Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Eu proponho isto, a ver: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

(...)

E então o Gouvarinho, que acendera o charuto, espreitara outra vez o relógio, perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do Ministério e da crise.

Foi uma surpresa para ambos, que não tinham lido os jornais... Mas, exclamou logo o Ega, crise porquê, assim em pleno remanso, com as câmaras fechadas, tudo contente, um tão lindo tempo de Outono?

O Gouvarinho encolheu os ombros com reserva. Houvera na véspera, à noitinha, uma reunião de ministros; nessa manhã o presidente do Conselho fora ao Paço, fardado, determinado a «largar o Poder»... Não sabia mais. Não conferenciara com os seus amigos, nem mesmo fora ao seu Centro. Como noutras ocasiões de crise, conservara-se retirado, calado, esperando... Ali estivera toda a manhã, com o seu charuto, e a Revista dos Dois Mundos.

Isto parecia a Carlos uma abstenção pouco patriótica.

— Porque enfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...

— Exactamente por isso — acudiu o conde com uma cor viva na face — não desejo pôr-me em evidência... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o ter... Se a minha experiência, a minha palavra, o meu nome são necessários, os meus correligionários sabem onde eu estou, venham pedir-mos...

Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas coisas políticas, começou logo a retrair-se para o fundo da janela, limpando os vidros da luneta, recolhido, já impenetrável, no grande recato neutral que competia à Finlândia. Ega no entanto não saía do seu espanto. Mas porque caía, porque caía assim um governo com maioria nas câmaras, sossego no país, o apoio do exército, a bênção da Igreja, a protecção do Comptoir d’Escompte?

O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pêra, e murmurou esta razão:

— O Ministério estava gasto.
— Como uma vela de sebo? — exclamou Ega, rindo.

O conde hesitou. Como uma vela de sebo não diria... Sebo subentendia obtusidade... Ora neste Ministério sobrava o talento. Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...

-Ora neste Ministério sobrava o talento. Incontestavelmente havia lá talentos pujantes...

-

— Essa é outra! gritou Ega atirando os braços ao ar. — É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

O conde sorria com bonomia e superioridade a estes exageros de fantasista. E Carlos, ansioso por ser amável, atalhou, acendendo o charuto no dele:

— Que pasta preferia você, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos Estrangeiros, está claro...

-

Que pasta preferia você (...)? A dos Estrangeiros, está claro...
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O conde fez um largo gesto de abnegação. Era pouco natural que os seus  amigos necessitassem da sua experiência política. Ele tornara-se sobretudo num homem de estudo e de teoria. Além disso não sabia bem se as ocupações da sua casa, a sua saúde, os seus hábitos lhe permitiriam tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto a pasta dos Estrangeiros não o tentava...
— Essa nunca! — prosseguiu ele, muito compenetrado. — Para se poder falar de alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Nós, infelizmente, somos fracos... E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me «há-de ser assim», não estou!... Pois não acha, Steinbroken?

O ministro tossiu, balbuciou:

— Certainement... C’est très grave... C’est excessivement grave...

Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado...

Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.

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(...) um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado...

-

— Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas. Libertaram- se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção da moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!

(...)

In Eça de Queirós, Os Maias

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Todo Eça em O CASTENDO:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!

(...)

Um dos círculos menos disputados era, nessa ocasião, o de Freixo de Espada à Cinta. Propunha-se como deputado da oposição um obscuro Gervásio Maldonado, proprietário local, com uma parentela larga na terra, interesses de lavoura, etc., e o governo Cardoso Torres combatia-o, apresentando na lista governamental, como candidato por Freixo de Espada à Cinta, o moço bacharel Artur Gavião, filho do presidente do Banco Nacional, que o pai, cansado da sua dissipação, queria forçar, pelos deveres que lhe imporia S. Bento – isto é o Parlamento – a uma vida disciplinada, sóbria e útil.

Conta-se que o Sr. Alexandre Herculano, a este respeito, dissera, com aquele espírito misantropo que a sua voz ríspida acentuava de um relevo amargo:

– Se o Gavião queria morigerar o rapaz, devia-o conservar no bordel, e não o mandar para o Parlamento!

Mas o que eu penso do Sr. Alexandre Herculano, dos seus ditos, da sua misantropia, da sua moral e das suas letras, escrevê-lo-ei um dia, desassombradamente.

