Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

Um Congresso diferente

    Realizou-se o XVIII Congresso do PCP. Nele se aprovou uma «Resolução Política» e se elegeram os novos órgãos dirigentes deste partido. 

A «Resolução Política» é um documento dividido em 4 grandes áreas: Situação Internacional, Situação Nacional, Luta de Massas e Acção do PCP, O Partido. Nele se abordam ao longo de 32 capítulos e em mais de 700 (setecentas!!!) diferentes «Teses» temas tão «anacrónicos» e «ultrapassados» como a economia mundial e a crise do capitalismo, o socialismo alternativa necessária e possível, a evolução da União Europeia, a situação económica e social do país, a evolução política e o regime democrático, a política necessária, a luta dos trabalhadores e de outras camadas e grupos sociais e das populações, as batalhas eleitorais, o quadro partidário e institucional, a luta por uma alternativa de esquerda, um PCP mais forte condição fundamental para a alternativa de esquerda, para só citar alguns.

Ouve quem ficasse desiludido porque não houve, nas palavras de Jerónimo de Sousa, “cenas de faca e alguidar” e “guerras de alecrim e manjerona”. Antes se verificou grande convergência nas análises e nas votações.

Pelas reacções escritas e faladas surgidas na comunicação social há quem não tenha perdido os preconceitos. Manifestamente não sabem, ou não querem, comparar a profundidade das análises, o conhecimento da realidade, as propostas, o projecto que anima os comunistas. E só depois julgar.

Não entendem, ou não querem entender, o valor que tem o envolvimento directo e participativo de mais de 26 mil militantes. Que agarraram no projecto como seu. Que discutiram e reflectiram o que seria melhor para o seu partido, para os trabalhadores, para o povo e para Portugal. Propondo, questionando, sugerindo e decidindo.

O funcionamento do próprio Congresso foi diferente das reuniões magnas de outros partidos. Assistiu-se a uma permanente e elevada presença de delegados durante os trabalhos. Escutando a intervenção mais simples que fosse. Prova provada que, respeitando o colectivo partidário, se respeita o indivíduo.

Os delegados não estavam no Campo Pequeno, para ouvir falar os chefes ou os candidatos a chefe. Não estavam para apoiar ou desapoiar a pensar num lugar ou no poder. Este Congresso do PCP representou o que de mais nobre e digno tem a política. Foi luta, trabalho, força de um ideal, opiniões e contribuições, participação.

Como disse Jerónimo de Sousa: «Aqui forjámos, actualizámos e assinámos um compromisso de honra com o povo português: de tudo fazer por uma vida melhor, num país mais justo e democrático sem perder rumo em direcção ao horizonte de uma sociedade liberta da exploração do homem por outro homem

Notas soltas: «E no entanto ela [a Terra] move-se», terá dito Galileu perante o Tribunal da Inquisição. A actuação da Câmara de Viseu relativamente às acções de propaganda do PCP e da JCP é coerente: perseguir, impedir a liberdade política do PCP, criminalizar a acção política. Resultado: o concelho de Viseu é o único onde neste país se condenam pessoas por fazer inscrições murais. Uma vergonha.

Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação

In "Jornal do Centro" - Edição de 5 de Dezembro de 2008

 

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publicado por António Vilarigues às 08:06
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Teoria da conspiração

    O mundo está confrontado com uma das mais graves crises do sistema capitalista. Sucedem-se as análises e as propostas. Os media são literalmente inundados de artigos, entrevistas, debates e declarações.

Quais as causas? O capital monetário está cada vez mais concentrado e valendo menos. Porque, mantendo-se a necessidade vital de criação de mais-valia e agudizando-se o desenvolvimento da contradição fulcral entre a capacidade de produção e a capacidade de consumo, esse capital monetário está cada vez mais empolado pela desmedida circulação D-D' (troca de dinheiro por mais dinheiro). Com intervenção também cada vez mais relevante do crédito, até pelos constrangimentos e travões na evolução dos níveis salariais.

Onde estamos? A crise financeira vai continuar a agravar-se, na medida que mais ajustamentos serão necessários nos mercados de capitais e no sector bancário, nomeadamente tendo em conta o grau de inflação dos activos financeiros. A actual crise financeira é apenas a ponta do iceberg. Estima-se que a capitalização bolsista, a dívida titularizada e os activos financeiros em posse dos bancos comerciais, representem mais de 4,2 vezes o produto mundial.

Ainda e sempre o exemplo irlandês. A Irlanda foi o primeiro país europeu em entrar em recessão, o que nos mostra que, só por si, a formação profissional e o aumento das qualificações de um povo – questão de enorme importância, não se nega – não são suficientes. A Irlanda serviu de placa giratória ao investimento estrangeiro, americano e inglês, que foi o mais atingido pela crise, o que põe em evidência a importância decisiva de um forte e dinâmico sector empresarial do Estado.

Esta crise resulta, por um lado, da contradição entre a sobreprodução e sobreacumulação de meios de produção. Por outro, da contracção dos mercados e níveis de consumo decorrentes das desvalorizações salariais e abismais assimetrias de rendimentos, agravadas pelas reduções das despesas públicas e pouca solvabilidade de inúmeros países.

A substituição dos salários dos trabalhadores e dos rendimentos da população – incluindo pensões – pelo estímulo ao crédito numa espiral de endividamento, serviu e serve inteiramente o propósito da extracção de benefícios pelos detentores do capital financeiro. Mas não só se revelou insuficiente e transitória, como se tornou num factor central de aprofundamento da crise. Agravado ainda pelo endividamento dos Estados e das pequenas empresas.

Vários e competentes economistas reúnem publicamente com Jerónimo de Sousa. Os 180 membros da direcção do PCP dedicam um dia inteiro apenas a analisar a crise do capitalismo. As suas causas e consequências. A sua expressão em Portugal. Trata-se de algo inédito por parte dos comunistas. É que, recorde-se, o XVIII Congresso realiza-se já no último fim-de-semana de Novembro e nunca tal hiato se tinha verificado durante a preparação deste órgão máximo. Mais. Foi o único partido político português que realizou uma reunião com estas características.

Qual a cobertura da comunicação social? Os jornalistas estão presentes. Na esmagadora maioria dos casos elaboram as suas peças. Mas estas não vêem a luz do dia. Nos jornais e revistas da especialidade é quase preciso andar com uma lupa para encontrar uma análise marxista da crise.

Eu sei que este silenciamento global, sistemático e sistémico das posições dos comunistas portugueses sobre a crise do capitalismo é pura coincidência. Eu sei que não há nenhuma central de comunicação no governo, nem nos banqueiros, nem nas associações patronais. Mas lá que parece, parece…

Antes que me esqueça e me acusem de plágio: muito do que acima foi escrito baseia-se nas análises PÚBLICAS dos economistas Sérgio Ribeiro, Pedro Carvalho e Carlos Carvalhas. Bem como no documento de 27 de Outubro do Comité Central do PCP. Está tudo disponível aqui.


Especialista em Sistemas de Comunicação e Informação
            

In jornal "Público" - Edição de 14 de Novembro de 2008

 

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publicado por António Vilarigues às 18:02
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