Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos...

(...)

Rolam dias iguais a todos os dias; o Outono chega, cavalgando o vento. E Gineto mantém a mesma fé de quando entrou na prisão.

Através da cela, ouve tropel de cavalos e alarido de muito povo, a entrecortar um sussurro distante, confuso, de música e tiros e vozes... É a Feira. Gineto anima-se, crente de que os companheiros virão buscá-lo neste dia de festa, trazendo Rosete com eles. Encosta a face às grades, espera o regresso à vida livre.

Uma voz canta, mesmo por baixo da janela, uma canção que ele ouviu, certa tarde, no alto do Mirante. Ele grita:

— Gaitinhas! Tou aqui, Gaitinhas!

Mas a voz afasta-se. Gaitinhas-cantor vai com o Saguí correr os caminhos do mundo, à procura do pai. E, quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais — moços que parecem homens e nunca foram meninos.

-

Final de «Esteiros» , de Soeiro Pereira Gomes, livro que tem a seguinte dedicatória:

«Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro»

(...)

A sua obra de escritor é curta, mas valiosa e significativa. A par dos «Contos Vermelhos», em que narra episódios da vida e da luta clandestina, e do romance «Engrenagem», inspirado pela sua experiência na Cimento Tejo, a sua afirmação como romancista revela-se com «Esteiros» escrito e editado antes de passar à clandestinidade.

«Esteiros» é uma comovente história da vida de crianças que (como ele escreveu) «nunca foram meninos». Uma história de trabalho infantil; de miséria; de picardias, de audácia e aventuras, transbordando qualquer coisa de heróico na vida dessas crianças.

«Esteiros» foi desde logo considerado e reconhecido como uma pequena obras prima. Pediu-me que a ilustrasse e assim fiz, certo porém de que os modestos desenhos não eram dignos do valor da obra literária. Observação atenta da vida, «Esteiros» é um romance de profundos sentimentos de amor e ternura pelas crianças e transmite (sem o explicitar) a indignação pela exploração e miséria de que são vítimas.

Este romance traduz (não em termos de análise política, mas com igual força de expressão e convencimento) o humanismo dos ideais e da luta dos comunistas.

Trecho de um depoimento de Álvaro Cunhal in «Avante!» Nº 1359 - Soeiro Pereira Gomes

Este "post" é dedicado às crianças vítimas da pedofilia, a propósito da leitura da sentença do "Processo Casa Pia"

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Sábado, 7 de Agosto de 2010

Ao camarada João...

(...)

Quando entrou no quarto, o seu refúgio, atirou-se para cima da cama, satisfeito. Ainda desta vez, escapara! Apesar de haver perdido a noite anterior, não tinha sono; apenas lhe doíam os pés, com certeza cheios de bolhas rebentadas sob as meias coladas à carne, como de costume. Há três meses naquela tarefa — ir buscar o material de propaganda, distribuí-lo —, ainda não calejara os pés, como os outros camaradas, que aguentavam muitos quilómetros. «É verdade! Há três meses que mergulhara na vida clandestina! Noventa dias de luta, fugido aos esbirros fascistas, partilhando dum lar estranho, embora amigo, ali no quarto estreito que era todo o seu mundo de repouso, de estudo e de sonho, às vezes. Gostava bem daquele quarto de tecto baixo e paredes manchadas pela humidade, com a cama de ferro a um lado, sem colcha; uma mesa tosca, no outro, além da mala; e uma janela que dava para as traseiras dos prédios, mas da qual se via, ao fundo, uma nesga do rio.

De tarde, quando o sol emprestava reflexos de espelho aos vidros sujos ou partidos das traseiras, à hora em que os inquilinos regressavam do trabalho, pejando as ruas da cidade, Abel encostava-se ao peitoril da sua janela e ficava-se a partilhar da vida alegre ou triste dos vizinhos. Os homens, em mangas de camisa, entretinham-se a consertar velhas capoeiras, ou regavam com desvelo uma nespereira raquítica que nunca daria frutos, enquanto as mulheres punham a mesa nas estreitas varandas, se havia bom tempo, e os cachopos saltitavam como pássaros famintos.

Gostavam dele, os cachopos. De longe, mostravam-lhe os tristes brinquedos, atiravam-lhe beijos e tiros imaginários; e ele retribuía com momices que os sufocavam de riso. Também nada o desesperava tanto como ouvir à noite, de repente, entre falas azedas, o choro agudo de uma criança. Assomava então à janela e tentava adivinhar o que se passava para além da escuridão. Certa vez, increpou mesmo uma vizinha que batia na Luisinha, uma garota loira que se parecia com a irmã dele, a mais nova.

— Para que bate assim na menina? Se calhar, ela tem alguma dor, e é por isso que esperneia. Deixe-a.