O Sr. Artur Gavião (que tão desgraçadamente morreu depois afogado ao pé de Caxias), era pois o candidato governamental por Freixo de Espada à Cinta, quando Joaquim Osório Teixeira, ministro da Justiça, declarou, com decisão, que era sim-plesmente uma afronta ao Bom-Senso, à Câmara e à Dignidade do Governo, nomear por Freixo de Espada à Cinta um indivíduo que, às quatro horas da tarde, descia o Chiado, numa tipóia, com meretrizes andaluzas, inteiramente embriagado.

Gavião pai, mais tarde, afirmava que esta oposição do ministro da Justiça não era inspirada por puros motivos de moralidade pública, mas constituía a vingança pessoal de uma antiga humilhação, caso complicado de letras a três meses, etc., etc... como ele acrescentava com uma reticência maligna.

O Presidente do Conselho, porém, amigo do Gavião, e desejando conservar ao Governo aquele sólido apoio do Capital e da Propriedade, insistia na candidatura do libertino Artur.

Um dia, contudo, Joaquim Osório Teixeira declarou que faria dessa candidatura uma questão pessoal, que ele não podia autorizar o patrocinato legal do deboche, e que, se o Colega Cardoso insistisse, ele, Joaquim Teixeira, trotaria para Sintra a pôr a sua demissão nas mãos de S. M.

Cardoso, receando o conflito, riscou sem mais observações da lista governamental o nome do jovial libertino.

À noite, porém, em casa, ao chá, exprimiu com azedume o seu embaraço: não só descontentava o Gavião pai – um colosso – mas aí ficava o círculo de Freixo de Espada à Cinta vazio, viúvo...

– Homem – acudiu imediatamente o Dr. Vaz Correia, velho amigo da casa – parece-me que tenho exactamente o que lhe convém: o Alípio Abranhos!

Cardoso Torres não o conhecia pessoalmente. Vaz Correia, porém demonstrou-lhe com abundância eloquente as vantagens da escolha: como família, Alípio era um Noronha; como ilustração, um premiado; como posição de fortuna, era genro do Amado; como experiência política, fora redactor da Bandeira, formado na prudente escola do taciturno e profundo Conselheiro Gama Torres; como maneiras – um fidalgo; como lealdade – um Baiardo!

E Cardoso, apontando-lhe imediatamente no livro de notas que trazia sempre consigo, o nome, a idade, a morada e os prémios, retomou a sua xícara de chá, dizendo:

– Pois mande-mo cá. Metemo-lo por Freixo!

As eleições realizaram-se daí a três semanas e o ministério teve uma maioria compacta, sólida, homogénea.

Os jornais da oposição, é certo, afirmaram que, como corrupção, tricas, violências, peitas, influências obscenas, não só continuavam a tradição obsoleta dos Cabrais, mas ofereciam a evidência dolorosa da nossa decadência social!

O Estandarte dizia: «É imenso como torpeza; mas nós aplaudimos, porque um ministério que assim procede, inspira, ipso facto, um nojo genérico. Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!»

O Progresso Social afirmava: «somos o escárnio da Europa!»

A Nacionalidade informava com chiste: «Está averiguado que a maior parte das urnas tinham fundos falsos: nada admira o expediente, vindo de um ministério de pelotiqueiros» – aludindo maliciosamente ao ministro das Obras Públicas, cuja perícia em fazer habilidades com cartas era geralmente estimada e muito apreciada na socie-dade.

Mas o Globo, jornal do Governo, teve esta saída resplandecente: «O Estandarte,.jornal dos Bexigosos, escreve no seu artigo de ontem: «O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!» Este plagiato é torpe: aquela frase foi escrita por nós, ipsis verbis, no nº 1214 deste jornal, na ocasião em que os Bexigosos elegeram a câmara passada».

Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma nódoa – e se queriam suprimir com benzina! Ah, quando se compenetrará a Imprensa da elevação do seu sacerdócio?

A única eleição que nunca foi vituperada nos jornais da oposição foi a de Freixo. Com efeito Alípio Abranhos, logo que soube da sua nomeação, prevendo os uivos da minoria, correu as redacções, onde, do tempo da sua colaboração na Bandeira, conservara ligações afectuosas, e foi dizendo, aqui e além, com uma notável habilidade política:

– Vocês compreendem. Eu venho por Freixo. Venho pelo Governo... Mas eu não me liguei, não me comprometi. Estou na expectativa. Vocês compreendem...

