Terça-feira, 3 de Junho de 2008

Fábrica de notícias, manipulação de consciências

Texto de José Paulo Gascão

   Sob o título «Relatório da Interpol sobre os computadores de número 2 das FARC exaspera Hugo Chávez», o «Público» do passado dia 17 de Maio (sábado) publicou uma longa notícia, onde afirma que «A Interpol anunciou quinta-feira o resultado da análise aos computadores de Raul Reyes, o segundo comandante das FARC, morto em Março por tropas colombianas no Equador: ninguém corrompeu, garantiu, os dados guardados». Depois do sub-título «Media manipulados?», continua com uma citação de El País anterior ao Relatório da Interpol: «com base em fontes próximas dos investigadores Chávez (…) teria dado armas e dinheiro à guerrilha colombiana…»! O noticiário da RTP seguiu nesta peugada.
Mas o que conclui o relatório, sobre o que verdadeiramente importava?

Conclusões do Relatório [1]

Pese o enorme esforço das conclusões (pag. 8/41 e segs.) em darem margem de manobra ao governo colombiano, o relatório conclui que:


- As autoridades colombianas entregaram como «provas» computadores portáteis (três), discos duros externos (dois), PENs (três), num total 609,6 gigabytes de dados em forma de documentos, imagens e vídeos (conclusão nº 1). No relatório dizem que estes dados correspondem a 39,5 milhões de páginas A4!
- Que as autoridades colombianas acederam a todas as provas instrumentais. (conclusão 2)
- Que as autoridades colombianas especializadas procederam correctamente, de forma a preservar o conteúdo original das provas (conclusão 2.a).
- Que entre as 7:50 horas de dia 1 de Março e as 11:45 do dia 3 de Março, momento em que as provas foram entregues ao Grupo Investigativo de Delitos Informáticos ... (DIJIN) das forças militares colombianas tiveram «acesso aos dados contidos nas citadas provas [e este] não se ajustou aos princípios internacionalmente reconhecidos para o tratamento» destas provas (conclusão 2.b).
- Não encontrou indícios que «se tenham criado, modificado ou suprimido arquivos de utilizador em nenhuma das ditas provas»! (conclusão 3).

                             
Na explicitação das conclusões, páginas 31/41 e segs., afirma-se (por razões de espaço somámos os items de cada prova) que no conjunto das provas, foram:


- «criados» 7.868 arquivos de sistema;
- «abertos» 27.901 arquivos de sistema e de utilizador;
- «modificados» 9.381 arquivos de sistema;
- «suprimidos» 2.905 arquivos de sistema;
- Que entre 7 de Março de 2009 e 16 de Outubro de 2010 (não é gralha, são estas as datas) foram criados 4.244 (quatro mil duzentos e quarenta e quatro) arquivos, dos quais 699 continham música, vídeos e imagens!


Em que ficamos?

O que a Interpol não concluiu e tinha obrigação de se pronunciar

Antes de mais, que as «provas» que lhe foram apresentadas e os documentos nelas contidos eram autênticos ou falsos.
Não se interroga como, depois de um bombardeamento arrasador que destruiu totalmente o acampamento, os 3 computadores (para que queria Reyes 3 computadores na selva equatorial?) ficaram intactos. Alguém no seu perfeito juízo acredita que no pouco tempo que durou o ataque e a aterragem dos helicópteros para recolher os cadáveres, ainda pudessem encontrar no meio dos destroços, 2 discos duros externos e 3 minúsculas PENs em perfeitas condições de utilização?
A INTERPOL tem um longo passado de suspeição e colaboração com regimes ditatoriais (ver AQUI), por isso, entre outros, foram seus presidentes Heydrich, nº 2 das SS nazis, o português Agostinho Lourenço, principal responsável da PIDE, até culminar com Jackie Selebi, obrigado a demitir-se em Fevereiro de 2008, quando se tornou pública a acusação de ter recebido 170 mil dólares para proteger o narcotraficante Glen Aglioti
Ronald K Noble, actual secretário-geral da Interpol, é um fiel funcionário do império. Apesar dos seus 51 anos, já passou pelo Departamento do Tesouro onde criou os seus serviços secretos, foi encarregado da aplicação do bloqueio a Cuba, etc…
Ao contrário do que se pretende fazer crer, a Interpol não é uma polícia internacional e nunca foi isenta. É um organismo de troca de informações, hoje dominado pelos EUA. Por isso foi presidida por um director da PIDE e não da Polícia Judiciária.
A apelo de Uribe à Interpol é feito com a certeza de que esta organização lhe iria dar alguma margem de manobra para continuar a especular sobre os pretensos documentos de Reyes. O Relatório é um repositório de confusões disfarçadas (entre quem e como acederam às «provas» na Colômbia), de promoção da sua «imparcialidade», numa demonstração de má consciência, e de omissões comprometedoras: poderiam aquelas provas ter pertencido a Raul Reyes?

Os media e a Central Mediática do Imperialismo

A escolha da Interpol não é inocente. Era preciso um Relatório que não concluindo o impossível (o governo não mexeu no computador antes de o entregar ao DIJIN) permitisse alguma margem de manobra a Uribe e à elaboração de notícias pelo central imperial de notícias. Depois, os media periféricos como o Público e El País cumprem o papel de divulgar no mercado o produto da fábrica de notícias.
Vivemos um tempo da informação única, onde investigar (ler o Relatório da Interpol) é perder tempo e produtividade. Vivemos um tempo em que «a informação que temos não é a que desejamos. A informação que desejamos não é a que precisamos. A informação que precisamos não está disponível» (John Peers). As «notícias» do Público e a da RTP do dia 17 de Maio, de conteúdo semelhante, são um exemplo mais de que a informação que temos não só não é a que desejamos, como é a elaborada no que podemos chamar a central de elaboração de noticias do Império e depois divulgada, urbi et orbe pelos media periféricos. Tem um pouco de verdade (há um relatório da Interpol) e muito de divulgação do que se quer fazer crer como verdade – «…ninguém corrompeu, garantiu [a Interpol], os dados guardados»!
Como disse Luís Fernando Veríssimo, vivemos um tempo em que «às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data».

(sublinhados meus)


Lisboa, 24 de Maio de 2008


[1] O relatório oficial (em castelhano) está disponível AQUI     
                                          

sinto-me:
publicado por António Vilarigues às 00:03
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