A voz saiu-lhe áspera, e a mulher ripostou: — Quem é você para me dar leis? Ora o fúfia! Meta-se na sua vida.

Quem era?... A bem dizer: ninguém. E a sua vida era a de todos os proletários do seu país, de todos os famintos de pão e de justiça; era a vida também daquela mulher desesperada, sabia-se lá porquê. Miséria, está bem de ver. «Ah! mas um dia... uma certa manhã de sol radioso... sim, de sol...»

(...)

Extracto do conto «Refúgio perdido», de Soeiro Pereira Gomes, dedicado «Ao camarada João, que inspirou este conto». «João» era o pseudónimo usado na clandestinidade por António Dias Lourenço

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adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge

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Quarta-feira, 31 de Março de 2010

Leitura Obrigatória (CXCVIII)

Engrenagem (Soeiro Pereira Gomes)

É em Engrenagem que o estudo da evolução da consciência social dentro das condições determinadas de trabalho, de relações de produção e de luta de classes, adquire proporções e uma profundidade nunca atingidas na literatura portuguesa. Aí a obra de Pereira Gomes é radicalmente revolucionária, veio abrir novos caminhos. É como se um laboratório (mas laboratório da vida) submetesse à experiência a consciência social de pessoas que, de súbito, entram num ambiente de trabalho que inteiramente desconheciam – o das relações de produção industriais.

Augusto da Costa Dias


In Edições «Avante!»

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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Unidade e diversidade no neo-realismo português

                   

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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Leitura Obrigatória (CLXXIII)

Esteiros (Soeiro Pereira Gomes)   

A obra de Soeiro Pereira Gomes nasceu do seu empenhamento na luta ao lado dos trabalhadores, de todos os explorados.

Nasceu da sua militância no Partido, ao qual consagrou por completo a vida.

A beleza dessa obra, o seu rigor, a sua força mobilizadora que convidam à solidariedade e à luta os que o lêem, são fruto, em grande parte, de tal empenhamento e tal militância.

Por isso é uma obra de liberdade e libertadora.
                             
Augusto Costa Dias

                                                     

In Edições «Avante!»

                               
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Sábado, 30 de Maio de 2009

Leitura Obrigatória (CLIII)

     Contos Vermelhos e Outros Escritos (Soeiro Pereira Gomes)

Pereira Gomes teve de deixar casa e família para mergulhar na noite clandestina. Era um intelectual, mas sem verniz. A rudeza da vida na clandestinidade, as mil carências e perigos, a exigência de tarefas complexas, temperaram o militante e moldaram o dirigente.

Membro do Comité Central, a sua actividade desdobrou-se numa escala mais vasta. Mesmo assim o escritor que ele era não morreu. A sua pena debruçou-se sobre a modesta elegia dos seus companheiros de luta e deu-nos quadros de tocante humanidade. Os seus Contos Vermelhos falam dos heróis anónimos que cimentaram o Partido e não perderam a fisionomia de homens e proletários.

Dias Lourenço 

                                                     

In Edições «Avante!»

                                       
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009

Soeiro Pereira Gomes - Um militante que era escritor

     Soeiro Pereira Gomes é o nome de um escritor que era militante comunista ou de um militante comunista que era escritor? Soeiro Pereira Gomes foi alguém, um indivíduo concreto, que foi indissociavelmente uma e outra coisa, que construíu com a sua vida essa unidade íntima de duas qualidades distintas, num período histórico difícil mas exaltante.

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos, em 14 de abril de 1909, em Gestaçô, concelho de Baião, no distrito do Porto. Morreu há 60, em 5 de Dezembro de 1949, em Lisboa. Morreu relativamente jovem, alguns meses depois de ter feito 40 anos.

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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

100º Aniversário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes

    A vida e obra de Soeiro Pereira Gomes constituem um todo no qual está sempre presente o seu ideal de justiça social, de liberdade e de paz, e cuja perspectiva é sempre a do derrubamento do fascismo, da conquista da liberdade e da construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.

                                                                             

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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Centenário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes - Exposição

    Soeiro Pereira Gomes: intelectual, escritor, resistente antifascista, dirigente do Partido Comunista Português.

No centenário do seu nascimento, o PCP elaborou uma exposição que retrata a  sua vida e a sua obra, que testemunham um profundo compromisso com a luta pela libertação dos explorados e dos oprimidos, pela democracia e pelo socialismo.  

                                                       

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Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Soeiro Pereira Gomes nasceu há 100 anos

    Joaquim Soeiro Pereira Gomes (Gestaçô, 14 de Abril de 1909 - Lisboa, 5 de Dezembro de 1949)

Para Ver e Ouvir:

adaptado de um e-mail enviado pelo Jorge                                      

                                                                    

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