Compreenderam, creio – e a Nacionalidade escreveu mesmo: «o melhor resultado destas eleições, foi mandar à Câmara o nosso antigo condiscípulo, o Ex.mo Alípio Abranhos, esposo da formosa filha do digno Desembargador Amado, e que já nos bancos da Universidade era justamente reputado pelos seus dotes notáveis de orador».

(...)

In Eça de Queirós, O Conde d'Abranhos

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Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma nódoa – e se queriam suprimir com benzina!

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Eu sou um camelo e você é Minerva

(...)

De resto, caro Chagas, você tem razão. Ninguém ignora que eu sou um camelo. O meu lugar não é aqui no Atlântico: é lá ao longe, na extensa fila da minha caravana, pelo deserto fora, em direitura à costa do Hejaz, levando um fardo entre as duas corcundas, ruminando a ração de cardos, de olho cerrado e lábio pendente, balançando-me em cadência à melopeia de marcha que o guia vai cantando às estrelas. Enquanto que você, a própria sabedoria, com todos os atributos divinos da antiga Minerva, da Palas vencedora, a luminosa padroeira de Atenas, você tem o capacete, a lança, a dupla couraça de ouro sobre os dois seios, e a túnica caindo em pregas dogmáticas: assim se explica o nimbo cor de aurora que o acompanha, e o suave aroma de ambrósia e rosa que de si se exala. Você é Minerva, você é deusa.

Somente, deixe-me lembrar-lhe que Minerva era modesta. Em geral os deuses eram modestos: misturando-se tanto à vida dos homens, temiam-lhes muito o sarcasmo. E os homens mesmo, presentemente, quando têm algum valor também são sempre modestos. Os grandes ares de sabichão, como os ares de ricaço, como os ares de valentão, passaram totalmente de moda.

Há hoje nas sociedades cultas um tom geral de bom gosto, de ironia, de fino senso, que põem bem depressa no seu lugar os fanfarrões da sabedoria, do milhão ou do músculo.

Ao nababo que nos agita diante da face uma bolsa cheia de ouro, dizendo: —Pobretões! eu cá sou rico! responde-se tranquilamente: — Talvez, mas és grosseiro!

Ao mata-sete que nos mostre os seus pulsos de Sansão, e nos grite: — Fracalhões, eu cá sou forte! replica-se friamente: — Talvez, mas és brutal!

E ao sabichão que, com quatro volumes debaixo de cada braço, nos venha dizer, de alto: — Ignorantes! eu cá sou sábio! responde-se serenamente:— Talvez, mas és pedante!

E este tom, meu caro Chagas, é indispensável. Se não, os ricaços, os valentes e os sabichões, coligados entre si, tornariam bem cedo a sociedade inabitável.

Estas coisas passam-se assim, nas relações de homem para homem: mas, evidentemente, outro e bem diverso é o nosso caso. Eu (como você diz) sou um camelo; você (como eu afirmo) é Minerva. Está claro que devem ser reguladas por uma lei diferente, as relações entre uma deusa e uma besta de carga.

(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas.

Todo Eça em O CASTENDO:

No «episódio Vital» no 1º de Maio quem serão as «deusas» que querem fazer passar outros por «bestas»?   

                                                                    

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                                     
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Quinta-feira, 19 de Março de 2009

E então o senhor padre faz certas proibições e prescreve abstenções

Eis aí, espetada na ponta da nossa pena, mais uma proeza eclesiástica. Os senhores padres prodigalizam-se, e os seus feitos despertam a cada momento, com um rumor irritado, o silêncio da opinião. O País está com o clero, como um homem débil e nervoso que sente umas unhas compridas raspar a cal da parede. Encolhe-se, dobra-se, geme. E termina por mostrar aos senhores eclesiásticos os seus dois poderosos punhos - fechados e impacientes.

(...)

