Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

Uma questão de etiqueta?

As etiquetas comerciais estão a tornar-se num factor de tensão entre alguns países da União Europeia e os EUA a propósito das negociações do TTIP.

(...)

As cinco doenças mais comuns em muitos países estão ligadas, no todo ou em parte, à produção e ao consumo de alimentos provenientes da cadeia agroalimentar industrial:

  • diabetes,

  • hipertensão,

  • obesidade,

  • cancro

  • e doenças cardiovasculares.

Isto não só se traduz em má qualidade de vida e tragédias pessoais, mas também em altos gastos com consultas médicas e com o orçamento de saúde pública, e num enorme subsídio oculto para as multinacionais que dominam a cadeia agroalimentar, das sementes ao processamento de alimentos e à venda em supermercados. Fortes são pois as razões para questionar esse modelo de produção e consumo de alimentos. E fortes são também as razões para a etiquetagem desses produtos confira segurança aos cidadãos.

(...)

Harmonização, redução das palavras a símbolos, necessidade de reduzir o número e línguas usadas pela União Europeia e o excesso de informação. Tudo são facilidades.

Por detrás de tão bons corações, está a cupidez do aumento dos lucros de quem quer ver alargados os seus mercados e amortizados mais rapidamente os investimentos realizados na exportação/produção, procurando, assim, que “o gato passe por lebre".

(...)

Também nesse mês [Março 2016], a CNA referia que tem de haver coragem para enfrentar a grande distribuição, que continua a acumular lucros, mesmo quando aqueles que produzem para ela só acumulem prejuízos. Tem de haver exigência na rotulagem da produção nacional à qual a grande distribuição tem resistido. Tem de se verificar se não há dumping na importação de carne e leite que fazem baixar os preços pagos em Portugal. Exige-se também por parte da ASAE uma maior atenção através de uma ação forte, visível e dissuasora.

É de esperar que, também em Portugal, os grandes grupos económicos e as grandes distribuidoras assumam atitudes semelhantes ao que está a acontecer em França.
(sublinhados meus)
 
sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 12:22
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

EUA: Numa sala de espera de um hospital

     Caros amigos,

Podia falar-vos do General que disse que ter-se sido prisioneiro na guerra do Vietnam não significa que se possa ser um bom Presidente. Disse o óbvio e foi criticado!...
Podia referir o discurso de Obama de ontem sobre patriotismo ou o de hoje sobre fé. Como está a atingir o tradicional eleitorado do Partido Republicano...
Podia sublinhar os custos crescentes com gasolina, os aumentos de preços dos produtos alimentares, os empréstimos que as pessoas não podem pagar, o desemprego, os crimes diários...
...
Mas, hoje, dia 1 de Julho de um ano do século XXI, todos vimos nas televisões a cena que se passou numa sala de espera de um hospital.
No país em que, diz-se, há os melhores cuidados de saúde.
Uma mulher cai da cadeira e fica no chão a estrebuchar.
No canto da sala há uma câmara que filma.
Uma hora.
Ninguém lhe mexe.
E a câmara continua.
Ninguém se incomoda.
E a câmara, sempre a mesma, regista.
Ninguém se preocupa.
Só a câmara parece perceber.
Há outros doentes na sala de espera.
E nada fazem.
Há guardas (vê-se, pelo menos um, através da incansável câmara).
Que nada fazem.
E a câmara continua a filmar.
A mulher estendida no chão, entre duas cadeiras.
Uma hora.
E nada acontece.
A não ser a morte desta doente.
Que tinha ido ao hospital para tentar sobreviver.
...
Podia falar-vos dos sorrisos dos candidatos, das propostas dos candidatos, dos disparates dos candidatos...
Podia referir como são parciais os imparciais comentadores televisivos...
Podia dizer-vos que, por cada hora de tv, há mais de meia hora de publicidade...
...
Mas hoje não é possível.
Estou aqui sentado perante mim próprio e o computador que me acompanha e não consigo escrever sobre essas coisas.
Nem os crimes e os presos e os polícias e alguns ladrões me levam a colocar pontos nos is.
Porque a imagem que a câmara nos obriga a ver continua viva e presente, inesquecível.
Uma pobre máquina colocada ali por outras razões.
Testemunha de acusação do ser humano a que pertenço.
Dedo acusador a cada um dos que ali estava.
Denúncia silenciosa e fria dos guardas, dos enfermeiros, dos médicos. 
Todos tinham, certamente, outras coisas importantes para fazer.
Uma mulher estendida no chão, de barriga para baixo, uma hora.
Quando a foram ajudar estava morta.
...
Podia enviar-vos fotografias de manifes, de cartazes, de promessas...
Podia partilhar dúvidas e ansiedades...
Podia gritar, ao menos, que estou vivo, porque vejo e leio e ouço e tento aprender...
...
Mas hoje só é possível este lamento.
Esta infinita tristeza de ser pessoa.
Como as pessoas vivas que a câmara, ininterruptamente, filmou.
A olharem para a pessoa que morria.
...
Não consigo outra coisa que não seja enviar-vos estas frases.
Esta revolta que vem dos meus tempos de menino.
Quando vi, numa rua de Moçâmedes, um cipaio (polícia preto) a chicotear um preto e a traçar-lhe as costas com traços de sangue que não esqueço.
Esta revolta que vem dos meus tempos de adolescente.
Quando, no Liceu Camões, se era castigado por se correr.
Esta revolta que vem dos meus tempos de juventude.
Quando comecei a perceber, no Técnico, que não havia liberdade.
Esta revolta que vem dos meus tempos de maturidade.
Quando, em Caxias, senti todos os medos do mundo.
...
A revolta perante o silêncio dos que não querem ver, ou ler, ou ouvir, ou aprender.
Custa-me ouvir as vozes do passado.
Mas o que custa mais é assistir à passividade dos que não compreendem que o futuro é também deles.
Os silêncios das maiorias sempre foram o maior suporte das violências das minorias.
Não havia câmaras.
Apenas a memória dos que sofreram.
...
Hoje, dia 1 de Julho, havia uma câmara.
A única coisa viva naquela sala.
Onde o cheiro a morte irá permanecer.
...
Um abraço para todos.
Boa noite e boa sorte.
                        
Fernando

                                    

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 11:33
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