e a mãe vende bijutarias na Praça da Ribeira. • Pires Jorge faz a 4.ª classe na escola da Promotora, ao Calvário, mas aos onze anos já está empregado numa fábrica de cortiça, passando depois, como aprendiz de serralheiro, para uma oficina especializada no fabrico de travões para carroças. • Cumpre o serviço militar na Marinha, sendo incorporado na Banda da Armada, dados os conhecimentos musicais adquiridos nas colectividades que frequentara na juventude. Inspirado pela militância sindical de seu pai na Carris, dá os primeiros passos nas actividades antifascistas. Participa na revolta militar do 7 de Fevereiro de 1927, a primeira acção (fracassada…) de oposição activa contra a ditadura instaurada no ano anterior. É deportado para Angola durante dois anos. • Regressado a Portugal e à Marinha, liga-se à O.R.A. (Organização Revolucionária da Armada) e tem contactos com o Partido, nomeadamente através de Manuel Guedes. É preso, mas poucas horas depois consegue escapar do Quartel da Armada, para onde inicialmente tinha sido levado. • Refugia-se em Espanha, primeiro em Valência de Alcântara e depois em Málaga, mas o seu grande objectivo é voltar a Portugal. Aceita o convite de um oficial oposicionista, Sarmento de Beires, com quem já anteriormente mantivera contactos, para participar num golpe militar em preparação. Passados uns dias, num hotel fronteiro ao Jardim de S. Pedro de Alcântara, uma reunião conspirativa é interrompida pela notícia de que a polícia cercara a casa. Pires Jorge protagoniza uma fuga espectacular: escapa-se pelos telhados, saltando de casa em casa, trocando tiros com os perseguidores. • De novo em Espanha, trava contacto, entre outros, com José Gregório. É então (1934) que, cumprindo um velho desejo, adere ao Partido e regressa ao país para lutar na clandestinidade. Participa, nomeadamente, na criação de um «aparelho de fronteira», com a função de ajudar camaradas em fuga. • Em 1936 é encarregue pela direcção do Partido de levar para Espanha Manuel Guedes, que fugira do Tribunal Militar Especial de Santa Clara. Preso pela Guarda Civil, fica detido durante quase dois anos, até que é extraditado a pedido da polícia portuguesa e encarcerado no Aljube. Mas poucos dias depois foi deportado para Angra do Heroísmo, onde permanece até 1940, quase sempre isolado num calabouço. • Apesar de impedido de receber livros, consegue que lhe chegue às mãos o dicionário de língua portuguesa de Cândido Figueiredo. Com receio que o descubram, copia-o durante a noite – tarefa que durou meses – para umas folhas de papel que serviam de papel higiénico, alumiado por uma lamparina feita com uma lata de graxa e azeite da comida. • É libertado em 1940. A sua condição de ex-preso político não lhe facilita arranjar emprego. Os pais e um amigo arsenalista compram um Hillman (por dezassete contos) e Pires Jorge, em 1941, torna-se motorista de táxi. Para além dos clientes normais, o carro também faz, por vezes, «serviços» especiais: transporta camaradas da direcção, empenhados na reorganização do Partido então em curso. • Retorna à clandestinidade e vai viver com Pedro Soares para uma casa no Pote de Água, em Lisboa. A intensa actividade desses anos cria condições para as falhas conspirativas: são os dois presos e enviados para Caxias. A detenção dura apenas alguns meses. Invocando repetidas dores de dentes, é levado a uma consulta no Hospital de S. José, onde aproveita o movimento de doentes para escapar aos pides que o acompanhavam. • Participa, em 1943, no III Congresso do PCP (I ilegal), sendo eleito para o Comité Central e incumbido do controlo da actividade do Partido na Zona Norte, que abrangia todo o território de Coimbra a Trás-os-Montes. Percorre centenas de quilómetros de bicicleta. Aí se mantém até ao IV Congresso, em 1946, no qual apresenta o relatório sobre agitação e propaganda. • Nesse mesmo ano vem para o Sul e, juntamente com Francisco Miguel, dirige a actividade do partido a Sul do Tejo, que incluía dois fortes Comités Regionais: o da Margem Sul e o do Alentejo. • Em 1949 