O sermão obsceno é uma particularidade minhota dos senhores missionários. Um de suas senhorias sobe devotamente ao púlpito, e depois das ave-marias murmuradas, olha pausadamente a multidão feminina, apertada e contrita, e com gestos sumptuosos, anuncia que vai tratar da castidade. Tratar da castidade significa contar a que se arriscam, nos futuros infernos de além-vida, os que cometem os ternos pecados do amor. E então o senhor padre, revolvendo o assunto com a sofreguidão com que um avaro revolve o dinheiro, dilata-se, explica, diz as palavras próprias cruamente, descreve, conta anedotas, especializa atitudes, faz certas proibições, marca dias, prescreve abstenções, divide as espécies, aprofunda, exalta-se, clama - e as mulheres coram. E a Correspondência de Portugal contava ultimamente que, num desses derradeiros sermões, o povo rompeu num grande tumulto indignado, e saiu do templo como de um lugar desonesto. Tal é o sermão galante.

(...)

Uma Campanha Alegre (Volume II: Capítulo XXVIII: O sermão político), por Eça de Queirós

Leituras:

Vídeo dos Monty Python:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                               

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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

As coisinhas minúsculas e as ideias e as palavras que ficam

(...)

Creio que esta será, a nosso respeito, a impressão geral e definitiva: estamos fazendo muito barulho por causa de muito pouco toucinho...

E pensarmos nós, caro Chagas, que enquanto você está aí ocupado a compor no Atlântico uma formidável equação algébrica, para provar (Deus me perdoe!) não sei que coisas sinistras sobre as Molucas, enquanto eu me estou aqui abandonando a este pairar indiscreto — o grande Darwin publica o seu livro do Movimento das Plantas, o professor Huxley lança o seu grande manifesto da Educação Científica contra a Educação Clássica, Zola dá-nos o seu prodigioso trabalho sobre Gustavo Flaubert, tantos outros trabalham e criam, e o Génio do século forja, com um ruído sublime, na sua bigorna de bronze e ouro, as ideias e as palavras que ficam!

E nós, aqui, a escrevinharmos não sei que coisinhas minúsculas, que, apenas rabeiam um momento sobre o papel, são logo pó imperceptível!... — Você não tem vontade de se atirar a um poço? Eu tenho.

(...)
Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Leituras aconselhadas de Eça:

Todo Eça neste blog: 

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Sábado, 14 de Março de 2009

Injuriar Portugal, deitar peçonha no Alviela e dinamitar a estátua de Camões!

(...) 

Creio que temos conversado bastante. Não terminarei, porém, sem aludir a uma parte do seu artigo que me não parece prudente: é quando você fala de somas recebidas da Gazeta de Notícias, do alto preço por que me vendi para injuriar o país, etc... Eu bem sei que você usou notáveis precauções oratórias: mencionou o boato, e demoliu logo o boato; depois tornou a pôr de pé o boato, para volver a derrubá-lo com furor. Isto é amável; mas enfim você traiu a confidência, que eu lhe fiz. Lembra-se, Chagas? Foi naquela noite de tormenta, na encruzilhada, a poucos passos da capela solitária onde estava dobrando a finados. Eu cheguei rebuçado num manto cor de treva, e punhal à ilharga, deixando pela sombra um tinir de esporas. Um relâmpago fuzilou, e houve um tremolo na orquestra. Até eu lhe disse, lembro-me bem: 

— Meu Chagas, esta situação patética parece mesmo inventada por você, amigo! 

Você respondeu, com engenho: 

— Parece. Eu teria colocado alguma luz eléctrica, batendo as roupagens de uma virgem, cuja alma o mundo não compreende... 

Então eu arrastei-o para o pé do cruzeiro, onde bruxuleava uma lâmpada; e, sentados sobre os degraus de pedra fria, eu comecei a contar-lhe o meu segredo: que a Gazeta de Notícias me dava um milhão (um milhão em ouro) para eu injuriar semanalmente Portugal, deitar peçonha nas nascentes do Alviela e fazer saltar pela dinamite a estátua de Camões!

Você tremeu, amigo! E murmurou-me ao ouvido estas palavras:

— Prudência, prudência...

Eu repliquei com furor:

— Hei-de beber o sangue a Portugal. Hei-de beber-lho! 

Um trovão retumbou. Sobre um dos braços da cruz piou um mocho. E separámo-nos, na estrada negra, quando dava a meia-noite na torre da catedral.

Você tinha-me jurado segredo. E vem agora publicar tudo no Atlântico! Hei-de assassiná-lo no quinto acto...

