Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

Os verdadeiros criminosos

Slobodan Milosevic_prisão 2001-04-01

O facto foi diluído num relatório de 2590 páginas e convenientemente silenciado. Falamos do reconhecimento da inocência de Slobodan Milosevic dos crimes de que foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Jugoslávia – o «tribunal» criado para que os responsáveis e vencedores da guerra do Balcãs impusessem a sua «justiça» sobre os vencidos.

No relatório sobre o «julgamento» de Radovan Karadzic (em que o ex-líder sérvio-bósnio, nacionalista de direita, é condenado a 40 anos de prisão por crimes de guerra nos acontecimentos de Sebrenica em 1995) constam várias passagens que reconhecem que o ex-presidente Milosevic não só não praticou «crimes de guerra» ou «limpeza étnica», como entrou cedo em rota de colisão com Karadzic e outros líderes bósnios-sérvios sobre o rumo da guerra civil incitada e alimentada pela NATO, defendendo o fim da guerra e o respeito pelas «outras nações e etnias».

Passaram 25 anos desde o início do desmembramento da Jugoslávia e 17 anos sobre a guerra de agressão da NATO, na altura a primeira guerra no coração da Europa em meio século. Uma guerra que, é importante recordá-lo, foi realizada à margem e em confronto com a Carta das Nações Unidas, quando a social-democracia participava no governo de 13 dos 15 países da então União Europeia, quando Bill Clinton, do Partido Democrata, era presidente dos EUA e o socialista espanhol, Javier Solana, era secretário-geral da NATO. Uma guerra de agressão em que Portugal se envolveu numa decisão do então governo de António Guterres em confronto com a Constituição da República Portuguesa. Uma guerra que foi uma aplicação concreta do então novo conceito estratégico da NATO, aprovado na cimeira de Washington desse ano, em que esta se auto-atribuiu o «direito» de intervir em qualquer parte do globo para «defender os interesses» e «valores» do bloco político militar agressivo.

A realidade actual daquela região da Europa comprova os verdadeiros «interesses» por detrás daquele crime: o estacionamento na região de dezenas de milhares de soldados da NATO, e em particular dos EUA; a criação de protectorados, como o Kosovo, fiéis representantes dos interesses económicos, energéticos e geo-estratégicos das principais potências europeias – com destaque para a Alemanha –, dos EUA e da NATO; e a destruição de um País que bateu o pé ao imperialismo e teve um importante papel no Movimento dos Não Alinhados.

Slobodan Milosevic1

A guerra imperialista dos Balcãs foi uma sucessão de mentiras e manipulações e de verdadeiros crimes… mas praticados pela NATO. Não cabe neste espaço uma ínfima parte da enumeração desses crimes. Contudo, para memória histórica colectiva, é importante pelo menos referir que a NATO instigou e manipulou as divisões étnicas nos Balcãs; financiou e armou e treinou o «Exército de Libertação do Kosovo» – uma organização terrorista que forjou crimes como o Massacre de Racak, depois atribuído às forças sérvias, a «gota de água» que «justificou» os bombardeamentos durante 78 dias. É importante lembrar que para manter a campanha contra Milosevic – apresentado como um monstro comparado a Hitler – a NATO bombardeou a RTS, a televisão sérvia, matando dezenas de jornalistas; que para deixar bem claro quais os objectivos políticos daquela intervenção bombardeou a embaixada da China; e que perseguiu e sequestrou Milosevic que acabaria por morrer (tudo indica que envenenado) nos calabouços do tribunal que agora reconhece a sua inocência. Não podem ainda esquecer-se crimes como a utilização de armas de urânio empobrecido, que tal como no Iraque continuam a matar e a condenar a várias doenças milhões de seres humanos.

O relatório do TPI para a ex-Jugoslávia vale o que vale, será a história a encarregar-se, e já o está a fazer, de sentar no banco dos réus os verdadeiros criminosos – a NATO e os responsáveis por aquele hediondo crime.

(sublinhados meus)

 AQUI

 

«O Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPII), em Haia, reconheceu que Slobodan Milosevic, que foi presidente jugoslavo, não teve responsabilidades em crimes de guerra na Bósnia, entre 1992 e 1995. Uma ilibação tardia.»

 

«O Tribunal Criminal Internacional criado em Haia pelos Estados Unidos para julgar antigos dirigentes da ex-Jugoslávia reconheceu finalmente que as acusações contra o ex-presidente eram improcedentes.

Milosevic, que faleceu na prisão, negou sempre os crimes que lhe eram atribuídos.

A sentença, tardia, confirmou que o julgamento foi, na fase inicial da audiência, uma farsa dirigida pelos EUA

 

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publicado por António Vilarigues às 14:53
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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Lévi-Strauss e Clausewitz

Texto de Filipe Diniz

Em “Tristes Trópicos” o etnógrafo Lévi-Strauss fala do problema que surgia quando se tratava de fotografar as tribos amazónicas com que contactou. Ao que parece, nas culturas primitivas, os poderes atribuídos à imagem são fortíssimos. O sujeito torna-se vulnerável quando objecto de representação e pode ser atacado através dela.

Os responsáveis editoriais dos grandes meios de comunicação social, que devem considerar-se a si próprios altamente sofisticados, agem em relação ao PCP de forma análoga ao desses reflexos mágicos e primitivos. Acreditarão eles que, não existindo, ou surgindo residualmente o PCP nas páginas dos jornais e nos écrans da televisão, desaparece o seu papel histórico no movimento real de transformação do estado das coisas existente? A manipulação mediática não altera o mundo real, mas pode alterar profundamente a sua percepção. É um poderoso instrumento na luta de classes. No quadro das agressões imperialistas, constitui um elemento de preparação da guerra. Parafraseando Clausewitz, alguma manipulação mediática é a antecipação da guerra por outros meios. Estão bem vivas as colossais campanhas de desinformação e de mentira que antecederam, prepararam e acompanharam as agressões à ex-Jugoslávia e no Iraque. Agressões imperialistas que se traduzem num cortejo interminável de crimes de guerra, mas cujos responsáveis não veremos julgados no TPI, criado para administrar a justiça dos vencedores e para ocultar os seus crimes. Apesar de terem nome: chamam-se Joschka Fischer e Gerhard Schrӧder, Jack Straw e Tony Blair, Bill Clinton e Madeleine Albright, nomeadamente.

Esta última, num sinal para alguns incautos terem em conta, em lugar de se sentar no banco dos réus é uma destacada conselheira de Barack Obama para as questões internacionais.

O imperialismo não nasceu com George Bush, nem alterará a sua natureza e a sua essência qualquer que seja o resultado das eleições presidenciais nos EUA. Será derrotado, isso sim, numa muito dura e decerto prolongada luta dos povos de todo o mundo.

Incluindo necessariamente a luta do povo dos EUA.

 

In jornal "Avante!" - Edição de 31 de Julho de 2008

 

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publicado por António Vilarigues às 00:05
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