o Partido sofre um rude golpe, com a prisão de quase todo o Secretariado – Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e José Gregório. Pires Jorge é chamado ao Secretariado em 1950, participando em toda a década seguinte no trabalho de direcção do Partido, em condições particularmente difíceis. • Em 1959 toma parte activa, juntamente com Octávio Pato e Dias Lourenço, na preparação no exterior da fuga do Forte de Peniche, que restitui à liberdade uma dezena de camaradas, entre eles Álvaro Cunhal e Francisco Miguel. O desespero e a raiva das autoridades fascista é tal, que fazem constar que os presos tinham sido recolhidos por um submarino soviético… • Em 15 de Dezembro de 1961, dia em que se realiza uma reunião do Comité Central, Pires Jorge é preso, precisamente quando se preparava para conduzir para o local uma série de camaradas. É condenado a dez anos de prisão com «medidas de segurança». Apesar de estar preso, ele (e outros camaradas) é eleito para o Comité Central no VI Congresso, em 1965. • Libertado em 1971, em condições de saúde precárias, arranja trabalho como tradutor, dado o seu conhecimento do espanhol. Passados alguns meses é enviado para o estrangeiro, para algum tempo de descanso após os dez anos de cadeia, mas depressa retoma o trabalho, sendo novamente chamado ao Secretariado. • Em 25 de Abril de 1974 encontra-se em Paris, com Álvaro Cunhal e Sérgio Vilarigues, mas só alguns meses depois, por decisão do Partido, regressa a Portugal. Preside à sessão de abertura do VII Congresso, o primeiro realizado após a Revolução. É destacado para Coimbra, dirigindo o trabalho de organização nas Beiras. Volta depois para Lisboa, trabalhando na Secção Internacional do Partido. • Morre em 6 de Junho de 1984, com 77 anos de idade.
In «O Militante» - Edição Novembro/Dezembro de 2007
Combatentes heróicos contra a ditadura, pelo socialismo
«Passam agora cem anos sobre o nascimento de Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel Duarte, militantes e dirigentes do Partido que, pela sua actividade política antes e depois do 25 de Abril, pela sua luta contínua e infatigável de décadas, pela sua vida de sacrifícios e de privações mas também de entusiasmo combatente em prol da liberdade, da justiça social e de um futuro socialista para os portugueses e para Portugal, merecem figurar na lista dos mais heróicos lutadores do nosso Partido contra o fascismo e pela conquista e consolidação da democracia. Poucos, como eles, passaram tanto tempo e sofreram tanto nos cárceres fascistas – Pires Jorge 16 anos, Francisco Miguel 21. Mas nunca deixaram de tudo fazer para voltar à luta o mais depressa possível – Francisco Miguel, com as suas quatro fugas, é mesmo o camarada que mais vezes o conseguiu. Eram pessoas diferentes: Pires Jorge, alto, forte, extrovertido, permanentemente bem disposto; Francisco Miguel, pequeno, franzino, tímido, com alma de poeta – e com obra publicada. Seguiram no Partido percursos próprios, ainda que tenham trabalhado juntos, na direcção da organização a Sul do Tejo, nos anos quarenta. Tinham várias coisas em comum, desde as origens sociais até ao gosto pela música. Sublinhemos o essencial: a sua vida (que a seguir brevemente recordaremos) é um exemplo de como a luta dos comunistas só tem sido e continua a ser possível e compreensível, se tivermos em conta a estreita ligação entre a militância individual e o trabalho colectivo, entre a criatividade de cada um e o cumprimento das decisões resultantes do debate por todos participado, numa simbiose que – ontem como hoje – ganha a sua mais significativa expressão na luta de massas. Evocar Pires Jorge e Francisco Miguel não é apenas homenagear a memória de dois inesquecíveis camaradas; é também reafirmar princípios básicos da identidade do PCP, redescobrindo razões e raízes que ajudam a fazer do Partido aquilo que ele foi, é e continuará a ser, ao serviço da classe operária e de todos os trabalhadores, dos portugueses e de Portugal.»
(sublinhados meus)
In «O Militante» - Edição Novembro/Dezembro de 2007