(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Leituras aconselhadas de Eça:

Todo Eça neste blog: 

Mais leituras sobre «terrorismo»: 

Vídeo: 

Uma sugestão para José M. D. Barroso e outros. Da próxima vez que for necessário justificar o massacre de um país digam também que «eles» querem deitar peçonha na barragem de Castelo do Bode, fazer saltar pela dinamite a estátua de Camões e beber o sangue a Portugal! E não se esqueçam de jurar que viram as provas...

E de quem vos contradisser digam que se vendeu por «alto preço».

                                                                       

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                               

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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

E o monstro ainda não está no Santo Ofício?

(...)

Começou então o voltarete do senhor marquês. Você não foi admitido à partida do fidalgo: fez apenas um gamão subalterno com um monsenhor da Patriarcal. E pela sala, no entanto, iam sussurrando as conversações.

Discutia-se o processo de uma linda mulher de Alfama que comia crianças em salada: um desembargador aconselhou, para curar quartas, pérolas que tivesse usado a Rainha, moídas em pó: falou-se da escandalosa aparição de Belzebu no convento do Sacramento de Alcântara: e uma dama contou do judeu que dera uma dentada na perna do Senhor dos Passos da Graça!...

Isto arrepiou de horror. E foi então que você, Pinheiro Chagas, disse, depois de se pitadear com gozo:

— Mas há pior! Há pior!...

— Pior que a dentada? Não, ninguém podia acreditar que houvesse pior!

E você, pausado e grave, narrou o meu nefando caso: um herege, um jacobino, um traidor comprado pelo ouro do Brasil, tinha escrito que Portugal fora uma colónia brasileira, e que houvera horrores na nossa dominação da Índia!...

Fez-se na sala um silêncio trágico. As sedas, apavoradas, encolheram-se contra os monsenhores. De comovido, o herdeiro ilustre da casa de Ângeja perdeu a vaza. E os morrões das tochas pareceram mais tristes...

O sr. prior de S. Julião, esgazeando o seu olho de coruja, exclamou a tremer:

— E o monstro ainda não está no Santo Ofício?

— Trago-o de olho, meu reverendo — disse você, severo. — E hei-de ir falar ao Manique...

Ciciou então pelo sarau um suspiro de alívio. A sociedade estava salva! Chagas velava.

Já em baixo tilintavam os guizos das liteiras. Saiu-se. E foi você que, chegando-se ao senhor arcebispo de Tessalonica, e querendo resumir numa palavra todo o mundo de verdades e de ideias que se agitara nesse sarau, o esplendor intelectual que aí brilhava e para que você concorrera — disse respeitosamente ao prelado:

— Portugal é pequenino, mas é um torrãozinho de açúcar.

E sua eminência replicou, depois de arrotar:

— Tem você razão, brigadeiro Chagas.

Brigadeiro, sim! Brigadeiro do tempo da senhora D. Maria I! O último brigadeiro patriota!

(...)
Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

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Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Falar por ordem de uma associação secreta...

    

(...)

A Nação tem sobre os conferentes do Casino esta admirável opinião:
Que eles iam ali falar, não por vontade sua, mas por ordem de uma associação secreta;
Que nenhum acto seu é espontâneo, mas execução de uma ordem da Internacional;
Que nada lhes pertence, em próprio, nem a acção, nem as ideias, nem o nome!
De modo que se um conferente toma à noite um sorvete no Áurea, é porque recebeu pela manhã este sinistro telegrama:
«Comité central: 7 da manhã. - Esta noite tomai sorvete botequim. Conveniente levantamento classes operárias! Em sorvete intransigentes. Viva a comuna! De morango!»
E o Sr. Antero de Quental, de ora em diante, terá de assinar assim o seu nome:
Antero (por assim dizer) de Quental (se ouso exprimir-me assim).
Ó Nação, tu és grande!
(...) 

Uma Campanha Alegre, (Volume I: Capítulo XIII: Máximas e opiniões da Nação, jornal), por Eça de Queirós

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Arrasar o bei de Tunes

    

(...)
Neste momento, eu vejo daqui o leitor honesto, que vai percorrendo estas linhas, parar, pousar o jornal, o seu charuto, e dizer de si para si, ou às senhoras que costuram ao lado:
—Esta é singular! Caso lamentável e raro! O quê! é isto o que ele tinha escrito? Então, o procedimento do Sr. Pinheiro Chagas não me parece regular. Pois o outro cita as palavras de um jornal inglês, ofensivas para Portugal, condena-as como perversas e descorteses, e o autor da Morgadinha de Valflor atribui-lhas a ele e quer-lhe fazer suportar a responsabilidade delas? Se isto são costumes e maneiras literárias, bem faço eu em odiar os literatos! Porque é que o Sr. Pinheiro Chagas não citou o que o outro escrevera? Caso triste e antipático!...
Riamos, meu caro Chagas, riamos aqui a este canto, abraçados um no outro! Rebolemo-nos! Como se vê que aquele honrado homem, que lê o Atlântico, ignora as amarguras, as necessidades formidáveis do jornalismo... A querer que você me citasse! O ingénuo! Se você me citasse, não podia fazer o artigo: e você tinha absolutamente de fazer o seu artigo!...
Eu conheço a situação: é medonha. Na véspera tem-se dito ao director do jornal, apertando-lhe ferventemente a mão, e com a voz a tremer:
—Palavra de honra, menino. Pela minha vida, que tens lá o artigo, além de amanhã, às nove horas. Eu sou incapaz de te comprometer! Juro-to, pela alma de meus filhos... Boa noite. Lá o tens!
Depois, naturalmente, como você sabe, não se pensa mais no artigo. Mas, cruel destino! no dia aprazado, lá toca a campainha, lá chega, fatal, implacável, irrevogável — o moço da tipografia!
É horroroso. Sobretudo quando ele usa botas que rangem! Fica à espera, passeando no pátio ou no corredor: e aquele lento gemer de solas tristes, cadenciado e acusador, alucina!
E cá no nosso gabinete, que pavorosa luta! As cinco tiras de papel ali estão sobre a mesa, lívidas, irónicas, vazias: e é necessário enchê-las todas, de alto a baixo, com coisas extraídas do nosso interior.
É trágico. A parte da carcaça humana a que se recorre primeiro é naturalmente ao crânio, depósito de ideias, impressões, adjectivos e teorias; aperta-se o crânio nas mãos frementes; sacode-se o crânio como uma velha algibeira: — nada sai do crânio. E as botas ao longe, a ranger!
Maldição! Recorre-se então ao peito, asilo dos afectos, dos sentimentos generosos. Talvez de lá saia um canto, um grito, uma apóstrofe. Arranha-se convulsivamente o peito; bate-se desesperadamente no peito como numa porta fechada: — o peito fica mudo como o crânio. E as botas ao longe a ranger!
Inferno! E então os crentes rezam à Virgem Maria; os ateus invocam a morte, a doce aniquilação da matéria; os mais violentos pensam em atrair o moço da tipografia com palavras doces, cortá-lo aos pedaços com uma navalha de barba, esconder os fragmentos na sarjeta doméstica... E as botas, lá no fundo, ironicamente, rangem!
Ah, caro Chagas, é daí que vêm as cãs precoces. Sabe você o que eu fiz numa destas agonias, sentindo o moço da tipografia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da pena e dei, meio louco, uma tunda desesperada no bei de Tunes...
No bei de Tunes? Sim, meu caro Chagas, nesse venerável chefe de Estado, que eu nunca vira, que nunca me fizera mal algum, e que creio mesmo a esse tempo tinha morrido. Não me importei. Em Tunes há sempre um bei: arrasei-o.
Por isso eu compreendo bem que você não me pudesse citar. Que diabo! se me citasse, adeus belas frases! adeus belo patriotismo! adeus belo artigo! — E você ouvia, no corredor, as solas malditas rangendo. Talvez eu, no seu caso, tivesse feito pior ...
O leitor compreende agora as razões de ordem íntima que impediram o meu amigo e colega Pinheiro Chagas de me citar?
(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

 

Exemplos de como redigir um texto, seguindo o conselho de Eça, quando não se pode «arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre»: 

  • «Sejam quais forem os agravos em relação a outro País, há regras de convivência internacional que não consentem ofensas gratuitas nem linguagem de caserna nas palavras de um chefe de Estado contra outro Estado. Desta vez o bei de Tunes ultrapassou-se a si mesmo.»

    Adaptado de Despautérios verbais 

  • «Embora inatacável quanto à sua lisura e genuinidade que veio afastar os limites constitucionais à reelegibilidade do bei de Tunes, o referendo constitucional não pode ser aplaudido sob um ponto de vista democrático-republicano.»

    Adaptado de Sem limites  

  • «Há pouca gente com dúvidas, mas também sem certezas. Há na CIA, nas Nações Unidas, gente com dúvidas sobre se as "provas" que os americanos apresentam são mesmo provas a sério, mas são mais dúvidas sobre as "provas" do que sobre o facto do bei de Tunes ter armas de destruição maciça

    Adaptado de O DELITO DE OPINIÃO: AS "MENTIRAS"

  • etc. etc. etc.

 

E depois de uns bons meses de campanha atacando «esse venerável chefe de Estado», lá para Julho e Agosto pode ser começada outra do género: Escândalo! O bei de Tunes vai à Festa do Avante!

                                                                       

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                          

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Domingo, 1 de Março de 2009

Patriotaças, patriotinheiros, patriotadores, ou patriotarrecas

(...)

O outro patriotismo é diferente: para quem o sente, a pátria não é a multidão que em torno dele palpita na luta da vida moderna — mas a outra pátria, a que há trezentos anos embarcou para a Índia, ao repicar dos sinos, entre as bênçãos dos frades, a ir arrasar aldeias de mouros e traficar em pimenta. Esse, a sua maneira de amar a pátria é tomar a lira e dar-lhe lânguidas serenadas. Esse sobe à tribuna do Parlamento ou ao artigo de fundo, e de lá exclama, com os olhos em alvo e o lábio em luxúria: Oh pátria! Oh filha! Ai querida! Oh pequena! que linda que és! — exactamente como tinha dito na véspera, num restaurante, a uma andaluza barata. Esse, coisa pavorosa! não ama a pátria, namora-a; não lhe dá obras, impinge-lhe odes. Esse, quando a pátria se aproxima dele, com as mãos vazias, pedindo-lhe que coloque nelas o instrumento do seu renascimento — põe lá (ironia magana!) o quê? os louros de Ceuta! Quando o povo lhe pede mais pão e mais justiça, responde-lhe, torcendo o bigode: — Deixa lá... Tu tomaste Cochim.

É esse patriotismo que, quando alguém solta uma verdade, acode de mão à cinta, e com a Monarquia de Frei Bernardo de Brito apertada ao coração, exclamando: — Olá, que injúria é essa à pátria? Pois não sabes tu, ignorante, que nós somos ainda temidos na Índia? E a prova tenho-a neste in-fólio! E querendo garantir a indolência própria, por uma grande inércia pública, esse patriotismo aconselha que se não faça nada, nada se estude, nada se crie — porque o senhor D. Manuel foi outrora um grande rei! E apenas um homem sincero tenta despertar a alma portuguesa e o seu génio do sono em que ela se afunda — esse patriotismo corre, debruça-se, e procura tornar esse sono da pátria mais pesado e mais profundo, cantando-lhe ao ouvido a lenda embaladora da tomada de Arzila!

Este patriotismo, caro Chagas, é o dos brigadeiros vestidos à moderna. E, lamento ter de dizê-lo, parece-se muito com o seu. Os Franceses chamam-lhe chauvinisme: eu chamar-lhe-ia entre nós patriotice. E aos que o cultivam daria os nomes (segundo os seus diferentes temperamentos) de — patriotaças, patriotinheiros, patriotadores, ou patriotarrecas. É o vício fatal que leva às catástrofes. É ele que não deixando fazer nada sob o pretexto que já se fez tudo, imobilizando a nação num pasmo fictício para o passado, que a impede de trabalhar pelo futuro — é ele que dá à Áustria Sadova e à França Sedan. É ele que grita no bulevar: A Berlim! a Berlim! — quando moralmente no bulevar já marcham os Prussianos. Fazendo discursos como Mr. Prudhome, produz finais como Ésquilo. E têm depois os patriotas de vir recompor as ruínas que fizeram os patriotinheiros!
(...)

Eça de Queirós, Brasil e Portugal, Notas Contemporâneas

«...a pátria (...) é a multidão que (...) palpita na luta da vida moderna...»

 

Mais leituras:

«...a ir arrasar aldeias de mouros e traficar...»       

                                                                       

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

                                                                   

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:03
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